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O perigo da “deflaçãofobia”

Nota da edição:

Este artigo é uma adaptação de uma palestra dada pelo professor Salerno no Supporters Summit do Mises Institute em outubro de 2025. No texto, o professor trata das falácias em relação ao que o mainstream econômico pensa sobre a deflação. 


Quero começar com uma confissão: eu adoro a queda de preços. Eu adoro a deflação. Eu quero que todos os preços caiam até cinco centavos.

Eu roubei essa frase de Murray Rothbard. Não é a inflação que devemos temer, mas o oposto — a deflaçãofobia, que é o medo da queda de preços. Devemos temer a deflaçãofobia porque ela leva a uma política monetária institucional muito perigosa: a meta de inflação.

Portanto, permitam-me começar com alguns fatos sobre a deflação.

No mundo de hoje, deflação é uma palavra que significa a queda geral dos preços, e eu a utilizarei nesse sentido, ainda que essa não seja realmente uma forma adequada de usar o termo deflação. O termo deveria ser usado exclusivamente para significar uma diminuição da oferta de moeda. A queda de preços é um resultado natural de uma economia capitalista que utiliza uma commodity determinada pelo mercado como moeda, como o ouro.

Deflaçãofobia refere-se a um distúrbio mental no qual muitas pessoas, especialmente economistas, temem a deflação porque acreditam que ela é prejudicial para a economia.

A deflação natural, ou o que eu chamo de deflação de crescimento, é causada por melhorias tecnológicas e pelo aumento do investimento em capital que introduzem novos produtos no mercado e reduzem o custo dos produtos já existentes. O resultado é um aumento na oferta tanto de bens novos quanto de bens já existentes na economia. Como a oferta de moeda sob o padrão-ouro cresce muito lentamente, o rápido aumento da oferta de bens empurra os preços progressivamente para baixo. A deflação natural (quando os preços estão caindo) se difunde em razão do aumento da oferta de bens e, desse modo, espalha os benefícios do crescimento econômico por toda a economia. Isso ocorre porque a queda dos preços aumenta o poder de compra de todos os salários, aluguéis, rendimentos de juros e pagamentos de aposentadoria, mesmo que seus valores nominais não se alterem.

A inflação monetária, por outro lado, impede a queda natural dos preços e desvia a maior parte dos bens adicionais para aqueles que recebem o novo dinheiro antes que a maioria dos preços tenha subido. Entre eles estão burocratas federais, contratantes do governo, grandes instituições financeiras e beneficiários de assistencialismo corporativo e individual. Todos esses grupos recebem a maior parte do saque, a maior parte dos novos bens que estão sendo produzidos em uma economia capitalista progressiva. Enquanto isso, pouco sobra para os trabalhadores produtivos e empreendedores que não recebem o novo dinheiro imediatamente.

A deflação, portanto, anda de mãos dadas com o crescimento econômico e com o aumento da renda e dos padrões de vida de maneira generalizada. Isso é ilustrado pela experiência dos Estados Unidos no século XIX. De 1819 a 1860, os preços gerais foram reduzidos pela metade. Eles caíram 53%.

E de 1870 a 1898, os preços caíram novamente, em quase outra metade. Durante esse período, os Estados Unidos tiveram sua maior década de crescimento, de quase 4%. Essa foi a década de 1880. E os Estados Unidos foram transformados de uma economia agrícola para uma economia industrial.

Durante esse período, os preços no atacado também caíram 34%. A cada ano, eles estavam caindo, em média, quase 2%. Os preços ao consumidor, em média, caíram 47%, quase 2,5% ao ano. O produto nacional bruto real, a produção total da economia, aumentou 4,5% a cada ano, e parte dos bens adicionais eram bens de capital. O restante eram bens de consumo. Assim, o consumo per capita aumentou 2,3% ao ano.

Mas não foi apenas durante o século XIX que a deflação foi benéfica. Os processos deflacionários também beneficiaram enormemente famílias e empresas sob o atual padrão do dólar fiduciário nas últimas décadas, embora seu funcionamento natural tenha sido parcialmente e deliberadamente sufocado pela política monetária inflacionária do Fed.

Permitam-me apresentar três exemplos: computadores, televisores e telefones celulares.

Considere um computador mainframe da IBM. Em 1961, o custo era de 2,9 milhões de dólares. Ele pesava 10,4 toneladas. Era necessário um cômodo inteiro para acomodá-lo. Hoje, um laptop é vendido, em média, por 500 a 1.000 dólares e é de 30.000 a trilhões de vezes mais rápido, com mais memória do que o mainframe da IBM. De 1980 a 1999, os preços dos computadores pessoais caíram 90%, e ainda assim o setor explodiu em crescimento. Em 1980, apenas 750.000 PCs foram enviados ao mercado. Em 1999, foram enviados 113 milhões e, em 2024, 407 milhões foram enviados.

Assim, os preços caíram, os lucros aumentaram, novas empresas entraram no mercado e a produção se expandiu enormemente, aumentando o poder de compra de nossos dólares em termos de computadores. O preço por megabyte de memória de computador era de 411 milhões de dólares em 1957. Esse valor rapidamente caiu para 5,2 milhões de dólares em 1960. Em 2014, era de um centavo por megabyte, e hoje é de dois décimos de centavo. Isso é excelente. Isso é maravilhoso. Eu não estava brincando quando disse que quero que todos os preços caiam para cinco centavos, talvez até menos.

Consideremos as televisões. Houve uma deflação contínua e, em todos os anos de 2000 a 2021, os preços caíram mais de 10% e chegaram a cair até 25%. De acordo com o Bureau of Labor Statistics, os preços das televisões são mais de 99% menores em 2025 do que em 1950, com uma taxa média de inflação de −6,56% ao ano. Televisões que custavam 1.000 dólares no ano de 1950 custariam 6,19 dólares em 2025, se ainda fosse possível encontrá-las.

Mesmo com os preços das televisões caindo todos os anos, o setor de televisões cresceu enormemente. Em 2002, as remessas globais estimadas totalizaram 150 milhões de unidades, com média de 27 polegadas. Esse número cresceu tremendamente apesar da queda dos preços, ou por causa da queda dos preços e dos custos, à medida que as pessoas compravam televisões em maior quantidade e de melhor qualidade. Em 2021, as remessas globais estimadas totalizaram 221 milhões de unidades, com média de 50 polegadas. Isso é o dobro do tamanho. Portanto, houve uma enorme melhoria na qualidade, bem como uma enorme queda nos preços.

E quanto aos preços dos telefones celulares? O Brick (também conhecido como DynaTAC), o primeiro telefone celular, produzido pela Motorola, custava 3.995 dólares. Os preços também caíram rapidamente. Em 1996, o novo Motorola StarTAC era vendido por 1.000 dólares. O iPhone foi introduzido em 2007 por 499 dólares, mas com apenas quatro gigabytes de armazenamento. Hoje, o recém-lançado iPhone 17 começa em 799 dólares e possui 256 gigabytes.

Lembre-se de que, no geral, a inflação entre 2000 e 2021 foi de 65,5%, e muitos setores experimentaram esse aumento. Os custos com creches aumentaram cerca de 112%; os serviços de cuidados médicos, 123%; os serviços hospitalares, 211%.

Ainda assim, as forças deflacionárias naturais de uma economia capitalista dinâmica continuaram em funcionamento e continuaram aumentando nosso poder de compra em relação a certos bens. Os serviços de telefonia celular caíram 40%; os softwares de computador, 72%;as televisões, 97%; os brinquedos, 73%.

Assim, você pode ver que a deflação ainda está em funcionamento. A economia capitalista é um motor que produz preços mais baixos e, ao fazê-lo, aumenta as rendas reais, pelo menos na medida em que não seja sobrecarregada por uma política monetária inflacionária.

Por que, então, os economistas temem a queda de preços? Sua análise da inflação e da deflação baseia-se em um conceito falso. Esse conceito é o chamado nível de preços. Não existe algo como um nível de preços. Existem apenas quantidades individuais de dinheiro e de bens sendo trocadas por duas partes específicas em momentos específicos no tempo.

Como Mises escreveu em Ação Humana, “Um preço de mercado é um fenômeno histórico real, a relação quantitativa na qual, em um lugar definido e em uma data definida, dois indivíduos trocaram quantidades definidas de dois bens definidos”.

Cada troca de mercado e cada preço é um evento histórico, assim como uma guerra, uma eleição política ou um jogo de futebol. Um economista não pode abstrair das características únicas de milhões de trocas de mercado e de preços individuais e então reunir todos os preços e calcular uma média que resulte em um único nível de preços.

Imagine um historiador que tentasse falar de uma guerra média ou de uma eleição média. Nós pensaríamos que ele enlouqueceu. Bem, o mesmo vale para um economista que fala de um nível de preços, que é uma média de todos esses diferentes preços.

Os economistas do mainstream baseiam a ideia de um nível de preços em uma analogia falsa e enganosa. Para eles, a inflação é como o nível da água subindo instantaneamente e proporcionalmente em um copo à medida que mais água, representando o dinheiro, é despejada, acabando por se estabilizar em um nível mais alto e uniforme.

Economistas austríacos — e um em particular que hoje está um tanto esquecido, Arthur Marget, um economista quase austríaco que escreveu nas décadas de 1930 e 1940 — propuseram uma analogia muito mais rica e precisa. A inflação é como um enxame de abelhas que sobe cada vez mais alto, enquanto as abelhas individuais e únicas sobem em momentos diferentes e mudam de posição umas em relação às outras.

Assim, quando novo dinheiro é injetado na economia, ele afeta os preços individuais passo a passo ao longo do tempo. Alguns preços sobem mais do que outros, e outros podem cair. Os preços mudam uns em relação aos outros, como as abelhas individuais em um enxame que se movem para cima e para baixo juntas.

Os preços de venda de algumas pessoas, incluindo seus salários e vencimentos, não sobem tanto ou não sobem imediatamente; eles aumentam apenas mais tarde no processo, porque o novo dinheiro não é gasto nos bens e serviços que elas ajudam a produzir e vender. Mas, nesse meio-tempo, os preços dos bens que elas compram podem estar subindo rapidamente, reduzindo assim o poder de compra de suas rendas.

Assim, a falsa analogia entre os preços reais e um abstrato nível de preços leva aos perigos da deflaçãofobia.

É a falácia do nível de preços que leva os economistas a temer a deflação e a promover a meta de inflação. Pois, se todos os preços e salários aumentassem de maneira uniforme e proporcional ao aumento da oferta de moeda, então a inflação seria inofensiva.

Se seus salários e suas rendas aumentam tão rapidamente quanto os preços aumentam, você não perdeu nada. As únicas pessoas que podem ser prejudicadas nesse processo são aquelas que cobraram uma taxa de juros sobre seus empréstimos e não anteciparam o aumento da inflação. A deflação [segundo a teoria mainstream], em contraste, acaba sendo prejudicial e possivelmente devastadora para a economia. Isso porque, uma vez que os preços e especialmente as taxas salariais tenham atingido um certo nível, eles se tornam rígidos ou até mesmo congelados. Assim, em vez de os preços e os salários caírem, o emprego e a produção diminuem, e ocorre uma recessão ou depressão. É como se a água no copo congelasse como gelo em seu nível atual. E qualquer tentativa de reduzir esse nível apenas racharia ou quebraria o copo, o que é a analogia para depressão ou recessão.

Assim, a deflaçãofobia é realmente um distúrbio mental dos economistas que são enganados por uma analogia falsa e não conseguem compreender a verdadeira natureza e função de uma deflação natural em uma economia capitalista progressiva.

O perigo real e presente para a nossa economia hoje é o apoio dos economistas à meta de inflação, que é uma política de expandir deliberadamente a oferta de moeda e reduzir o valor do dólar para evitar a deflação a todo custo.

Como Mises apontou há muitos anos, “política monetária” é simplesmente um código para inflação. A política monetária tem como objetivo reduzir o poder de compra do seu dólar em relação ao que ele teria em uma economia capitalista. E a deflaçãofobia parece ser uma doença progressiva, pois alguns economistas proeminentes agora estão defendendo um aumento da taxa de inflação de 2% para 4% ao ano.

Se a inflação fosse de 4% ao ano durante 10 anos, os preços seriam 50% mais altos, e o dólar compraria apenas o equivalente a 67 centavos em bens em comparação com o que compra hoje. Em 20 anos, os preços seriam 119% mais altos. Eles mais do que dobrariam. E o dólar compraria apenas 45% dos bens que pode comprar hoje.

Permitam-me encerrar com um artigo do Wall Street Journal publicado no ano passado, com o título “Americans Really, Really Hate Inflation—and That’s a Big Problem for the Fed” [Americanos realmente odeiam a inflação — e esse é um grande problema para o Fed, em tradução livre] .

Eu penso que sim. O artigo prossegue citando alguns economistas proeminentes que apoiam uma meta de inflação mais alta, mas que se desesperam com a possibilidade de o Fed alguma vez implementá-la, porque o público americano a odiaria.

O texto cita alguns dos economistas que falam, com certo saudosismo, sobre como seria ótimo se pudéssemos elevar a meta de inflação para 4% ou 5%, porque então o Fed teria mais margem para reduzir a taxa de juros quando tivermos uma recessão ou depressão.

Mas um economista, Jón Steinsson — que antes apoiava uma meta de inflação mais alta e que, relutantemente, recuou dessa posição — admitiu: “Acho que devemos ser humildes. Pode muito bem ser que as pessoas realmente não devam odiar a inflação tanto quanto odeiam por alguma razão que é boa e válida. É muito plausível que nós, como área de estudo, não tenhamos realmente tido muito sucesso em modelar e articular esses custos”.

Você acha? Mises modelou e articulou esses custos muitos e muitos anos atrás ao mostrar que a inflação afeta a economia passo a passo e que os preços mudam uns em relação aos outros. Algumas pessoas se beneficiam, aquelas que recebem o novo dinheiro primeiro, e outras pessoas são prejudicadas.

Para concluir, a deflação natural é a marca distintiva de uma economia capitalista dinâmica que produz uma gama cada vez maior de bens em quantidades cada vez maiores. Ela recompensa aqueles que participam dessa produção com maiores rendas reais e padrões de vida mais elevados, como vimos com computadores, TVs e telefones celulares. O medo da deflação leva à “política monetária”, que é simplesmente um código para elevar deliberadamente os preços e reduzir o poder de compra do nosso dólar.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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