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As consequências perigosas da escola histórica alemã de economia política

Nota da edição:

Hoje é celebrado o aniversário do filósofo libertário David Gordon, conhecido por suas resenhas críticas de livros e pela explicação de conceitos filosóficos complexos por meio de artigos semanais na coluna Friday Philosophy publicada no Mises Institute. Nesse sentido, no texto a seguir, Gordon traz uma explicação sobre porque a escola histórica alemã de economia política foi vista como nociva por Ludwig von Mises.


Ludwig von Mises dedica bastante tempo a atacar a Escola Histórica Alemã de Economia Política em Ação Humana e em outras obras. As doutrinas dessa escola já não exercem influência significativa hoje, embora, como observa a filósofa e economista Birsen Filip em seu livro recente The Early History of Economics in the United States: The Influence of the German Historical School of Economics on Teaching and Theory (Routledge, 2023), nem sempre foi assim. A Alemanha foi o principal destino para estudos de pós-graduação em economia desde o final do século XIX até a Primeira Guerra Mundial. As principais figuras da escola — que incluíam Wilhelm Roscher, Bruno Hildebrand, Karl Knies e Gustav Schmoller — eram estudiosos de imensa erudição que impressionaram muitos de seus contemporâneos, e muitas pessoas acreditavam que eles estavam corretos em sua rejeição da existência de leis econômicas universalmente verdadeiras. Além disso, Schmoller — em sua batalha polêmica, o famoso Methodenstreit [controversa sobre o método], com Carl Menger, o fundador da Escola Austríaca — atacou os austríacos por seu individualismo metodológico e por sua dependência de leis econômicas “abstratas”. Diante desse contexto, pode-se compreender facilmente por que Mises critica a Escola Histórica Alemã, mas será que suas discussões — ecos de “batalhas travadas há muito tempo” — têm apenas importância secundária para os leitores de hoje?

Mises não pensa assim. Ele acredita que as doutrinas da Escola Histórica Alemã de Economia Política levaram diretamente ao nazismo, e as origens desse movimento imensamente destrutivo continuam a preocupar os leitores atuais. Na coluna desta semana, apresentarei os argumentos de Mises sobre esse tema, conforme expostos em Governo Onipotente (Yale University Press, 1944).

Em resumo, o argumento de Mises é que a Escola Histórica Alemã buscou restringir o livre comércio internacional. A tentativa de garantir a autarquia levou tanto ao imperialismo quanto a conflitos com nações vizinhas, com o objetivo de obter controle sobre recursos que o estado considerava vitais para o desenvolvimento econômico nacional. Mises afirma:

“Por mais de sessenta anos, os nacionalistas alemães vêm descrevendo as consequências que as políticas protecionistas de outras nações inevitavelmente teriam para a Alemanha. A Alemanha, eles ressaltavam, não pode viver sem importar alimentos e matérias-primas. Como pagará por essas importações quando, um dia, as nações que produzem esses materiais tiverem conseguido desenvolver suas manufaturas domésticas e impedirem o acesso das exportações alemãs? Há, diziam a si mesmos, apenas uma solução: precisamos conquistar mais espaço para viver, mais Lebensraum [Espaço Vital]”.

Durante o final do século XIX, o principal defensor da guerra e do imperialismo por essas razões econômicas foi Adolf Wagner, um importante membro da Escola Histórica Alemã. O julgamento de Mises sobre Wagner é mordaz:

“Adolf Wagner não era uma mente perspicaz. Era um economista medíocre. O mesmo vale para seus partidários. Mas eles não eram tão obtusos a ponto de não reconhecer que o protecionismo não é uma panaceia contra os perigos que descreviam. O remédio que recomendavam era a conquista de mais espaço — a guerra. Eles pediam proteção para a agricultura alemã a fim de incentivar a produção no solo pobre do país, porque queriam tornar a Alemanha independente do fornecimento estrangeiro de alimentos para a guerra iminente. Tarifas de importação sobre alimentos eram, aos seus olhos, apenas um remédio de curto prazo, uma medida para um período de transição. O remédio final era a guerra e a conquista”.

Embora os membros da Escola Histórica Alemã almejassem a guerra e a conquista, eles eram cautelosos ao expor suas opiniões. “Wagner, Schmoller e os outros socialistas de cátedra, em suas aulas e seminários, por muito tempo pregaram o evangelho da conquista. Mas, antes do final da década de [18]90, não ousaram propagar tais opiniões por escrito”.

Às vezes, porém, a máscara caía. Mises observa que Schmoller:

“em um livro publicado em Stuttgart em 1900 (…) [escreveu] ‘Não posso me deter nos detalhes das tarefas comerciais e coloniais para as quais precisamos da marinha. Apenas alguns pontos podem ser mencionados brevemente. Estamos obrigados a desejar, a qualquer custo, que no próximo século seja estabelecido no sul do Brasil um país alemão com vinte ou trinta milhões de alemães. É irrelevante se isso permanecerá ou não como parte do nosso Reich. Sem comunicações continuamente protegidas por navios de guerra, sem que a Alemanha esteja pronta para uma intervenção vigorosa nesses países, essa evolução estaria exposta ao perigo’”.

Os nazistas implementaram as políticas econômicas da Escola Histórica Alemã, adaptadas às condições das décadas de 1930 e 1940.

“As ideias essenciais do nazismo foram desenvolvidas pelos pangermanistas e pelos socialistas de cátedra nos últimos trinta anos do século XIX. O sistema foi completado muito antes do início da Primeira Guerra Mundial. Nada faltava, e nada além de um novo nome foi acrescentado posteriormente. Os planos e políticas dos nazistas diferem dos de seus predecessores na Alemanha imperial apenas no fato de terem sido adaptados a uma constelação diferente de condições políticas. O objetivo final, a hegemonia mundial alemã, e o meio para alcançá-la, a conquista, não mudaram”.

O ponto de Mises de que a busca pela autarquia leva à guerra é de grande relevância contemporânea. Alguns conservadores nacionalistas em nosso próprio tempo defendem que os Estados Unidos garantam os recursos de que necessitam para uma guerra com a China por meio de proteção tarifária e da “política industrial”. Como Mises apontou há oitenta anos, esse tipo de discurso é perigoso.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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