| Paquistanesa vota em Islamabad. |
Um
dos mitos mais persistentes sobre a democracia é que ela é o mesmo que
‘liberdade’. Para muitas pessoas, ‘liberdade e democracia’ caminham juntas,
como as estrelas e a lua. Mas, na verdade, a liberdade e a democracia são
opostas. Em uma democracia, todos devem se submeter às decisões do governo. O
fato de que o governo é eleito pela maioria, é irrelevante. Coerção é coerção,
quer seja ela exercida pela maioria ou por um único governante.
Em
nossa democracia, ninguém pode escapar das decisões tomadas pelo governo. Se
você não obedecer, será multado e, se se recusar a pagar a multa, você acabará
na cadeia. É simples assim. Tente não pagar uma multa de trânsito. Ou seus
impostos. Neste sentido, não há diferença fundamental entre uma democracia e
uma ditadura. Para alguém como Aristóteles, que viveu em uma época em que a
democracia ainda não tinha sido santificada, isso era óbvio. Ele escreveu:
“A democracia ilimitada, assim como a oligarquia, é uma tirania espalhada
por um grande número de pessoas.”
Liberdade
significa que você não tem que fazer
o que a maioria dos outros homens quer que você faça, mas que você pode decidir
por si mesmo. Como o economista John T. Wenders disse uma vez: “Há uma
diferença entre democracia e liberdade. A liberdade não pode ser medida pela possibilidade
de se poder votar. Ela pode ser medida pelo âmbito daquilo sobre o qual não se vota”.
Esse
âmbito é muito limitado em uma democracia. A nossa democracia não nos trouxe a
liberdade, mas o seu contrário. O governo aprovou inúmeras leis que impossibilitaram
muitas interações e relações sociais voluntárias. Inquilinos e proprietários não são livres para fazerem
contratos da forma que acharem melhor, os empregadores e os trabalhadores não
podem decidir livremente sobre os salários e as condições de trabalho que
desejarem, médicos e pacientes não estão autorizados a decidirem livremente quais
os tratamentos ou medicamentos que irão ser
utilizados, as escolas não são livres para ensinar o que elas quiserem, os
cidadãos não estão autorizados à ‘discriminação’,
as empresas não estão autorizadas a contratar quem elas quiserem, as pessoas
não são livres para assumir qualquer profissão que quiserem, em muitos países
os partidos políticos têm de permitir
candidatos do sexo feminino para cargos públicos,
as instituições de ensino estão sujeitas a cotas raciais e a lista continua.
Tudo isso tem pouco a ver com liberdade. Porque as pessoas não têm o direito de
assinar qualquer tipo de contratos ou acordos que elas quiserem? Porque é que os outros têm que se meter em acordos sobre os
quais eles não são parte interessada?
Leis
que interferem na liberdade do povo de celebrar acordos voluntários, podem
beneficiar determinados grupos, mas elas, invariavelmente, prejudicam outros
grupos. Leis de salário mínimo beneficiam certos trabalhadores, mas prejudicam
as pessoas que são menos produtivas do que o salário mínimo exige. Essas
pessoas se tornam muito caras para serem contratadas e, assim, ficam desempregadas.
Da
mesma forma, as leis que protegem as pessoas de serem demitidas podem
beneficiar algumas pessoas mas desencorajam os empregadores de contratarem
novas pessoas. Quanto mais rígidas são as leis trabalhistas, mais os empregadores têm razões
de temerem ficar presos às pessoas de quem não podem se livrar quando o negócio
deles requerer que o façam. O
resultado é que eles contratam o mínimo de pessoas possível, mesmo quando os negócios vão
bem. Novamente, isso tende a prejudicar, em particular, as pessoas com baixas
qualificações. Ao mesmo tempo, o alto desemprego resultante faz com que as
pessoas que têm um trabalho tenham medo de mudar de carreira.
Da
mesma forma, leis de controle de aluguel beneficiam os inquilinos existentes,
mas desencorajam os proprietários de alugarem habitações vagas e investidores
de desenvolverem novos empreendimentos imobiliários. Assim, estas leis levam à escassez de habitação
e elevam o valor dos aluguéis, prejudicando as pessoas que estão procurando um
lugar para viver.
Ou
considere as leis que ditam padrões mínimos para os produtos e serviços. Será
que elas não beneficiam a todos? Bem, não. A desvantagem dessas leis é que elas
limitam a oferta, reduzem a escolha do consumidor e aumentam os preços (mais
uma vez, elas prejudicam, principalmente, os pobres). Por exemplo, leis que
exigem normas de segurança para automóveis elevam os seus preços e os tornam inacessíveis para
os grupos de renda mais baixa, que são privados de decidirem, por si mesmos, quais
os riscos que eles querem assumir nas estradas.
Para
ver porque tais regulamentos de ‘proteção’ têm sérios inconvenientes, imagine
que o governo proíba a venda de qualquer carro abaixo da qualidade de um
Mercedes Benz. Será que
isso não iria garantir que vamos todos estar dirigindo os melhores automóveis e os mais
seguros? Mas, claro, somente aqueles que podem pagar um Mercedes Benz ainda
estariam dirigindo. Ou pergunte a si mesmo: porque o governo não triplica o
salário mínimo? Nós todos estaríamos ganhando muito mais dinheiro, não é mesmo?
Bem, aqueles que ainda tivessem emprego, sim. Os outros, não. O governo não pode
fazer mágica com suas leis, mesmo que muitas pessoas pensem assim.
Em
uma democracia, você tem que fazer o que o governo diz, já que,
basicamente, tudo que você faz precisa de permissão do estado. Na prática, aos
indivíduos ainda são permitidas muitas liberdades, mas a ênfase é sobre o
permitir. Todas as liberdades que temos em uma nação democrática são concedidas
pelo estado e podem ser tiradas a qualquer momento.
Embora
ninguém peça
permissão ao governo antes de tomar uma cerveja, esse consentimento é, no
entanto, implicitamente necessário. Nosso governo, democraticamente eleito,
pode nos proibir de beber cerveja, se quiser. Na verdade, isto aconteceu nos
Estados Unidos durante a Proibição. Hoje em dia você tem que ter 21 anos para
que seja autorizado a beber.
Outros
estados democráticos têm regras semelhantes. Na Suécia, você só pode comprar
bebidas destiladas em lojas estatais. Em muitos países e estados, a
prostituição é ilegal. Os cidadãos noruegueses não estão sequer autorizados a ‘comprar
sexo’ fora da Noruega. Na Holanda, você precisa de permissão do governo para
construir um galpão ou mudar a aparência de sua casa. Claramente essas são
todas instâncias de ditadura, não de liberdade.
É por
vezes pensado que, nas democracias ocidentais, a maioria não pode simplesmente fazer
o que quiser ou mesmo que as democracias, de fato, tipicamente protegem os
direitos das minorias. Isso é um mito. Sim, há atualmente algumas minorias que
gozam de ‘proteção’ especial do estado, como por exemplo feministas, gays e
minorias étnicas. Outras minorias, como os mexicanos, fumantes, usuários de
drogas, empresários, sem tetos, cristãos — não podem contar com tratamento
preferencial. A popularidade de algumas minorias tem mais a ver com a moda do
que com a democracia.
Em uma
democracia, as razões pelas quais algumas minorias são deixadas em paz ou
tratadas preferencialmente, são variadas. Algumas das minorias têm vozes muito
ativas e imediatamente saem às ruas quando seus ‘direitos’ (isto é, privilégios)
estão ameaçados. Alguns funcionários públicos ou trabalhadores sindicalizados
ou agricultores na França são exemplos desses grupos. Outros são tratados
com cautela porque eles são propensos a reagirem agressivamente quando eles têm
que cumprir regras, como por exemplo, hooligans ou gangues étnicas, ou
ativistas verdes. Se os fumantes, quando ainda eram a maioria, tivessem
respondido violentamente quando as suas liberdades estavam sendo espezinhadas,
muitas leis antitabagismo, provavelmente, nunca teriam passado.
O
ponto principal é, não há nada no sistema democrático em si ou no princípio da
democracia que garanta os direitos das minorias. O princípio da democracia é,
justamente, que a minoria não tem direitos inalienáveis. O Parlamento ou o
Congresso podem aprovar qualquer lei que queiram, sem levar em conta as minorias.
E as modas mudam. As minorias mimadas de hoje podem ser os bodes expiatórios de
amanhã.
Mas
as democracias não possuem constituições para nos proteger contra a legislação
tirânica da maioria? Até certo ponto, sim. Mas note que a Constituição dos EUA
foi adotada antes de os EUA serem uma democracia. E a Constituição pode ser
alterada pelo sistema democrático de qualquer forma que maioria quiser — e
muitas vezes tem sido. A Proibição do álcool foi aprovada por uma Emenda
Constitucional. Assim como o Imposto de Renda. A própria existência de Emendas
Constitucionais mostra que a Constituição está sujeita ao controle democrático,
isto é, à
vontade da maioria. E nem era perfeita a Constituição original. Ela permitia a
escravidão.
Outros
países democráticos têm constituições que são ainda menos protetoras da
liberdade individual do que a Constituição dos EUA. Nos termos da Constituição
holandesa, o estado deve proporcionar empregos, habitação, meios de
subsistência, saúde, redistribuição de riqueza e assim por diante. Esta
Constituição parece mais um programa eleitoral socialdemocrata do que um
manifesto de liberdade individual. A União Europeia tem uma constituição que
diz que ela ‘deve trabalhar para o desenvolvimento sustentável da Europa, baseada
num crescimento econômico equilibrado e na estabilidade dos preços, numa
economia de mercado social competitiva, visando o pleno emprego e o progresso
social e um elevado nível de proteção e melhoria da qualidade do meio ambiente’.
Aqueles e outros artigos neste documento dão às autoridades europeias muita margem
de manobra para regular a vida das pessoas. Aliás, as populações da França e
Holanda votaram contra esta Constituição em referendos, mas ela acabou sendo
aprovada mesmo assim.
A
democracia é também vista, muitas vezes, como andando de mãos dadas com a
liberdade de expressão, mas, novamente, isto é um mito. Não há nada nos ideais
da democracia que favoreça a liberdade de expressão, como Sócrates descobriu.
Os países democráticos têm todos os tipos de regras que limitam a liberdade de
expressão. Na Holanda, é proibido insultar a rainha.
Nos
Estados Unidos, a Primeira Emenda da Constituição garante a liberdade de
expressão, mas ‘com exceção de obscenidade, difamação, incitação ao motim e
palavras de luta, bem como o assédio, comunicações privilegiadas, segredos
comerciais, material secreto, direitos autorais, patentes, conduta
militar, comerciais tais como publicidade, e restrições de tempo, lugar e modo’.
Um monte de exceções.

o ponto importante a ser considerado é que a Constituição dos EUA — e a
liberdade de expressão que veio com ela — foi adotada antes do advento da
democracia. A razão pela qual as pessoas, nas democracias ocidentais, desfrutam
de uma série de liberdades não é porque elas são democracias mas porque elas
têm tradições liberais clássicas ou libertárias, que surgiram nos séculos XVII
e XVIII, antes de se tornarem democracias. Muitas pessoas, nesses países, não
querem desistir dessas liberdades, mesmo que o espírito de liberdade esteja
constantemente sendo corroído pelo espírito de intromissão democrática.
Em
outras partes do mundo, as pessoas têm menos conexões com as liberdades
individuais. Muitas democracias não-ocidentais mostram muito pouco respeito
pela liberdade individual. Em países democráticos islâmicos, como o Paquistão,
as mulheres têm pouca liberdade e nem há liberdade de expressão ou liberdade de
religião. Nesses países, a democracia é uma justificativa para a opressão. Se a
democracia fosse introduzida em monarquias absolutas, como o Dubai, Qatar ou
Kuwait, isso conduziria, provavelmente, a menos liberdade. Os palestinos na
Faixa de Gaza elegeram, democraticamente, o fundamentalista Hamas, que não é muito amante da
liberdade (um resultado que, ironicamente, não foi na época aceito pelos EUA e
pelos outros governos democráticos ocidentais).
__________________________________
Veja todos os nossos artigos sobre democracia:
http://www.mises.org.br/Subject.aspx?id=11
O engraçado é quando eu falo por aí que sou contra a democracia a resposta é unânime: Ah, então você apoia a ditadura? Não adianta explicar para essas pessoas que democracia é a pior ditadura que existe, que é a ditadura da mediocridade. Talvez esse trecho do livro ajude a abrir os olhos dessas pessoas, mas sinceramente tenho poucas esperanças…
"A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos." ? Winston Churchill
Como refutar a famosa citação acima?
Países latinos americanos são hoje os melhores exemplos que corroboram com este artigo.
E não nos esqueçamos da opinião minarquista sobre o assunto. O estado existe para que haja alguma segurança ao se exercer a liberdade(já que proteção é sua única e original função). Quanto menor for o estado melhor a liberdade, mas a sua total ausência poderia obrigar as agências de proteção privada a se unirem regionalmente inevitavelmente em estados ultra-mínimos, assim nem os colegas ancapes escapam do estado(Mas esse assunto em específico fica para uma próxima oportunidade.). Quanto a democracia, saliento que o seu regime na forma irrestrita sim é um grande mal, particularmente a atualmente dominante social-democracia e seu estao de bem-estar social, mas a democracia em si ainda é benéfica por ao menos ser capaz de dividir o poder do estado, “federalizando-o” ou “minarquizando-o”, o que possibilita uma divisão deste em diferentes sistemas de governo, como o da monarquia constitucional(que eu defendo como o que possibilita o melhor aproveitamento das funcionalidades das instituições democráticas). Concordo com 99% do artigo, porém, o problema não seria a democracia em si, mas sim os arranjos estatais e as ideologias nacionalistas vistas em expansão no mundo nos últimos 200 anos, a democracia foi somente muito mal aproveitada. Mas concordo que a simples divisão de poder em si não basta, já dizia Robert Nozick: "10 mil senhores em vez de um" é meramente "uma troca de senhor" (p. 291).
“em muitos países os partidos políticos têm de permitir candidatos do sexo feminino para cargos públicos”
É pior do que isso: eles não são obrigados a permitir candidatas, eles são obrigados a preencher uma cota de candidatas e tem que explicar-se quando não conseguem pelo fato da maioria das mulheres não se interessar em candidatura. Nas democracias sociais, o sexismo contra homens é tolerado e até estimulado por lei.
“Aristóteles escreveu: “A democracia ilimitada, assim como a oligarquia, é uma tirania espalhada por um grande número de pessoas.””
A democracia tem que ser limitada pela isonomia, pelo império da lei, pelo princípio da subsidiariedade, pela divisão de poderes, pela liberdade responsável do indivíduo.
* * *
“A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros no qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga, um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão” – Aldous Huxley
Democracia não é liberdade, visto que muitos partidos comunistas/sociliatas (talvez a maioria) apoiam a democracia.
OS MUÇULMANOS AINDA DISFARÇAM UM LIVRE MERCADO DE IDEIAS, OS LIBERTÁRIOS NÃO.
Dentre várias possibilidades, o mercado escolheu a democracia num processo lento, demorado e dificultoso, como é normal para o aprimoramento de qualquer produto. Acho que seria mais interessante promover o anarquismo ou niilismo (já totalmente refutados, então fica difícil) e não denegrir o concorrente. Que a democracia pode servir para que uma horda de bárbaros exijam benesses mil do Estado (ou seja, dos outros cidadãos) ou que o Estado use a democracia para legitimar decisões que, na verdade, são arbitrárias e favorecem uma minoria detentora da autoridade, isso é fato conhecidíssimo e os libertários não são Cristovão Colombo. Pior que a ementa, só o soneto: acabar com a democracia. Pergunto: essa é a solução proposta pelas organizações Tabajara ou pela Revista MAD? Tocqueville já previa isso em “A Democracia Na América” e dizia que o que fez funcionar bem a democracia foram os VALORES que forneciam a responsabilidade necessária às decisões individuais. Como os libertários ampliam indevidamente os princípios econômicos da Escola Austríaca para outras áreas, como direito, história, sociologia etc. eles retiram o VALOR de todas elas (contrariando von Mises que diz ser apenas as ciências apriorísticas – matemática e praxeologia – bem como as ciências naturais, NÃO SÃO AVALIADAS DE ACORDO COM CRITÉRIOS VALORATIVOS e deixa claro a necessidade do valor para as demais – Leiam “Ação Humana” e se tornem mais humanos). Resultado disso, tiram o elemento de valor da organização social usando o modelo econômico indevidamente, aí a democracia só tem a possibilidade de se transformar naquilo que Tocqueville tinha medo que virasse, isso é a consequência óbvia, não dos fatos, mas do método utilizado. GRANDE DESCOBERTA! Claro que a consequência lógica de retirar o elemento VALOR seria transformar a democracia numa excrescência, mas isso não é culpa da democracia é culpa do método utilizado pelos libertários que nada nos propõe a não ser o velho barbarismo, anarquismo e niilismo. É PROIBIDO PROIBIR.
Non sequitur.
Os motivos para a democracia ser um mal sistema são outros (como os citados no texto); entretanto não é porque a China usa o nome “democracia” que a democracia é automaticamente ruim.
E olha que na China nem democracia de verdade existe.
O grande e verdadeiro problema se chama “ser humano”. Eliminando este fator, fim de todos os problemas! para as diversas utopias (que permeiam as mentes de pseudo-intelectuais) se concretizarem, seria necessários que todos os seres humanos fossem (sem nenhuma exceção)uns perfeitos cordeirinhos imaculados que tenham exatamente os mesmos pensamentos imaculados. Sem esta condição, acorda pra vida moçada!
Acabei de assistir um filme sobre Pancho Villa no Telecine Cult em que o personagem define para o gringo a idéia de Liberdade:
Respeito ao direito do próximo.
As leis deveriam garantir a respeitabilidade mútua relativa a direitos individuais.
A democracia distorce tudo. Gera desigualdade e injustiça.
Sobre o texto estranhei essa passagem:
” … a Constituição dos EUA foi adotada antes de os EUA serem uma democracia…. E nem era perfeita a Constituição original. Ela permitia a escravidão.”
“A grande palavra das Democracias, que a opõem à da justiça econômica, proclamada pelo Comunismo, é: Liberdade. Estamos aos antípodas da concepção totalitária. Mas, ambos os sistemas têm seus defeitos. Deixemos de lado os programas teóricos de justiça econômica ou de liberdade, e olhemos a substância, que está por baixo deles. Os sistemas totalitários de um lado, filhos, embora degenerados dos sistemas de comando por investidura divina — ainda que agora Deus seja eliminado deles — exercem um poder absoluto, a mais antiga e primitiva forma de poder, partindo do pressuposto de que o chefe possui uma verdade indiscutível, porque ele é superior e não erra. Na
realidade, isto é apenas uma tentativa de justificação teórica, para cobrir a crua realidade, que é o domínio do mais forte que venceu. Segue-se daí que os princípios proclamados são obrigatórios para todos, todas as consciências estão amarradas a eles e têm que aceitá-los pela imposição. Sistema primitivo, o mesmo das teocracias, necessário nas primeiras fases mais involuídas da humanidade,quando o indivíduo ainda não tinha nem uma personalidade autônoma, nem capacidade de justiça.
Sistema ótimo, se o chefe e a classe dirigente fossem verdadeiramente perfeitos. Mas o são eles na prática? Sem dúvida a verdade deveria descer do alto, mas existirá de fato uma aristocracia superior, uma «elite» biológica, capaz de personificar esta função de captar e representar uma verdade que desce do alto? Ou tudo isso, na realidade é apenas uma pretensão teórica?
Doutro lado, o sistema das Democracias, embora representando uma fase mais avançada de vida, com formas mais livres de convivência social, presume maior consciência e autonomia pessoal,superior capacidade de julgamento, necessária para dirigir a nova liberdade mais vasta. É necessária uma consciência política, para saber usar o direito do voto. É indispensável uma maturação e educação que se não improvisam. Com efeito, o povo russo, que não viveu a revolução francesa e lhe não assimilou os frutos, permaneceu sob o mesmo poder absoluto, pouco importando que agora o chefe
supremo esteja vestido de vermelho. Tantas liberdades não podem ser concedidas aos povos menos evoluídos, e para eles um governo absoluto pode ser uma necessidade. Mas também no Ocidente, as massas, em parte, não estão preparadas para usar desse novo poder a elas concedido. Entretanto,usá-lo já é um meio para aprender a usá-lo. E enquanto o povo não aprender, é lógico que ele também suporte as perdas, sendo explorado pelos demagogos e depois sofrendo as conseqüências.
O sistema liberal tem, além disso, outro defeito. Se é adiantado no terreno da liberdade política,é atrasado no da liberdade econômica, problema que, enfrentado e desfraldado em cheio pelos países comunistas, embora atrasados estes no campo da liberdade política, é quase ignorado pelas democracias, em que esta liberdade pode resultar naquela, de livremente morrer de fome. É assim que,enquanto as democracias acusam de escravagismo o regime comunista, este intitulando-se protetor dos pobres e paladino da justiça, prometendo, ainda que só com palavras, o bem-estar que é o a que as massas mais aspiram, pôde conquistar adesões que a concessão do direito do voto está bem longe de obter. Ao povo interessa mais resolver o problema de sua vida material, que o de sua vida política. O primeiro representa uma realidade sua concreta, que cada um vive de perto. O segundo produz frutos remotos, coletivos, em que o indivíduo desaparece; frutos problemáticos, porque entregues em confiança a homens nem sempre conhecidos de perto, em que se tem uma fé relativa. Isto porque,
desde que o mundo é mundo, parece que os homens de governo tenham querido fazer convergir numa só direção a atividade educadora dos povos, ou seja, em ensinar-lhes, com o exemplo — que é o que mais persuade — a má fé dos governantes, por um hábito próprio inveterado, que considera o poder,não como função social e missão, mas como meio de exploração em prol do benefício único egoístico e pessoal dos chefes.
Como se vê, o maior defeito não está tanto no sistema ou forma de governo, mas no valormesquinho dos homens que o ocupam. Quando só se dispõe, para construir um edifício, de lama mole,é inútil escolher e mudar projetos. Com qualquer plano de construção a casa ruirá. Isto não significa,entretanto, que não se possa construir um bom governo também com o sistema do poder absoluto,desde que se tivesse um grande homem como chefe. Às vezes a natureza os gera, e isto poderia chamar-se um verdadeiro caso de investidura divina. Um homem de grande valor pode dar sua
característica ao seu século e, se for dirigido por uma consciência superior e pelo senso de missão, o poder absoluto poderá ficar em suas mãos, sem perigo de abusos e a benefício de todos. E é verdade também que, ao menos teoricamente, o poder deveria descer do alto, de uma verdadeira aristocracia do espírito, isto é, de homens superiores, biologicamente selecionados, para que possuíssem eles as mais altas qualidades da estirpe, verdadeiros antecipadores da evolução, e portanto os mais aptos a guiar e educar, que é a verdadeira tarefa do poder.
E é verdade também que o sistema da representação pela escolha eleitoral, por parte das massas, eleva a juízes e árbitros, todos os elementos da nação, inclusive os inconscientes, os rebeldes à ordem, os indesejáveis. Não pode dizer-se que basta
ser a maioria para representar o verdadeiro e o justo, para ter razão e poder melhor realizar. A demagogia, a mecânica eleitoral, a psicologia do momento, podem criar maiorias de valor mínimo para o bem coletivo. E então o sistema eleitoral só é justificável como meio de expressão de tendências, quaisquer que sejam elas, porque podem manifestar-se livremente e lutar; ou então expressão de correntes de pensamento, que se formam no subconsciente coletivo ou psicologia da massa, a qual
inconscientemente exprimiria o que o pensamento da história exige que se faça naquele momento. Mas esta última justificação faria do cidadão votante uma molécula ignara, transportada pelas correntes coletivas, que seriam as únicas que verdadeiramente exerceriam o voto.”
Pietro Ubaldi – Profecias
Páginas 53 a 55.
É possível haver um democracia saudável (que garanta a liberdade) numa sociedade bem informada e culta?
Primeiramente, parabéns pelo texto.
Entretanto ainda não existe uma constituição europeia, como sugere o texto.
O projeto foi submetido à aprovação por consenso, mas não obteve o consentimento de todos.
O que aconteceu foi a consolidação dos diversos tratados que regulavam a União Europeia no Tratado de Lisboa.
Acredito que o artigo confundiu em alguns pontos a Democracia, com o uso que alguns fazem dela, extrapolando em si o que se propõe a ser, apenas um regime político. E talvez pior, chamou de Democracia sistemas que provavelmente muito longe dela.Ainda sim o artigo vai a fundo ao criticar liberdades que ,ao menos, deveriam ser independentes de regimes políticos. Um livro que aborda isso de forma interessante e brasileiro é “Democracia Pura”.
O TEXTO NÃO TRAZ PASSÍVEIS SOLUÇÕES PARA O PROBLEMA QUE APONTA,
Para julgarmos tal questão levantada basta analisamos sobre o ponto de vista de um princípio fundamental, O CUSTO BENEFÍCIO. Qualquer um que pensar e pensar sobre a questão da democracia conluiara que ela não é perfeita. Porém, ao menos que se tenha uma alternativa mais justa, é com esta que devemos caminhar. DEMOCRACIA É UM CONSTANTE APERFEIÇOAMENTO, reparem a atividade do legislativo, e as eleições. Se a democracia fosse tão ruim quanto o texto quer passar, poderia acabar com tais liberdades conquistadas antes da instalação da democracia, como o texto menciona. Contudo, creio que poderíamos escrever sempre o dobro de livros, que apontam os erros da democracia, mostrando os benefícios dela.
Então, até o momento, fico com a Democracia, creio que seja o melhor custo benefício.
Um monte de links interessantes. O primeiro eu já conhecia. Talvez convençam. A princípio eu diria que deveria existir um lugar, onde, os que não querem democracia possam ir viver. E um lugar para os que querem, também. Creio que, em um futuro onde todos tenham um bom nível de Educação, informação e intelectualidade; ninguém vai achar justo ter que se submeter a alguém como um Rei, um presidente, um grupo econômico, um Deus… por muito tempo.
Que dó. E a louça? Já lavou?
Qualquer regime político que não procure dar poderes ao povo não tem boa intenção. Sim, a democracia tem suas falhas, no entanto, gostaria de ver algum outro regime que fosse justo com o povo e que não seja baseado na democracia. O Brasil tem uma democracia recente e precisa amadurece-la, porém ainda está acorrentada por ideais oligárquicos, Brancos, dominantes e colonizadores.
“Mas, na verdade, a liberdade e a democracia são opostas. Em uma democracia, todos devem se submeter às decisões do governo. O fato de que o governo é eleito pela maioria, é irrelevante. Coerção é coerção, quer seja ela exercida pela maioria ou por um único governante.”
Verdade, mas é necessário para se garantir segurança externa contra outros países, segurança interno entre as pessoas do mesmo local (você até pode estar seguro dentro do condomínio, mas e na rua?), investimentos em infraestrutura que a iniciativa privada não faz por não ter lucro e dinheiro (criar uma ponte, uma hidraelétrica por exemplo), garantir a justiça, garantir direitos, garantir igualdade de oportunidade (que ai entra o direito a educação etc.) e etc.
“O governo aprovou inúmeras leis que impossibilitaram muitas interações e relações sociais voluntárias. Inquilinos e proprietários não são livres para fazerem contratos da forma que acharem melhor, os empregadores e os trabalhadores não podem decidir livremente sobre os salários e as condições de trabalho que desejarem, médicos e pacientes não estão autorizados a decidirem livremente quais os tratamentos ou medicamentos que irão ser utilizados, as escolas não são livres para ensinar o que elas quiserem, os cidadãos não estão autorizados à ‘discriminação’, as empresas não estão autorizadas a contratar quem elas quiserem.”
Verdade denovo, mas o governo faz isso por que os atores das relações sociais estão em posição desigual: O empregador se perde um funcionário fica com a produção um pouco debilitada, mas se um trabalhador se perde o emprego pode ficar sem dinheiro até para comer e alimentar sua família. Resultado? O trabalhador pode se sujeitar a condições infimas, como no caso Chinês de trabalho de 18 horas por dia, até para crianças e mulheres. O resto dos exemplos que você deu é a mesma coisa, é só pensar se os atores são realmente iguais ou não.
“Leis que interferem na liberdade do povo de celebrar acordos voluntários, podem beneficiar determinados grupos, mas elas, invariavelmente, prejudicam outros grupos. Leis de salário mínimo beneficiam certos trabalhadores, mas prejudicam as pessoas que são menos produtivas do que o salário mínimo exige. Essas pessoas se tornam muito caras para serem contratadas e, assim, ficam desempregadas.”
Mais uma vez verdade, mas é para isso que existe educação, para que as pessoas se tornem mais produtivas e não precisem ficar apenas desempregadas.
“Para ver porque tais regulamentos de ‘proteção’ têm sérios inconvenientes, imagine que o governo proíba a venda de qualquer carro abaixo da qualidade de um Mercedes Benz. Será que isso não iria garantir que vamos todos estar dirigindo os melhores automóveis e os mais seguros? Mas, claro, somente aqueles que podem pagar um Mercedes Benz ainda estariam dirigindo.”
Aqui você forçou, e muito. Regulamento de proteção é para proteger bens jurídicos superiores (e muito!) ao simples dinheiro. Isso significa que é muito melhor pagar um pouco mais caro e ter sua vida e integridade física garantida, do que abrir mão disso. No seu exemplo de Mercedes Benz o carro não é mais seguro, é apenas um bem de luxo.
“O ponto principal é, não há nada no sistema democrático em si ou no princípio da democracia que garanta os direitos das minorias. Mas as democracias não possuem constituições para nos proteger contra a legislação tirânica da maioria? Até certo ponto, sim. Mas note que a Constituição dos EUA foi adotada antes de os EUA serem uma democracia. E a Constituição pode ser alterada pelo sistema democrático de qualquer forma que maioria quiser — e muitas vezes tem sido.”
A nossa Constituição não pode alterar os direitos (seja das minorias seja de qualquer pessoa) mesmo que 99,9999% da população quisesse, por causa das Cláusulas Pétreas. O Direito da minoria está assegurado frente a maioria.
HUMBERTO,
Primeiro devo repetir que não é ofendendo que a gente resolve as cosias. Até entendo que queira ofender a ideia, o argumento, mas aqui do outro lado tem uma pessoa aberta ao debate. Também tenho dúvidas, por isso estou aqui.
Tentando melhorar o que eu disse:
Sabemos como o Brasil foi formado… Hoje, se não for a democracia, dificilmente seriam atendidos os anseios de pobres, negros, índios e outros que não detêm poder econômico.
ANGELO VIACANA,
Entendo. Sei das falhas da Democracia. Só acho que é a melhor opção custo benefício, ao menos no momento. Sei que é preciso um povo mais culto. Mas não crio que isso possa ser alcançado sem uma mão do Estado. Em nossa cultura, ainda, para algumas pessoas, quem mostra saber é considerado metido a besta.
Se deixarmos uma espécie de cada um por si, ao menos no momento, creio que levaríamos séculos para evoluir.
GABRIEL,
Creio que muito destes anseios foram atendidos desde a implantação da Democracia. E continua. Não é como em um estalar de dedos, a Democracia também é um processo, um aperfeiçoamento. O próprio Rui Barbosa não pôde ser presidente devido o controle do poder pelas elites. Hoje, alguém sem grandes poderes econômicos pode influenciar nos assuntos do país. Não creio muito no voto, mas algum poder ele tem. Poder este que pode ser aperfeiçoado.
Por ideais oligárquicos, Brancos, dominantes e colonizadores, eu quis dizer que, a colonização no Brasil tinha um ideal de exploração. E foram, principalmente, os Brancos Europeus, quem dominaram e exploraram as coias por aqui. Mesmo após a miscigenação, os Brancos continuaram sendo maioria ideológica e, portanto, gozavam privilégios da então coroa Portuguesa. Esses privilégiados ganharam força, se desenvolveram e se estabeleceu uma grande desigualdade social que deixou resquícios em descendentes e simpatizantes destas, agora, elites privilegiadas, as quais, provavelmente, poderiam ver seus privilégios sendo, de alguma foram, divididos devido a a instalação da Democracia.
Não achei muita informação sobre as sanções sofridas por Catar e Arabia Saudita em prol a democracia Ja que Africa do sul sofreu severas sanções quanto ao preso politico Mandela e nao terem adotado sistema de voto democratico.
Equivocado esse raciocínio.!
Democracia é liberdade e tem que andar junto com normas e leis, se não , vira anarquia!
Na democracia há leis a serem seguidas e a liberdade faz parte disso, se não, vira libertinagem.
Texto muito bom, boas explanações – falou, falou e falou, mas não trouxe nenhuma sugestão, criticar é fácil. Agora fica para outros trazerem a sugestão
Hoje, fui até a Livraria Leitura de minha cidade para comprar o livro “Democracia, o Deus que falhou”. Uma edição do Mises Brasil que se encontra esgotada na maioria dos lugares em que procurei. Estou lendo e gostando muito. Parabéns, Instituto Mises, por esta obra de Hoppe.
Hoje 02/10/2022, o facebook não aceita eu compartilhar essa publicação, tentei 4 x e recebi isso deles:
4 das suas publicações vão contra nossos padrões sobre spam.
Me sinto atacado em miha liberdade.
Gilmar