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Parmênides: O Ser e o Silêncio do Movimento

Nota da edição:

Este artigo é a publicação do quinto capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.

Confira também o quarto capítulo


“O mesmo é pensar e ser.” — Parmênides, Fragmento 3 (DK B3)

Entre o fogo de Éfeso e a luz de Eleia nasceu o pensamento ocidental. Em Heráclito, tudo flui; em Parmênides, tudo permanece. De um lado, o mundo como corrente viva, ritmo e tensão dos opostos; de outro, o ser como plenitude imóvel, homogênea e perfeita. O que os separa não é um abismo, mas uma tensão, a mesma que atravessará toda a filosofia e que, séculos depois, encontrará na economia austríaca um ponto de reconciliação: o tempo como campo da ação humana.

Eleia, cidade da Magna Grécia voltada para o mar Tirreno, ergue-se sob o mesmo horizonte luminoso que banhara Mileto. Mas, se os jônios buscaram o princípio das coisas na matéria, na água, no ar ou no ilimitado, Parmênides o procurou no indestrutível, naquilo que simplesmente é. Em Eleia, a filosofia abandona a multiplicidade e se volta para o uno, o eterno, o ser. Ali nasce o primeiro gesto metafísico do homem, o primeiro pensamento que ousa conceber o imutável.

“O ser é, o não-ser não é.” Esse axioma sustenta todo o edifício da razão. Parmênides o proclama em versos de clareza austera: o ser não pode não ser, não nasce nem perece. Tudo o que muda pertence apenas à aparência sensível, à doxa, a opinião dos mortais. O verdadeiro conhecimento, a aletheia, não vem da visão nem da audição, mas do pensamento que reconhece o ser idêntico a si mesmo. O mundo sensível engana; o inteligível é o único real.

O “ser” é, portanto, uno, eterno, indivisível e imóvel, “uma esfera bem redonda”, perfeita e homogênea, sem lacunas nem fronteiras. Nada pode vir do não-ser, pois o que não é não pode gerar o que é; nada pode tornar-se não-ser, pois o ser não pode deixar de ser. Não há nascimento nem morte, nem multiplicidade nem movimento. O ser é pleno e suficiente. Contemplar essa unidade é tocar o limite do pensamento.

Parmênides nos conduz para além da aparência e nos revela que o tempo é apenas a sombra do eterno. Em seu poema Sobre a Natureza, a deusa que guia o iniciado mostra o caminho do ser como uma estrada de luz onde nada muda, nada se perde e nada se cria. O ser é, e isso basta. O pensamento atinge aqui sua pureza extrema e, ao mesmo tempo, sua solidão radical.

Uma doutrina tão rigorosa exigia um guardião, e esse guardião foi Zenão de Eleia. Discípulo e companheiro, Zenão ergueu em torno do mestre uma fortaleza de paradoxos. Aos que ridicularizavam a negação do movimento, respondeu com raciocínios que forçavam a razão a encarar o impensável. No paradoxo da flecha, mostra que o movimento é logicamente impossível: se o tempo pudesse ser decomposto em instantes imóveis, a flecha estaria sempre em repouso. O movimento não pode nascer da soma de repousos.

Com espantosa sutileza, Zenão revela a contradição implícita na ideia de movimento: ele exigiria que o ser deixasse de ser o que é, algo que Parmênides declarara impossível. Nesse gesto, nasce a reflexão sobre o tempo como problema da consciência, questão que retornará em Agostinho, em Kant e, mais tarde, em Heidegger. Zenão inaugura a suspeita de que o tempo não seja um dado objetivo, mas uma relação paradoxal entre o ser e o pensar.

A tradição afirma que Parmênides e Zenão viajaram juntos a Atenas e encontraram Sócrates ainda jovem. Se o encontro ocorreu, foi um daqueles momentos que desviam o curso da filosofia. Em Parmênides, o ser fala sozinho; em Sócrates, a verdade começa a nascer entre os homens. O silêncio do ser cede lugar à palavra compartilhada. A filosofia deixa de ser apenas contemplação e torna-se diálogo, vida em comum.

Séculos depois, Aristóteles voltará seu olhar para Eleia com reverência. Na Metafísica, chamará Parmênides de “o primeiro que falou do ser enquanto ser”. Mas o discípulo amadurecido precisa ferir o pai para libertar o filho. Aristóteles compreende que, em nome da verdade, é preciso romper o círculo perfeito do mestre: deve-se amar os amigos, mas amar ainda mais a verdade.

Aristóteles não destrói Parmênides; ele o liberta. Ao distinguir ato e potência, substância e acidente, matéria e forma, reconcilia o ser imóvel com o vir a ser. O movimento retorna, não como ilusão, mas como expressão do ser em plenitude. O cosmos aristotélico nasce dessa mediação: um universo que muda sem se dissolver, que se transforma sem deixar de ser.

Assim, Aristóteles une Heráclito e Parmênides. O fogo do devir encontra o repouso do ser, e a realidade deixa de ser contradição para tornar-se harmonia de possibilidades.

Séculos depois, em Viena, Ludwig von Mises retomará essa reconciliação em outra linguagem. Se Parmênides afirmou “o ser é”, e Aristóteles dinamizou o ser, Mises acrescenta um terceiro termo decisivo: o homem age. A ação humana torna-se o ponto de encontro entre permanência e mudança.

A praxeologia, ciência da ação humana, é a herdeira moderna da ontologia. Como Parmênides, Mises parte de um axioma que não se demonstra, apenas se reconhece: o homem age. Mas, como Heráclito, reconhece o tempo como inseparável do real. Toda ação se orienta para o futuro; o presente é apenas o instante de transição entre o que foi e o que será.

A economia é, assim, uma ciência filosófica antes de ser empírica. Ela aplica o tempo ao ser. O juro, a preferência temporal e o cálculo econômico não medem o dinheiro em si, mas o valor que o homem atribui ao tempo de que dispõe.

O economista que ignora o tempo ignora o ser; o filósofo que ignora o agir ignora o devir. Mises une ambos e faz da economia a ciência do ser em movimento. A praxeologia torna-se, assim, a resposta moderna ao paradoxo de Zenão: o homem é a flecha que se move porque pensa, deseja e age no tempo.

Em Eleia, o ser foi pensado; em Éfeso, o devir foi sentido; em Viena, o agir foi compreendido. Da unidade entre permanência e mudança nasce, por fim, a ciência da ação humana. O que começou como poema da razão e cântico do fogo transforma-se em ciência e consciência. O ser e o tempo não se opõem, iluminam-se. Do silêncio da esfera emerge o diálogo do tempo, e nele a economia reencontra sua origem mais alta: a filosofia do ser em movimento.

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