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Por que o PIB é uma ficção

N. do T.: artigo originalmente escrito em abril de 2007.

Toda vez que você ouvir a mídia – que sempre e em todo lugar é pró-estado – louvar o governo da vez pelo crescimento do PIB, tenha em mente apenas uma coisa: o PIB é uma estatística totalmente falsa.

É perfeitamente possível, por exemplo, que o valor do PIB cresça enquanto os lucros das empresas e a renda das pessoas caiam. Como?

O PIB registra a quantidade de bens e serviços – medidos em valores monetários – produzidos pela economia durante um determinado período. Mas ele equipara – isto é, coloca indiscriminadamente na mesma equação – os gastos do governo e os gastos privados. E, pior, ignora completamente a riqueza e todo o crescimento potencial que são destruídos pela tributação.

Assim, imagine uma economia formada por duas pequenas e produtivas cidades. Eis que então o governo decide destruir uma delas – provavelmente aquela que oferecer uma teimosa resistência aos impostos cobrados – através de bombardeios aéreos. Após isso, ele passa a tributar mais ferozmente a outra cidade para poder pagar pelos custos militares, pela limpeza e pela reconstrução da cidade que foi destruída. Após um ano, essa cidade é restaurada. Se calcularmos o efeito líquido desse processo – exatamente da forma como são feitas as estatísticas do governo – veremos que o PIB dessa economia formada pelas duas cidades cresceu 50%.

O PIB registra o dinheiro gasto em bens e serviços, e não a riqueza destruída por bombas, tributações, regulamentações e outras atividades governamentais. Portanto, no caso acima, o resultado do PIB seria como se uma terceira cidade tivesse sido adicionada à economia, quando na verdade uma foi destruída.

Como Murray Rothbard mostrou, subtrair os gastos governamentais das estatísticas do PIB, e depois ajustar para a carga tributária, fornece uma idéia muito melhor sobre o real estado da economia. O resultado obtido ele chamou de “Produto Privado Remanescente (aos Produtores)”, ou PPR.

No final da década de 1980, o professor Robert Batemarco, do Manhattan College, trabalhou em cima dessa tese do professor Rothbard. Ele computou o PPR de 1960 a 1985, e publicou um artigo a respeito na primeira edição do Review of Austrian Economics, do Mises Institute.

A enorme diferença entre o PIB e o PPR comprovou o crescimento horrendo do estado. E essa diferença, que já era enorme, segue aumentando atualmente, não obstante as constantes promessas de se reduzir o estado. O crescimento do PIB atual se deve quase que inteiramente a um aumento nos gastos do governo, o que representa simplesmente um consumo de capital, e não um progresso genuíno.

(E como mostrado pelo PPR, a economia americana mal se moveu na década de 1980, graças aos impostos crescentes, aos déficits contínuos, ao assistencialismo frenético, aos empréstimos tomados pelo governo, aos subsídios e às regulamentações.)

Em média, os números do PIB são aproximadamente 52% maiores do que o crescimento real. E quanto mais o governo cresce, maior se torna essa percentagem.

É por isso que muitas vezes ouvimos falar que o PIB teve um crescimento acima da média, mas não conseguimos sentir os benefícios que supostamente deveríamos sentir com esse aumento. A inflação monetária, por exemplo, uma das maiores responsáveis pelo aumento artificial do PIB, é algo que beneficia apenas alguns poucos privilegiados – aqueles que são os primeiros a receber o dinheiro recém criado pelo Banco Central, e que podem usufruir dele antes que seu valor seja diluído. (Ver mais aqui).

Por exemplo, antes do esfacelamento do acordo de Bretton Woods, a renda dos grandes executivos era aproximadamente 30 vezes maior do que a renda do trabalhador médio. Hoje, ela é aproximadamente 500 vezes maior. Em 2006, uma grande firma de Wall Street distribuiu bônus no valor total de $16,5 bilhões. Essa inflação dos valores monetários, que levou a essa enorme discrepância de salários, está longe de representar um genuíno capitalismo de livre mercado.

Em 1971, ainda antes do rompimento de Bretton Woods, o salário mínimo dos EUA era o equivalente a $9,50 em dólares atuais. Hoje, esse mesmo salário equivale a $5,15. Os políticos se congratulam a si próprios todas as vezes que elevam por decreto o valor do salário mínimo, quando a realidade é que eles diminuíram seu valor real ao permitirem que o Banco Central desvalorizasse a moeda. É de se considerar se as crescentes desigualdades criadas por esse sistema monetário levarão a algum tipo de discórdia social.

Quando os números do PIB crescem mais do que 3%, todos parecem satisfeitos. O que poucos percebem é o quanto os gastos do governo – algo que, ao invés de gerar riqueza, apenas a destrói – contribuem para aumentar nominalmente o PIB. Reconstruir estruturas destruídas por terremotos, furacões ou enchentes, algo que simplesmente leva o país de volta a onde ele estava antes do desastre, é tomado como parte do crescimento do PIB. Os lucros e salários do mercado financeiro, artificialmente inflados pelo aumento da oferta monetária conduzido pelo Banco Central, também contribuem para a estatística de crescimento do PIB. Desperdiçar o dinheiro arrancado à força do setor produtivo da sociedade com o pagamento de inúteis operações e burocracias governamentais, algo que em nada contribui para o bem-estar da população, também contribui para o crescimento do PIB, assim como aumentos de preços causados pela inflação monetária do Banco Central!

Mas nenhum desses fatores representa de fato algum de tipo de aumento real da atividade econômica. Portanto, deveríamos desconsiderar todos os números do PIB que não reflitam genuinamente o que está acontecendo com a economia. Essas falsas estatísticas explicam em parte por que muitas pessoas se sentem arrochadas ainda que o PIB apresente um teórico crescimento.

Desconfie sempre de qualquer estatística governamental. Elas geralmente são criadas para iludir – e o PIB não foge à regra.

 

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32 comentários em “Por que o PIB é uma ficção”

  1. Excelente texto, muito instrutivo e próprio para desmistificar esse assunto de PIB. Sempre que anunciam o crescimento dele, a maioria da população não percebe esse mesmo crescimento. Será que existe uma lista em algum lugar com o PPR dos países? Seria interessante dar uma olhada e ver as discrepâncias em relação às estatísticas estatais (PIB). Eu já não dava bola quando os jornais anunciavam por puro ufanismo o crescimento do PIB, depois desse texto sempre vou olhar as notícias de forma diferente.

  2. PIB é fluxo, não estoque.\nPIB real já é deflacionado pelo deflator que se aproxima muito bem do IPC.\nCríticas ao PIB são sempre bem vindas (e eu tenho várias), mas críticas apropriadas são mais bem vindas ainda.

  3. “Desperdiçar o dinheiro arrancado à força do setor produtivo da sociedade com o pagamento de inúteis operações e burocracias governamentais, algo que em nada contribui para o bem-estar da população, também contribui para o crescimento do PIB, assim como aumentos de preços causados pela inflação monetária do Banco Central”

    ————————————–
    é interessante, que ainda, hoje eu vi, o Ipea dizendo o seguinte em sua pesquisa: “PIB aumenta R$ 1,78 a cada R$ 1 investido no Bolsa Família”
    agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-10-15/pib-aumenta-r-178-cada-r-1-investido-no-bolsa-familia-diz-ipea

    Agora eu sei o porque, isso acontece.
    O que me deixa triste, será os inocentes úteis, que vão cair nessa propaganda enganosa, dita pelo governo.

  4. Gosto dos textos do Ron Paul, mas este aqui tem uma lógica que me causou estranheza: ele usa os cinco primeiros parágrafos para mostrar que o PIB não é um bom indicador da economia, porém, no sexto parágrafo, apresenta a proposta do Rothbard, que nada mais é que um PIB com menos elementos.

    Faço uma simulação análoga à dele: suponha uma cidade sem Governo/Estado. Ocorre, então, uma série de desastres naturais que destroem boa parte das edificações e da infraestrutura. No ano que houver a reconstrução, o PPR proposto por Rothbard também indicará um aumento na economia, sendo que, na verdade, o que ocorrerá é apenas uma reconstrução.

    Eu, pessoalmente, vejo mais sentido em medir riqueza, sendo esta complementada pela medição de renda e de despesa, cuja subtração da primeira pela segunda indica a taxa de variação de riqueza. Aqui, sim, podemos medir o bem estar econômico das pessoas, e como ele varia.

  5. Esqueci-me de responder a última parte.

    Não entendi. Submeta aos editores do site um artigo sobre isso.

    Os dados contidos no primeiro link abaixo, e seu respectivo relatório (segundo link), me dizem mais sobre o bem-estar econômico de um grupo de pessoas do que o PIB.

    https://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/?fileID=5521F296-D460-2B88-081889DB12817E02

    https://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/?fileID=60931FDE-A2D2-F568-B041B58C5EA591A4

    Abraço.

  6. No final de Dezembro de 2014 terminei de escutar todos os 150 podcasts até então, sem dúvida obtive muito conhecimento a cerca dos assuntos que permeiam a escola austríaca de economia e correlatos, excelente trabalho de todos os envolvidos. Parabéns ao Instituto Mises por esta série de entrevistas e espero mais entrevistas no ano de 2015, It’s Happening!!!

  7. Parabéns Bruno! Sou ouvinte e aprendi muito com vocês. O meu mais sincero obrigado pelo seu brilhante trabalho. Abraços.
    P.S: Excelente escolha da vinheta de abertura. Pachelbel está em plena harmônia com os ensinamentos da Escola Austríaca.

  8. José Ricardo das Chagas Monteiro

    Saudações, Bruno, favor não agradecer, sinto-me o único favorecido pelo seu trabalhado, e de toda equipe do Instituto Mises.
    Sorte, e vida longa a você e todos do Instituto.

  9. Parabéns a toda e equipe por todo o trabalho dos últimos 3 anos! Sou muito grato por receber sempre um novo aprendizado. Abs e que continue o sucesso em 2015.

  10. Muito obrigado pelas generosas palavras de incentivo, Henrique, José Ricardo das Chagas Monteiro e Raphael. Continuarei por aqui aprimorando o trabalho no Podcast do IMB. Grande abraço.

  11. ?Caro Bruno,

    O site do Mises e os podcasts são fantásticos. Sou seguidor, admirador e divulgador há anos. Contudo, quero utilizar essa oportunidade para agradecer pelo post abaixo:

    http://www.brunogarschagen.com/2014/11/diogo-mainardi-colunista-de-sucesso.html

    Conhecia e admirava o colunista D??iego, mas não o romancista. Li o seu post no final de novembro/2014 e em dezembro comprei e li TODOS os livros do Mainardi. No caso de “A Queda”, comprei 10 exemplares e distribui entre amigos.

    Em outras palavras, muito obrigado pelos podcasts E pelo seu blog.

    Um abraço,
    Felipe Sabino

  12. Olá! Há algum tempo ouço de amigos, professores inclusive que o PIB de um país pode crescer dependendo do seu digamos “estado econômico”, por exemplo, países desenvolvidos tendem a crescer menos seu PIB pois já são “desenvolvidos” e subdesenvolvidos tendem a crescer mais, pois ainda podem chegar ao status de desenvolvido, isto é verdade?

  13. Diego Nogueira Rocco

    Gente, uma dúvida, a fórmula do PIB é

    PIB= C + G + I + (X-M)

    Então, eu estava pesquisando, e descobri que, na França:

    C = 53,4% do PIB

    G = 59,86% do PIB

    I = 24,7% do PIB

    X = 31,77% do PIB

    M = 32,75% do PIB

    Somando tudo, dá:

    53,4 + 59,86 + 24,7 + 31,77 – 32,75 = 136,98% do PIB

    Alguém sabe qual o erro? Por que está dando mais de 100%?

  14. Erro de cálculo. Provavelmente houve dupla contagem (contaram investimentos estatais como gastos do governo, bem como serviço da dívida).

    Normalmente, os “gastos do governo” são um verdadeiro salseiro. Mistura-se gastos federais, com estaduais e municipais. E alguns ainda incluem serviço da dívida e alguns investimentos.

    Ainda assim, você acabou de descobrir na prática o que foi descrito aqui:

    http://www.mises.org.br/article/2582/o-erro-central-da-teoria-keynesiana-em-uma-unica-frase

  15. Diego Nogueira Rocco

    Gente, uma pergunta, qual a diferença do PIB PPC e do PIB ”normal”. Eu ouvi dizer que no primeiro se considera o poder de compra, mas não é exatamente isso que nós fazemos no segundo, já que o PIB ”normal” é medido em dólares, então ao converter reais para dólares eu já não estaria considerando o poder de compra?

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