Nota do IMB
O
apresentador do podcast
do Instituto Mises Brasil e membro do Conselho Editorial da revista Mises, Bruno Garschagen, acaba de publicar um
livro intitulado Pare
de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e
Amam o Estado.
O
jornalista João Pereira Coutinho, que assina o prefácio do livro, faz a
pergunta que sintetiza perfeitamente nossa espantosa confusão mental. Diz o luso:
Se existe desprezo pelos políticos e amor
pelo Estado, que tipo de criaturas os brasileiros imaginam que governa esse
Estado? Seres perfeitos? Angelicais? Extraterrestres vindos de outra galáxia?
Em
seu livro, Bruno, além de mostrar que não fazemos essa conexão, investiga
nossas raízes culturais para tentar encontrar uma resposta para essa nossa dissonância
cognitiva, traçando um profundo panorama da nossa história: o livro abrange
desde o reinado de D. Manuel I até Dilma Rousseff.
De
acordo com o autor, “nada é tão ruim que não possa piorar.”
Em sua coluna na Folha de S. Paulo,
intitulada Ensaio
Sobre as Cegueiras, o próprio João Pereira Coutinho escreve:
Você, leitor, é homem interessado no futuro
do Brasil? […] Você, leitor, deve procurar urgentemente “Pare de Acreditar no
Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o
Estado”, livro de Bruno Garschagen.Verdade: escrevi o prefácio da obra e, como
dizem os “idiotas da objectividade”, sou “suspeito” na
matéria.Mas se isso é crime, cometo o delito com um
sorriso nos lábios. O livro de Garschagen procura analisar o maior paradoxo
político do Brasil democrático. Que está expresso no próprio subtítulo: os
brasileiros desconfiam dos políticos e, sejamos sinceros, têm uma certa
repugnância pela espécie.Mas, ao mesmo tempo, eles querem mais e mais
Estado — ou seja, e por outras palavras, querem mais e mais políticos a tomar
conta dos interesses públicos. Como explicar essa “dissonância
cognitiva”?Garschagen vai às origens da tradição
patrimonialista brasileira para encontrar, claro, a tradição patrimonialista
portuguesa. Mas não só: com uma escrita divertida, informada e polêmica, o
livro é sobretudo uma história do país — da independência no século 19 aos
governos PT do século 21– e da paixão pelo Estado que palpita no coração de
governantes e governados.A conclusão do autor é simples e fulminante:
se você, leitor, acredita que os políticos não são anjos, então talvez seja
altura de também não acreditar que o Estado é um jardim celestial.
“Touché.”
O
site O Antagonista também recomenda
“veementemente” o livro, e o classifica como “leitura obrigatória”.
A
entrevista a seguir foi concedida por Bruno a Rodrigo da Silva, do site Spotniks.
_______________________________________
Rodrigo
da Silva: Afinal, por que os brasileiros não confiam nos políticos e
amam o estado?
Bruno
Garschagen: Essa pergunta está diluída ao longo do livro. No fundo,
não há uma resposta única. Há vários esboços de resposta. Mas, um dos
argumentos centrais, desse amor do brasileiro pelo estado, é que esse foi um
processo de construção política que resultou em uma mentalidade cultural. E essa mentalidade acabou se traduzindo na
forma de incentivos dispersos pela sociedade.
No
fundo, quando você está imerso em uma sociedade em que as instituições
políticas, em que todo o debate político, em que toda a conversa em termos de
política, gira em torno de “o que o governo deve fazer” — e dificilmente se faz
o questionamento sobre o que o governo não
deve fazer –, é natural que você tenha uma relação com o estado de extrema
dependência, mesmo quando não precisa ou não depende diretamente dele.
Fica
essa mentalidade de que o estado deve fazer tudo — ou, no mínimo, apenas um pouco
menos do que tudo.
Meu
livro começa com o desembarque da tripulação portuguesa no Brasil e faz um
passeio pela história até o ainda atual governo central. Eu me concentrei no
poder executivo federal. Falo sobre o poder executivo federal quando o Brasil
era colônia — referindo-me ao poder de Lisboa — e depois sobre o poder central dos
nossos imperadores, chegando ao golpe militar que derruba a monarquia (e a
nossa história é pródiga de golpes militares).
Após a queda da monarquia, faço um passeio pela história dos governos do
período republicano.
Eu
tento mostrar a forma como o poder central, que sempre foi muito poderoso no
Brasil, se tornou um dos grandes atores na disseminação desse tipo de
mentalidade. Por que os brasileiros não confiam nos políticos? É o paradoxo que
eu coloco no subtítulo do meu livro. Ao mesmo tempo em que nós, brasileiros, ao
longo da história, acreditamos que o governo deve fazer muitas coisas, ou deve
fazer todas as coisas, não confiamos nos políticos. Esse paradoxo acontece por
quê?
Porque
o brasileiro faz uma separação bastante excêntrica entre o governo e os políticos
que o compõe, como se o governo fosse uma entidade separada dos homens, como se
o governo fosse formado por anjos, por entidades celestiais — para usar a
famosa metáfora dos pais fundadores dos Estados Unidos.
E,
nessa contradição, ao mesmo tempo em que o governo promete as coisas e não
cumpre, esse descumprimento dessas expectativas, essa frustração, essa
insatisfação é dirigida diretamente aos políticos. E o que é mais engraçado ainda: o governo não
cumpre as expectativas e com isso a realidade volta ao seu plano concreto. E aí
os brasileiros percebem por quem o governo é formado.
Rodrigo
da Silva A pergunta inevitável é: como mudar essa realidade?
Bruno
Garschagen: É preciso várias ações. Falando de hoje, trazendo a
discussão para o que está acontecendo agora no Brasil, nós estamos passando por
um período de transição bastante rico, e esse período dará bons frutos se nós
fizermos tudo certo agora, como eu acho que uma parte da sociedade brasileira
tem feito.
Atualmente,
o que a gente está testemunhando é que uma parte da sociedade brasileira percebeu
essa armadilha, e está trabalhando para desfazer ou pelo menos mostrar que essa
armadilha existe, e tentando propor uma alternativa em termos de ideias, de
projetos políticos, de agenda política.
Então,
o trabalho que tem sido feito, de participação e de militância ativa, faz com
que a gente possa ter algum tipo de esperança de que isso possa ser mudado. E, uma vez mudado no plano da sociedade e no
âmbito cultural, poderemos quem sabe formar políticos que sairão já com uma
mentalidade diferente. E, uma vez nas
instituições políticas, talvez estes novos políticos consigam mudar o que está
implantado de maneira institucional.
No
entanto, o que eu acho que é muito importante, e as passeatas desse ano mostraram
muito bem isso, é que a participação de uma parte da população mostrou que as
pessoas estão em busca de algo que não seja mais estado — o qual é, no fundo,
a origem da sua insatisfação. E, ao verem que há algo diferente, a população
tem para onde canalizar as suas expectativas.
E é aí que podemos começar um processo de construção de baixo para cima.
Rodrigo
da Silva: O historiador americano David Landes aplica o
patrimonialismo a uma perspectiva cultural. Por outro lado, economistas como o
turco Daron Acemoglu afirmam que esse cenário faz parte da construção das
nossas instituições econômicas, que incentivam essa dependência. Qual caminho
você escolhe no livro?
Bruno
Garschagen: A espinha dorsal do livro é a dimensão cultural. Mas como
eu vejo a cultura? Como um grande círculo, dentro do qual estão os círculos da
economia, da política e da justiça.
Quando
escrevo sobre cultura, trato de uma forma muito mais ampla. Por causa disso, acabo
tratando de tudo. E não consigo desassociar essa mudança cultural do problema
econômico e político, pois, no fundo, essas esferas estão interligadas. A minha
perspectiva é cultural e eu acredito que essa mudança será, no fim, a chave de
tudo, pra mudança econômica e política.
Rodrigo
da Silva E qual é a nossa literatura na área? Quais foram os seus
expoentes sobre essa abordagem cultural histórica no Brasil?
Bruno
Garschagen: Há vários autores que tratam de forma bastante específica
alguns problemas. Vou citar dois que eu usei no livro, que pegam de forma muito
inteligente a maneira como essa dimensão cultural atua na esfera política e
econômica: o professor Antonio
Paim e o professor Ricardo
Vélez-Rodríguez.
São
dois autores vivos com uma obra extensa, que tratam de política brasileira, e
os quais eu recomendaria porque conseguem conjugar de forma muito inteligente
essas dimensões.
Rodrigo
da Silva: Como foi esse processo pra escrever o livro?
Bruno
Garschagen: Esse livro foi proposto em forma de projeto ao editor
Carlos Andreazza (da Editora Record) em uma conversa informal, e eu tinha o
assunto resumido no título. Eu parti do título, que resumia o objeto daquilo
que eu queria investigar.
O
Andreazza comprou a ideia e, durante todo processo, deu total apoio. O processo
de pesquisa e escrita do livro durou de janeiro a outubro de 2014. Foram dez
meses de investigação e elaboração do livro.
Mas
esse livro começou a ser pensado muito tempo antes, em 2008, quando comecei a
me envolver de forma mais direta — ou a me preocupar de forma mais direta —
com o problema político do Brasil. Foi um processo de leituras muito esparsas,
crescendo de forma muito gradual. A partir dessa preocupação, discutindo os
temas do país que eu gostaria de ler, a partir do meu trabalho no Ordem Livre,
como podcaster do
Instituto Mises Brasil, convivendo com as pessoas do movimento das ideias da
liberdade, vendo que esse era sempre um assunto muito recorrente, a ideia foi
se consolidando.
E
eu primeiro queria descobrir se isso era verdade, se o brasileiro era realmente
tão estatista como nós imaginávamos. Uma coisa era ter essa informação de forma
intuitiva; outra era a investigação. Saber primeiro: “há alguma pesquisa
empírica que demonstra que o brasileiro realmente ama o estado?”. Eu fui
descobrir que sim. Essa pesquisa já havia sido publicada em um livro chamado “A
cabeça do brasileiro”. Com essa pesquisa em mãos, concluí: “bom,
isso realmente existe”.
Em
seguida, fui investigar teoricamente, historicamente, sociologicamente,
antropologicamente de que forma isso foi sendo construído ao longo da nossa
história, como é que isso chegou aqui e, principalmente, se houve, em algum
momento histórico, alguma tentativa de quebrar essa ideia patrimonialista que
chegou aqui e se desenvolveu com os portugueses, e foi sendo ampliada e
modernizada.
No
fundo, meu livro expõe a teoria e expõe também dados empíricos que mostram de
que forma isso aconteceu e qual foi o resultado disso.
Rodrigo
da Silva O livro aborda a herança cultural portuguesa. Como é ter um
escritor como o João Pereira Coutinho, português, escrevendo o prefácio dele?
Bruno
Garschagen: Eu acho que esse era o caminho natural. A escolha do João
Pereira Coutinho para escrever o prefácio tem várias razões.
A
primeira delas é que, como o livro trata de Brasil e Portugal, por conta dessa
herança histórica, não haveria melhor escolha do que um autor português, que
conhece a história de Portugal, que conhece uma parte da história brasileira, e
que tem, de forma muito clara, a noção de que isso que o livro aborda é uma
grande armadilha da qual Portugal também foi vítima e da qual também não
conseguiu se libertar. E ele tem a exata dimensão dessa herança que nos foi
legada.
Além
disso, é um estudioso das ideias da liberdade, assim como eu.
A
outra razão é que, além de eu ter sido aluno e orientando dele no mestrado,
atualmente sou orientando dele no doutorado. Isso me permitiu ter uma
aproximação maior e conhecer mais daquilo que ele conhece e desenvolve em seus
estudos. Ele reunia essas qualidades que me privilegiaram com um prefácio
brilhante, como o que ele escreveu, e adequado à proposta do livro.
E
há uma coisa que eu queria complementar dessa relação entre Brasil e Portugal:
eu só me senti confortável para escrever esse livro — depois de todas as
leituras que eu fiz — porque tive a experiência de ter morado em Portugal
durante 2 anos, o que fez com que eu tivesse uma visão in loco de Portugal, dos portugueses, da realidade portuguesa e de
como se desenvolveu a política portuguesa.
Ter
tido essa experiência, de ser um brasileiro que estudou a história brasileira,
que teve essa vivência em Portugal e que estudou a história de Portugal em
Portugal, fez com que eu me sentisse muito confortável para tratar dessa
relação entre Brasil e Portugal.
E
eu queria complementar dizendo que o livro foi pensado e escrito para o leitor
não-especializado. Ele foi pensado e escrito em uma linguagem clara, concisa,
fácil e bem humorada. Eu tentei, com o meu texto, reunir todas as
características que nos fazem brasileiros no melhor sentido: um livro plural,
que faz as abordagens que eu acreditava serem as mais adequadas ao sentido do
livro e com um texto fácil.
O
texto é voltado a todo e qualquer brasileiro que queira conhecer a história do
Brasil — ou a história oculta do Brasil — e que queira entender as bases desse
nosso paradoxo: afinal, por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam
o estado?
_______________________________
O
livro “Pare de Acreditar no
Governo: Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado”
pode ser comprado pelos sites das seguintes livrarias:
– Livraria
da Travessa (é possível ler o sumário, a introdução e o primeiro
capítulo)
– Saraiva
Também já é possível encontrá-lo nas principais
livrarias de todo o país.
E
hoje, quarta-feira, dia 27 de maio de
2015, às 19h, Bruno Garschagem estará na Livraria Cultura do Conjunto
Nacional, na Av. Paulista, 2073, em São Paulo, para fazer o
lançamento do livro.

Melhor entrevistador que já vi. Comunica-se bem, é objetivo, dá espaço e incentivo às pessoas falarem. Os hangouts conduzidos por ele são excelente, por exemplo.
parabéns!
Já comprei, após ler os primeiros trechos num pdf da livraria Travessa. Em 2 dias poderei ler este livro que apresenta uma excelente sacada.
tem a versão ebook?
Eu também li o comecinho do livro.
Gostei do que li, senhor Garschagen escreve bem, e seu livro é regado de informações/fontes.
Vou comprar o mais rápido possível.
Excelente texto, procurarei ler o livro, obrigado pela postagem.
Conheci as idéias libertárias com quase 40 anos de idade. Para mim que sempre tive contato mais com as matizes da justiça social, da igualdade de condições a todos, lançadas pelo sistema (educacional, político, cultural), e assim formado em uma mentalidade onde o lucro desmedido tornou-se algo imoral, é muito difícil realizar uma metanóia para o libertarianismo .
Mudar uma mentalidade de um indivíduo já é difícil, imagine de uma pequena sociedade ou de uma nação.
É difícil acreditar que a justiça poderia ser obtida pelo livre mercado. Nele, o valor “lucro” vem em primeiro lugar e a moral submetida a ele. Poderíamos pelas próprias forças de mercado criar Megacorporações que poderiam exercer influência muito mais poderosa do que muitos estados. O que me parece que já ocorre através de ONGs financiadas pelas fundações MacArthur, Rockefeller e etc. Sobre isto sugiro verem o artigo “Herodes e Pilatos ficaram amigos!” https://padrepauloricardo.org/episodios/herodes-e-pilatos-ficaram-amigos.
Vendo este artigo, me lembrei de um ilustre professor católico que disse “Liberalismo e comunismo se beijam”. Aquilo me deixou intrigado. Então explicou: Dado que o Liberalismo leva a um capitalismo sem moral redundará ao colapso e a revolta das massas guiadas unicamente por suas paixões desordenadas. E é inegável que seres humanos tenham estas desordens ontológicas. Qualquer um que se analise poderá se aperceber em maior ou menor grau, da inveja, orgulho, vaidade, luxúria, gula, ira, preguiça.
De um lado temos o poderio do dinheiro e a soberba da vida e do outro de um leviatã Estado representados respectivamente pelo liberalismo e comunismo.
Há muita coisa fora do lugar aqui. Antes de começar, quero dizer que sou leitor de longa data do mises brasil e aprecio muito o trabalho do Bruno, reconheço seu enorme valor como bom profissional, principalmente nas suas ótimas entrevistas. Enfim, é um cara no qual me sentiria honrado em contribuir com uma crítica construtiva.
Pra começar, o título está fora de lugar. A expressão “amam o Estado” está bem longe da realidade. Mais correto seria “não confiam em políticos, mas confiam no Estado” O verbo confiar descreve melhor o sentimento dos brasileiros perante o Estado. Entendo porém o apelo de marketing do livro por isso não vou me ater a esse pequeno detalhe.
O que me causou certa estranheza foi o fato de ver um liberal, tarimbado feito o Bruno, fazer um enorme esforço para encontrar as raízes e enxergar soluções para resolver determinado problema, esquecendo-se da maneira pela qual sua teoria de mundo vem resolvendo os problemas nos últimos 200 anos!
Liberais nunca venderam discursos, isso é fato. Fico imaginando um liberal escrevendo sobre os aspectos culturais do uso das máquinas de escrever, e o quanto seria difícil mudar esse hábito enraizado em todos os cidadãos, ao mesmo tempo reclamando que elas são lentas e ineficientes. Dai especulando, quem sabe, infiltrar gente no sindicato dos datilógrafos pra ver se aceleram as inovações. LIBERAIS IGNORAM O ANTIGO E CRIAM NOVAS SOLUÇÕES. PCs não surgiram assim.
O caminho é sempre o mesmo: Se algo não está funcionando bem, cria-se uma alternativa e a põe no mercado. Se esta for boa e tiver aprovação dos consumidores, então está criada a solução!
Ninguém precisa de discurso para fazer isso. Por que raios os liberais não estão, aos montes, propondo alternativas ao nosso malfadado sistema representativo? Afinal todos sabem que a melhoria das condições de vida em todas as áreas só se deu através da “destruição criativa”. Não vejo entre os liberais ninguém que deposite mais confiança na destruição criativa do que no discurso a ponto de pô-la em prática. Isso é uma pena.
O povo brasileiro confia no Estado simplesmente porque nunca lhes foi oferecido nada melhor para depositar sua confiança, gerando o eterno ciclo de frustração que atingiu seu ápice nos dias de hoje.
Atenção liberais, vocês são os portadores da luz da destruição criativa. Que tal começar a buscar soluções concretas e divulgá-las como alternativas. Se alguém vier reclamar aí sim deve-se jogar todo o arsenal teórico do discurso liberal, usar toda a bagagem de quem entregou 200 anos de bons serviços. Propor alternativas não é golpe! É a única maneira das coisas melhorarem sem necessidade de golpe!
Bruno, não li seu livro ainda. Caso você tenha dedicado mais tempo propondo alternativas do que explicando porque as pessoas ainda batem à máquina…ops! amam o Estado, ignore este texto.
O brasileiro odeia políticos mas queria estar roubando também. Por isso quer mais estado, para estar mamando dinheiro público. O brasileiro odeia que o político roube porque ele não está ganhando nada com isso. Mas ele não rejeita a boquinha e está de olho se aparecer uma oportunidade para entrar na burocracia estatal para mamar. O PSOL que atualmente critica o PT faz o mesmo jogo, posa com a ética, mas se chegar ao poder vai roubar também, talvez até mais. O brasileiro funciona assim.
O óbvio ululante. O indivíduo leigo em questões políticas comete um erro medonho ao culpar os políticos pelo mal que é impetrado pelo estado. O mal que emana do governo e assola a sociedade não é “efeito da má gestão” ou mesmo da corrupção, é justamente a causa disso: o mal é precisamente a força motriz do estado.
Note que não estou defendendo a figura ou a importância do político, mas centrando o objeto da análise para considerá-lo devidamente: o Estado e sua mecânica.
E para demonstrar meu argumento, uso uma proposição autoevidente que explica porque a causa é o modus operandi (o mecanismo) imanente à máquina estatal, e não a má gestão ou o político em si.
# O estado que age para se tornar desnecessário, como sugere Humboldt, inevitavelmente entrará em extinção. Já que, a título sócio econômico, podemos afirmar seguramente que uma civilização só avança e prospera à medida que a ingerência do governo diminui.
Esse fato também explica por que nenhum político bem-intencionado surtiu efeito. E por que não adianta eleger um bom moço ao cargo máximo da república, para presidir a nação.
Já que EMPERRAR o desenvolvimento sócio econômico é condição SINE QUA NON pra máquina estatal funcionar normalmente e a todo vapor. É um mecanismo de auto-preservação. Não importa o código de ética em vigor, o político não encontra formas de obedece-lo ou de agir em estrita observância a ele.
Uma medida política favorável ao povo é, para todo e qualquer efeito lógico, contrasenso. Não há formas de melhorar a qualidade de vida da população sem necessariamente desativar repartições estatais, sem cortar mesadas e acabar com regalias de terceiros e superiores, sem agendar a própria demissão e cumprir aviso prévio, isto é, sem inutilizar o próprio ofício e sem amputar o próprio corpo, o que é impensável, já que ele é um relés membro do aparato estatal. Se oferecer ameaça ao corpo, a metastase é diagnosticada e neutralizada.
Só que é melhor construir a própria aposentadoria a projetar a falência. Quem vai perder uma carreira, uma ou mais décadas a fio, dedicar uma vida à política, engajado em prol do fim do estado, quem vai planejar a própria RUÍNA?
O estado nao obriga o político a trabalhar pela sociedade, mas a atrapalhar ela.
Antonio,
1) você está confundindo liberalismo com libertarianismo;
2) o liberalismo tem base moral sólida com fundamento metafísico no direito natural (vide os autores liberais ingleses que inspiraram precipuamente a revolução liberal americana);
3) só há Justiça com respeito aos direitos fundamentais do ser humano. o liberalismo defende inapelavelmente esses direitos, resguardando-os legalmente de eventuais violações. do contrário, os antigos absolutismos e os modernos coletivismos materialistas são o inequívoco exemplo dessas violações.
Otima entrevista, o brasil precisa mudar mesmo!
Parabéns Bruno pela otima entrevista. Espero mais entrevistas assim. Abraços!
Vou comprá-lo assim que o vir nas livrarias daqui!
Aproveitando e abusando, Bruno. Gostaria de saber se você tem alguma teoria sobre o porquê a comunidade científica como um todo é tão socialista?
É uma das minhas frustrações maiores ver pessoas inteligentíssimas ignorarem completamente o método científico ao analisar ideologias e se alinhar tão à esquerda.
Você tenta esclarecer esse viés na sociedade em geral, eu queria esclarecer esse viés na camada mais “estudada” da sociedade. E esse fenômeno nem é ligado ao Brasil especificamente. Não consigo atrelar isso somente à ideologização das nossas escolas e universidades, não pode ser tão simples assim fazer uma lavagem cerebral tão completa em pessoas inteligentes.
O Brasil…
Olá amigos do mises. Gostaria de deixar meu depoimento aqui nos comentários. Hoje tenho 30 anos e estou conectado com os ideias deste site há mais ou menos dois anos.
Vejo que muitos aqui discutem sob diversos aspectos da cultura do nosso país, e como estes influenciam em nossa política e economia.
Vou descrever um fato, vivido por mim, que mostra um pouco como pensamos nnós brasileiros, como realmente nós pensamos e projetamos isso para o nosso dia a dia.
Quando jovem, fui aluno de um colégio muito tradicional no Rio de Janeiro. Nesta instituição de ensino, a cola nas provas era algo intitucionalizado. Todos colávamos. Queríamos somente chegar ao fim do ano letivo, passar de ano, agradar nossos pais e entra de ferias. Todos os alunos viam o colégio como um inimigo necessário. A cola não era só institucionalizada, ela era rotina. Os melhores alunos eram coagidos a passar cola ou seriam taxados de CDFs, NERDs, egoístas, etc. As elas eram vistas como uma chatice, a única intencao da maioria dos alunos era passar de ano e agradar seus pais.
Quando fiz 16 anos, fiz um intercâmbio para os USA onde tive a oportunidade de cursar o Ano Sênior em uma escola americana. Estudei em uma escola pública, nesta ecola estudavam tanto alunos pobres quanto ricos.
Logo após alguns meses senti um choque cultural muito forte. Comecei a me destacar em algumas disciplinas.
O que mais me surpreendeu foi que ao me destacar, comecei a ser reconhecido no colégio. Recebi elogios não só de professores, mas também de outros alunos. As pessoas me parabenizavam por ser dedicado. Meus colegas me pediam ajuda e me respeitavam por ser bom aluno. Alguns até me pediam ajuda para aprimorar seus estudos e suas notas.
O maior choque cultural que senti foi quanto a cola. Ela simplesmente não existia. Era vista como uma coisa feia e desleal. Quando comentei que isso era pratica comum no Brasil, meus colegas me disseram que cola era o mesmo que roubar o esforço de outra pessoa ou se enganar. Aquilo revirou minha cabeça, foi como uma epifania. De uma hora pra outra, vi todo meu pensamento indo ladeira a baixo. Naquele momento percebi que estudava simplesmente para agradar meus parentes. Nunca tinha tido vontade de verdade de estudar, posto que o estudo sempre me pareceu um impecilio a diversão.
Hoje vejo claramente que vivemos um problema muito grande de estímulo. Nossa sociedade não da o menor estímulo ao empreendimento individual. Nossos pais não dão estímulo ao empreendimento individual. Nós não percebemos que é só através do nosso esforço que vamos crescer.
Depois dessa aula que tive com os americanos, abri meus olhos. Passei eu 5 lugar para uma faculdade pública, após muito esforço. Fui o aluno mais bem colocado na seleção do curso de pôs graduacao que pleiteei. Aquela experiência me ensinou que só é possível vencer com muito esforço.
Quero terminar meu desabafo dizendo que estou muito insatisfeito com nosso país. Investi muitos anos em estudo, abri uma emprese onde tiro o sustento de minha família. Com o passar dos anos tenho percebido que não importa quanto eu trabalho. A cada ano que passa, se torna mais difícil para mim gerenciar meu negócio. Cheguei ao ponto em que aprendi a fazer reparos em equipamentos ( depois de ser roubado várias vezes por técnicos), cada vez mais acúmulo funcoes, pois se contratar alguém para fazer, simplesmente o serviço sai mal feito ou muito caro.
Desculpem amigos pelo desabafo, se eu continuar a citar as limitações que são impostas pelas pessoas que nao estão nem aí para um trabalho honesto, meu texto vira um evangelho.
Gostaria de finalizar dizendo que nosso problema real, não é qualquer outro que não nossa cultura. Não conseguimos sair da cultura da malandragem, do jeitinho brasileiro, da vadiagem.
O único jeito para avançarmos, vai ser quando nosso povo perceber que ” there is no free lunch”
Pasmem
Há um outro importante componente neste “amor” pelo Estado (que não sei se tratado no livro, pois não o li ainda): o Estado coopta vários dos melhores talentos de nossa sociedade. Em virtude de nossa industrialização e modernização tardias, muitos dos melhores empregos no Brasil sempre foram oferecidos pelo Estado, em suas empresas estatais (verdadeiras “mães”, vide Petrobras) ou na administração direta, em particular no Poder Judiciário. Os jovens (e suas famílias) sempre consideram o máximo de sucesso profissional passar em um concurso público e garantir a “estabilidade”.
Assim, o Estado sustenta muitos de seus maiores defensores: o funcionalismo público, inclusive (e principalmente) na Academia, que torna-se uma mera reprodutora do discurso estatista “distributivista”, sempre dispostos a lutas ferrenhas pela manutenção do seu status quo de "servidores públicos".
Sobre este mesmo assunto, hoje(28/5/2015)na Folha de São Paulo e no site www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/220692-a-culpa-e-sempre-dos-outros.shtml tem este artigo publicado:
“Rogério Gentile
A culpa é sempre dos outros
SÃO PAULO – Haddad foi eleito prometendo implementar um “projeto revolucionário” em São Paulo. Era a autoconfiança em pessoa. Dizia ter “soluções inovadoras”, “não ter tempo a perder”, “nem justificativas a dar para tornar este sonho realidade”.
Dois anos e meio depois, o “homem novo para um tempo novo” virou o “senhor não é minha culpa”. Para cada problema ou meta não cumprida, sempre tem uma desculpa, sempre acha um responsável.
Na segunda (25), por exemplo, a Fundação Abrinq decidiu não dar mais ao petista o selo de “Prefeito Amigo da Criança” pelo fato de que não cumprirá a promessa de construir 243 creches. Qual foi a resposta de Haddad? Que a fundação “não tem legitimidade” para fazer tal crítica “porque nenhum dos seus principais filiados se dispôs a doar uma única creche para a prefeitura”.
Era essa, então, a tal solução inovadora de Haddad? O prefeito que assumiu dizendo que iria “equacionar” o problema “das mães e crianças com dificuldade para exercer plenamente sua cidadania” estava, na verdade, contando com a boa vontade alheia?
Outro problema criado pelos outros, segundo a prefeitura, ocorreu na cracolândia. Haddad pretendia remover uma favela, mas a ação transformou a região numa praça de guerra. O petista responsabilizou os usuários da droga, que “romperam o acordo” e não deixaram o local. Era assim, então, fiando-se na palavra dos “noias” (e de traficantes, como se soube depois) que ele iria revolucionar a gestão?
Com desaprovação de 44%, Haddad precisa arregaçar as mangas e parar de achar culpado para tudo (se caiu atendimento nos postos de saúde, o problema é das organizações sociais, que não conseguem contratar médicos; se aumentou o número de mendigos, o motivo é que a gestão anterior era “higienista”). Por ora, o único sonho que Haddad tornou realidade foi o dos carroceiros, que ganharam ciclovias vazias e não têm mais de circular no meio dos carros.”
A resposta é simples: o povo não gosta dos políticos mas gosta do governo porque quer SER o governo, quer ser um parasita também, quer virar funça, ter mamata estatal, ter bolsa qualquer coisa.
O povo brasileiro tem a ética de uma barata, mas ninguém pode falar isso porque isso não ajuda a vender livros.
Finalmente um artigo pragmático.
Ultimamente a maioria dos artigos daqui são textos de austriacos utópicos*. Ok, faz sentido se questionar a existência do estado, ou falar que a Democracia é horrível, mas enquanto a sociedade como um todo não for capaz de notar isso, não passará de masturbação mental tal conversa.
Eu vejo o mises.org como, além de um instituto, um portal de “divulgação científica” da escola austriaca. Imagino que seria mais eficiente dar um enfoque maior em textos refutando engodos estatistas, do que mostrar a ilegitimidade do estado, que está muito mais para um assunto academico… Alias, porque este debate não está sendo feito hoje na academia, hein??? Sabem responder? Acho que hoje, mais importante que estudar Rothbard é estudar Gramsci, isso sim!
—
* me refiro a utopia no sentido de ser algo IMPOSSÍVEL de ser posto em pratica no curto, médio e longo prazo. Quando algo foge de todos os horizontes econômicos, considero utopia. Longo-longo-longo prazo é outra história…
Que bom que a oferta e a procura por livros liberais estão crescendo!
* * *
Bruno, eu te sacaneei. Comprei o livro, li e doei para a biblioteca da universidade em que trabalho. Avisei os meus alunos. Voce vai deixar de ganhar um monte de dinheiro.
Parece-me que no prefácio do livro há uma falha no antepenúltimo parágrafo. Está escrito: “Disse no início que o paradoxo analisado por Garschagen também encontra eco na antiga Metrópole. É por isso que, meio século depois da viagem de Pedro Álvares Cabral, …” Imagino que, ao invés de “meio século depois…” o correto seria “meio milênio depois…”