Depois de centenas de anos de ataques ao Natal, os economistas finalmente entraram em cena. Joel Waldfogel, da Universidade Yale, escrevendo na American Economic Review, condena aquilo que ele chama de “O Peso Morto do Natal” (The Deadweight Loss of Christmas). Quando se corta o cálculo e os gráficos, sua conclusão é clara: embora o Natal gere uma indústria de presentes de 50 bilhões de dólares, de um décimo a um terço desse valor é pura perda. Por quê? Porque o presenteado nem sempre recebe aquilo que realmente quer. Dada a oportunidade, ele teria comprado outra coisa.
Tudo isso decorre diretamente de sua teoria subjacente. Na economia neoclássica, o consumidor está em sua melhor situação quando escolhe, dentro de seus meios, o bem ou serviço de maior posição em sua escala de “utilidade”. Se ele pode pagar por um bife e precisa se contentar com um cachorro-quente porque o restaurante está sem o corte t-bone, ele experimenta uma perda de bem-estar (conhecido como peso morto). É ainda pior se ele tiver de pagar o preço do bife e, em vez disso, receber um salsichão.
Com presentes, acontece o mesmo. Eles geram uma perda líquida, diz essa teoria, a menos que o presenteado tivesse, de outra forma, comprado com seu próprio dinheiro exatamente aquilo que está desembrulhando. Claro que isso raramente ocorre. Para dar sustentação empírica à sua teoria, o professor Waldfogel entrevistou estudantes. Os alunos receberam em média 438 dólares em presentes, pelos quais relataram que teriam pago apenas 313 dólares se tivessem feito as compras por conta própria. A diferença diminui quando o presente vem de um amigo e aumenta quando vem da família.
Imagine o senhor Waldfogel participando da sua próxima reunião de Natal. A tia Janie dá aos sobrinhos um sabonete em barras com uma corda [popularmente conhecido nos Estados Unidos como soap on a rope], e todos a elogiam por sua generosidade e consideração. O economista então cutuca os jovens para que confessem que, no fim das contas, o tal sabonete-com-corda não é grande coisa, e que, com os US$ 9,95, eles teriam comprado a mais nova fita das Spice Girls. Ele declara que a celebração é um desperdício e incentiva que a festa acabe em nome do bem-estar econômico de todos.
O professor Waldfogel propõe que poderíamos eliminar essas perdas, que podem chegar a US$ 13 bilhões por ano, dando dinheiro em vez de presentes e permitindo que o destinatário gaste como quiser. Mas então, por que não dar mais um passo além? Qual é o propósito de toda essa movimentação de dinheiro, afinal? De acordo com a teoria neoclássica, seria muito melhor se cada um simplesmente se apegasse à própria conta bancária e gastasse seu próprio dinheiro como achasse adequado. Na verdade, todos estaríamos economicamente melhor se o Natal fosse simplesmente abolido (ora, talvez o Congresso devesse fazer isso) até o momento em que todos tenhamos conhecimento perfeito das preferências uns dos outros e estejamos dispostos a agir com base nisso.
Longe de ser apenas a opinião isolada de um homem, essa tese está se tornando uma clássica questão para ganhar “pontos extra” em provas de microeconomia. Waldfogel se destaca apenas por ter formalizado o modelo e testado suas conclusões com base na experiência de seus próprios alunos. Essa conclusão permite que economistas presumam ser mais inteligentes do que a massa dos consumidores, que insiste no hábito irracional de comprar coisas uns para os outros em vez de enviar dinheiro ou, o que supostamente seria ainda melhor, simplesmente gastá-lo consigo mesmos.
Então, o que há de errado com essa teoria? Muito. Ela iguala utilidade pessoal a dólares gastos, a clássica confusão entre valor e preço. Na verdade, um presente é um tipo especial de bem, com valor próprio. Por exemplo: nós valorizamos o sabonete da tia justamente por causa de sua conexão com o afeto familiar. Mesmo que o presenteado jamais tivesse comprado aquilo, sua utilidade pessoal aumenta ao saber que sua família estendida pensa nele e se importa o suficiente para lhe dar algo.
A fonte importa. Se o sabonete fosse dado por um colega de classe que reclama que você é “deficitário em odor”, o “presente” seria um insulto disfarçado. Teria valor negativo. “Presentes ricos empobrecem quando os doadores se mostram ingratos”, escreve Shakespeare, que parecia ter uma visão mais completa de economia do que o professor Waldfogel. Tampouco é provável que alguém fique agradecido ao receber um presente comprado sob coerção. Pessoas que vivem por longos períodos de assistência social, por exemplo, tendem a considerar os pagadores de impostos como otários.
Um comentário publicado posteriormente na mesma revista retomou esse ponto. Os autores (um de Harvard e outro da Universidade de Miami) também realizaram um teste empírico. Eles usaram um método diferente (perguntando aos estudantes sobre preços de presentes específicos, não sobre cestas completas), uma amostra maior (209 estudantes em vez de 78) e fizeram perguntas mais detalhadas. Os resultados foram o oposto dos de Waldfogel. Os autores mostraram que mais da metade valorizou o presente acima do seu preço de varejo, sugerindo que a prática de dar presentes no Natal representa, na verdade, um ganho para o bem-estar social.
Além disso, esses autores descobriram que presentes pedidos eram menos valorizados do que presentes não solicitados. Isso corresponde à experiência comum: ficamos satisfeitos ao receber aquilo que desejamos, mas ficamos especialmente agradecidos quando apreciamos algo que não esperávamos. De fato, bons compradores de presentes pensam nisso com antecedência. Eles compram para alguém uma gravata que essa pessoa jamais compraria para si mesma. Compram itens que o destinatário talvez fosse modesto ou econômico demais para adquirir por conta própria, mesmo que tivesse os recursos.
Alguns itens são simplesmente “lembranças” e nada mais: sabonetes sofisticados, cuecas boxer com estampa paisley, cobertores com o logotipo da escola, canecas de café com slogans espirituosos e coisas do tipo. É por isso que existem “lojas de lembranças” diferenciadas de lojas comuns. Presentes como estes têm um valor diferente porque são bens completamente distintos. Eles incorporam não apenas o objeto em si, mas também seu significado. Imagine se alguém viesse para um jantar e, em vez de trazer uma garrafa de vinho, lhe entregasse quinze dólares e dissesse para você gastar com o que quisesse. Simplesmente não é a mesma coisa.
Por sua vez, Waldfogel responde acusando os autores de terem enviesado seus resultados. A própria natureza das perguntas de sua pesquisa incentivava os estudantes a relatar “valor sentimental” em vez de “valor material” puro. Retomando a pesquisa e corrigindo isso e outros supostos erros, Waldfogel entrevistou outro grupo de estudantes (455 dessa vez) e ainda assim encontrou uma perda de bem-estar, menor do que antes, mas ainda substancial. O Natal é ineficiente: essa é a sua tese, e ele a mantém.
Claro que não existe nenhuma forma de separar um tipo de valor de outro, já que todo valor econômico é, em última instância, subjetivo. Pesquisas não conseguem revelar o que as pessoas realmente valorizam; apenas a ação no mercado faz isso. O que há de profundamente estranho nessa disputa é que todos parecem concordar que somente o valor para o presenteado deveria importar. Isso deixa de fora o ponto realmente crucial do ato de presentear: ele beneficia tanto quem dá quanto quem recebe.
As pessoas se sentem bem ao serem generosas, especialmente com a família e os amigos. Dar é um ato de caridade e liberalidade, virtudes que as pessoas praticam porque fazem bem à alma. E mesmo que não fizessem, os economistas deveriam seguir a regra da “preferência demonstrada”: se uma pessoa dá um presente, é porque ela preferiu dar o presente a ficar com o dinheiro para si. A ação é “geradora de utilidade” em seus próprios termos. Por quê? Porque a ação, em vez de outra, ocorreu. O valor se revela nas preferências que as pessoas demonstram voluntariamente. Um presente bem escolhido também revela algo sobre nós mesmos: que nos importamos o suficiente para tornar nossos afetos conhecidos de maneira pessoal.
Mais uma vez, surge o problema do estado de bem-estar social. Na sua forma de “caridade”, as pessoas não doam voluntariamente. As pessoas são tão resistentes à ideia de despejar bilhões de dólares sobre milhões de assistidos que o governo precisa ameaçá-las com multas e penas de prisão (é isso que a tributação significa) para que entreguem esse “presente”. Ninguém demonstra preferência pelo estado de bem-estar (o voto não conta, já que as pessoas não usam seus próprios recursos para “comprar” os serviços nos quais votam). Esse grau de redistribuição precisa ser imposto. A tributação, ao contrário do Natal, é um exemplo claro de atividade que reduz utilidade.
Mas os economistas da escola neoclássica raramente se preocupam com tais distinções. Suas teorias deixam pouco espaço para refletir sobre direitos de propriedade, escolha individual e a diferença entre trocas de mercado e redistribuição forçada. Para eles, um padrão matematicamente determinado de eficiência é o único critério que importa. Nem mesmo uma conclusão absurda, por exemplo, de que dar presentes é ineficiente, os leva a reconsiderar sua teoria central.
Os economistas estão longe de serem os únicos nisso. Céticos e opositores da economia de mercado há muito enxergam problemas com a ideia de dar presentes e praticar caridade, especialmente quando isso ocorre no Natal.
Talvez os socialistas tenham compreendido há muito tempo algo sobre o Natal que outros, até mesmo defensores do mercado, deixaram passar. Na instituição do presente, encontramos uma forte justificativa para o estabelecimento e a proteção da propriedade privada e da economia capitalista. Para dar, precisamos antes produzir, adquirir e possuir.
G.K. Chesterton, um grande defensor do Natal contra os puritanos ingleses que o consideravam corrupto e pagão, observou que a propriedade coletiva significaria o fim da doação voluntária. Além disso, ele esclareceu: “dar não é o mesmo que compartilhar; dar é o oposto de compartilhar. Compartilhar se baseia na ideia de que não existe propriedade, ou pelo menos não existe propriedade pessoal. Mas dar algo a outro homem é tão fundamentado na propriedade pessoal quanto mantê-lo para si”.
E, ao contrário das reclamações sobre o materialismo no Natal, presentes significativos podem ser tão elaborados quanto ouro, incenso e mirra, ou tão humildes quanto dois peixes e cinco pães.
Não é de se admirar, então, que os socialistas mais sombrios da história tenham denunciado o Natal. O núcleo econômico da prática de presentear gira em torno da propriedade privada, enquanto seu núcleo ético desmente a alegação de que a propriedade privada institucionaliza a ganância.
“Há o maior prazer em fazer uma gentileza ou prestar um serviço a amigos, convidados ou companheiros”, escreveu Aristóteles em A Política, “o que só pode ser realizado quando um homem possui propriedade privada. Essas vantagens se perdem com a unificação excessiva do estado(…) Ninguém, quando os homens têm todas as coisas em comum, dará qualquer exemplo de liberalidade ou praticará qualquer ação generosa; pois a liberalidade consiste no uso que se faz da propriedade”.
Quanto aos intelectuais, inclusive os economistas, que não conseguiram compreender essa verdade simples, é assombroso pensar no peso morto que suas ideias impuseram à sociedade.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.