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A Páscoa simboliza uma nova esperança para a vida e para a liberdade

A manhã de Páscoa é repleta de alegria: cores vibrantes, comidas deliciosas, cenas felizes de coelhos e caça aos ovos. Acima de tudo, para aqueles que são cristãos, somos chamados a celebrar a alegria da ressurreição de Cristo da morte para uma nova vida. O contraste entre a Sexta-feira Santa e a Páscoa não poderia ser mais marcante: com a rápida virada do calendário, passamos de uma tristeza desesperadora para uma celebração sem reservas.

Não era assim na antiga liturgia cristã. A Páscoa era o início de um processo de discernimento de uma nova realidade no mundo. Era toda uma estação que durava cinco semanas, durante as quais a compreensão dramática do que aconteceu e do que isso implica para o mundo se revela em etapas, como a própria primavera. É possível perceber isso nos textos da liturgia e ouvir isso na música entoada do primeiro milênio.

A primavera nasce lentamente

Inicialmente, na manhã de Páscoa, não há uma alegria sem reservas, mas sim um maravilhamento que se aproxima de um certo temor: o homem que estava morto é está vivo novamente, o que parece dar credibilidade àqueles que afirmavam que ele não era um falso profeta, mas sim o Filho de Deus.

Ouça a melodia do canto de entrada da manhã de Páscoa da antiga liturgia, que não é celebratório, mas transmite reverência, admiração e um leve temor.

O que isso implica sobre a própria crucificação, e o que isso exige daqueles que permaneceram à margem enquanto Jesus era condenado à morte pelas mãos ensanguentadas das autoridades civis?

Na segunda semana após a Páscoa, a antiga liturgia observa o despertar gradual das pessoas para a verdade que presenciaram, sendo assim atraídas por um sentimento de admiração para uma nova fé, sendo incorporadas à comunidade de crentes uma pessoa de cada vez. Na terceira semana, experimentam-se os primeiros gritos de alegria e, na quarta, as celebrações consistem em novos cânticos, cânticos que se afastam da tradição e introduzem uma nova era. Na quinta semana, a experiência de júbilo é completamente liberada e proclamada a todo o mundo.

A vida se move rapidamente

Mas, nos tempos modernos, toda essa experiência é colocada em modo acelerado. Os tradicionalistas lamentam isso, mas trata-se de uma mudança defensável que acompanha as dramáticas transformações culturais entre o primeiro milênio e o segundo. No primeiro, pouquíssimas pessoas experimentaram algo semelhante ao que hoje chamamos de progresso material. A população mal crescia e a vida era caracterizada por uma monotonia imutável de mera sobrevivência.

No segundo milênio, ao longo de centenas de anos, a humanidade experimentou os primeiros sinais da possibilidade de melhoria das condições de vida, vidas mais longas e melhores mesmo dentro de uma única geração, e a modernidade surgiu com o gradual desdobramento da liberdade e o acúmulo de capital material. A doença e a morte deram lugar à saúde e à vida como uma expectativa razoável.

Assim, nesse sentido, faz sentido que as histórias sobre nós mesmos e até mesmo sobre o passado também se acelerem. Seja o que for hoje, nós o queremos agora e da forma de entrega mais eficiente possível em termos de tempo. Um site que demora a carregar é abandonado. Um livro que é longo demais não é lido. Até mesmo um sermão na igreja que se prolonga excessivamente tenta as pessoas a deixarem seus bancos e encontrar uma maneira melhor de aproveitar aquela hora.

Passamos a acreditar que a vida é mais do que preparar nossas almas para a eternidade; trata-se de encontrar grandes experiências dentro da própria estrutura do tempo. Hoje, quase ninguém sequer questiona essa noção. Nós a carregamos conosco constantemente. Nossa impaciência com o tédio é evidente.

Trata-se de uma mudança cultural em nós produzida pelo capitalismo, e não há motivo para lamentá-la. A existência de “preferências temporais” – isto é, o fato de querermos ter aquilo que desejamos mais cedo em vez de mais tarde – é o que poderia ser chamado de uma categoria kantiana da ação. Isso está incorporado às nossas escolhas como seres humanos. O mundo material ou nos acomoda ou não. Com o advento do capitalismo, a humanidade experimentou a realização de sonhos que haviam sido materialmente inacessíveis durante a maior parte da história. Hoje estamos cercados por suas bênçãos de maneiras que não apreciamos plenamente.

Isso precisa acontecer agora

Permitam-me apenas relatar uma história desta manhã, que pode parecer trivial, mas que na verdade é gloriosa.

Acordei hoje decidido a trocar o óleo do meu carro. Ora, quando meu pai tinha a minha idade, ele mesmo precisava fazer isso. Não existiam lugares onde se pudesse ir e resolver tudo em 10 minutos. Eu, por outro lado, sei que isso é possível hoje, sem complicações e sem necessidade de agendamento.

Então comecei a dirigir, deixando meu aplicativo no celular me guiar até o local mais próximo, plenamente confiante de que conseguiria alcançar meu objetivo. Troquei o óleo por 39 dólares e eles ainda completaram o fluido da direção hidráulica, o que resolveu um ruído de zumbido que eu vinha ouvindo. Depois, lavei o carro e o funcionário consertou o porta-luvas que ficava abrindo sozinho. De alguma forma, ele simplesmente sabia o que fazer, e fez isso apenas por gentileza.

Em seguida, fui a uma loja de autopeças e comprei alguns lenços que deixaram meu carro com um ótimo cheiro, além de uma tinta para retoque — sim, eles tinham exatamente a cor certa — que eliminou alguns arranhões na pintura. Fiz tudo isso apenas dirigindo pela cidade, encontrando pessoas simpáticas e participando de trocas comerciais maravilhosas, todas pensadas para melhorar minha vida. Conheci pessoas interessantes e talentosas e vi minha vida melhorar de maneiras concretas por meio do trabalho humano, da cortesia e da atividade comercial.

É assim que as manhãs deveriam ser. Mas, de todas as manhãs da história do mundo, só se tornou possível viver dessa maneira em 0,00000009% delas (não é um dado científico, mas você entende a ideia). Mas, em vez de celebrar o quão fáceis nossas vidas são, o que a maioria das pessoas faz? Reclama do trânsito. Reclama que teve que fazer isso de qualquer forma. Fica irritada por não estar no escritório ou descansando em casa ou se esforçando na academia.

Não importa o quanto recebamos, e o quão rápido recebamos, ainda há algo dentro de nós que anseia por mais. Esse também é um impulso defensável, porque é esse anseio que nos leva a agir para tornar o mundo um lugar melhor por meio do empreendedorismo, da disposição para assumir riscos, do trabalho árduo, da poupança e, de modo geral, da possibilidade que temos, como consumidores, de comprar aquilo que os capitalistas estão nos oferecendo. Enquanto formos livres para agir e escolher, nossa insatisfação se torna uma força motivadora para melhorar o mundo.

A política é uma questão diferente

E, no entanto, há uma esfera da vida em que desejar mais e desejar mais rapidamente não resulta em nosso benefício. Trata-se da esfera política. Ouvimos candidatos venderem seus remédios milagrosos e vamos à cabine de votação para “comprar” aquilo que estão oferecendo. Depois ficamos chocados quando se revela que eles não podem e não irão cumprir o que prometeram. Então fazemos a mesma coisa dois anos depois e quatro anos depois, sem jamais aprender a lição de que o mercado político não existe realmente para nos servir, mas sim para servir a uma instituição que, de muitas maneiras, existe fora da esfera da ação social. O estado é diferente, radicalmente diferente, do mercado.

Por causa dessa tendência de querer mais o quanto antes e de acelerar a vida para acomodar nossos desejos, as pessoas tendem a cair nas promessas de charlatães na vida política. Surge algum sujeito prometendo nos tornar grandiosos e nós aceitamos, mesmo que o que ele diga não faça sentido. Outra pessoa afirma que irá entregar justiça, igualdade, equidade e bem-estar por meio de tributação, regulamentação, gastos públicos e guerras, e as pessoas concluem que irão “gastar” seu voto e correr o risco de que isso seja verdade.

Crescendo em liberdade

A verdadeira maturidade na ação política exige dois passos mentais. Primeiro, precisamos decidir o que realmente queremos. O encargo da tradição liberal há muito tempo consiste em convencer as pessoas de que o melhor mundo possível para nós surge por meio da ação voluntária dentro de um contexto social que criamos para nós mesmos, e não a partir da imposição do plano de outra pessoa de cima para baixo. Em segundo lugar, precisamos cultivar a paciência de que trabalhar em direção ao objetivo de longo prazo da humanidade exige comprometimento, crescimento lento de comunidades intelectuais, a persuasão de intelectuais públicos e um profundo investimento em uma ideia.

Essa é a única maneira de funcionar. A liberdade não é algo que você possa comprar. É algo que você precisa construir por meio de coragem intelectual e trabalho árduo. Ela não pode ser concedida a você por um político. Nem sequer vem apenas da política. O trabalho da liberdade é um ato cultural, que se estende a partir da esfera que você pode controlar e se expande para fora, transformando o tecido intelectual da sociedade.

O trabalho da liberdade se desenvolve ao longo do tempo como o nascer da própria primavera, ou como o desdobramento da Páscoa na antiga liturgia cristã. O que é possível neste mundo é uma realização lenta, que nasce primeiro do maravilhamento, depois se transforma em uma nova consciência, se desenvolve em celebração gradual e culmina em uma mensagem dirigida ao mundo inteiro. A liberdade é o que nos permite abandonar o velho mundo da autoridade e da imposição e cantar um novo cântico de liberdade por todo o mundo.

Este artigo foi originalmente publicado na FEE.

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