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A nova servidão tributária

O sapo não morde o escorpião, o povo brasileiro escolhe seus tiranos e assiste novela requentada e futebol dos atletas histriônicos

“A paixão pela igualdade absorve todas as outras.” — Alexis de Tocqueville

“Eles criam correntes suaves, mas correntes.” — Alexis de Tocqueville

“O poder estatal cresce como um organismo vivo, alimentando-se da submissão dos homens.” — Friedrich Hayek

O Brasil não está sendo destruído à força. Está sendo destruído pelo próprio povo. Não vivemos sob uma tirania tomada por tanques; vivemos sob uma tirania eleita, legitimada e nutrida por uma população que prefere distração à responsabilidade, entretenimento à coragem, emocionalismo à liberdade. A nova reforma tributária, votada em madrugadas silenciosas e recheada de dispositivos ocultos, é apenas o capítulo mais recente da servidão voluntária que o brasileiro abraça enquanto comenta futebol e repete falas de novela requentada.

O país, portanto, não é vítima: é cúmplice. E o cúmplice, ao contrário da vítima, não tem desculpas possíveis.

A ontologia do medo: o cimento psicológico da servidão moderna

O medo, antes de ser emoção, é estrutura. Ele molda comportamento, distorce percepções e transforma cidadãos em espectadores. Quando a população pensa pelo medo, deixa de pensar pela razão; quando pensa pela ansiedade, deixa de pensar pela liberdade.

Friedrich Hayek demonstrou em The Sensory Order que a mente humana se rende quando confrontada com sistemas complexos demais. Quando renuncia à compreensão, renuncia também ao questionamento, e, por fim, à autonomia. O estado brasileiro compreendeu isso com perfeição. A reforma tributária não é obscura por incompetência; ela é obscura por estratégia.

Um sistema incompreensível é um sistema temido; um sistema temido é um sistema obedecido.

Assim, o medo de errar substitui o direito de questionar. E o medo de não entender suplanta o dever de resistir.

A servidão moderna nasce exatamente desse terreno psicológico.

Tocqueville e a tirania doce: a liberdade que se dissolve sorrindo

Alexis de Tocqueville descreveu um tipo de despotismo que parece ter sido desenhado para o Brasil: não o tirano que chicoteia, mas aquele que afaga; não o governo que oprime, mas o que infantiliza; não o opressor brutal, mas o paternalista sedutor.

Em Democracy in America, ele alertou para o risco de populações que acreditam ser livres porque votam — mas que votam movidas pela emoção, pelo ressentimento, pelo hábito, pelo desejo de tutela. Esse é o retrato exato da democracia brasileira: uma democracia que conserva o rito, mas perdeu o conteúdo. Uma população que acredita estar exercendo liberdade enquanto entrega, sorrindo, suas próprias correntes.

A fábula que explica o Brasil

A história do sapo e do escorpião tornou-se a metáfora mais precisa da política nacional. O escorpião pede ao sapo que o transporte pelo rio. O sapo teme o ferrão. O escorpião garante racionalidade: se atacá-lo, ambos morreriam. O sapo aceita. No meio do rio, o ferrão.

— “Por que fez isso?”, pergunta o sapo, agonizando.

— “Não pude evitar. É da minha natureza”, responde o escorpião.

Governos centralizadores, intervencionistas, populistas ou estatistas são escorpiões. Eles tributam, regulam, expandem, controlam, confiscam — porque essa é sua natureza. O erro nunca é do escorpião. O erro é do sapo. O erro é de quem já conhece essa natureza e mesmo assim oferece as costas.

O Brasil insiste em ser o sapo.

Juan de Mariana: o tirano nasce da covardia do povo

O jesuíta espanhol Juan de Mariana escreveu em De Rege et Regis Institutione que o tirano governa contra o bem comum, confisca propriedade, destrói liberdades e converte o estado em instrumento de opressão. Para Mariana, a tributação abusiva é um ato tirânico, pois viola a lei natural e converte a riqueza privada em alimento do poder central.

Mas sua lição mais dura foi esta: o povo que tolera um tirano é mais culpado que o tirano que governa.

O Brasil confirma diariamente essa profecia moral. Aceita escândalos, votações noturnas, leis escondidas, privilégios permanentes, instituições capturadas, manipulação política e líderes que tratam o estado como propriedade pessoal. Não há inocência possível na era da informação. Há apenas omissão, conveniência, apatia ou covardia.

A retórica da luta de classes: o socialismo disfarçado de justiça

A retórica do poder executivo é simples, pregando a velha doutrina da “luta entre ricos e pobres”, anunciando que o país deve “enfraquecer os ricos para fortalecer os pobres”. Nada disso é novo. Nada disso é original. Trata-se da repetição exausta do catecismo marxista, o mantra que sempre reaparece quando o estado deseja justificar aumento de impostos, expansão de poder e vigilância moral sobre quem produz. É o truque mais antigo da política: dividir para dominar.

A história oferece um único veredicto universal: o socialismo não distribui riqueza; distribui pobreza. Nunca houve exceções.

  • URSS – miséria industrializada e repressão permanente.
  • China maoísta – fome sistêmica, campos de reeducação, colapso agrícola.
  • Cuba – seis décadas de igualitarismo na escassez, com elite privilegiada.
  • Venezuela – o país mais rico do continente transformado em ruína humanitária.

E há, ainda, o caso mais brutal de todos: o genocídio cambodiano de Pol Pot. Ali, a luta de classes foi levada ao extremo lógico: eliminar qualquer um que tivesse instrução, profissão valorizada, sinais de riqueza ou até mesmo óculos, que eram interpretados como marca de “intelectual burguês”.

O resultado foi a tentativa mais radical de igualitarismo da história — e a mais assassina:

  • 2 milhões de mortos em quatro anos;
  • intelectuais e profissionais exterminados;
  • propriedades confiscadas;
  • cidades esvaziadas à força;
  • uma sociedade reduzida a trabalho escravo agrícola.

A promessa era eliminar desigualdades. O resultado foi eliminar pessoas.

A experiência cambojana confirma o padrão universal: onde o estado persegue os mais capazes, destrói toda a sociedade.

Em todos os casos, a promessa era a mesma: eliminar desigualdades perseguindo quem produz. E o resultado sempre foi idêntico: eliminar a riqueza, não a desigualdade.

Hayek advertiu que a demonização do empreendedor é sempre o prelúdio do totalitarismo. Tocqueville alertou que o povo que pede ao governo para punir os bem-sucedidos já não deseja liberdade — deseja tutela.

E o povo que deseja tutela já se ajoelhou.

O assalto tributário em curso: o saque institucionalizado

A reforma tributária, consultável em sua versão oficial na EC 132/2023 — faz o seguinte:

  1. cria megatributos (CBS e IBS) com potencial de elevar a carga total;
  2. desloca a tributação para o consumo, o imposto mais regressivo;
  3. destrói previsibilidade para famílias e empresas;
  4. concede a estados e municípios espaço para aumentos sucessivos;
  5. substitui regimes amplos por exceções politizadas;
  6. pune profissionais liberais e prestadores de serviços;
  7. amplia a dependência das empresas em relação ao fisco;
  8. dá ao estado poder fiscalizatório sem precedentes.

Isso não é reforma. É confisco disfarçado de modernização. E só ocorreu porque a população permitiu.

O povo como arquiteto da própria desgraça

O brasileiro acima de tudo, prefere comentar futebol, cortes de cabelo de jogadores e novelas recicladas a compreender a destruição de sua própria renda.

Isso não é inocência. É culpa.

Estamos destruindo o cálculo econômico das próximas gerações (nossos filhos e netos)

Mises ensinou em Ação Humana que o cálculo econômico é o fundamento da civilização. Ao destruí-lo, destrói-se o futuro.
Nenhuma poupança sobreviverá. Nenhum patrimônio resistirá. Nenhum legado prosperará num país onde a população aceita sorrindo o confisco.

A pergunta final que o brasileiro não quer ouvir

Até quando o sapo aceitará carregar escorpiões? Até quando confundirá tutela com justiça, servidão com igualdade, populismo com proteção? Até quando sacrificará o futuro dos filhos para preservar a própria covardia moral?

O Brasil não está sendo destruído pelo tirano. Está sendo destruído pelo povo que ama o tirano.

A servidão moderna não é imposta. É escolhida.

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5 comentários em “A nova servidão tributária”

  1. kkkkkkkkkkkkkkkk Nenhuma novidade que os brasilerios são culpados por sua propria destruição.

    O maior exemplo disso, é o fato que as pessoas para resolver seus problemas financeiros passando em concurso publico para serem servidores ou militares. No fim a conta dessa insanidade chegou a mais de 2 trilhoes.

    A reforma administrativa é branda e NUNCA VAI PASSAR. Assim como foi a reforma da previdencia do temer que mexia nas aposentadorias de servidores e militares. No qual o SOCIALISTA DO BOLSONARO foi contra.

    Agora as estatais estão tendo prejuizo recorde,afinal gasta muito com os agentes. E a “direita” só vai fazer as pseudos privatizações como abrir o capital das empresas e concessão.

    Por isso que sempre digo,que essa bosta tem que se separar de uma vez.

  2. Ex-microempresario

    Quando se falava de esporte, costumava-se dizer “Que vença o melhor”. Isso é passado. O brasileiro fala “Que vença o meu time, sempre, e se for roubado é mais gostoso”.

    Este comportamento passou para a política: o brasileiro torce pelo seu político, e torce mais ainda contra os políticos adversários. Não importa se o resultado é ruim para o país, o importante é alimentar a raiva e o ódio.

    Os “cidadãos de bem” da direita estão torcendo para a economia piorar para que possam acusar (e xingar) o governo atual.

    Já os “progressistas” da esquerda estão torcendo para que o congresso e o supremo façam mais lambanças contra o time bolsonarista para que possam comemorar e gritar “perdeu, mané”.

    Nenhum dos lados apoia qualquer medida, por mais benéfica que seja, se essa medida não for considerada uma derrota pelo lado adversário.

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