Nota da edição:
Este artigo é a publicação do segundo capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.
Confira também o primeiro capítulo
“De onde as coisas têm sua origem, para lá também retornam segundo a necessidade, pois pagam umas às outras a pena e a reparação da injustiça, conforme a ordem do tempo.”
— Anaximandro,FragmentoDK 12 B1(segundo Simplício)
Anaximandro, discípulo e sucessor de Tales, elevou a intuição milésia a um grau de audácia raro. Se o mestre buscara o princípio num elemento sensível, a água, o discípulo o procurou no invisível, no ilimitado, no infinito, no ápeiron. Com ele, a filosofia deixa de ser apenas cosmologia fundada na observação e torna-se investigação do ser enquanto tal. O princípio já não é algo que se vê, mas algo que se concebe.
Viveu em Mileto, provavelmente nas décadas centrais do século VI a.C. De seus escritos, restou apenas uma sentença, transmitida por Simplício, ainda assim suficiente para revelar o alcance de seu pensamento:
“De onde as coisas provêm, para lá devem também perecer, conforme a necessidade; pois umas às outras pagam o preço e a reparação da injustiça, segundo a ordem do tempo.”
Nesse fragmento, a origem do cosmos já não é sensível. Trata-se de uma fonte ilimitada que engendra e recolhe, um ritmo de justiça que governa a alternância do devir.
O ápeiron significa literalmente aquilo que não tem limite nem fronteira, o infinito. É também o que não possui forma determinada, o que não se deixa reduzir à medida. Ao identificar a arché com o ilimitado, Anaximandro realiza um salto intelectual decisivo em relação a Tales. O princípio já não é uma substância, mas uma realidade indeterminada que torna possíveis todas as substâncias. O fundamento, assim, não é um ente, mas a condição de todos os entes.
Seu raciocínio nasce da atenção rigorosa às oposições que estruturam a experiência: quente e frio, seco e úmido, leve e pesado, terra e água, ar e fogo. Cada coisa subsiste apenas enquanto mantém um equilíbrio provisório entre forças contrárias. Se o todo se apresenta como um jogo ordenado de opostos, sua origem não pode pertencer a um dos polos. Deve situar-se além deles, como princípio que simultaneamente os possibilita e regula. O universo depende, assim, de um contrário absoluto, o ilimitado, que não se esgota em forma alguma e a todas sustenta.
A sentença conservada por Simplício confere a esse quadro uma dimensão temporal e ética. As coisas devolvem à ordem o preço de sua existência passageira fora do equilíbrio primordial. O tempo restitui, por necessidade, aquilo que ultrapassou a medida. Não se trata de moralizar a natureza, mas de reconhecer que o próprio devir contém uma ordem de justiça, um equilíbrio incessante que corrige excessos e recompõe a harmonia.
À primeira vista, tal concepção poderia parecer fruto de imaginação sem chão. Contudo, ela responde a uma experiência comum aos milésios, o mundo do comércio e da navegação, no qual os horizontes não se encerram em limites fixos, mas se dissolvem em linhas móveis. Aquilo que em Tales ainda era percepção sensível da água e do fluxo converte-se, em Anaximandro, em abstração rigorosa. Não o rio, mas a fonte sem margens. Não a substância, mas a condição de toda substância.
A tradição atribui ainda a Anaximandro um gesto inaugural no campo da representação, o primeiro mapa do ecúmeno. Traçar um mapa é ordenar a multiplicidade numa forma inteligível, converter o espaço em figura. Há nisso uma afinidade profunda com seu pensamento. O mapa do visível espelha a tentativa de cartografar o ser, desenhando com linhas finitas aquilo que procede do ilimitado. Por isso, Anaximandro é considerado o primeiro cartógrafo da civilização ocidental, ainda que o seu “mapa” deva ser entendido não como instrumento geográfico moderno, mas como representação simbólica e cosmológica do mundo habitado.
Comparado a Tales, Anaximandro é menos físico e mais metafísico, mais abstrato e menos conciliador. Sua noção de infinito atravessará séculos. Ela serve de pano de fundo às reflexões platônicas sobre o Uno e a Díade, à concepção aristotélica de matéria e potência, e às leituras neoplatônicas do ilimitado como plenitude primeira. Em tempos modernos, ressoará na ideia do ser como abertura e do tempo como horizonte no qual o ser simultaneamente se manifesta e se retira.
O ápeiron pode ser lido, com proveito, como a antecâmara de toda estrutura anterior à experiência. Ele não é objeto empírico, mas condição. Sem ele, não haveria geração nem corrupção, nem ordem inteligível no jogo dos contrários. Nesse sentido, o salto de Anaximandro funda a própria possibilidade do pensamento sistemático, ao afirmar que a inteligibilidade do real depende de um princípio que não se deixa observar, apenas reconhecer como necessário.
Assim, Anaximandro não apenas sucede Tales; ele o ultrapassa. Onde o mestre percebeu um elemento vital comum a todas as coisas, o discípulo intuiu o campo ilimitado que torna todas as coisas possíveis. O progresso do pensamento milésio é evidente: do sensível ao inteligível, do elemento à condição, da água ao infinito. E é nessa passagem, bela e silenciosa, que a filosofia descobre a sua própria voz. Pensar é ir além dos limites, sem perder de vista que todo limite aponta, por contraste, para aquilo que o transcende.