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O centenário de uma lenda

O ano de 2026 marca o centenário de uma das principais figuras da história do movimento libertário. Murray Rothbard nasceu em 2 de março de 1926, em Nova York, filho único de pais imigrantes judeus.

Rothbard se descrevia como sendo “um direitista e anticomunista convicto desde o principio”, mesmo crescendo em um ambiente novaiorquino de classe média, onde seu círculo social, composto por familiares, vizinhos e amigos, era quase que exclusivamente formado por comunistas ou simpatizantes comunistas, com seu pai sendo a única exceção.

Foi de seus pais que Rothbard herdou o amor pela leitura e a busca pelo conhecimento, algo que rendeu excelentes frutos para os campos da economia, filosofia, política e história, entre outras áreas nas quais se aventurou e para as quais contribuiu com sua visão única. Seu volume de produção era avassalador: publicou 30 livros completos, cerca de 100 capítulos e mais de 1.000 artigos — acadêmicos e populares — sobre os mais variados temas. Tudo isso antes de sua morte precoce, aos 69 anos de idade.

Sua formação primária foi em economia e, como discípulo de Ludwig von Mises, Rothbard expandiu a teoria dos ciclos econômicos e desenvolveu diversas pesquisas em história econômica aplicando a teoria austríaca. Como um bom economista, percebeu cedo que o domínio da teoria econômica pura não era o bastante. Era necessário explorar problemas relacionados e fundamentais da filosofia, da teoria política e da história.

O que distingue sua trajetória é algo mais raro: sua intransigência intelectual. Em um ambiente acadêmico cada vez mais moldado por incentivos políticos e pela busca por respeitabilidade institucional, Rothbard recusou-se a suavizar suas conclusões. Não aceitou comprometer seus princípios. No dia a dia, compromissos são necessários; mas, na busca pela verdade, compromissos não podem ser aceitos.

Por causa dessa postura, ele jamais ocupou as posições de prestígio que seu gênio justificaria. Não acumulou fortuna. Não recebeu os grandes prêmios que instituições supostamente dedicadas ao livre mercado distribuíam generosamente a reformistas moderados. Não foi agraciado com homenagens proporcionais à magnitude de sua obra.

Ainda assim, permaneceu alegre. Todos os que conviveram com ele o descreveram como uma pessoa leve e feliz. Rothbard podia ser devastador em seus textos, implacável na crítica, cirúrgico na lógica. Mas, na vida privada, era espirituoso, generoso, afável, quase sempre bem-humorado. Não demonstrava ressentimento nem nutria inveja.

Por uma espécie de justiça histórica, mesmo nunca tendo sido recompensado financeiramente à altura de suas contribuições, seu legado vive forte e sua obra é mais influente do que nunca. A força de suas ideias no debate público mostra-se mais relevante do que a de acadêmicos prestigiados de sua época, e instituições como o Mises Institute e o Instituto Mises Brasil trabalham para manter seu legado vivo.

Pensando nisso, o Instituto Mises Brasil lançou um ebook em homenagem a seu centenário. Ele conta com uma coletânea de ensaios escritos por Rothbard em distintos momentos de sua vida.

Iniciamos com reflexões sobre as origens do pensamento e seus fundamentos teóricos, com os artigos “O igualitarismo é uma revolta contra a natureza” e “O mito de Adam Smith”, que localizam, respectivamente, as raízes do individualismo na natureza humana e as raízes históricas das teorias econômicas de livre mercado.

Em seguida, avançamos para temas centrais da economia, como moeda, inflação e ciclos econômicos, trazendo os artigos “O sistema bancário de reservas fracionárias”, “Os efeitos econômicos da inflação” e “O governo não pode gerenciar empresas eficientemente”. Esses textos explicam o lado mais técnico das interferências governamentais na economia e suas trágicas consequências, demonstrando como distorções monetárias e institucionais produzem efeitos profundos e muitas vezes invisíveis sobre a sociedade.

Por fim, encerramos com análises mais diretamente políticas, nas quais as implicações práticas de suas ideias se tornam tangíveis. Aqui reunimos os artigos “Nações por consentimento” e “O mito do socialismo democrático”, nos quais Rothbard discorre sobre secessionismo, legitimidade estatal e os equívocos morais e institucionais do socialismo moderno. Nesses textos, economia, ética e teoria do Estado convergem, revelando a coerência interna de seu pensamento e sua permanente atualidade.

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