Em minhas observações desta noite, gostaria de preparar o terreno para o Rothbard Graduate Seminar [evento do Mises Institute voltado para estudantes avançados de graduação e para estudantes matriculados em programas de mestrado e doutorado] abordando um mito pernicioso e profundamente enraizado a respeito de Murray Rothbard e do livro Indivíduo, Economia e Estado: a saber, a ideia de que Rothbard possuía apenas um conhecimento superficial da economia mainstream ao escrever seu tratado. Nada poderia estar mais distante da verdade. Na realidade, Rothbard engajou-se profundamente com a teoria econômica mainstream ao longo de todo o seu tratado. Isso não é surpreendente, dado que, quando escreveu sua obra, ele era um economista neoclássico altamente treinado, plenamente familiarizado com os métodos de pesquisa e com as diversas correntes doutrinárias que compunham a então emergente “síntese neoclássica”. Essa síntese das ideias de Alfred Marshall, Leon Walras e John Maynard Keynes viria a dominar a economia acadêmica nos Estados Unidos em meados da década de 1950. Os principais arquitetos desse enfoque eram John Hicks, Franco Modigliani, Alvin Hansen e, especialmente, Paul Samuelson.
Rothbard ingressou na Universidade Columbia em 1942, aos dezesseis anos de idade. Aos dezenove, recebeu seu diploma de bacharel com honras em economia e matemática e, pouco depois, entrou no programa de doutorado em economia de Columbia. Na década de 1940, a Universidade Columbia era uma das principais instituições acadêmicas dos Estados Unidos e abrigava um dos três melhores departamentos de economia do país. Rivalizava com a Universidade de Chicago e com Harvard, produzindo mais doutorados que qualquer uma delas. Entre seus docentes notáveis estavam Arthur F. Burns, o mais proeminente institucionalista e uma das principais autoridades em ciclos econômicos; John Maurice Clark, um destacado marshalliano e pioneiro da economia keynesiana; Harold Hotelling, o renomado estatístico matemático; Joseph Dorfman, um institucionalista e influente historiador do pensamento econômico americano; e George Stigler, o fundador da teoria de preços da Escola de Chicago.
Rothbard fez cursos com todos esses economistas eminentes, mas foi especialmente influenciado pelos institucionalistas Burns e Dorfman, havendo, inclusive, admiração mútua entre Rothbard e ambos os professores. Burns esperava que Rothbard conquistasse “um lugar de destaque” no mundo. Rothbard recordava que, em suas aulas, Burns “era um teórico brilhante” e que sua “crítica à teoria ortodoxa (…) era excelente”. Rothbard tinha Dorfman em altíssima consideração como historiador do pensamento econômico, escrevendo que “seu conhecimento das fontes é inigualável”. Ele reconheceu Dorfman como um de seus “mentores”, ao lado de Ludwig von Mises, na dedicatória de seu tratado em dois volumes sobre a história do pensamento econômico. Dorfman, por sua vez, apreciava as capacidades de Rothbard e concordou em presidir seu comitê de tese. Quando a dissertação ficou pronta, Dorfman fez pressão para que fosse publicada pela Columbia University Press.
Além de estudar a abordagem institucionalista sob seus líderes contemporâneos e de aprender a teoria de preços de Chicago com um de seus principais expoentes, Rothbard passou um ano inteiro em um seminário de honra analisando, capítulo por capítulo, os Princípios de Economia de Marshall, a então “bíblia” da economia neoclássica. Mas Rothbard não apenas absorveu diferentes abordagens teóricas e doutrinas em Columbia; ele também se aprofundou no estudo de métodos econômicos conflitantes — especificamente, o institucionalismo e o positivismo.
Antes da década de 1940, a maioria dos economistas, remontando aos economistas clássicos britânicos, utilizava o método dedutivo para desenvolver teorias econômicas, traçando as implicações lógicas de um pequeno conjunto de premissas gerais sobre o comportamento humano e as condições técnicas da produção. Essa abordagem metodológica culminou, no início dos anos 1930, na monografia de Lionel Robbins, Essay on the Nature and Significance of Economic Science. No entanto, a partir do início dos anos 1900, o método dedutivo foi rejeitado por muitos economistas em Columbia em favor do método empírico baconiano defendido pelos institucionalistas. De acordo com esse método, teorias econômicas só poderiam ser descobertas por meio da coleta e organização meticulosa e abundante de fatos. Durante a década de 1940, contudo, tanto o método dedutivo quanto o institucionalista estavam sendo rapidamente varridos pela onda crescente do positivismo. Os positivistas argumentavam que a teoria econômica é desenvolvida a partir da formulação de hipóteses tentativas derivadas de pressupostos básicos sobre a natureza humana e, em seguida, testadas com base em quão bem tais hipóteses predizem padrões históricos ou futuros de fatos econômicos. Assim, tanto a abordagem positivista quanto a institucionalista defendem a análise empírica, mas somente o positivismo permite a existência de um corpo de teoremas econômicos que antecede a investigação de episódios históricos.
Foi nesse período de agitação metodológica e transição que Rothbard fez um curso sobre filosofia da economia com Ernest Nagel, um dos principais expoentes do positivismo lógico. As críticas de Nagel ao institucionalismo causaram boa impressão em Rothbard, que tomou notas extensas das aulas de Nagel. Comentando que Nagel apresentou “o argumento mais convincente em favor da teoria econômica neoclássica”, Rothbard enviou suas anotações de aula para Arthur Burns. Burns ficou impressionado com as notas e as enviou a Milton Friedman, ex-aluno e então colega de Burns no National Bureau of Economic Research. Friedman estava, naquele momento, escrevendo seu famoso artigo “The Methodology of Positive Economics”. Friedman escreveu no topo da primeira página das notas de Rothbard: “Arthur: muito obrigado. Achei interessante e, claro, concordei”.
Embora Rothbard visse com bons olhos as críticas positivistas de Nagel ao institucionalismo, ele rejeitou completamente a base estatística do método positivista. Especificamente, matriculou-se em um curso de pós-graduação em estatística matemática oferecido por Hotelling, mas rapidamente ficou desiludido ao perceber, após poucas aulas, que a inferência estatística se baseava no que ele chamava de uma “suposição infundada” de distribuição normal.
Nesse estágio de sua evolução intelectual, Rothbard recordava que possuía apenas uma “sensação ou intuição instintiva… de que havia algo errado” tanto no institucionalismo quanto no positivismo. Os positivistas tinham razão ao criticar os institucionalistas por tentarem descobrir teorias acumulando e peneirando pilhas de dados. Ao mesmo tempo, os institucionalistas estavam corretos ao atacar o uso de premissas falsas pelos positivistas. A adição de pressupostos suplementares mais realistas apenas disfarçava, e não alterava substancialmente, o edifício teórico construído sobre fundamentos falsos. Assim, sua educação de elite em Columbia deixou Rothbard com a sensação incipiente de que havia algo errado em ambas as abordagens da economia. Ele mais tarde refletiu que “tendia a concordar com as críticas institucionalistas aos keynesianos e matemáticos, mas também com as críticas destes últimos aos institucionalistas”.
Infelizmente, Rothbard ainda não compreendia plenamente a alternativa ao institucionalismo e ao positivismo: o método dedutivo, que havia sido a abordagem tradicional da economia desde seu surgimento como ciência no século XVIII. Além disso, ele não sabia que Ludwig von Mises havia realizado avanços significativos nesse método. O método praxeológico deduzia teoremas logicamente apenas a partir de premissas que eram auto evidentemente verdadeiras, o que significava que nem as premissas nem os teoremas requeriam verificação empírica. Como Rothbard recordou, “Nagel, é claro, nunca tinha ouvido falar de praxeologia naquela época, e infelizmente eu também não tinha”.
Voltando à doutrina, Rothbard recebeu uma formação completa em economia keynesiana em Columbia, onde o corpo docente incluía tanto keynesianos do estilo antigo — na linha de Alvin Hansen e Seymour Harris — quanto o que Rothbard chamava de “jovens matemático-keynesianos”, como Albert G. Hart. Além disso, Burns, a quem Rothbard saudava como “um teórico brilhante”, dialogava com a economia keynesiana em seus cursos. Burns criticava a macroeconomia keynesiana por construir de maneira inconsistente sobre a teoria microeconômica de equilíbrio parcial de Marshall. Em um artigo não publicado escrito em 1947 para o panfleto da Old Right de Frank Chodorov, analysis, Rothbard apresentou o modelo keynesiano completo e, em seguida, articulou uma crítica marshalliana nos moldes sugeridos por Burns.
Assim, quando concluiu seu trabalho de curso em Columbia, Rothbard era um economista neoclássico bem treinado — ainda que um tanto desconfortável — e altamente versado em todos os elementos da teoria e do método econômico contemporâneo que logo se reuniriam na chamada “síntese neoclássica” de Samuelson. Essa abordagem teórica dominaria a economia a partir de meados da década de 1950, até implodir durante a estagflação de meados da década de 1970.
Após ser aprovado nos exames orais em 1948, Rothbard iniciou sua tese de doutorado. Concluída em 1951 e intitulada “The Panic of 1819: Reactions and Policies”, ela consistia em um exame minucioso das opiniões contemporâneas sobre as causas e os remédios para o pânico. Embora Rothbard tenha reunido uma enorme quantidade de fatos para sua tese, ele se absteve de qualquer investigação teórica. Não tentou testar empiricamente uma teoria nos moldes positivistas, nem procurou descobrir uma nova teoria a partir de uma massa de fatos, como ensinavam os institucionalistas. Burns, membro da banca de Rothbard, ficou insatisfeito com a dissertação, e seu mentor Dorfman acabou cedendo ao julgamento de seu colega mais imponente. O título de Ph.D. de Rothbard só foi finalmente concedido em 1956, depois que Burns deixou Columbia para assumir um cargo na administração Eisenhower.
Apesar de ter aprendido com economistas distintos em Columbia, o próprio Rothbard admitiu que “nunca conseguiu encontrar um lar confortável na teoria econômica”. Mas Rothbard deu um enorme salto intelectual quando descobriu, por meio da FEE, o pensamento de Ludwig von Mises e leu sua recém-publicada obra magna, Ação Humana. Rothbard começou a frequentar regularmente o seminário semanal de Mises na NYU. Mesmo antes de terminar o tratado de Mises, Rothbard converteu-se à economia austríaca e adotou a abordagem praxeológica de Mises para a teoria econômica, que revitalizou o método dedutivo ao fundamentá-lo no fato básico da ação humana. Mais ou menos na mesma época, Rothbard percebeu que a posição laissez-faire de governo limitado era “logicamente insustentável” quando não conseguiu responder à objeção levantada por amigos liberal-progressistas: se as pessoas podiam decidir coletivamente que o governo deveria fornecer polícia, tribunais e defesa militar, então por que não poderiam decidir que o governo também deveria operar siderúrgicas ou represas? Essa epifania levou Rothbard a adotar uma posição anarcocapitalista pura.
O mito absurdo de que Rothbard teria ignorado a teoria econômica mainstream ao construir seu sistema teórico cai por terra assim que sua formação em economia é devidamente considerada. Na verdade, a conversão de Rothbard à praxeologia não teria sido tão rápida nem tão completa se ele não tivesse passado por um treinamento tão intenso e de tão alto nível nos métodos e teorias econômicas de sua época. Por outro lado, apesar de seu brilhantismo intelectual e de seu reconhecimento independente de que muitas das doutrinas centrais da economia ortodoxa daquele período eram profundamente equivocadas, Rothbard jamais teria se tornado o economista que viria a ser sem seu encontro com Mises e com o livro Ação Humana.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
Recomendações de leitura
Rothbard, Friedman e a Grande Depressão – quem afinal estava certo?
Lei Natural e liberdade rothbardiana