Nota da edição:
O centenário de Murray Rothbard está aproximando, por isso republicamos este artigo, onde ele discorre sobre o real papel do economista.
Para se aprofundar em seu pensamento, o Instituto Mises Brasil também um lançou um e-book gratuito comemorativo em sua homenagem.
A economia nos fornece algumas leis verdadeiras, do tipo: se temos A, então temos necessariamente B, que gera C, que provoca D, etc. Algumas destas leis são verdadeiras em qualquer ocasião, isto é, A sempre é válida (a lei da utilidade marginal decrescente, as preferências temporais, etc.).
Já outras leis requerem que A seja considerada a priori como verdadeira antes que seus efeitos possam ser afirmados na prática.
A pessoa que identifica as leis econômicas e as utiliza para explicar fatos econômicos complexos está agindo como um historiador econômico, e não como um teórico econômico. Ele é um historiador quando procura a explicação causal dos fatos passados; e ele é um prognosticador quando ele tenta prever os fatos futuros.
Em ambos os casos, ele faz uso de leis absolutamente verdadeiras, mas precisa saber determinar quando alguma lei em particular se aplica a uma determinada situação. Adicionalmente, as leis econômicas são necessariamente qualitativas, e não quantitativas. Assim, quando o prognosticador tenta fazer previsões quantitativas, ele está indo muito além do conhecimento fornecido pela ciência econômica.
Algo que raramente é entendido é o fato de que as funções do economista em um livre mercado são nitidamente distintas daquelas do economista em um mercado regulamentado. O que pode um economista fazer em um mercado totalmente livre? Ele pode explicar como realmente funciona a economia de mercado (uma função vital, principalmente porque os leigos tendem a considerar a economia de mercado como sendo um caos absoluto), mas ele pouco pode fazer além disso.
Contrariamente às pretensões de muitos economistas, ele seria de pouca serventia aos empreendedores em um livre mercado. O economista não pode prever as futuras demandas do consumidor e os custos futuros tão bem quanto os empreendedores; afinal, se ele pudesse, então ele seria o empreendedor. Sabemos que o empreendedor está onde está precisamente por causa de sua superior habilidade de previsão do mercado.
As pretensões dos econometristas e de outros “modeladores” de que eles podem prever com precisão e acurácia a economia irá sempre soçobrar perante a simples, porém devastadora, indagação: “Se você pode prever tão bem, por que você não está no mercado de ações, onde previsões acuradas geram ricas recompensas?”
Não adianta rejeitar tal pergunta — como muitos têm feito — alegando que ela é “anti-intelectual”; este é exatamente o teste rigoroso a ser enfrentado pelo pretendente a oráculo econômico.
Ludwig von Mises demonstrou a falácia do termo “modelagem”, que é muito popular e que surgiu erroneamente (junto com muitas outras falácias cientificas) de uma analogia com as ciências físicas — nesse caso, a engenharia. Os modelos de engenharia fornecem a exata dimensão quantitativa — em uma miniatura proporcional — do mundo real. Porém, nenhum “modelo” econômico pode fazer algo parecido.
Nos últimos anos foram desenvolvidas novas disciplinas matemáticas e estatísticas cujas pretensões eram ajudar os empreendedores a tomar decisões concretas. Não é o objetivo aqui estipular se tais pretensões são válidas ou não; o objetivo é dizer que tais disciplinas não podem jamais fazer parte da ciência econômica, mas sim de um tipo de tecnologia de gerenciamento. O economista, nunca é demais repetir, não é um tecnólogo comercial.
Portanto, o papel do economista em uma sociedade livre é puramente educacional.
Mas quando o governo — ou qualquer outra agência usando de violência — intervém no mercado, a “utilidade” do economista se expande. A razão é que ninguém sabe, por exemplo, quais serão as demandas dos consumidores no futuro, em uma determinada área. Como explicado acima, em um ambiente de livre mercado, o economista será naturalmente substituído pelo prognosticador empreendedorial. Porém, quando o governo se intromete no mercado, criando várias intervenções e regulamentações, as coisas ficam muito diferentes, pois o problema agora é saber precisamente quais serão as consequências dos atos do
governo.
Em resumo, o economista pode ser capaz de dizer quais serão os efeitos de um aumento na demanda por manteiga; mas isso será de pouca serventia, pois o empreendedor está majoritariamente interessado não nas consequências — as quais ele sabe muito bem para seus propósitos –, mas sim em saber se tal aumento irá ocorrer. Por outro lado, quando se trata de uma intervenção governamental, o “se” passa a ser exatamente o que os cidadãos irão decidir coletivamente. E é nessa situação que o economista, com seu conhecimento das várias consequências alternativas, ganha seu reconhecimento.
Ademais, as consequências de um ato governamental, sendo indiretas, são muito mais difíceis de serem analisadas do que as consequências de um aumento na demanda do consumidor por um produto. Isso requer que o raciocínio seja desenvolvido de forma dedutiva e em cadeias cada maiores, particularmente ao se considerar os objetivos dos criadores das políticas econômicas. A decisão do consumidor de comprar manteiga e a decisão do empreendedor de entrar no ramo da fabricação de manteiga não requerem um raciocínio dedutivo, mas sim uma compreensão clara dos dados concretos. Por outro lado, o julgamento e a avaliação de um ato governamental requer cadeias maiores de raciocínio dedutivo.
Assim, por duas razões — devido ao fato de os dados iniciais lhe serem fornecidos e pelo fato de as consequências terem de ser analiticamente exploradas –, o economista é bem mais “útil” na condição de economista político do que na condição de conselheiro comercial ou um tecnólogo. Em uma economia regulamentada, o economista frequentemente se torna útil aos empresários, uma vez que um raciocínio econômico mais elaborado se torna importante, por exemplo, para analisar os efeitos da expansão do crédito ou de um aumento nos tributos ou nas tarifas de importação. No geral, o economista irá se tornar importante apenas para espalhar esse conhecimento ao mundo externo.
O economista político, com efeito, é indispensável para qualquer cidadão que queira formular julgamentos éticos na política. A economia por si só jamais pode fornecer soluções éticas, mas ela pode sim fornecer leis existenciais que não podem ser ignoradas por qualquer um que esteja querendo formular conclusões éticas — da mesma forma que ninguém pode decidir racionalmente se o produto X é uma comida boa ou ruim antes de as consequências sobre o corpo humano serem apuradas e levadas em consideração.
Uma vez eu questionei o rodrigo constantino em um artigo, onde ele falava sobre a receita federal. Eu até citei um artigo do instituto mises, tentando justificar que imposto era roubo. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1748
Ai eu obtive como resposta: não concordo de forma alguma com a visão anárquica desses libertários. O estado é um mal necessário.
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Por que o estado é um mal necessário?
Ou seja, é graças ao governo que aumenta as minhas chances de conseguir um emprego como economista após a faculdade?
Excelente artigo. Só uma ressalva: o especialista em econometria (do inglês econometrics), deveria ser grafada como econometrista e não como econometricista, assim como economista é o especialista em Ciências Econômicas (Economics em inglês).
A lei que rege o mundo é a lei do mais forte.
Logo, sem estado, sem “O mais forte”, o que teremos são grupos se matando tentando dominar para serem o tal.
Sempre vai existir um caboco querendo viver as custas do trabalho de outro.
Muitos “libertários” são, na verdade, vagabundos que só querem mesmo é viver de juros.
Portanto, o estado precisa existir para que reine a paz.
Assim, o mundo ideal, possível, é de um estado limitado constitucionalmente.
O estado é um mal necessário.
Na minha visão a instituição Estado, utopicamente, revela-se um “ótimo instrumento” do bem comum, já que deveria agir em áreas nas quais a iniciativa privada não possui um incentivo lucrativo.
Analogamente, o livre mercado constitui um cenário, utopicamente, inquestionável.
Mas devemos analisar em ambas situações a presença do fator humano que imputa diversas objeções “aos mundos encantados do Estado e do livre mercado”, impondo trilhas divergentes ao que foi supostamente desenhado pelos teóricos.
Assistimos frequente a esse cenário no Brasil: corrupção, “baixarias” das empresas de telecomunicações e do setor médico-hospitalar, má redistribuição de renda etc.
Ricos sem mérito
A realidade da crescente desigualdade nos Estados Unidos é gritante. Desde o final dos anos 70, os salários da metade menos bem paga dos trabalhadores estão estagnados ou em queda, enquanto a renda do 1% mais bem pago do mercado mais que quadruplicou (e a renda do 0,1% mais rico cresceu ainda mais).
Embora nós possamos e devamos conduzir um debate sobre o que fazer sobre essa situação, o simples fato de que o capitalismo norte-americano, na forma pela qual está constituído atualmente, solapa as fundações de uma sociedade de classe média não deveria estar em debate.
Mas está, é claro. Em parte isso reflete o famoso dito do escritor Upton Sinclair, de que é difícil fazer com que um homem compreenda alguma coisa quando o salário dele depende de que não a compreenda.
Mas creio que também reflita, em parte, o desapreço pelas implicações dos números, que parecem representar quase um convite aberto à guerra de classes – ou, se você preferir, uma demonstração de que a guerra de classes já está em curso, com os plutocratas na ofensiva.
O resultado vem sendo uma campanha determinada de trapaça estatística. No extremo mais cru dessa campanha, as práticas envolvem falsificação escancarada; no mais sofisticado, envolvem usar manobras elegantes para propagar o que vejo como o mito da riqueza por merecimento.
Para um exemplo de falsificação escancarada, basta ler uma recente coluna de Bret Stephens no “Wall Street Journal”, na qual ele primeiro acusa (erroneamente) o presidente Barack Obama de cometer um erro factual e depois afirma que a desigualdade crescente não importa muito porque todo mundo está se beneficiando bastante.
Ora, a renda dos 20% mais pobres da população dos Estados Unidos subiu em 186% de 1979 para cá! Se isso lhe parece incorreto, é porque é mesmo. O número que ele usa é nominal, e não leva em conta a inflação do período.
O número corrigido pela inflação pode ser encontrado na mesma tabela do Serviço de Recenseamento, e mostra queda de renda para os 20% mais pobres da população. Oh, e só para constar: até o momento em que estou escrevendo este artigo, o erro elementar apontado acima não havia sido corrigido no site do “Wall Street Journal”.
OK, é isso que eu quis dizer com falsificação crua. Mas e quanto à versão mais elegante da mesma prática?
Já mencionei antes o fato de que os conservadores parecem obcecados pela ideia de que a pobreza resulta basicamente de problemas de caráter entre os pobres.
Pode até ser que essa observação contenha um grão de verdade, mas nas últimas três décadas ou mais o principal obstáculo que os pobres vêm enfrentando é a falta de empregos que paguem salários decentes.
Mas o mito dos pobres sem méritos persiste, da mesma forma que persiste sua contraparte, o mito dos ricos meritórios.
A história é assim: as pessoas afluentes dos Estados Unidos são afluentes porque fizeram as escolhas certas quanto ao seu estilo de vida.
Obtiveram boa educação, se casaram e continuaram casadas, e assim por diante. Basicamente, a afluência é uma recompensa por aderir às virtudes vitorianas.
O que está errado nessa história? Mesmo em seus próprios termos, ela postula oportunidades que não existem na realidade.
EDUCAÇÃO
Por exemplo, como é que os filhos dos pobres, ou mesmo da classe trabalhadora, podem obter boa educação em uma era de forte redução no apoio e de forte alta na mensalidade das universidades públicas?
Mesmo indicadores como a estabilidade familiar são, em medida importante, fenômenos econômicos: nada é tão destrutivo dos valores familiares como a falta de oportunidades de emprego.
Mas a principal coisa em relação a esse mito é que ele identifica incorretamente os beneficiários da desigualdade crescente. Os profissionais de colarinho branco, mesmo se casados com pessoas que atendam à mesma descrição, estão se saindo apenas moderadamente bem.
Os grandes beneficiários são um grupo muito menor. O movimento Occupy popularizou o conceito do “1%”, o que é uma boa maneira de descrever a elite em ascensão, mas na realidade inclui gente demais: a maior parte dos ganhos que beneficiaram o 1% dos norte-americanos mais ricos se concentrou no 0,1% ainda mais rico.
E quem são esses poucos sortudos? Em geral são executivos de alguma espécie, especialmente do setor financeiro, ainda que não só dele.
Pode-se discutir se essas pessoas merecem ou não ser tão bem pagas, mas uma coisa é clara: elas não chegaram a essa posição simplesmente por serem prudentes, limpinhas e sóbrias.
Assim, como é possível sustentar o mito dos ricos meritórios? Principalmente por meio de uma estratégia de distorção por diluição. Os apologistas da desigualdade nunca estão dispostos a conversar sobre o 1%, e muito menos sobre os maiores beneficiários.
Em lugar disso, falam sobre os 20% mais ricos ou sobre os 5% mais ricos da população. Pode parecer uma escolha inocente, mas não é, porque no geral envolve agrupar advogados casados com os lobos de Wall Street. O filme homônimo, com Leonardo DiCaprio, aliás, é muito popular entre o pessoal das finanças, que torce pelo personagem principal – outra pista sobre as realidades de nossa nova Era Dourada.
Uma vez mais, eu sei que essas realidades causam desconforto a algumas pessoas, nem todas as quais mercenários a serviço dos plutocratas, e sei que elas prefeririam pintar um quadro diferente. Mas mesmo que os fatos se enquadrem bem à interpretação populista dos acontecimentos, eles não deixam de ser fatos – e é preciso encará-los.
Torna-se mister discorrer de forma inequívoca e iminente que a depreciação ao conteúdo da tradução estatal perpetrada pela militância libertária transcende a circunscrição moral curial a qualquer contexto de interações por meio de arrazoadas heurísticas, trazendo a baila o viés finório intrínseco aos recônditos intelectuais dos libertários. Tal circunstância condiz com a mais alta expressão do resultado caviloso inferido das manifestações supramencionadas, que pretendem acepilhar, senão por má-fé, mas por bronquice ou ignorância, conceitos consolidados em definitivo por meio de meras suposições mentais ilógicas. Decerto que não se pode aquiescer com tais preposições injustamente incentivadas, pois pretendem lograr escopo vil ao atrair a si atividades eminentes, natural e socialmente imputadas ao leviatã. Nada mais resta aduzir senão a graça recebido por tão nobres economistas e tantos outros laboriosos que já não seriam o que são sem tal delimitação ocorrente.
Mais claro que isso impossível.
Boa tarde!
Para operadores de acoes em bolsa de valores é melhor um ambiente de livre mercado ou um que o estado interfere?
Acredito que o papel do economista, tanto em uma economia totalmente livre quanto controlada, possa ser a de identificar as melhores alocações de recursos, justamente por entender o devido proceder das leis próprias da economia. No exemplo oferecido pelo texto, onde o economista pode saber quais serão os efeitos decorrentes de um aumento na demanda por manteiga,ele pode identificar quais são os demais setores que sofrerão impactos tanto “negativos” quanto “positivos”, podendo aconselhar aos agentes dos setores que sofrem consequências “positivas” a investirem mais, e expandirem sua capacidade produtiva e aos que sofrem consequências “negativas” a se protegerem de alguma forma. Posso estar completamente equivocado e supervalorizando meu título de economista ao fazer tal declaração e com todo o respeito ao autor deste artigo que é um ótimo intelectual, mas considero sendo raso de mais considerar o papel do economista em uma sociedade livre como sendo apenas de mero “informador”, na verdade, vejo o economista como um grande dinamizador da economia, não por tentar controlá-la, mas sim por poder entender suas leis e passar a agir de acordo com tais, para assim obter sempre o melhor resultado tanto para si quanto para quem mais achar que lhe cabe.
Isso explica porque o keynesiansmo domina os cursos de Economia a ponto dos estudantes mal ouvirem o nome, muito menos as ideias, de Mises e Hayek.
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Num mundo livre o economista não ia virar uma espécie de analista de investimentos?