Voltar

A economia é a filosofia da tolerância

O
mundo é repleto de esnobes.  Há o esnobe
da música, que é aquela pessoa que reclama que a maioria das pessoas prefere
Lady Gaga a Stravinsky.  Há o esnobe do
cinema, que reclama que a maioria das pessoas prefere filmes de ação a filmes
de arte.  Há o esnobe da literatura, que
reclama que a maioria das pessoas prefere 50
Tons de Cinza
a Schopenhauer.  E há o
esnobe da culinária, que reclama que a maioria das pessoas prefere pizza a um
fino sashimi. 

Ou
seja, qualquer que seja o assunto debatido, é tentador fazer um julgamento
crítico sobre a preferência dos outros.

O
bom economista, ao aprender economia e ao absorver suas lições, aprende a ser
menos esnobe.  Sua análise econômica
sempre parte do princípio de que as preferências das pessoas já estão por elas
determinadas, e que ele nada pode fazer quanto a isso.  O bom economista, ao testemunhar uma pessoa
pedindo pizza em vez de sashimi, vê apenas uma pessoa agindo com o intuito de
alcançar um objetivo que ela, subjetivamente, considera ser o melhor.  O bom economista é aquele que sabe deixar de
lado suas preferências pessoais e suas eventuais propensões à soberba para
fazer uma análise sem juízo de valor. 

Mesmo
termos corriqueiros como “responsável” ou “irresponsável” estão carregados de
juízo de valor.  Atividades que
reconhecemos como responsáveis, tais como poupar para a aposentadoria, evitar
riscos para a vida ou para os membros do corpo, e ter um estilo de vida
saudável são comportamentos consistentes com um arranjo específico de
preferências.  Uma pessoa que dê mais
valor ao futuro do que ao presente (em termos mais economicistas, alguém que
possui uma baixa preferência temporal) irá preferir todos esses
comportamentos. 


atividades que reconhecemos como irresponsáveis, tais como gastar perdulária e
depravadamente, correr risco de morte desnecessariamente, comer porcarias e
utilizar drogas também são comportamentos consistentes com um arranjo
específico de preferências.  Uma pessoa
que pensa mais no presente e pouco se importa com o futuro (em termos mais
economicistas, alguém que possui uma alta preferência temporal) será atraída
por algumas dessas atividades.

A
ciência econômica nos permite entender essas diferentes preferências e suas consequências;
mas, por si só, ela não nos permite fazer juízo de valor; ela não nos permite
determinar se um determinado arranjo de preferências é superior a outro.

A
ciência econômica não faz juízo de valor. 
Seu objetivo é explicar fenômenos, suas causas e consequências.  E só. 
Juízo de valor é tarefa para a filosofia.

É
bastante comum vermos um profissional bem-sucedido fazer um juízo crítico a
respeito de familiares ou amigos que preferiram fazer farra em vez estudar e
que por isso hoje ganham menos do que ele. 
Porém, ao fazer tal juízo, esse profissional está cometendo o erro de
interpretar as ações dessas pessoas tomando por base suas próprias
preferências.  Fazer farra certamente
seria um meio ruim para se alcançar o almejado objetivo do sucesso profissional,
mas isso não significa que fazer farra foi a escolha errada para aqueles que
optaram por isso. 

Com
efeito, dado que cada indivíduo está mais bem informado sobre seus próprios
gostos e interesses do que terceiros, é perfeitamente factível crer que alguém
que escolha a farra está agindo com a intenção de satisfazer da melhor maneira
possível seus fins.

O
bom economista, ao estar treinado para observar as ações de terceiros sem fazer
juízos de valor, acaba sendo mais tolerante em sua vida pessoas.  Recentemente, o economista Russ Roberts disse
gostar de “dar dinheiro para os miseráveis principalmente quando sabe que eles
irão gastar esse dinheiro com drogas e álcool. 
Afinal, quando você está desesperadoramente miserável, drogas e álcool
podem ser exatamente aquilo que você mais quer”.  Creio ser seguro presumir que Roberts, um
economista com Ph.D., jamais esteve em um situação tão desesperadora quanto
essa.  E, ainda assim, ele demonstra seu
respeito pela autonomia dessas pessoas e também pela capacidade delas de
escolher por si próprias.  Ao agir assim,
ele demonstra não se preocupar com o conteúdo das escolhas dessas pessoas.  O que ele realmente não está fazendo é projetar sobre elas suas próprias preferências.


uma corrente da economia moderna que quer reintroduzir o juízo de valor a
respeito das preferências de terceiros. 
Essa corrente é derivada da economia behaviorista, a qual tem o objetivo de mostrar que as pessoas
não se comportam “racionalmente” (no sentido neoclássico) ao buscarem seus
objetivos.  Segundo essa corrente, as
pessoas são impulsionadas por vários erros, influências e propensões.

Armado
com as ferramentas de economia behaviorista, aquele nosso profissional
bem-sucedido poderia alegar que seus amigos e familiares menos responsáveis
foram, na realidade, vítimas de influências. 
Ou seja, quando eles optaram por farrear em vez de estudar, eles não
estavam verdadeiramente agindo com o intuito de alcançar, da melhor maneira
possível, seus objetivos.  Eles estavam
agindo de uma maneira consistente com suas preferências daquele momento, mas
não estavam atuando de maneira consistente com sua “verdadeira” preferência,
que seria aquela que os intelectuais seguidores da economia behaviorista estipularam ser a melhor.

O
erro fundamental desse raciocínio behaviorista
é fácil de ser percebido, mas só é percebido pelo economista bem treinado: não
há nenhuma base teórica para definir qual comportamento representa os
‘verdadeiros’ melhores interesses de cada indivíduo. 

Se
um indivíduo possui vários arranjos de preferências inconsistentes, como seria possível
afirmar que um arranjo específico é o “verdadeiro” e que todos os outros são
“falsos”?   É fácil deixar que nossas
preferências influenciem nosso julgamento. 
O profissional bem-sucedido acredita que estudar em vez de farrear seria
a preferência verdadeira simplesmente porque ele prefere estudar a
farrear.  O intelectual que preza a saúde
acredita que sua preferência por salada em vez de batatas chips é a preferência
verdadeira, e por isso ele faz campanha para que as pessoas comam menos batata
chips e mais saladas.

O
bom economista deve saber resistir à tentação de inserir suas propensões e
preferências em suas análises econômicas. 
A tolerância criada por essa maneira de pensar é um valioso efeito
colateral do estudo da ciência econômica. 
Ela anda de mãos dadas com a noção de que o economista é um tanto um
estudioso quanto um observador neutro da sociedade, e não um mecânico ou
médico.  É agindo assim que os bons
economistas poderão, um dia, neutralizar aqueles totalitários que querem
dominar e impor sua visão de mundo sobre todas as outras pessoas.

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

30 comentários em “A economia é a filosofia da tolerância”

  1. E qual o propósito de escrever um artigo sobre o modelo anarcocapitalista se não fazer um julgamento de valor para com a sociedade atual?

    Ps: Vale a pena ressaltar que não compadeço com nenhum modelo político, muito menos os de esquerda, minha dúvida em cima é apenas para enfatizar o real objetivo da tolerância e até onde podemos ser tolerantes, principalmente com sociedades que escolhem modelos totalitários e opressores, devemos assumir um papel de refém ou batermos de frente?

  2. Estou cada vez mais fascinado pela organização mises. Sempre tive essa ideia de que as pessoas devem fazer suas escolhas, e ninguém deveria nos julgar por isso, visto que a vida é passageira e devemos usufrui-la como quisermos.
    Esse artigo deveria ser lido por todas as pessoas.

  3. Folheando um livro chamado ‘ economia nua e crua’, o autor alega que um dos motivos para existir o estado é que os individuos muitas vezes não são capazes de tomar a melhor decisão para si.

    obvio que abominei uma coisa dessa e não comprei o livro.

  4. Só uma sugestão: já ouvi várias pessoas falando da “crise” no Japão para dar suporte a ideia de que existe uma ampla crise global a qual está afetando negativamente o Brasil. Sei que é balela, mas peço que escrevam um artigo explicando a situação deles e comparando à nossa, e inclusive dando alguma sugestão de como eles (e também nós) devem proceder para sair desta crise.

  5. Existe uma idade em que as pessoas recebem o dom da autonomia com o toque da varinha da fada ou até mesmo crianças devem tomar suas decisões (de usar drogas ou outras piores) sem serem importunadas por um “moralismo” de tiranos que querem impor sua visão de mundo?

  6. Emerson Luis, um Psicologo

    Ouvi dizer que na foto há dois hambúrgueres, é verdade?
    _________

    Neutralidade e respeito à autonomia dos outros não significa não compartilhar fatos e análises com eles. Por exemplo, se alguém continuamente gastar mais do que recebe, vai acumular dívida; se poupar de forma sistemática, formará capital. Expor axiomas não é impor decisões.

    “É bastante comum vermos um profissional bem-sucedido fazer um juízo crítico a respeito de familiares ou amigos que preferiram fazer farra em vez estudar e que por isso hoje ganham menos do que ele.”

    Sim. E também é bastante comum familiares ou amigos que preferiram fazer farra em vez estudar fazerem juízos de valor a respeito do profissional bem-sucedido: “sortudo”, “inteligente” (em sentido pejorativo), “avarento”, “inescrupuloso”, “egoísta”, “arrogante”, “materialista”, etc.

    Muitos só querem o bônus de suas decisões, não o ônus.

    * * *

  7. Em economia fica claro, mas em política o sistema da permissão ao político se intrometer nesta discussão já que são eleitos para escolher as leis e não tem no Brasil uma constituição que limite seus poderes.

    O que voces pensam, devemos rejeitar as proibições que tentam regulamentar o uso/consumo/exposição de produtos “nocivos” porque limita a liberdade dos individuos de escolherem, ou porque não temos como saber qual é a melhor escolha para a outra pessoa nesse momento?. Qual sería a essência do limite do legislador?

    No caso da comida tipo “morte lenta” no Brasil é mais barato, rápido de comer, e é gostoso. Impostos sobre estes itens afetam os mais pobres que deverão passar a pagar mais pela comida, então fica evidente que por mais que achemos que faz mal, proibir prejudica os pobres. Mas também prejudica o mais educado, saudável e sofisticado que tem vontade de comer um cachorro quente, sabendo que um de vez em quando não irá afetar sua saúde.
    Nestes dois casos, podemos afirmar que uma proibição sería um erro, ja que não temos como obrigar a outras pessoas a escolher como nós faríamos sem prejudicar ela, seja economicamente ou seja no prazer, nas escolhas racionais que as pessoas fazem.

    Mas o argumento dos defensores das regulamentações é que tem pessoas que “não tem liberdade”, já que não possuem a informação, o conhecimento, a cultura, para sair da situação de pobreza na qual se encontram. Especialmente pobreza intelectual, e que a sociedade não pode deixar estas pessoas se autodestruam. Então se for proibido ou se pagar muito imposto, a pessoa terá mais dificuldade em ter acceso a um produto que é prejudicial para a saúde. Eles acham que só as politicas pro-ativas podem tirar as pessoas da “corrida dos ratos”, de pobres geração traz geração.

    Embora o argumento seja intolerante, falacioso e arrogante, ele é forte já que sensibiliza muitas pessoas que querem o bem ao próximo. Argumentar a estas pessoas que a liberdade é mais importante para a sociedade que a falta dela, sem mostrar que a alternativa (falta de liberdade) é pior fica difícil. Não cae bem dizer “melhor a liberdade e que cada um escolha seu caminho e quem escolhe errado que pague as conseqüências”. Acho que o argumento alternativo é que as pessoas precisam liberdade para ficar mais espertas, e que quando o governo “escolhe” por nos nos deixa burras, e foi esse um dos legados do comunismo. Na abertura ao capitalismo existiram muitos golpes econômicos nas sociedades do leste europeu antes comunistas.

    Voltando à pergunta inicial, deve se defender o principio (liberdade) ou a consequencia? Eu acho que o principio é mais importante, mas geralmente terminamos defendendo as consequencias, como fiz nos exemplos.

  8. Não tem nada de ‘esnobe’ nisso. Contanto que não imponha nada qualquer um tem o direito de ter a opinião que quiser. O sujeito que odeia o funk do cu de cabeça pra baixo é tão esnobe quanto o autor desse artigo.

  9. Ótimo artigo!

    Como o própio texto diz, ficamos tentados a proferir nossos valores sobre os outros.
    Mas o melhor que se faz e respeitar, até mesmo as escolhas mais duvidosas.

    Att.

  10. Senhores, por favor, me respondam uma dúvida. Acredito ser a última dúvida que tenho sobre o anarcocapitalismo.

    Em uma sociedade anarcocapitalista, como seria combatida a pedofilia que os pais praticam contra os próprios filhos? Quais mecanismos de incentivos iriam coibir essa prática?

    Obrigado pela atenção.

  11. Entendem que tudo o que a sociedade pode fazer neste particular é proporcionar um ambiente que não coloque obstáculosinsuperáveis no caminho dosgênios e libere suficientemente o homem comum de preocupações materiais para que possa interessarse por outras coisas além de simplesmente ganhar sua subsistência. No seu entender, o melhor meio de tornar o homem mais humano é combater a pobreza. A sabedoria, as ciências e as artes florescem
    melhor num mundo de abundância do que num mundo de pobreza.

    Realmente muito bom e aprazível o artigo. Eu gosto muito de economia, mas definimente não ia dar certo eu me enveredar por esse caminho – não que eu cogitasse isso -, e o artigo mostra pelo menos uma razão. Eu já tenho que obedecer a filosofias que estão intimamente ligadas ao meu poder de escolha, ou melhor dizendo, que exigem que eu gaste grande parte da minha capacidade de auto-controle. Principalmente no que diz respeito à tolerância, que acaba sendo recurso compulsoriamente bastamte exaurido ao longo de um dia. E como este é um mundo de escassez, não me sobram recursos para mais nenhuma filosofia e portanto eu não seria uma boa economista.

    Aliás, o título do artigo bem que poderia ter sido “O Bom Economista Vive a Filosofia da Tolerância”. A economia é uma ciência, mas sua avaliação, e consequentemente a forma como vai ser utilizada, está sujeita á interpretação de seu observador. É o economista que tem que fazer a escolha de não impor suas preferências na hora de fazer uma análise. Mas o pior mesmo é que tem uns que se valem da formação acadêmica para sair dizendo o que tem ou o que não tem que ser feito, como se fossem os portadores do conhecimento do que é melhor para a economia. A parte filosófica não está submetida à ciência. Por isso, vamos diferenciar e valorizar quem merece, que é o bom economista que faz escolha de suprimir sua própria opinião e não impor a sua visão de mundo.

    Grande abraço

  12. Primeiramente, que delícia aquela foto! É basicamente minha fantasia!

    “Segundamente”, ótimo texto e nem precisa focar em economia ou economistas, um grande problema que vejo no cotidiano é essa espantosa necessidade das pessoas de achar que alguém (ou um grupinho) devem mandar em todos e aprovar cada mínimo aspecto da vida dos OUTROS seres humanos. Realmente esse posicionamento mais neutro e observador como colocado no texto, trás consigo um benéfico efeito colateral: a tolerância e civilidade.
    Sou obviamente muito suspeito pq vivo minha vida como poucas pessoas vivem, por um lado sempre trabalhei e poupo mais de metade do meu salário (o que outros chamariam de algo “bom”) mas do resto pago as contas básicas para me manter e torro tudo que sobra em trago e putas (o que outros chamariam de “ruim” hehehehe).

Rolar para cima