Bolhas
sempre explodem muito mais rapidamente do que são infladas. E, após inflarem
159% em um ano, as ações chinesas despencaram
35% em três semanas.
Tudo
isso ocorreu enquanto a economia e as exportações chinesas continuavam em forte
desaceleração. E dois
terços dessas movimentações na bolsa foram feitas por investidores chineses que
não têm nem sequer formação escolar.
Quão insano é isso?
O
governo chinês tomou todas as medidas imagináveis
(e desesperadas) para tentar conter o declínio da bolsa: começou a comprar
ações de todos os tipos para conter o declínio; baniu da bolsa aqueles fundos
de pensão que estavam vendendo ações; ameaçou mandar para a cadeia investidores
que estavam fazendo vendas a descoberto; permitiu
que 1.350 de 2.900 grandes empresas interrompessem, por um período de tempo
indefinido, as transações com suas ações (que estavam em queda); cancelou as
transações de outras 750 empresas cujas ações haviam caído 10% ou mais.
Insano!
Essa
segunda e última bolha nas ações chinesas ocorreu precisamente porque o mercado
imobiliário parou de crescer. Ao
longo do último ano, aliás, o mercado imobiliário chinês declinou.
Ou
seja, após décadas de
especulação no mercado imobiliário, os ganhos acabaram. Consequentemente, tanto os investidores
pobres quanto os ricos foram para a bolsa de valores tentar manter suas
receitas.
O
gráfico a seguir mostra a evolução do índice da bolsa da Xangai desde 1990.
Foram duas bolhas:
Mas o mais interessante sobre os chineses é que eles não colocam a maior
fatia de seu dinheiro em ações. Apenas
7% dos investidores urbanos detêm ações.
E metade desses que detêm ações não investiram mais do que US$ 15
mil. Com efeito, estima-se que os
chineses colocam apenas 15% de seus ativos na bolsa — e tal estimativa talvez
ainda esteja exagerada.
O que é realmente atípico nos chineses é que eles poupam
mais da metade de sua renda. Mais ainda:
os 10% mais ricos da população poupam acima de dois terços da sua renda.
E para onde vai toda essa poupança? É investida no mercado imobiliário.
A porcentagem de famílias chinesas proprietárias de imóveis chega
a 90%. Para efeitos comparativos,
nos EUA, essa taxa é de apenas 64%,
mesmo com os americanos sendo muito mais ricos que os chineses e,
consequentemente, com uma melhor capacidade de receber crédito.
E é assim porque, na China, ser dono do próprio imóvel é uma característica
inerente à cultura deles. Um homem
chinês não
terá nenhuma chance de arrumar uma namorada ou mesmo de usufruir um rápido
encontro sexual caso ele não seja o proprietário de um imóvel — não importa o
quão pequeno seja o imóvel.
O gráfico abaixo mostra a porcentagem que os imóveis representam da riqueza total
da população americana e da população chinesa.
Ou seja, 74,7% das riquezas das famílias chinesas estão na forma de
imóveis. Nos EUA, essa cifra é de
27,9%. Isso ajuda a explicar por que a
bolha imobiliária chinesa é uma das maiores da história moderna.
Mas a questão principal é essa: quando essa bolha estourar e os valores dos
imóveis despencarem, isso irá causar uma inimaginável implosão na riqueza dos
chineses. De uma só vez, 75% (três
quartos) dos ativos das famílias chinesas serão destroçados.
Quão grande é essa bolha? Só
em Xangai, os preços dos imóveis mais do que sextuplicaram desde 2000, aumentando
6,6 vezes. Isso representa um aumento de
560%.
Só que, atualmente,
27% dos imóveis chineses em áreas urbanas estão desabitados.
Houve maciços e esbanjadores projetos de construção na China, os quais
envolveram a construção de basicamente qualquer coisa que você seja capaz de
imaginar. Como explicado neste artigo:
Durante um período de apenas dois
anos, 2011 e 2012, o qual representou o ápice da tão aclamada “agressiva
política de estímulos” do governo chinês em resposta à recessão do mundo
desenvolvido, a
China consumiu mais cimento do que os EUA consumiram durante todo o século XX!Esse fato insano tem de ser
corretamente digerido. Eis uma maneira de colocar as coisas em suas
devidas proporções.Pense em todo o processo de
urbanização ocorrido nos EUA ao longo dos últimos 100 anos. Pense na
construção de todos os edifícios comerciais, de todos os prédios residenciais,
de todas as casas, de todos os arranha-céus, e de todos os shoppings que
adornam as milhares de cidades americanas da costa leste à oeste. Pense
também na construção de toda a infraestrutura do país, desde as simples ruas e
avenidas das cidades até as grandiosas represas Hoover, TVA e Grande Coulee,
passando por toda a malha de rodovias, aeroportos, portos, rodoviárias,
estações de trem, de metrô. Pense em todos os estádios de futebol
americano, de beisebol, de basquete, de hóquei; em todos os auditórios e
estacionamentos que já foram construídos no país.Todo o volume de cimento gasto nesse
processo de 100 anos foi o mesmo que a China gastou em dois anos.
Essa bolha inevitavelmente irá estourar.
E, não importa quão intensos sejam os esforços do governo para evitar
essa correção, o pouso será brusco.
Enquanto os Bancos Centrais mundiais inflaram suas respectivas bolhas de
1995 a 2007, o governo chinês começou a inflar a sua bem antes e ainda não
interrompeu o processo. A minha
estimativa é que a infraestrutura, os imóveis e a capacidade industrial da China estão de 12 a 15 anos a frente da demanda. E isso se o atual processo de urbanização se
mantiver às atuais e impressionantes taxas.
Com a economia mundial se desacelerando, o atual processo de urbanização
chinês terá de ser afetado. E aí esse
descasamento entre oferta e demanda ficará ainda mais acentuado, o que
inevitavelmente provocará uma pressão baixista nos preços.
Os chineses fizeram essa maciça reestruturação da sua economia com o intuito
de criar empregos para meio bilhão de
pessoas que saíram das planícies rurais do interior do país e foram para os
grandes centros urbanos em busca de uma melhor qualidade de vida. Esse maciço êxodo rural já dura três décadas. Foi tão intenso que, apenas nos últimos 12
anos, 220
milhões de chineses migraram, mas ainda não se tornaram cidadãos legais nas
cidades em que vivem. (Veja mais sobre isso aqui).
Agora, essa ambição chinesa está cobrando seu preço. Caso a correção da bolsa de valores prossiga,
a economia e o setor imobiliário serão os próximos. E, como dito, isso irá destruir uma maciça
quantidade de riqueza, e o processo levará anos para ser superado.
E irá para muito além da China. As
ondas de choque propagar-se-ão pelo setor imobiliário de vários países. Afinal, quem são atualmente os principais compradores
de imóveis em cidades como Sydney, Cingapura, Los Angeles, San Francisco, Nova
York, Vancouver e Londres? Exatamente,
os chineses. Apenas em 2014, eles
representaram 24% do total de imóveis comprados nos EUA, em um valor que chegou
a US$ 22 bilhões.
Igualmente, países exportadores de commodities para a China, os quais vinham
saciando o aparentemente insaciável apetite chinês por minério de ferro para
suas aparentemente infindáveis construções, sofrerão com a inevitável queda da
demanda que ocorrerá.
Não é necessário ser nenhum Einstein para entender o que acontece quando
compradores estrangeiros com toda essa potência repentinamente pisam no freio
com força.
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Leia também:
A bolha imobiliária chinesa
e o espectro de uma grande recessão


74,7% das riquezas das famílias chinesas estão na forma de imóveis. Nos EUA, essa cifra é de 27,9%. Isso ajuda a explicar por que a bolha imobiliária chinesa é uma das maiores da história moderna.? Qual o índice no Brasil?
O problema da China é seu governo mesmo; imagina se a China tivesse um livre mercado dentro de seu território e um governo mais liberal (pra não dizer não comunista ), o quanto isso contribuiria pra economia mundial.
Bom; pelo menos eles estão com uma infraestrutura 12 a 15 anos a frente do seu tempo, enquanto nós aqui no Brasil estamos décadas atrasados.
A China está falida com infraestrutura, o Brasil falido sem infraestrutura.
Gostaria muito de saber a opinião do mito Leandro Roque sobre o ele acha que vai acontecer com a bolha chinesa,se ela vai desinflar lentamente ou ela vai explodir,ceifando tudo e todos?
Desde que li o artigo “Por que a China vai implodir” que comento com os meus amigos que a Vale vai despencar em breve (www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/02/1585423-vale-preve-aumento-de-125-nas-vendas-de-minerio-para-a-china.shtml). Fico imaginando que outros setores aqui no Brasil serão afetados além do da mineração, puxados ou não por ele.
Adoraria quem alguem do Mises Brasil escrevesse um artigo sobre a bolha imobiliária do Brasil!
Leandro permita-me a seguinte pergunta:quando se fala que uma economia cresceu porque passou a consumir mais,o correcto não seria dizer que a economia passou a ofertar mais bens,ou consumo não cria riqueza apenas pode distribuir correcto?
Felicitações para toda equipe do IMB, este artigo é de qualidade ímpar!
Surpreende a massa migratória HUKOU que o capimunismo gerou, boa parcela dos chineses em tais condições tiveram suas propriedades rurais confiscadas e caso a situação econômica deteriore hão de viver como zumbis.
Argila expandida –
Edificações simbolicamente nada estrutural [faltou ferragem] e ao estilo DESPENCOL quando isso ruir vai ser um pega pra capar mundo afora. Mais anabolizada que nunca é imperativo ficar de olhos bem abertos com a China.
Esse balatinho ching ling vai custar caro!
“Igualmente, países exportadores de commodities para a China, os quais vinham saciando o aparentemente insaciável apetite chinês por minério de ferro para suas aparentemente infindáveis construções, sofrerão com a inevitável queda da demanda que ocorrerá.”
Se considerarmos que parte do boom da economia brasileira nos últimos anos foi sustentado pelo apetite chinês, nosso futuro é sombrio. Não produzimos valor agregado e o que produzimos está com tendência de queda.
Realmente partilho dessa ideia, que uma hora vai sobrar demasiados imoveis, e falta inquilinos, isso vai jogar o preço do aluguel no chão, desvalorizar tantos imóveis, e os inquilinos poderam escolher qual residencia alugal, pobre dos proprietários.
Atte, Felipe Cardoso
De fato existe uma bolha na China, e pelo que deu pra entender no artigo, não tem como frear mais o caminhão, mas se fizeram a infra estrutura do pais de uma forma geral, gerou qualidade de vida, certo que gerou uma dívida absurda, mas para pagar quando? ano que vem? a China tem milhares de anos, não tem problema com o tempo, o importante é o povo chinês ter bens e qualidade de vida como os países desenvolvidos tem.
90% do povo tem imóvel? que mal isso faz? tem que saber se 90% dessas pessoas tem de fato, está quitado? se estiver quitado e ele se desvalorizar, não é problema. Acho que problema maior tem o Brasil, um problema de moradia absurda, quem mora de aluguel é escravo perdem mais de 50% de sua renda pagando aluguel, e grande maioria vive em lugares precário como aqui no RJ, paga pra se morar em uma favela, aonde consome 50% da renda do inquilino, vejo isto como um problema muito maios.
Abraços
O fato é que quando a bolha estourar e o consumo de minério de ferro pela China diminuir, o preço do mesmo vai baixar, acredito que neste ponto será ótimo para a economia mundial. O mesmo vai acontecer para qualquer produto que a China venha a reduzir o consumo de forma drástica.
Quando estourar poderá ser pior que a crise de 1929.
Capitalismo na China, uma ova.
Ali o controle de ideias é restrito. E nada vale mais para um libertário que suas ideias- o capital humano. A receita (até agora indo bem) de manter áreas de livre comércio é só uma jogada gramsciana para atrair capital e sustentar o Partidão, com a conivência dos próprios capitalistas, aproveitando-se obviamente do custo de oportunidade.
Os chineses são tão bons nisso que até os impostos lá são baixos: apenas 12% sobre o lucro.
Os capitalistas que se instalaram lá estão esses errados em tese de apoiar esse neo comunismo? Não e sim.
Não porque se o custo de oportunidade é menor, logo produzir ali é a lógica mais sensata para a sobrevivência do negócio e o aumento dos lucros.
E sim porque mesmo sendo capitalistas somos seres humanos, e fechar os olhos para as barbaridades do vizinho (e aplaudi-lo por isso) é pura hipocrisia. Ele pode ficar muito forte e um dia querer bater em você também. E todos sabemos que acontecem coisas grotescas naquele país, financiadas basicamente pelo mundo inteiro.
Acredito que os desdobramentos desse landing da economia chinesa serão um divisor de águas para a economia mundial.
Li em um artigo há alguns anos porque os chineses economizam tanto (vou tentar encontrar depois posto), mas em suma o seu verdadeiro motivo é porque lá a poupança oficial é negativa- como estamos vendo atualmente em alguns casos, e é praticamente inexistente qualquer tipo de previdência que tenha correção positiva.
Daí poupam muito para comprar ativos que ganhem valor, pensando em uma aposentadoria segura.
Adicione nesse caldeirão o shadow banking, que nada mais é que uma versão anabolizada de nossos saudosos agiotas. Empresta-se dinheiro sem nenhum tipo de contrato ou aval lá em quantidades absurdas, o que deixa qualquer analista de cabelo em pé.
Na verdade o receio que eu tenho é que a resultante dessa explosão vai catalizar a quebradeira geral do setor industrial chinês, bancado em boa parte pelo governo, e em boas partes pelo shadow banking .
Caros Renan e Faria,
Esse tambem e meu entendimento. A China nao e comunista, e facista. A forma como a economia e dirigida lembra o fascism; a forma como o povo e controlado, tambem; a existencia de partido unico, igualmente; o estremado nacionalismo, idem; considerer que o povo e superior aos outros, na mesma direcao. Entretanto, nao tem um chefe a quem todos obedecem,continuam com um politburo,de tradicao sovietica. Ainda ha grande presence do Estado em grandes empresas ou em setores da industria pesada, mas a privatizacao de tudo isso continua em boa marcha. Mas tudo isso podera desenbarcar numa grande crise…
Acho que vou comprar uma casa na China, pelo menos terei onde morar quando estiver velho, sem depender de aluguel.
Dúvida leiga: “O que é realmente atípico nos chineses é que eles poupam mais da metade de sua renda”. Ok. “E para onde vai toda essa poupança? É investida no mercado imobiliário.” Pode citar a fonte?
É completamente ignorado por este site e por seus artigos que a causa primordial dos ciclos econômicos é a queda da demanda agregada. Já foi dito em um determinado artigo que a demanda agregada não precisa ser estimulada porque vivemos em um mundo de escassez. Nada mais falso. Demandar é efetivamente comprar algo. Apenas desejar um determinado produto ou serviço, sem manifestar este desejo, não é de forma alguma uma demanda.
O principal e melhor indicador da confiança em uma economia é a curva dos juros dos títulos públicos. Uma curva onde os juros de curto prazo são menores que os de longo prazo indica que existe mais confiança no presente do que no futuro, e consequentemente a demanda dos consumidores está em alta e a economia funcionando bem. Uma curva onde os juros de curto prazo são maiores que os de longo prazo indica que existe mais confiança no futuro do que no presente, e consequentemente a demanda dos consumidores está em baixa e a economia não está funcionando bem.
Caso queiram a prova empírica disto, acessar o seguinte site:
http://www.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/interest-rates/Pages/Historic-Yield-Data-Visualization.aspx
E colocar as seguintes datas:
01-DEC-2006 (momento pré-crise mundial)
01-DEC-2014 (momento de forte crescimento econômico)
Se quiserem outra prova empírica podem acessar o site do Tesouro Nacional para verificar que os títulos pré-fixados que estão com vencimento mais distante estão com os juros menores do que os que estão com o vencimento mais próximo. Nem preciso dizer como está a situação da economia brasileira.
www3.tesouro.gov.br/tesouro_direto/rentabilidade_novosite.asp
Leandro,
Tem muito “especialista” que diz que em 2016 a inflação irá despencar. Concorda com essa premissa ?
Leandro, só uma questão:
A China gastando todo esse dinheiro para expandir o setor imobiliário não seria bom, uma vez que ela usaria os impostos para tal e ainda geraria emprego? Estimula a economia e os setores de material de construção. Porque se formos pensar: “esse dinheiro todo poderia ser gasto com outra coisa mais produtiva”, ainda sim o dinheiro voltaria para a população quando as construtoras e lojas de material de construção fossem gastar
Crescimento artificial forçosamente leva a uma recessão natural.
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