Minha geração reluta em se entregar de corpo e alma ao mundo corporativo. As corporações se desdobram para reter talentos, isto é, para manter empregados jovens que em gerações anteriores aceitariam pagar pelo privilégio de representar aquela marca campeã. É bom. Já que damos a elas nosso melhor, que elas ao menos nos disputem a tapas.
Os jovens profissionais do terceiro milênio, os millenials que vieram co-criar sua própria revolução, querem flexibilidade, criatividade, autonomia; querem ditar os termos de sua relação com o mundo 2.0; fusão do pessoal e do profissional; empreender; autorrealização; sentido da vida; sustentabilidade. Tudo besteira de primeira, sem dúvida, mas ainda assim menos deprimente do que um relógio de ouro e um tapinha nas costas depois de 40 anos incorporando a identidade de uma organização que definitivamente não é você.
Um efeito promissor disso é que vamos reaprendendo uma verdade profunda: mercado não é igual a mundo corporativo. A cultura que vigora dentro das empresas, os termos, os modismos de gestão, as relações patrão-funcionário, a competição entre colegas pelo aumento, a política de bônus — nada disso é mercado. Au contraire: isso existe justamente para escapar do mercado.
Mercado é oferecer um valor a consumidores que escolhem se irão ou não pagar por ele. A empresa, ou melhor, toda organização, é como uma célula cuja parede isola (parcialmente) seus membros dessa necessidade. No caso das empresas, as células nadam na corrente sanguínea do mercado. A empresa produz valor e o oferece aos demais; mas todos os processos internos que levam a essa criação de valor se dão sob outros termos.
Em vez de estar continuamente negociando com indivíduos ou empresas, anotando recados e transferindo ligações, a firma contrata uma secretária que fica lá e recebe um salário fixo. Adeus oferta, demanda, preços. Sua relação com a empresa deixa de ser a de mercado e passa a se guiar por critérios definidos internamente.
A gestão eficiente, meritocrática, transparente, competitiva, que você pensa que é mercado, é só mais um jeito de se organizar um empreendimento, e pode inclusive ser aplicado a organizações de fora do mercado, como o próprio estado.
Em contrapartida, há organizações plenamente inseridas no mercado (isto é, que não têm seu sustento garantido pelo uso da violência) e que imitam padrões estatais tradicionais ao, por exemplo, adotar uma hierarquia militar ou reproduzir as dinâmicas de poder das antigas cortes monárquicas.
O interior de uma empresa pode variar muito, mas não é mercado.
“Mas como assim? O funcionário não está ali dando duro, sentindo a pressão do chefe, competindo com os colegas pela promoção? Competição, cara; isso é mercado!”
Pois então vamos comparar a competição que se dá no mercado (na verdade, concorrência) e a que existe no mundo corporativo, e ver as diferenças que se escondem sob o mesmo nome.
Dentro da empresa, a competição segue critérios definidos por um superior. O objetivo dos competidores é agradar o superior e desempenhar funções que lhes foram designadas. Ao fazê-lo, repetem a dinâmica básica do sistema em que vivemos: cumprir tarefas dadas por alguém acima de nós na hierarquia em que estamos inseridos, e por ele ser cobrado e avaliado. As regras e expectativas caem das mãos de Deus; a estrutura dessas relações é como que um dado da realidade objetiva.
No mercado, não há critérios dados de antemão. Todas as estruturas são dissolúveis e substituíveis. Não há nenhuma autoridade designando funções ou cobrando resultados. Ou o sujeito tem a ousadia de fazer algo que ele crê que os demais quererão, ou nada acontece; ninguém espera nada. Não há ordens a serem seguidas, mas sim possibilidades de valor a serem descobertas. Seu desempenho, além disso, não depende do juízo de um superior ou de algum indicador decidido por comitê. Não há prêmios. Recebe-se na medida em que se satisfaz os desejos de outras pessoas, que não têm autoridade sobre você; clientes, e não chefes.
Numa organização, a competição, quando existe, é parte do desenho de sua dinâmica interna: um modo de aumentar a dedicação dos funcionários e de selecionar o melhor.
No mercado, a competição é um fenômeno secundário; incidental, e não essencial. Não há um caminho determinado em que vários competem por um número limitado de vagas. Há apenas pessoas como você, e se você quiser a atenção ou os serviços delas, terá que persuadi-las a investi-los no que você oferece. O processo de mercado é essencialmente de cooperação social. Ocorre que, como ninguém é capaz de ditar os caminhos dessa cooperação, conflitos emergem.
Dado que muita gente tenta satisfazer as mesmas demandas, e que nossa atenção e nossos recursos são limitados, então apenas os melhores conseguirão o que querem. Por isso falamos em concorrência: caminhos empreendedores que ocorrem paralelamente e que apelam a uma mesma demanda. Ela existe e pressiona a todos, mas não é parte do desenho do sistema, e sim decorrência da escassez dos recursos e da abundância de ideias sobre como utilizá-los para melhorar a vida dos demais.
Ao contrário da competição, a concorrência não obedece a um juiz fixo e nem tem um fim definido. Ninguém pode obrigar os outros a investir nele, mas nada impede que cada um encontre seu próprio nicho, ou que competidores coexistam sem jamais chegar a um vencedor. A própria ideia de um caminho com início e término, com condições de largada e resultados finais, deixa de fazer sentido. Há só o processo contínuo de tentativa e erro, criação e descarte, desbravando novos continentes.
A competição esportiva, outra metáfora favorita, assemelha-se ao que ocorre numa empresa, e não à concorrência do mercado. Participantes e regras pré-definidos, uma estrutura dada, alguma instância de julgamento, e exclusão ou derrota dos perdedores como parte essencial do processo. Dez atletas correm para cruzar a linha de chegada e ganhar o ouro; na mente de cada um deles, é vitória ou nada.
Já no mercado, as possibilidades se multiplicam: talvez o gramado do lado da pista seja mais interessante… vou parar e ver o que dá pra fazer com ele. Sim, talvez o recorde mundial caia; ninguém define quais os recordes que interessa bater.
O mundo corporativo pode se configurar de várias maneiras, pode se organizar segundo diversas regras e pode promover ou demitir pessoas com critérios múltiplos. Pode dar promoção por tempo de serviço ou incitar a concorrência mais selvagem. Nada disso é mercado.
O mercado é justamente a possibilidade de negar essas regras, de sair da estrutura pré-estabelecida; seja para migrar para uma alternativa existente ou para criar outra coisa.
Se o mundo corporativo é um jogo com regras definidas, o mercado é um brinquedo, cujos usos dependem da criatividade dos envolvidos. Mas essa brincadeira determina nossas vidas, então trate de brincar. O mundo corporativo é uma das soluções encontradas nessa brincadeira, mas não é a única e nada garante que durará para sempre. Se você o ama, ou se você o odeia, o mercado é seu lugar.
*Este artigo foi originalmente publicado em 18 de amior de 2015.
Que baita mimimi esse texto, hein.
toda essa forçação de barra pra finalizar o artigo afirmando que o tal “mundo corporativo é uma das soluções encontradas na brincadeira (mercado é um brinquedo), mas não é a única.”
As corporações que organizem seu mundo interior como quiserem, no exercício da sua liberdade de empreender e contratar (direitos que o estado deveria respeitar em maior grau, inclusive). Certamente esse mundo vem ao encontro dos anseios e necessidade de algumas pessoas. A inadequação não é um absoluto. Os outros podem brincar no mercado, seguindo a dica do Joel.
Belíssimo artigo!
Interessante abordagem. Nunca havia pensado por esse prisma.
Muito boa essa distinção entre competição e concorrência! Particularmente sempre tive a tendência de usar a expressão competição quando queria me referir ao ambiente de mercado e suas interações.
Você sabe o que é “terceira via”?
“Terceira Via” é uma ideologia que foi primeiramente promovida como uma alternativa aos mercados livres por Mikhail Gorbachev, após o colapso da União Soviética. O governo da “terceira via” não seria nem capitalista nem comunista, mas algo entre eles, um monstrengo também conhecido como Capitunismo.
A “Terceira Via” apela para que as grandes empresas e o governo se deem as mãos como “parceiros”. Em suma, as grandes empresas corruptas comandariam a economia (sob o capitalismo), enquanto o governo corrupto iria executá-la (como o socialismo).
As grandes corporações poderiam facilmente cumprir com as diretrizes do governo através de subsídios, isenções fiscais, legislação personalizada e outros privilégios especiais como os que estamos vendo atualmente.
O Brasil já vive a “terceira via capitunista” fazem anos mas a população não percebeu ainda.
Muito bom! Parabéns! Em 2003 parei de ler revistas e jornais de SP porque eles não faziam essas diferenciações tão importantes, além de outras como “trabalhador” para chamar assalariado de salário mínimo e “mercado” para falar de bolsa de valores.
Quando a organização é privada, mas sua estrutura se espelha no estado e não no mercado, você tem que ser muito derp pra colocar a culpa pelas mazelas resultantes “nos mercados” e “no capitalismo selvagem”.
Texto lindo. Não confunda empreendedor honesto e defensor do livre mercado com patrão desonesto e corporativista. São pessoas completamente diferentes.
OK, mas pera lá…
As pessoas são livres para entrar e sair de qualquer emprego. Então mesmo do lado administrativo as empresas também estão imersas no mercado livre: Devem contratar pessoas que estejam disponíveis, negociar salários e condições, devem comprar equipamentos e outros apetrechos administrativos, isso sem falar em sistemas computacionais, infraestrutura de TI, o cafezinho… Tudo isso é fornecido pelo mercado livre. Ninguém vira escravo ao adentrar um emprego simplesmente porquê pode sair a qualquer momento.
Em outras palavras, se o proprietário não oferecer condições de trabalho que satisfaçam o mercado, não haverá quem trabalhe para ele. O mercado continua no comando.
A critica não é feita ao mundo corporativo e sim à comparação que são feitas entre o atual sistema de organização das empresas (mundo corporativo) e o mercado. Os dois são diferentes, não devem ser retratados como semelhantes como o mainstream costuma fazer.
O mundo corporativo muda de acordo com as leis impostas por um chefe. O mercado não.
“Em vez de estar continuamente negociando com indivíduos ou empresas, anotando recados e transferindo ligações, a firma contrata uma secretária que fica lá e recebe um salário fixo. Adeus oferta, demanda, preços. Sua relação com a empresa deixa de ser a de mercado e passa a se guiar por critérios definidos internamente.”
Talvez porque seria menos lucrativo para empresa pagar à secretária um salário variável calculado com base no número de telefonemas atendidos e recados anotados no mês. Quem faria o controle? Contratariam um supervisor de secretárias para empresa? E como o supervisor de secretárias teria sua remuneração calculada num regime de “livre mercado”?
A existência de estruturas fixas na organização das empresas não é contraditória ao livre mercado. Simplesmente elas são meios por que as empresas optam, por livre e espontânea vontade, para atenderem seus fins.
Mas nada impede que venha uma outra empresa e adote uma forma melhor de gestão e assim reduza custos e a supere no mercado.
Só uma questão sem muita presunção…
Como seria a administração de uma empresa por meio de um processo de mercado? Seria isso possível?
Abraços
(OFF-TOPIC)
As informações e conclusões fornecidas pelo artigo[1] a respeito da deflação procedem? E essa tal de “espiral de preços decrescentes”?
[1]
Abraços.
Olá, estou começando a estudar alemão, queria me aprofundar lendo os livros do Mises em alemão, alguém tem links?
Alguém pode me dizer porque o mundo corporativo prefere os engenheiros. Não sou a favor de reserva de mercado para profissionais, mas é isso o que acontece no mundo corporativo. Uma empresa não é fábrica e muito menos tem o seu core-business em engenharia, mas sempre é um engenheiro contratado para os setores administrativos.
O ambiente corporativo na verdade é bem socializado!
Todas as pessoas devem satisfações a seus chefes, têm horário a cumprir, têm metas a cumprir, são monitoradas no exercício de suas atividades etc, etc.
Querendo sair fora desse sistema de controle, podem muito bem sair pela porta e não voltar mais.
Creio que isso está mudando aos poucos, pois os meios de produção estão se tornando cada vez mais baratos.
A facilidade de comunicação instantânea por várias mídias, computadores cada vez mais potentes, impressoras 3D e outros equipamentos de alta tecnologia, estão cada vez mais acessíveis ao cidadão comum, de tal forma que teremos muitas empresas/industrias pessoais!
Antes o que só poderia ser produzido por uma grande empresa, já pode ser produzido por uma pequena com poucos empregados. E futuramente poderá ser produzido até mesmo numa oficina caseira.
Uma única pessoa fabricando produtos de alto valor agregado extremamente personalizado para seus clientes de maneira que uma grande empresa não poderia fazê-lo.
Antes víamos essa situação em relação aos sapateiros, torneiros mecânico e as costureiras da vizinhança. Futuramente poderemos assistir engenheiros, analistas de sistemas etc trabalhando em suas empresas/industrias pessoais com altos ganhos, e muito felizes, sem vontade nenhuma de pertencer aos quadros de uma multinacional.
Att
Marcelo Boz
Estou terminando Administração, e digo que mundo corporativo é um saco. é um sistema de etiquetas, um monte de baboseira mesmo e algumas organizações(porque falar empresa é coisa do passado) são verdadeiras religiões para seus colaboradores(nova palavra para funcionário, a próxima será Talentos). Acaba que os funcionários dessas empresas realmente esquecem do mercado e dos clientes…
Concordo com Boz, Impressora 3D vai ser uma grande revolução no meu ponto de vista.
Eu as vezes não queria me juntar ao mundo corporativo(pois eu gosto mais das minhas regras),
porem o melhor Know-how da profissão que quero seguir esta nas maiores empresas corporativas.
E vamos combinar que ninguém levaria a serio um Auditor cabeludo, tatuado com camisetas de bandas/quadrinhos.
Basicamente ele quis dizer que dentro de uma empresa o funcionário está subordinado a um planejamento central de um chefe enquanto um empreendedor (ex: pipoqueiro, sacoleira…) estão sujeito a um ente descentralizado que é o mercado.
Perspectiva interessante, vale a pena refletir.
[OFF]
Pra quem ainda duvida que existe doutrinação marxista nas escolas, dá uma olhada na calamidade que foram as redações com nota máxima no Enem:
“Por fim, o Estado deve regular os conteúdos veiculados nas campanhas publicitárias, para que essas não tentem convencer pessoas que ainda não têm o senso crítico desenvolvido. Além disso, ele deve multar as empresas publicitárias que não respeitarem suas determinações. Com esses atos, a publicidade infantil deixará de ser tão prejudicial e as crianças brasileiras poderão crescer e se desenvolver de forma mais saudável.”
“A atenção excessiva dada à publicidade infantil vai gerar adultos alienados e somente preocupados em comprar”
“De acordo com Karl Marx, filósofo alemão do século XIX, para que esse incentivo ocorresse, criou-se o fetiche sobre a mercadoria: constroi-se a ilusão de que a felicidade seria alcançada a partir da compra do produto.”
“O governo deve investir em políticas públicas que atuem como construtoras de uma ‘consciência mirim’, através de meios didáticos a fomentar a imaginação da criança, orientando-a na recepção de informações que a cercam.”
“O problema é que cabe aos pais escolher qual brinquedo o filho deve ter, por exemplo, e não ao grande empresário. Este tem como finalidade o lucro, enquanto aqueles querem o crescimento de seus jovens. Dessa forma, é comum que os donos de empresas criem brinquedos que não têm a menor intenção de ensinar nada às crianças. “
“Sua inocência é, dessa forma, cruelmente convertida em lucro, fato que não deve ser permitido nem tolerado.”
Aí já dá pra ter uma noção qual o nascedouro de certos indivíduos que aparecem relinchando aqui vez outra.
Leia redações do Enem que tiraram nota máxima no exame de 2014
Finalmente alguém escreve sobre isso.
Um bom tempo atrás eu escrevi, nos comentários de um artigo do Mises, sobre a diferença entre a organização vista de fora e vista de dentro. Se ela está inserida numa sociedade de livre mercado, vista de fora é um ente do mercado, mas vista dentro é um ente político.
Qual foi a reação dos colegas ao meu comentário? Silêncio sepulcral. Ninguém respondeu nada. Agora tive a feliz oportunidade de ver um artigo tocando esse tema.
O que o autor fez, basicamente, foi descrever a prestação de serviços através de contrato. E afirmar que isso não é mercado.
Filho feio nunca tem pai.
4 Coisas cruéis do mundo corporativo, se você acredita na bondade humana melhor não ler o comentário para sua inocência não seja abalada : 1 Nem sempre o promovido foi por competência; 2-Nem sempre o reconhecido foi por merecimento; 3- Nem sempre aqueles que chegaram ao poder foram usando a ética e a moral e sim puxando saco; 4- Existem pessoas mesmo você tratando bem vão te tratar com indiferença e descaso devido a inveja das suas qualidades.
Conclusão você não precisa inventar desculpas você pode superar os obstáculos assim como o exemplo de vitória de Gates que começou empreendendo na garagem e superou tudo e venceu.
4 Coisas cruéis do mundo corporativo, se você acredita na bondade humana melhor não ler o comentário para sua inocência não seja abalada : 1 Nem sempre o promovido foi por competência; 2-Nem sempre o reconhecido foi por merecimento; 3- Nem sempre aqueles que chegaram ao poder foram usando a ética e a moral e sim puxando saco de chefe; 4- Existem pessoas mesmo você tratando bem vão te tratar com indiferença e descaso devido a inveja das suas qualidades.
Conclusão você não precisa inventar desculpas isso infelizmente acontece na maioria das empresas brasileiras e no mundo central em minoria a falta de complice nas promoções, o correto seria promover as pessoas pela meritocracia , competência e ética que seguissem os processos de treinamento e desenvolvimento motivadas pela liderança, portanto você pode superar os esses obstáculos empreendendo ou fazendo concurso público .