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A inveja é a raíz de muitos males modernos

Universalmente condenada, a inveja é, ainda assim, amplamente praticada.

Desgostar de uma pessoa por causa da cor de sua pele é racismo. Desprezar alguém por sua orientação homossexual é homofobia. Tratar alguém com desdém por razões de gênero é sexismo. Olhar com reprovação para pessoas por causa de sua origem estrangeira é xenofobia. Tais manifestações de intolerância, para alguém que preza pela paz, pela tolerância e pela razão, são vergonhosas e indefensáveis.

Por quê?

Cor, sexo, orientação sexual e origem nacional nada têm a ver com o conteúdo do caráter de uma pessoa. Essa é uma razão.

Outra é que os seres humanos não são uma massa indistinta; cada indivíduo é único. Se alguém deve ser julgado, deve sê-lo por suas escolhas e por seu comportamento — isto é, por seus próprios pecados e virtudes, e não pelos pecados ou virtudes de outros que apenas compartilham alguma semelhança acidental com ele.

Uma terceira razão é que apontar o dedo desvia a atenção do aperfeiçoamento pessoal. Procurar bodes expiatórios não é um caminho para a realização, seja para indivíduos, seja para nações. É o que os perdedores fazem.

Um bode expiatório politicamente aceitável

Mas suponha que você despreze e procure punir toda uma classe de pessoas simplesmente porque elas são ricas ou bem-sucedidas. Isso é preconceito ou é a base de uma campanha política? Infelizmente, é as duas coisas. Com frequência.

Logo atrás de Donald Trump, um indivíduo específico cujos pecados e virtudes podemos, em grande medida, identificar e pelos quais podemos responsabilizá-lo, o principal saco de pancadas de cada temporada política são “os ricos”. Eles são demonizados de maneira repetitiva por candidatos que disputam seu voto e sua afeição, contando com sua ignorância e sua miopia.

Seria ao mesmo tempo impopular e estúpido expressar antipatia pelos “pobres” enquanto grupo de renda. Todos sabemos que entre os pobres há tanto pessoas boas quanto pessoas más. Alguns são pobres por razões em grande parte alheias à própria vontade e possuem forte caráter pessoal. Outros são pobres em razão de más escolhas e de comportamentos deploráveis, enraizados em um caráter deteriorado. Naturalmente, queremos distinguir essas situações e formular nossos julgamentos e reações de acordo com isso.

Ouça com atenção os “debates” presidenciais e você perceberá facilmente uma perspectiva muito diferente em relação aos ricos. O preconceito de renda está em plena e orgulhosa exibição. Os candidatos não definem com precisão quem são “os ricos”, mas esperam que você acredite que você não faz parte desse grupo. Você deve ser a vítima dos ricos para que o político possa ser o seu salvador. O demagogo não diz que pretende separar os ricos bons dos ricos maus e tratá-los de forma diferente. Ele quer atacar todos eles, simplesmente por serem ricos.

Você pode ser rico porque roubou algo ou usou suas conexões políticas para obter favores especiais; ou pode ser rico como a maioria dos ricos, isto é, porque criou e construiu algo; trabalhou muito, com esforço e inteligência, para conquistar o que tem; agregou enorme valor à sociedade; investiu recursos de maneira sábia; ou simplesmente entreteve 50.000 clientes felizes que te pagaram inúmeras vezes em shows. Não importa qual seja o caso.

Quando o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, declara com fogo nos olhos que vai “arrancar dos ricos o máximo possível de impostos”, ele se refere a todos eles. Seus concorrentes, assim como amplas parcelas do público, aplaudem devido à satisfação perversa que extraem apenas de imaginar a punição. Sugira que “arrancar o máximo possível de impostos” de qualquer pessoa pode ser contraproducente para a filantropia, a criação de empregos ou o crescimento econômico, e você rapidamente se tornará o estraga-prazeres da festa, porque o que importa é a punição, não os resultados.

A inveja é a raiz

Bem-vindo ao mundo feio da inveja, definida pelo filósofo Immanuel Kant como:

“(…) uma propensão a encarar o bem-estar dos outros com aflição, ainda que isso não diminua o nosso próprio. [Ela é] uma relutância em ver o nosso próprio bem-estar ofuscado pelo do outro, porque o padrão que usamos para avaliar o quão bem estamos não é o valor intrínseco do nosso próprio bem-estar, mas a forma como ele se compara ao dos demais. [Ela] visa, ao menos no plano dos desejos, à destruição da boa sorte alheia”.

A inveja é quase tão antiga quanto o próprio mundo. Foi o motivo que levou Caim a matar Abel. O professor Paul Fairfield, da Queen’s University, em Ontário, descreve-a como uma animosidade “que corrói a pessoa de dentro para fora e que se esconde atrás de uma moralidade duvidosa”. Ela se manifesta em diversos níveis.

A versão menos nociva, por exemplo, ocorre quando você passa a contar as bênçãos do outro em vez das suas próprias, mas tenta alcançá-las de maneira pacífica, por meio da troca ou da imitação das decisões dos bem-sucedidos. Uma forma mais maliciosa assume o seguinte aspecto: você despreza alguém por quem ele é ou pelo que possui e sente prazer pessoal em puni-lo por isso, na esperança de obter algum benefício. Talvez você acabe ficando com parte do que é dele ou alcance poder ao vilipendiá-lo.

O pior tipo de inveja aparece quando você age para garantir que ninguém jamais possa possuir aquilo que a pessoa bem-sucedida tem, porque acredita que igualdade na miséria é mais virtuosa do que a desigualdade, ponto final.

Talvez o melhor livro do século XX sobre o tema seja Inveja: Uma Teoria do Comportamento Social, do sociólogo austro-alemão Helmut Schoeck, publicado no final da década de 1960. Schoeck observou que “invocar ‘motivações humanitárias’ quando o verdadeiro motivo é a inveja e seu suposto apaziguamento é um recurso retórico favorito dos políticos”.

Trata-se de uma tática que os políticos vêm utilizando há séculos — evidenciada de forma profunda pelo menos desde as tristes décadas finais da antiga República Romana. Não conheço nenhum momento da história em que o incentivo ou a prática generalizada da inveja tenha produzido algo além de um mau resultado.

Por boas razões, a inveja é considerada um dos sete pecados capitais. Ela não constrói nada além de poder estatal concentrado; destrói tudo, desde o objeto da inveja (por exemplo, os ricos) até as próprias almas dos invejosos.

A inveja apodrece os ossos

Você não precisa confiar apenas na minha palavra. Há vários milhares de anos, o décimo dos Dez Mandamentos já alertava contra o parente próximo da inveja, a cobiça. Muitas passagens bíblicas, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, advertem contra isso, incluindo Provérbios 14:30 (“Um coração em paz dá vida ao corpo, mas a inveja apodrece os ossos”) e Eclesiástico 30:24 (“A inveja e a ira encurtam a vida”).

O que segue é uma amostra representativa da sabedoria histórica sobre o tema ao longo dos séculos.

O filósofo grego pré-socrático Demócrito observou que uma sociedade livre e pacífica buscaria ativamente desencorajar a inveja:

“As leis não impediriam que cada homem vivesse de acordo com sua inclinação, a menos que os indivíduos se prejudicassem mutuamente; pois a inveja dá origem ao início da discórdia”.

Sêneca, o Jovem, foi um proeminente pensador estóico e estadista romano do século I d.C. Ele tinha plena consciência de que a inveja desempenhou um papel central no colapso da República no século anterior:

“É prática da multidão latir contra homens eminentes, assim como cães pequenos fazem com estranhos”.

Segundo São Tomás de Aquino, no século XIII, a inveja gera uma luta interna em três estágios. No primeiro, a pessoa invejosa tenta difamar a reputação de outra; no segundo, o invejoso experimenta ou “alegria com o infortúnio alheio” (se sua difamação for bem-sucedida) ou “tristeza diante da prosperidade de outro” (se ela fracassar); o estágio final vê a inveja transformar-se em ódio, pois “a tristeza causa o ódio”.

O poeta italiano e autor de A Divina Comédia, Dante Alighieri, via a inveja como “um desejo de privar outros homens do que lhes pertence”. Em seu Purgatório, os invejosos são punidos tendo os olhos costurados com arame, “porque obtiveram prazer pecaminoso ao ver os outros rebaixados”.

Leonardo da Vinci, o arquétipo do homem renascentista, escreveu:

“A inveja fere com acusações falsas, isto é, com a difamação, algo que intimida a virtude”.

No século XVII, o ensaísta inglês Francis Bacon condenou a inveja como uma atitude debilitante que conduz diretamente a ações deploráveis:

“Um homem que não possui virtude em si mesmo sempre inveja a virtude nos outros. Pois as mentes dos homens ou se alimentam do próprio bem, ou do mal alheio; e quem carece de um se nutre do outro; e aquele que não tem esperança de alcançar a virtude de outrem buscará nivelar-se, rebaixando o ganho alheio”.

Cem anos depois, o teólogo inglês Robert South ecoou Bacon:

“Da cobiça, podemos verdadeiramente dizer que ela faz tanto o Alfa quanto o Ômega no alfabeto do diabo, e que é o primeiro vício da natureza corrompida a se manifestar, e o último a morrer”.

Por volta da mesma época, o famoso dramaturgo Joseph Addison observou que pessoas invejosas costumam ser pessoas infelizes:

“A condição do homem invejoso é a mais enfaticamente miserável; ele não apenas é incapaz de se alegrar com o mérito ou o sucesso de outro, como vive em um mundo no qual toda a humanidade parece conspirar contra ele”.

Quando o francês Alexis de Tocqueville percorreu os Estados Unidos no início da década de 1830, constatou que uma das forças do país era o fato de estarmos concentrados em construir coisas e pessoas, em vez de destruí-las. De modo profético, ele previu que, se a inveja criasse raízes, o resultado seria o suicídio:

“Tenho um amor apaixonado pela liberdade, pela lei e pelo respeito aos direitos. A liberdade é minha maior paixão. Mas também se encontra no coração humano um gosto depravado pela igualdade, que leva os fracos a quererem rebaixar os fortes ao seu próprio nível e que reduz os homens a preferirem a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade.

A igualdade é um slogan baseado na inveja. Ela significa, no coração de todo republicano: ‘Ninguém ocupará um lugar mais alto do que eu’”.

Theodore Roosevelt se considerava um “progressista” de sua época (final do século XIX e início do século XX), mas ele compreendia então aquilo que a maioria dos “progressistas” de hoje não compreende: a saber, que a inveja é a raiz de muitos males:

“Provavelmente o maior dano causado pela imensa riqueza é o dano que nós, pessoas de recursos moderados, causamos a nós mesmos quando permitimos que os vícios da inveja e do ódio penetrem profundamente em nossa própria natureza”.

A filósofa e romancista Ayn Rand, ateia assumida, jamais argumentaria que a inveja é má porque Deus assim o diz. Ainda assim, ela certamente via a inveja como algo maligno e destrutivo. Ela a equiparava ao “ódio ao bem”, pelo qual entendia “o ódio a uma pessoa por possuir um valor ou virtude que se considera desejável”:

“Se uma criança deseja tirar boas notas na escola, mas é incapaz ou não está disposta a alcançá-las e passa a odiar as crianças que conseguem, isso é ódio ao bem. Se um homem considera a inteligência um valor, mas é atormentado pela dúvida sobre si mesmo e passa a odiar aqueles que julga inteligentes, isso também é ódio ao bem”.

Robert Barron é bispo auxiliar da Arquidiocese de Los Angeles e fundador da popular organização ministerial católica Word on Fire. Em sua visão:

“A inveja é um pecado capital. Ela se refere à tristeza diante dos bens de outro e ao desejo imoderado de adquiri-los para si, mesmo de forma injusta. Quando deseja grave mal a um próximo, ela é um pecado mortal: Santo Agostinho via a inveja como um “pecado diabólico.” [Nas palavras de Agostinho:] “Da inveja nascem o ódio, a detração, a calúnia, a alegria causada pelo infortúnio de um próximo e o desgosto causado por sua prosperidade”.

Erradicando a inveja

Seria fácil fornecer ao leitor milhares de outras citações sobre o tema da inveja. O difícil seria encontrar alguma que a defendesse. A ironia é esta: universalmente condenada, a inveja ainda assim é amplamente praticada. Ayn Rand batizou nossa época de “Era da Inveja”.

Examine sua consciência. Se encontrar nela a inveja, elimine-a antes que ela realize sua obra terrível.

Este artigo foi originalmente publicado na Foundation for Economic Education (FEE).

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