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Petróleo, choques de oferta, escassez e uma lição básica de economia que muitos insistem em ignorar

No reino das commodities, o petróleo é um dos mais influentes nos preços em toda a economia. Isso ocorre porque ele atua como um insumo básico e transversal à maioria dos setores produtivos da economia mundial. Não apenas pelo impacto no custo dos fretes: o petróleo também é matéria-prima para uma enorme variedade de produtos, incluindo fertilizantes — essenciais para a agricultura —, plásticos e diversos materiais de construção.

A recente escalada do conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã trouxe consigo essa consequência econômica imediata, já amplamente divulgada pela mídia: a alta no preço do ouro negro. O motivo é simples. O conflito envolve o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo transportado no mundo.

Para muitos economistas e pessoas que estudam o tema, a mecânica desse fenômeno é bastante evidente. Para boa parte do público, no entanto, nem tanto. Vale, portanto, explicá-la.

A prosperidade e o bem-estar material de uma sociedade não dependem da quantidade de dinheiro que circula na economia. Ela depende da quantidade de bens e serviços disponíveis para as pessoas. Dinheiro, no fim das contas, é apenas o meio de troca.

Quando a quantidade de bens diminui, a sociedade — inevitavelmente — fica mais pobre. Pense em uma safra agrícola. Imagine agora uma forte quebra na produção de arroz, um dos alimentos mais básicos da mesa do brasileiro. Se a colheita despenca em determinado ano, haverá menos arroz disponível para a população. Isso significa, em termos simples, que aquela sociedade ficou mais pobre: há menos bens para serem consumidos.

O mesmo raciocínio vale para qualquer produto. Se houver quebra na safra de café — algo que ocorreu recentemente em grandes países produtores ao redor do mundo —, haverá menos café disponível para a sociedade. Talvez você não tenha sentido falta do produto na sua casa, mas provavelmente percebeu algo inevitável: o preço subiu.

É aqui que entramos em um dos conceitos mais simples da economia — e que, ao mesmo tempo, é um dos mais ignorados em alguns ambientes de esquerda onde reina a crença estatizante: a lei da oferta e da demanda, responsável pela formação de preços.

O raciocínio é simples. Em termos coloquiais: quando sobra produto, o preço tende a cair; quando falta produto, o preço tende a subir. O preço funciona como um mensageiro, indicando se há abundância ou escassez de determinado bem.

E esses preços mais altos tornam a sociedade relativamente mais pobre, pois os indivíduos precisam gastar uma parcela maior do orçamento com aquele produto, restando menos recursos para consumir outros bens necessários à vida ou mesmo para poupar para algum projeto pessoal. Arroz, café ou gasolina em falta significarão preços mais altos e um maior aperto na renda das famílias.

Embora a alta de preços seja incômoda para a sociedade, ela cumpre uma função econômica essencial em momentos de escassez: racionalizar o uso do recurso que ficou mais raro. Quando o preço de um bem sobe, as pessoas naturalmente passam a utilizá-lo com mais parcimônia, evitando desperdícios e priorizando seu uso para aquilo que é realmente necessário. Ao mesmo tempo, o preço mais alto sinaliza para produtores e investidores que há oportunidade de ampliar a produção ou buscar alternativas em bens substitutos. Em outras palavras, o aumento de preços funciona como um mecanismo de ajuste da própria economia: ele desestimula o consumo excessivo de um bem que está em falta e cria incentivos para que a oferta aumente no futuro.

No caso da atual alta do petróleo, o problema não está necessariamente na quantidade de petróleo disponível nos campos de extração. O petróleo continua lá.

O problema está em fazê-lo chegar ao mercado.

Se uma rota logística fundamental — como o Estreito de Ormuz — fica ameaçada, o fluxo global de petróleo se torna reduzido. Isso diminui o volume efetivamente disponível para os mercados consumidores. Na prática, o resultado é o mesmo de uma quebra de produção: menos petróleo disponível no mundo.

Diante disso, surge a pergunta inevitável: o que os governos podem fazer em momentos como esse?

A resposta é desconfortável para quem acredita em soluções mágicas do estado: muito pouco.

Uma medida possível — e muito bem-vinda — seria reduzir ou até zerar impostos sobre combustíveis e derivados de petróleo. Isso poderia amenizar parte da alta. Mas apenas parte.

Em um cenário extremo, se o preço internacional do petróleo dobrar ou triplicar, nenhum governo conseguirá neutralizar completamente esse movimento, mesmo que se reduzam totalmente os tributos incidentes sobre o produto.

Para ilustrar: considere o barril de petróleo custando US$ 100 e que incidam 40% de impostos, gerando um preço final ao consumidor de US$ 140. Agora imagine que ocorre um choque de oferta que leve o preço a US$ 200. Em um cenário com incidência de impostos (40%), o preço iria para US$ 280. Nessa situação, mesmo zerando totalmente os impostos, o preço ao consumidor ainda subiria de US$ 140 para US$ 200. A redução de impostos ajuda, mas não contém totalmente a alta.

Em alguns casos, facilitar a importação do bem que está em falta pode ser uma solução. O governo pode, por exemplo, zerar impostos de importação, remover cotas que limitam a entrada do produto ou até mesmo suspender restrições burocráticas que dificultam sua chegada ao país. Medidas desse tipo ajudam a combater a escassez que afeta o mercado interno e tendem a contribuir para a redução dos preços.

Em um cenário em que ocorre um grave problema com nossos rebanhos bovinos, por exemplo, desonerar e facilitar a importação de carne bovina de outros países aumentaria a oferta do produto aqui dentro e ajudaria a conter a alta nos preços.

Porém, no caso do petróleo, essa alternativa tem pouca eficácia. Isso porque não estamos diante de uma escassez localizada em um país ou região específica, mas sim de uma escassez global. Quando o problema afeta o mundo inteiro, abrir as importações não resolve, simplesmente porque não há maior oferta do produto em outros mercados para compensar a falta interna.

Em suma: a mão do estado não pode revogar a lei da oferta e da demanda.

Outros problemas para o Brasil

Além da energia, o Brasil pode sofrer impactos indiretos importantes com esse conflito. Como um dos principais destinos das exportações farmacêuticas da Índia, o país enfrenta o risco de desabastecimento de medicamentos genéricos e vacinas. Essa logística que vem da Índia — país responsável por produzir cerca de 60% das vacinas do mundo — depende de Dubai como centro estratégico de distribuição. E, como sabemos, Dubai está próxima ao epicentro do conflito.

No caso dos alimentos, o problema está nos fertilizantes nitrogenados. O bloqueio de Ormuz retirou do mercado mundial cerca de um terço do suprimento, e a China, que é uma grande fornecedora de fertilizantes nitrogenados, restringiu suas exportações para priorizar o abastecimento interno.

A alta de preços nesses itens — em alguns casos superior a 35% em uma semana — gerará um aumento inevitável no custo dos alimentos, que deverá chegar às mesas dos brasileiros em um prazo de um a três meses.

E as intervenções estatais?

Diante desse cenário, a resposta populista costuma aparecer rapidamente: aumentar auxílios e transferências para colocar mais dinheiro na economia ou congelar preços.

O problema é que medidas como essas não criam um único saco de arroz, um único barril de petróleo ou um único fertilizante a mais.

Colocar mais dinheiro no bolso da população pode até dar a impressão de resolver o problema — afinal, as pessoas aparentemente terão mais recursos para comprar o produto que ficou caro. Porém, se a quantidade de bens disponíveis permanece a mesma ou até diminui, o resultado inevitável será o aumento de preços em outros setores da economia.

Com menos bens disponíveis e mais dinheiro circulando, o resultado previsível é apenas um: inflação de preços.

A pandemia deixou isso claro. Com cadeias produtivas interrompidas, fábricas paradas e pessoas impossibilitadas de trabalhar, muitos governos despejaram enormes quantidades de dinheiro na economia na forma de auxílios. O resultado foi uma das maiores ondas inflacionárias das últimas décadas em todo o mundo.

Já o congelamento de preços gera um resultado previsível: o consumo não diminui, usos supérfluos continuam ocorrendo e a escassez tende a se agravar. Além disso, produtores perdem o incentivo econômico para ampliar a oferta do produto, já que não podem vendê-lo a um preço mais alto. O mecanismo que poderia ajustar a situação ao longo do tempo fica obstruído.

Conclusão: a realidade é mais dura do que gostaríamos.

Guerras, catástrofes naturais, quebras de safra e choques de oferta fazem parte do mundo real. Sempre que isso acontece, a consequência econômica é a mesma: menos bens disponíveis para as pessoas. E o aumento de preços apenas revela essa escassez.

Políticos e burocratas frequentemente acreditam que suas canetas — por meio de congelamento de preços, subsídios ou expansão de gastos — têm o poder de resolver esse tipo de problema.

Mas, novamente, decretos de congelamento de preços não produzem petróleo. Canetadas não fabricam fertilizantes. Auxílios não criam alimentos quando uma safra foi fraca. Recorrer a tais medidas é apenas mais um equívoco das mentalidades estatizantes.

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