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Propriedade privada e o primeiro Dia de Ação de Graças

No Dia de Ação de Graças, os americanos refletem sobre suas bênçãos e esperam por encontros familiares edificantes, marcados pela união e pela harmonia, tendo os Peregrinos como exemplos de paz, concórdia e gratidão. No entanto, embora o ‘modo de agradecer’ dos Peregrinos em 1623 represente aquilo que desejamos infundir no Dia de Ação de Graças, a Colônia de Plymouth antes de 1623 estava muito mais próxima dos piores temores de um anfitrião de Thanksgiving — ressentimentos vinham à tona, palavras duras eram ditas, e as pessoas se tornavam zangadas e infelizes umas com as outras.

A infelicidade dos Peregrinos era causada por seu sistema de propriedade comum (não adotado, como muitas vezes se afirma, por convicções religiosas, mas imposto contra a sua vontade pelos patrocinadores da colônia). Os frutos do esforço de cada pessoa iam para a comunidade, e cada um recebia uma parte da riqueza comum. Isso gerou tensões severas entre os membros, como registrou o governador da colônia, William Bradford:

“… os jovens… queixavam-se de ter de gastar seu tempo e suas forças para trabalhar para as esposas e os filhos de outros homens, sem qualquer recompensa. Os mais fortes… não recebiam, na partilha, mais… do que aqueles que eram fracos e incapazes de realizar sequer um quarto do trabalho dos outros; isso era considerado uma injustiça. Que os mais velhos e mais graves fossem classificados e igualados nos trabalhos e nos víveres, roupas etc…. era tido como uma indignidade e uma falta de respeito para com eles. E que as esposas dos homens fossem obrigadas a servir a outros homens, como preparar-lhes a comida, lavar-lhes as roupas etc., era considerado por elas uma espécie de escravidão, e muitos maridos tampouco conseguiam tolerar isso.”

Bradford resumiu os efeitos desse sistema de propriedade comum:

“Pois essa comunhão de bens (na medida em que foi implementada) mostrou-se capaz de gerar muita confusão e descontentamento, além de retardar muitos trabalhos que teriam sido para o benefício e o conforto deles… todos tendo de possuir igualmente, e todos tendo de fazer igualmente… se não chegou a cortar aquelas relações que Deus estabeleceu entre os homens, ao menos diminuiu muito e enfraqueceu os respeitos mútuos que deveriam ser preservados entre eles.”

Como os Peregrinos passaram desse sistema disfuncional para a situação que tentamos emular em nossas reuniões familiares? Na primavera de 1623, eles decidiram permitir que as pessoas produzissem para seu próprio benefício:

“Todos os seus víveres estavam esgotados… não se ouvia falar de qualquer abastecimento, nem sabiam quando poderiam esperar algum. Assim, começaram a pensar em como poderiam plantar o máximo de grãos possível e obter uma colheita melhor do que haviam conseguido antes, para que não continuassem a definhar na miséria. Por fim… o Governador (com o conselho dos principais entre eles) concedeu que cada homem passasse a plantar milho por conta própria e, nesse sentido, confiasse em si mesmo…. E assim foi destinado a cada família um lote de terra…”

Os resultados foram dramáticos:

“Isso teve muito bom resultado, pois tornou todos extremamente industriosos, de modo que se plantou muito mais milho do que de qualquer outra forma o Governador ou qualquer outro poderia ter conseguido, além de lhe poupar grande trabalho e gerar muito maior satisfação. As mulheres agora iam de bom grado ao campo e levavam consigo seus pequenos para plantar o milho, aquelas mesmas que antes alegavam fraqueza e incapacidade, e que, se fossem obrigadas, isso teria sido considerado grande tirania e opressão.”

Aquilo foi uma mudança radical em relação à situação anterior, na qual severas chicotadas haviam sido usadas como estímulo para um maior esforço de trabalho, com pouco sucesso além de produzir descontentamento.

Apesar do aumento dos esforços dos Peregrinos em 1623, uma seca de verão ameaçou suas colheitas. Seguindo suas crenças, ofereceram contrição por seus pecados. Em seguida, a seca foi rompida, o que deu origem ao Dia de Ação de Graças que até hoje procuramos emular. E, como relatou o historiador Russell Kirk, “nunca mais os Peregrinos passaram falta de alimento”. É apropriado lembrar dos Peregrinos enquanto os americanos celebram o Dia de Ação de Graças. Embora tenhamos incomparavelmente mais do que eles tinham, podemos aprender muito com seu “modo de agradecer”.

Mas também devemos lembrar que nossas bênçãos materiais são frutos do sistema americano de direitos de propriedade privada, cujo poder para a cooperação pacífica e produtiva os Peregrinos começaram a demonstrar por meio da experiência há quatro séculos, pois esses direitos — e as liberdades e a prosperidade que deles decorrem — estão hoje sob ataque constante.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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