À
medida que o movimento libertário e as ideias associadas a ele vão ganhando
maior proeminência ao redor do mundo, o surgimento de ataques, calúnias e
caricaturas passa a ser inevitável.
Libertários, dizem nossos críticos, são antissociais e preferem o
isolamento à interação com terceiros.
São gananciosos e indiferentes para com os pobres. São ingênuos quanto a terroristas e inimigos
externos, e se recusam a apoiar invasões de “países perigosos” (e a subsequente
chacina de populações inocentes).
Estas
caricaturas e concepções errôneas podem ser refutadas pela simples definição do
próprio conceito de libertarianismo.
Todo o ideal libertário se baseia em um princípio moral fundamental: a
não-agressão de inocentes. Ninguém deve
iniciar força física contra um inocente.
Muito radical.
É
óbvio que, não apenas não há nada de antissocial nesta ideia, como também ela
representa a própria negação de tudo
o que é antissocial, pois a interação pacífica é justamente o cerne de uma
sociedade civilizada.
À
primeira vista, praticamente ninguém pode se opor ao princípio da
não-agressão. São poucas as pessoas que
abertamente defendem atos de agressão contra pessoas pacíficas e
inocentes. A diferença é que os
libertários são francos e eloquentes quanto a isso, e aplicam este princípio em
todas as esferas da vida, para todas as pessoas. Nossa visão vai muito além de meramente
sugerir que o estado não pode incorrer em violações grosseiras das leis
morais. Nós afirmamos que o estado não
pode efetuar nenhum ato que seria proibido a qualquer indivíduo. Não há meio termo para as normas morais: ou
elas existem ou não existem.
Exatamente
por isso não podemos defender o sequestro estatal apenas porque o governo rotula
esta prática de “alistamento militar obrigatório”. Não podemos defender o encarceramento de
pessoas que ingeriram as substâncias erradas apenas porque o governo rotula
esta prática de “guerra contra as drogas”.
Não podemos defender o roubo e a espoliação apenas porque o governo
rotula esta prática de “tributação”. Não
podemos defender homicídios em massa só porque o governo rotula esta prática de
“política externa”. Não podemos defender
privilégios para grandes empresas só porque o governo rotula esta prática de
“políticas de proteção à indústria”. Não
podemos defender a destruição do poder de compra da moeda só porque o estado
rotula esta prática de “política monetária”.
Não podemos defender restrições à liberdade de empreendimento só porque
o governo rotula esta prática de “regulamentação”. E não podemos defender o parasitismo só
porque o governo rotula esta prática de “políticas de bem-estar social”.
Murray
Rothbard, que era Ph.D. pela Universidade de Columbia, NY, dizia que você pode
descobrir qual é a posição libertária a respeito de qualquer questão ao
simplesmente imaginar uma quadrilha de criminosos efetuando a ação analisada.
Em
outras palavras, o libertarianismo pega certos critérios morais e políticos que
são defendidos por todas as pessoas decentes, e simplesmente os aplica de forma
consistente e inflexível.
Por
exemplo, as pessoas se opõem a monopólios porque temem o aumento de preços, a
redução na qualidade dos produtos e serviços, e toda a centralização de poder
decorrentes deste arranjo. O libertário
apenas aplica esta preocupação em relação a monopólios ao próprio estado. Afinal, empresas privadas operando no mercado
— um arranjo que supostamente devemos temer — não podem simplesmente sair
cobrando o quanto quiserem por bens e serviços.
Os consumidores podem simplesmente trocar de ofertante, ou deixar de
usar um determinado produto e passar a usar um substituto mais próximo. Da mesma maneira, empresas não podem reduzir
a qualidade de seus produtos sem perder consumidores, os quais poderão
encontrar concorrentes ofertando bens e serviços mais satisfatórios.
Já
o estado pode, por definição, cobrar do público o quanto ele quiser pelos
“serviços” que ele oferta. Os cidadãos
— os súditos do estado — têm de aceitar qualquer nível de qualidade que o
estado se digne a ofertar. E jamais pode
existir, por definição, qualquer concorrente ao estado, uma vez que o estado é
definido como o detentor do monopólio da compulsão e da coerção em seu
território.
Com
suas guerras, seus genocídios, suas atrocidades totalitárias e toda a miséria
criada por suas políticas intervencionistas, o estado já demonstrou ser, de
longe, a mais letal instituição da história.
Seus crimes menores incluem todo o seu endividamento, cujo pagamento dos
juros ele impôs à população; as burocracias que se auto-perpetuam e se
alimentam da fatia produtiva da população; e todo o desperdício de recursos
escassos — os quais poderiam ter sido utilizados para melhorar o padrão de
vida da população por meio da formação de capital — em obras e projetos
arbitrários e de motivação política.
No
entanto, o estado, apesar de todos os seus fracassos, consistentemente usufrui
aquele benefício da dúvida que ninguém concederia a pessoas e empresas no setor
privado. Por exemplo, a educação estatal
produziu resultados que, na mais complacente das hipóteses, podem ser
classificados de deploráveis, não obstante o crescente volume de dinheiro
direcionado para este setor. Houvesse o
setor privado gerado um desastre semelhante, a gritaria e as denúncias contra
“os empresários ricos que estão tornando nossas crianças ignorantes” jamais
acabariam. Porém, quando é o setor
público quem gera resultados medonhos, tudo o que ouvimos é o silêncio. E o silêncio só é interrompido pelas demandas
de que os pagadores de impostos deem ainda mais dinheiro e recursos para o
estado. Se uma empresa privada fracassa,
ela vai à falência. Se o estado
fracassa, ele pede (e ganha) mais dinheiro.
Se
uma empresa privada comete um erro grave, o mundo vem abaixo. Investigações aprofundadas, reportagens
histéricas da mídia e indignações públicas parecem não ter fim. Já quando o estado faz lambança, não há
absolutamente nenhum interesse na história, e quase ninguém ouve nada a respeito.
Da
mesma forma, quando os tribunais estatais obrigam pessoas inocentes a ter de
tolerar atrasos intermináveis e a arcar com gastos infindáveis, não há
investigações, não há denúncias e não há apelos por justiça. Quando os ricos e famosos são obviamente
favorecidos pelo sistema, as pessoas resignadamente aceitam o fato como
corriqueiro, uma inevitabilidade.
Enquanto isso, empresas de arbitragem privada, rápidas e eficientes,
prosperam na surdina, silenciosamente preenchendo o vazio criado pelo péssimo
sistema estatal — e dificilmente alguém nota ou se importa, muito menos
aprecia estas melhoras geradas em nosso bem-estar.
Quando o estado fracassa
abjetamente em cumprir com a mais mínima qualidade aceitável algum serviço que
ele se propôs a fazer — como a segurança –, as pessoas veem isso como algo
rotineiro. Se pessoas morrem em
decorrência da falta de segurança — inclusive na área de infraestrutura —
gerada pelo estado, são apenas coisas da vida.
Mas quando uma empresa privada oferece um serviço que deixa a desejar,
todos os tipos de impropérios e ameaças judiciais são proferidos por seus
desapontados clientes.
No fundo, esta assombrosa
diferença entre os padrões morais e éticos exigidos do estado e do setor
privado tem suas raízes não apenas nos homens que compõem o aparato estatal, mas
também naqueles que lhes dão sustentação intelectual e ideológica.
Os moralistas romanos da
antiguidade, e os humanistas da Renascença que vieram depois, preconizavam
abertamente que os governantes tinham de possuir um arranjo especial de
virtudes morais. Tais virtudes eram,
acima de tudo, as quatro virtudes cardinais (cardinal vem do latim e significa
“essencial”; logo, todas as outras virtudes dependiam destas quatro): coragem,
justiça, temperança e sabedoria. Embora
todos os homens fossem exortados a cultivar estas virtudes, os príncipes, em
particular, deveriam ir além e apresentar outras mais, como nobreza e
generosidade. Estes temas foram desenvolvidos
por Cícero em seu ensaio De Officiis e
por Sêneca em seus ensaios Sobre
a Clemência e Sobre
Benefícios.
Os humanistas anteciparam
a tese que futuramente viria a ser defendida por Maquiavel: a de que tem de
haver uma divisão entre, de um lado, a moralidade e, do outro, qualquer postura
e atitude que seja conveniente para o príncipe.
Os humanistas responderam a esta tese alertando que, mesmo que a
perversidade principesca não fosse punida em vida, a punição divina na próxima
vida seria certa e cruel.
O que fez com que Maquiavel
se destacasse tão incisivamente foi o seu radical rompimento com esta visão
tradicional das obrigações morais do príncipe.
Como afirmou Quentin Skinner, o grande estudioso de Maquiavel, “É só quando
analisamos detidamente O Príncipe que
descobrimos como estes tradicionais aspectos da moralidade humanista foram violentamente
subvertidos”.
O príncipe, diz
Maquiavel, tem sempre de “estar preparado para agir imoralmente sempre que for
necessário”. E “para manter seu poder”,
ele — não apenas algumas vezes, mas sim frequentemente — será obrigado a
“agir traiçoeiramente, cruelmente e impiedosamente”.
Dado que a maioria das
pessoas jamais irá interagir pessoalmente com o príncipe, Maquiavel forneceu o
seguinte conselho ao governante: “Todo mundo vê aquilo que você aparenta ser”,
mas “poucos sabem diretamente quem você realmente é”. “Um habilidoso enganador”, continuou
Maquiavel, “sempre encontrará uma multidão de pessoas que se deixarão ser
enganadas”.
Já dá para imaginar que
tipo de pessoa o príncipe será.
A visão de Maquiavel
frequentemente é resumida como “os fins justificam os meios”. Embora tal destilação não capture todos os
aspectos do pensamento de Maquiavel, é fato que esta concisa descrição irrita
os professores de teoria política.
Ademais, se o fim em questão é a preservação do poder do príncipe, então
“os fins justificam os meios” não é uma caracterização injusta do conselho de
Maquiavel.
E é exatamente a este
princípio que o estado e seus ideólogos recorrem para justificar seu não
cumprimento de todas aquelas práticas que as pessoas decentes consideram morais
e boas. Friedrich Hayek certa vez
escreveu que,
Na
ética individualista, o princípio de que o fim justifica os meios é considerado
a negação de toda a moral. Na ética
coletivista, ele se torna a regra suprema; não há literalmente nada que o
coletivista coerente não deva estar pronto para fazer, desde que contribua para
o “bem da comunidade”, porque o “bem da comunidade” é para
ele o único critério que justifica a ação. A ética coletivista não conhece
outros limites que não os da conveniência — a adequação do ato particular ao
objetivo que se tem em vista.
Praticamente todas as
pessoas hoje aceitam, ao menos implicitamente, a alegação de que o estado opera
em uma dimensão moral paralela, na qual as regras morais tradicionais não são
aplicáveis. Outros vão além e afirmam
que o estado está acima da moralidade que conhecemos. Mesmo que tais pessoas não utilizem as
formulações verbais de Maquiavel, de alguma forma elas creem ser desarrazoado
exigir que o estado e seus funcionários se comportem da mesma maneira que o
resto de nós. O estado pode se defender
e se preservar recorrendo a métodos que nenhuma empresa privada, nenhuma
organização, nenhuma família e nenhum indivíduo poderiam utilizar para sua
própria preservação. E aceitamos isso como
algo normal.
Esta é simplesmente uma
formulação mais geral do fenômeno descrito anteriormente, que diz que poucas
pessoas se espantam quando o estado incorre em um comportamento que seria
considerado uma monstruosidade moral caso fosse efetuado por qualquer indivíduo
ou entidade.
Por fim, algumas pessoas
poderão discordar e contra-argumentar dizendo que o aparato coercivo do estado
é essencial para manter a ordem na sociedade, de modo que não podemos insistir
fortemente no purismo libertário ao analisarmos seu comportamento. Afinal, algumas vezes o estado tem de fazer
aquilo que ele tem de fazer.
Só que absolutamente
todos os “serviços” que estado fornece já foram no passado ofertados de maneira
não-coerciva. A questão é que nós
simplesmente não somos estimulados a estudar e a aprender esta história, e a
estrutura de ensino que involuntariamente adotamos desde os nossos primeiros
dias na escola tornou nossa imaginação estreita e tacanha demais para conceber
essa possibilidade.
Maquiavel lançou uma
revolução em prol do estado. A nossa
revolução é contra, mas sempre a favor da paz, da liberdade e da prosperidade.
Leandro
Essas avaliações morais e éticas dos principios libertários têm sido discutidas com frequência ultimamente, e isso parece causar uma certa tensão entre libertários e conservadores.
Esse ponto é algo que ainda me causa um certo desconforto, já que eu reconheço a importância do arcabouço moral conservador na construção da civilização ocidental, mas ao mesmo tempo tenho dificuldade em compreender como seria possível uma amálgama com os ideais libertários, e de que forma a tradição moral pode ser defendida sem ferir o direito natural do indivíduo.
Gostaria de saber a sua opinião(e dos demais colegas também) sobre esse aparente conflito, o qual aliás foi abordado nesse post do portal libertarianismo
http://www.libertarianismo.org/index.php/academia/artigosnovo/1307-porque-nao-somos-conservadores
Ótimo.
Tento explicar essa mesma visão para pessoas próximas, mas sempre ouço as mesmas respostas: “é melhor reformar o estado do que extinguí-lo” “o estado é garantidor dos direitos dos pobres” e toda a baboseira que existe.
Como se fosse possível curar algo que já nasceu podre.
Gostei da visão do Lew sobre O Príncipe. Sempre tive um ponto de vista semelhante quando li o livro. Não é à toa que alguns professores afirmam que ele só poder ser o livro de cabeceira dos políticos.
“O primeiro papel do líder é ser um exemplo”
Stephen Covey
* * *
…Mas o que seria do capitalismo se o estado não garantisse a propriedade? Vocês realmente acham que o estado opera contra vós mesmo ao permitir a sua posse dos meios de produção?
Ninguém garantiria privadamente os serviços de defesa à propriedade, estradas e igualitarismo jurídico.
Excelente artigo!
A ler os comentários fiquei com uma duvida.
Os libertário em geral são a favor ou contra o aborto?
E adorei este excerto na parte dos comentários “Ademais, nunca entendi a tara de alguns conservadores com a proibição. Quando as drogas eram legais, ainda no início do século, as famílias eram mais fortes e mais unidas, e a religião era mais presente. A proibição é uma prática totalmente recente na história humana — ou seja, é uma prática progressista. A proibição fez com que as famílias relaxassem e entregassem a segurança de seus filhos para o estado. Deu no que deu: uma geração de zumbis imbecis. E tem conservador aplaudindo.”
“A diferença é que os libertários são francos e eloquentes quanto a isso (PNA), e aplicar este princípio em todas as esferas da vida, para todas as pessoas. “
É exatamente daí que saem as maiores idiotices do libertarianismo.
David, aborto é uma questão complicada que divide os libertários. Há aqueles rotulados de “pró-vida”, que são contra o aborto, e os rotulados de “pró-escolha”, que são a favor por entenderem que a mãe do feto não pode ser obrigada a abrigar alguém em seu corpo contra sua própria vontade. Há ainda uma nova concepção chamada de “eviccionismo” (ou qualquer coisa assim), que defende que, o “aborto” é legítimo a partir do momento que for possível remover o feto do corpo da mãe e mantê-lo vivo fora deste. Pelo menos é a versão TL;DR do que eu consegui captar lendo o que li a respeito. Que me corrijam os mais esclarecidos.
A questão do aborto sempre vai ser complexa e polêmica. No momento eu estou do lado dos pró-escolha, especialmente por existir uma coisa chamada “estupro” que tem tanto potencial de gerar filhos quanto qualquer ato sexual consentido, e às vezes tem mais sucesso do que estes.
Boa tarde.
Discordo do 1° parágrafo (ou talvez esteja admitindo certa ignorância):”À medida que o movimento libertário e as ideias associadas a ele vão ganhando maior proeminência ao redor do mundo[…]”.
Não é isso que vejo, parece-me que a social democracia, socialismo, progressistas, estão mais fortes do que nunca, não vejo um aumento do movimento libertário.
E em relação ao penúltimo parágrafo:”Só que absolutamente todos os “serviços” que estado fornece já foram no passado ofertados de maneira não-coerciva. A questão…”
Tento imaginar uma forma de um presídio particular, talvez obrigar os presos a trabalhar para pagar, ou permitir que empresas patrocinem presídios como fazem com serviços que são fornecidos gratuitamente, com propaganda de empresas.
Mas confesso que todas essas formas trazem certos “furos” que não consigo preencher e a “privatização” prevista no Brasil é como toda privatização que existe por aqui, escolhe-se vencedores que são pagos com dinheiro de impostos…
Ao longo da história não sei como funcionou fora do Estado.
Então se alguém tiver algum comentário sobre minhas duas dúvidas (1° e penúltimos parágrafos).
Obrigado.
“A diferença é que os libertários são francos e eloquentes quanto a isso (PNA), e aplicar este princípio em todas as esferas da vida, para todas as pessoas. “
O PNA justifica violencia contra o estado ?
dailyanarchist.com/2011/06/26/a-natural-law-justification-for-certain-forms-of-anarchist-violence/
en.wikipedia.org/wiki/Libertarian_perspectives_on_abortion
Acho que há uma certa confusão com a aplicação do PNA e as definições de libertarianismo. A base do libertarianismo é o direito de “self-ownership” (auto-propriedade?), ou seja, eu(e somente eu) tenho domínio(posse e controle) sobre o meu próprio corpo. O PNA e toda a cadeia lógica do pensamento libertário(direito ao produto do meu trabalho, direito de me defender) é derivado do “self-ownership” e não o contrário. O PNA não é suficiente para derivar todo o libertarianismo. O direito de propriedade é o que mais importa.
Pare quem sabe ler em inglês:
mises.org/daily/3660
PS: Só postei isso, pq parece que existe uma certa confusão sobre a aplicação do PNA. Não é minha intenção desvirtuar o tópico, desde já peço desculpas.
Olhem o que eu acabei de ler no Radar, da Veja: Médico no quartel veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/judiciario/exercito-convoca-e-stj-obriga-medico-a-prestar-o-servico-militar-onze-anos-apos-dispensa/
‘Se os pró-vida argumentam que o embrião tem o equipamento genético de um ser humano, se lembre: o mesmo é verdadeiro para todas as células do corpo humano.’
Ah legal, Ayn Rand, aquela criatura superior dona do ponto de vista objetivo sobre tudo que existe no universo não sabe o que é um gameta.Vivendo e aprendendo.
Eu não aceito as imoralidades cometidas pelo governo como algo normal, sempre que converso com alguma pessoa, procuro alertá-la sobre as malandragens do governo e digo a elas para serem autodidatas. Na minha opinião o Estado é corrupto e imoral, e não quer que os cidadãos estudem. O Estado recorre a métodos que outros indivíduos não recorreriam, porque não há ninguém superior para julgá-los, por isso abusam de suas imoralidades. E se houver alguém para julgar o Estado, esse juiz será a favor do Estado.
Estamos todos de acordo que não devemos nos preocupar com o Irã e com a Coréia do Norte porque o “princípio” de não agressão resolve tudo?
Olha só: esses países somente são “uma ameaça à segurança nacional” nos EUA porque o governo americano escolheu eles (justamente porque parecem perigosos, mas não são) como o inimigo. O governo precisa de “inimigos da nação” para fomentar o patriotismo e a manutenção de seu rebanho de cordeiros…
Tu vives em qual mundo? O ditador do Irã disse que limparia Israel do mapa, simples. Por um acaso ele falou isso só pra agradar o governo americano? Ah, cresça!
A não-agressão só seria válida num mundo de pessoas sensatas, que não é o nosso. E quando falo mundo, falo MUNDO INTEIRO, pois bastaria um país ignorar isso para tornar todos os demais servos.
Toda essa doutrina anarco-capitalista é maravilhosa, tanto quanto o mundo sem classes. Mas temos que olhar para o mundo real, onde pessoas furam filas e pulam catracas de ônibus.
Não a um ataque ao Irã!
ESQUERDA = DIREITA = LIXO AUTORITÁRIO!!!
De antemão já digo que concordo plenamente com o posicionamento manifestado por LEW ROCKWELL nesse artigo –- o qual, de acordo com a minha opinião, resume-se nesta citação:
"Praticamente todas as pessoas hoje aceitam, ao menos implicitamente, a alegação de que o estado opera em uma dimensão moral paralela, na qual as regras morais tradicionais não são aplicáveis. Outros vão além e afirmam que o estado está acima da moralidade que conhecemos."
Abaixo, reproduzo sete trechos do livro "O Príncipe", de MACHIAVELLI, com a finalidade de mostrar que existem, sim, algumas passagens cuja leitura realmente vale a pena. Sob o meu ponto de vista, trata-se de conselhos dos quais o particular pode extrair auxílio para enfrentar acontecimentos que porventura ocorram na sua vida privada, adaptando-se o sentido deles às situações, obviamente.
[Bibliografia — MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Editora Martin Claret, 2008.]
"Nesses casos, com efeito, os romanos fizeram o que devem fazer todos os príncipes sábios, atentando não só para as disputas do momento, mas também para as futuras, e protegendo-se cuidadosamente contra elas. Se tais discórdias são previstas, podem ser facilmente controladas; se espera-se a sua ocorrência, o remédio deixará de ser oportuno, tornando-se a moléstia incurável.
Passa-se algo parecido com a tísica, que, conforme os médicos, no princípio é fácil de curar, mas difícil de diagnosticar, e que, com o tempo, quando não é desde logo reconhecida e tratada, torna-se fácil de ser reconhecida e difícil de ser tratada. É o que ocorre com os negócios do Estado: pois a antevisão (o que só é dado ao homem prudente) dos males que advirão torna possível curá-los facilmente. Porém, quando esses males se avolumam, por falta de tal previsão, de modo que todos já podem reconhecê-los, não há mais remédio que possa controlá-los. Por isso, os romanos, prevendo as desordens quando ainda remotas, podiam sempre encontrar-lhes solução; e jamais permitiam que elas crescessem com o propósito de evitar uma guerra. Sabiam eles que as guerras não podem ser evitadas e que, quando adiadas, só trazem benefícios para o inimigo. Foi assim que declararam guerra contra Antíoco e Filipe, na Grécia, para não precisar combatê-los em território italiano. Embora tivessem podido evitar a ambos, preferiram não fazê-lo, ignorando o conselho tão ouvido hoje, o da protelação, e preferindo confiar no seu próprio valor e na sua própria prudência, já que o tempo traz consigo todas as coisas, indiferentemente: o bem e o mal." (p. 39 e 40)
"Os príncipes, por conseguinte, não deveriam ter outro objetivo ou outro pensamento além da guerra, suas leis e sua disciplina, nem estudar qualquer outro assunto; pois esta é a única arte que se espera de quem comanda. Tal é a sua importância, que ela não só mantém no poder os que nasceram príncipes, mas torna possível a homens comuns galgar a posição de soberano. Observemos que, quando os príncipes se interessam mais pelas coisas amenas do que pelas armas, perdem os seus domínios. A causa principal da perda dos Estados é a negligência da arte da guerra; e a maneira de conquistá-los é ser nela bem-versado." (p. 94)
"Os príncipes nunca devem permitir, portanto, que os seus pensamentos se afastem dos exercícios bélicos; exercícios que devem praticar na paz mais ainda do que na guerra, de duas formas: pela ação física e pelo estudo. Quanto à ação física, além de manterem os seus homens bem disciplinados e exercitados, devem praticar sempre a caça, que habitua o corpo às agruras. A caça ensina a natureza das regiões, a posição das montanhas, a abertura dos vales, a extensão das planícies; ensina a compreender a natureza dos rios e dos pântanos, o que requer muita atenção." (p. 95)
"Filopêmene, príncipe dos aqueus, entre outros elogios que lhe foram feitos, é louvado porque em tempo de paz sempre se preocupou com os métodos da guerra; quando passeava pelos campos com os amigos, muitas vezes se detinha e argumentava: 'Se o inimigo estivesse ocupando aquela elevação, se nós estivéssemos neste ponto com um exército, quem teria a posição mais vantajosa? Como seria possível chegar até ele, mantendo a nossa ordem de combate? Se quiséssemos recuar, como o faríamos? Se o inimigo se afastasse, de que forma deveríamos persegui-lo?' À medida que avançavam, expunha todas as contingências com que um exército poderia se deparar, ouvia opiniões e dizia aos seus soldados o que pensava. Assim, graças a essas constantes reflexões, quando conduzia de fato as suas tropas nenhum incidente podia ocorrer para o qual não estivesse preparado." (p. 96)
"Sendo obrigado a saber agir como um animal, deve o príncipe valer-se das qualidades da raposa e do leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não consegue defender-se dos lobos. É preciso, portanto, ser raposa para reconhecer as armadilhas e ser leão para afugentar os lobos." (p. 109)
"É também muito estimado o príncipe que age como verdadeiro amigo ou como inimigo declarado; isto é, que se declara sem reservas em favor de uns e contra outros, política que é sempre mais útil do que a da neutralidade." (p. 134)
"Há três tipos diferentes de mente: a primeira compreende as coisas por si só; a segunda compreende as coisas demonstradas por outrem; a terceira nada consegue discernir –- nem sozinha, nem com a ajuda dos outros. A primeira espécie é a melhor de todas; a segunda é também muito boa; mas a terceira é inútil." (p. 138)
Abaixo, reproduzo seis trechos que se encontram no lado eminentemente político do livro. As quatro primeiras passagens revelam um MACHIAVELLI mais comprometido com a moralidade (ou menos indiferente em relação a ela); após cada uma dessas quatro citações, eu realizo um comentário.
"Por esses motivos, o príncipe não deve se incomodar de ser tido como miserável, para não ter de onerar demais os súditos, para poder defender-se, para não tornar-se pobre e desprezado e para não ser obrigado a ter uma conduta rapace (…)." (p. 101)
Aqui, MACHIAVELLI aconselha o príncipe a adotar uma conduta parcimoniosa no tocante às finanças públicas –- o autor diz que ele deve ser "miserável" (na conotação de "parcimonioso") em vez de "liberal" (no sentido de "gastador", de "perdulário").
"Não obstante, o príncipe deve fazer-se temer de modo que, mesmo não ganhando o amor dos súditos, pelo menos evite o seu ódio. O temor e a ausência de ódio podem coexistir –- isso é conseguido por aquele que se abstiver de atentar contra o patrimônio dos súditos e dos cidadãos e contra as suas mulheres. Quando for preciso executar um cidadão, que haja uma justificativa e uma razão manifesta. E, principalmente, que o príncipe se abstenha de tomar os bens, pois os homens se esquecem mais facilmente da morte do pai do que da perda do patrimônio. Por outro lado, sempre há pretextos para tomar os bens alheios, e quem começa a viver de rapina encontrará sempre algum motivo para tomar o que não é seu, enquanto que os motivos para tomar a vida alheia são mais raros e menos duradouros." (p. 105)
MACHIAVELLI, ao aconselhar o príncipe acerca do modo como os súditos e os cidadãos o veem, disserta que é melhor ser temido do que amado, mas que é importante evitar que o ódio seja fomentado entre a população –- o que, no entendimento de MACHIAVELLI, será obtido respeitando-se a propriedade material dos súditos e dos cidadãos e a dignidade (sexual) das suas mulheres.
"Quem se torna o senhor de uma cidade livre, mas não a aniquila pode esperar ser destruído por ela, pois sempre haverá motivo para rebelião em nome da liberdade perdida e das eventuais tradições, que nem o curso do tempo nem os benefícios recebidos conseguem apagar." (p. 50)
Aqui, MACHIAVELLI diz que é bastante complicado dominar uma localidade habituada a viver em liberdade, sem uma opressão estatal de fato operante, e que a solução para a verdadeira conquista de tal localidade é, na prática, a sua destruição. O autor, assim, demonstra estar ciente de que a liberdade, sim, possui respeitável poder.
"Os príncipes devem demonstrar apreço às virtudes, dar oportunidades aos mais capazes e honrar os excelentes em cada arte. Devem, além disso, incentivar os cidadãos a praticar pacificamente a sua atividade –- no comércio, na agricultura ou em qualquer outro ramo profissional. Assim, que uns não deixem de aumentar o seu patrimônio pelo temor de que lhes seja retirado o que possuem, que outros não deixem de iniciar um comércio por causa do medo dos tributos; devem os príncipes, ao contrário, instituir prêmios para quem é ativo e procurar de um modo ou de outro melhorar a sua cidade ou o seu Estado." (p. 136)
MACHIAVELLI, de certa forma, transpõe no papel ideias semelhantes àquelas defendidas pelos liberais clássicos (minarquistas).
"Os mais capazes de imitar a raposa lograram maior êxito. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e dissimular perfeitamente; os homens são tão pouco argutos –- e se inclinam de tal modo às necessidades imediatas –- que quem quiser enganá-los encontrará sempre quem se deixe enganar." (p. 109)
"O príncipe, portanto, precisa ter a mente apta a se modificar conforme os ventos que sopram, seguindo as variações da sorte –- evitando desviar-se do bem se for possível, mas guardando a capacidade de praticar o mal, se forçado pela necessidade.
Deve o príncipe ter muito cuidado, para que as suas palavras nunca deixem de aparentar estar ele repleto das cinco qualidades acima indicadas, de forma que quem o veja e ouça pense ser todo ele piedade, fé, integridade, humanidade e religião. (…) De modo geral, os homens julgam mais com os olhos do que com o tato; todos podem ver, mas poucos são capazes de sentir. Todos veem a nossa aparência, mas poucos sentem o que realmente somos –- e estes poucos não ousarão opor-se à maioria que tenha a majestade do Estado a defendê-la. Na conduta dos homens, especialmente na dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios. Portanto, se um príncipe pretende conquistar e manter o poder, os meios que empregue serão sempre tidos como honrosos e elogiados por todos, pois o vulgo atenta sempre para a aparência e os resultados; o mundo se compõe só de pessoas de vulgo e de umas poucas que, não sendo vulgares, ficam sem oportunidade quando a multidão se reúne em torno do soberano." (p. 111)
Refiz a formatação dos meus comentários anteriores:
De antemão, já digo que concordo plenamente com o posicionamento manifestado por LEW ROCKWELL nesse artigo — o qual, de acordo com a minha opinião, resume-se nesta citação:
Praticamente todas as pessoas hoje aceitam, ao menos implicitamente, a alegação de que o estado opera em uma dimensão moral paralela, na qual as regras morais tradicionais não são aplicáveis. Outros vão além e afirmam que o estado está acima da moralidade que conhecemos.
Abaixo, reproduzo sete trechos do livro O Príncipe, de MACHIAVELLI, com a finalidade de mostrar que existem, sim, algumas passagens cuja leitura realmente vale a pena. Sob o meu ponto de vista, trata-se de conselhos dos quais o particular pode extrair auxílio para enfrentar acontecimentos que porventura ocorram na sua vida privada, adaptando-se o sentido deles às situações, obviamente.
[Bibliografia — MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Editora Martin Claret, 2008.]
Nesses casos, com efeito, os romanos fizeram o que devem fazer todos os príncipes sábios, atentando não só para as disputas do momento, mas também para as futuras, e protegendo-se cuidadosamente contra elas. Se tais discórdias são previstas, podem ser facilmente controladas; se espera-se a sua ocorrência, o remédio deixará de ser oportuno, tornando-se a moléstia incurável.
Passa-se algo parecido com a tísica, que, conforme os médicos, no princípio é fácil de curar, mas difícil de diagnosticar, e que, com o tempo, quando não é desde logo reconhecida e tratada, torna-se fácil de ser reconhecida e difícil de ser tratada. É o que ocorre com os negócios do Estado: pois a antevisão (o que só é dado ao homem prudente) dos males que advirão torna possível curá-los facilmente. Porém, quando esses males se avolumam, por falta de tal previsão, de modo que todos já podem reconhecê-los, não há mais remédio que possa controlá-los. Por isso, os romanos, prevendo as desordens quando ainda remotas, podiam sempre encontrar-lhes solução; e jamais permitiam que elas crescessem com o propósito de evitar uma guerra. Sabiam eles que as guerras não podem ser evitadas e que, quando adiadas, só trazem benefícios para o inimigo. Foi assim que declararam guerra contra Antíoco e Filipe, na Grécia, para não precisar combatê-los em território italiano. Embora tivessem podido evitar a ambos, preferiram não fazê-lo, ignorando o conselho tão ouvido hoje, o da protelação, e preferindo confiar no seu próprio valor e na sua própria prudência, já que o tempo traz consigo todas as coisas, indiferentemente: o bem e o mal. (p. 39 e 40)
Os príncipes, por conseguinte, não deveriam ter outro objetivo ou outro pensamento além da guerra, suas leis e sua disciplina, nem estudar qualquer outro assunto; pois esta é a única arte que se espera de quem comanda. Tal é a sua importância, que ela não só mantém no poder os que nasceram príncipes, mas torna possível a homens comuns galgar a posição de soberano. Observemos que, quando os príncipes se interessam mais pelas coisas amenas do que pelas armas, perdem os seus domínios. A causa principal da perda dos Estados é a negligência da arte da guerra; e a maneira de conquistá-los é ser nela bem-versado. (p. 94)
Os príncipes nunca devem permitir, portanto, que os seus pensamentos se afastem dos exercícios bélicos; exercícios que devem praticar na paz mais ainda do que na guerra, de duas formas: pela ação física e pelo estudo. Quanto à ação física, além de manterem os seus homens bem disciplinados e exercitados, devem praticar sempre a caça, que habitua o corpo às agruras. A caça ensina a natureza das regiões, a posição das montanhas, a abertura dos vales, a extensão das planícies; ensina a compreender a natureza dos rios e dos pântanos, o que requer muita atenção. (p. 95)
Filopêmene, príncipe dos aqueus, entre outros elogios que lhe foram feitos, é louvado porque em tempo de paz sempre se preocupou com os métodos da guerra; quando passeava pelos campos com os amigos, muitas vezes se detinha e argumentava: "Se o inimigo estivesse ocupando aquela elevação, se nós estivéssemos neste ponto com um exército, quem teria a posição mais vantajosa? Como seria possível chegar até ele, mantendo a nossa ordem de combate? Se quiséssemos recuar, como o faríamos? Se o inimigo se afastasse, de que forma deveríamos persegui-lo?" À medida que avançavam, expunha todas as contingências com que um exército poderia se deparar, ouvia opiniões e dizia aos seus soldados o que pensava. Assim, graças a essas constantes reflexões, quando conduzia de fato as suas tropas nenhum incidente podia ocorrer para o qual não estivesse preparado. (p. 96)
Sendo obrigado a saber agir como um animal, deve o príncipe valer-se das qualidades da raposa e do leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não consegue defender-se dos lobos. É preciso, portanto, ser raposa para reconhecer as armadilhas e ser leão para afugentar os lobos. (p. 109)
É também muito estimado o príncipe que age como verdadeiro amigo ou como inimigo declarado; isto é, que se declara sem reservas em favor de uns e contra outros, política que é sempre mais útil do que a da neutralidade. (p. 134)
Há três tipos diferentes de mente: a primeira compreende as coisas por si só; a segunda compreende as coisas demonstradas por outrem; a terceira nada consegue discernir — nem sozinha, nem com a ajuda dos outros. A primeira espécie é a melhor de todas; a segunda é também muito boa; mas a terceira é inútil. (p. 138)
Abaixo, reproduzo seis trechos que se encontram no lado eminentemente político do livro. As quatro primeiras passagens revelam um MACHIAVELLI mais comprometido com a moralidade (ou menos indiferente em relação a ela); após cada uma dessas quatro citações, eu realizo um comentário.
Por esses motivos, o príncipe não deve se incomodar de ser tido como miserável, para não ter de onerar demais os súditos, para poder defender-se, para não tornar-se pobre e desprezado e para não ser obrigado a ter uma conduta rapace (…). (p. 101)
(1) Aqui, MACHIAVELLI aconselha o príncipe a adotar uma conduta parcimoniosa no tocante às finanças públicas — o autor diz que ele deve ser “miserável” (na conotação de “parcimonioso”) em vez de “liberal” (no sentido de “gastador”, de “perdulário”).
Não obstante, o príncipe deve fazer-se temer de modo que, mesmo não ganhando o amor dos súditos, pelo menos evite o seu ódio. O temor e a ausência de ódio podem coexistir — isso é conseguido por aquele que se abstiver de atentar contra o patrimônio dos súditos e dos cidadãos e contra as suas mulheres. Quando for preciso executar um cidadão, que haja uma justificativa e uma razão manifesta. E, principalmente, que o príncipe se abstenha de tomar os bens, pois os homens se esquecem mais facilmente da morte do pai do que da perda do patrimônio. Por outro lado, sempre há pretextos para tomar os bens alheios, e quem começa a viver de rapina encontrará sempre algum motivo para tomar o que não é seu, enquanto que os motivos para tomar a vida alheia são mais raros e menos duradouros. (p. 105)
(2) MACHIAVELLI, ao aconselhar o príncipe acerca do modo como os súditos e os cidadãos o veem, disserta que é melhor ser temido do que amado, mas que é importante evitar que o ódio seja fomentado entre a população — o que, no entendimento de MACHIAVELLI, será obtido respeitando-se a propriedade material dos súditos e dos cidadãos e a dignidade (sexual) das suas mulheres.
Quem se torna o senhor de uma cidade livre, mas não a aniquila pode esperar ser destruído por ela, pois sempre haverá motivo para rebelião em nome da liberdade perdida e das eventuais tradições, que nem o curso do tempo nem os benefícios recebidos conseguem apagar. (p. 50)
(3) Aqui, MACHIAVELLI diz que é bastante complicado dominar uma localidade habituada a viver em liberdade, sem uma opressão estatal de fato operante, e que a solução para a verdadeira conquista de tal localidade é, na prática, a sua destruição. O autor, assim, demonstra estar ciente de que a liberdade, sim, possui respeitável poder.
Os príncipes devem demonstrar apreço às virtudes, dar oportunidades aos mais capazes e honrar os excelentes em cada arte. Devem, além disso, incentivar os cidadãos a praticar pacificamente a sua atividade — no comércio, na agricultura ou em qualquer outro ramo profissional. Assim, que uns não deixem de aumentar o seu patrimônio pelo temor de que lhes seja retirado o que possuem, que outros não deixem de iniciar um comércio por causa do medo dos tributos; devem os príncipes, ao contrário, instituir prêmios para quem é ativo e procurar de um modo ou de outro melhorar a sua cidade ou o seu Estado. (p. 136)
(4) MACHIAVELLI, de certa forma, transpõe no papel ideias semelhantes àquelas defendidas pelos liberais clássicos (minarquistas).
Os mais capazes de imitar a raposa lograram maior êxito. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e dissimular perfeitamente; os homens são tão pouco argutos — e se inclinam de tal modo às necessidades imediatas — que quem quiser enganá-los encontrará sempre quem se deixe enganar. (p. 109)
O príncipe, portanto, precisa ter a mente apta a se modificar conforme os ventos que sopram, seguindo as variações da sorte — evitando desviar-se do bem se for possível, mas guardando a capacidade de praticar o mal, se forçado pela necessidade.
Deve o príncipe ter muito cuidado, para que as suas palavras nunca deixem de aparentar estar ele repleto das cinco qualidades acima indicadas, de forma que quem o veja e ouça pense ser todo ele piedade, fé, integridade, humanidade e religião. (…) De modo geral, os homens julgam mais com os olhos do que com o tato; todos podem ver, mas poucos são capazes de sentir. Todos veem a nossa aparência, mas poucos sentem o que realmente somos — e estes poucos não ousarão opor-se à maioria que tenha a majestade do Estado a defendê-la. Na conduta dos homens, especialmente na dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios. Portanto, se um príncipe pretende conquistar e manter o poder, os meios que empregue serão sempre tidos como honrosos e elogiados por todos, pois o vulgo atenta sempre para a aparência e os resultados; o mundo se compõe só de pessoas de vulgo e de umas poucas que, não sendo vulgares, ficam sem oportunidade quando a multidão se reúne em torno do soberano. (p. 111)
Abaixo, mais duas boas citações de MACHIAVELLI:
Só são boas, seguras e duráveis aquelas defesas que dependem exclusivamente de nós e de nosso próprio valor. (p. 146)
Será preciso, contudo, ser cauteloso com aquilo que fizer e com aquilo em que acreditar; é necessário que não tenha medo da própria sombra e que aja com equilíbrio, prudência e humanidade, de modo que o excesso de confiança não o torne incauto e de modo que a desconfiança excessiva não o faça intolerante. (p. 104)
Abraços!
“Só que absolutamente todos os “serviços” que estado fornece já foram no passado ofertados de maneira não-coerciva. A questão é que nós simplesmente não somos estimulados a estudar e a aprender esta história, e a estrutura de ensino que involuntariamente adotamos desde os nossos primeiros dias na escola tornou nossa imaginação estreita e tacanha demais para conceber essa possibilidade.”
Nunca obtive informações consistentes a respeito do serviço de jurisdição ofertado de maneira não-coercitiva, apesar de inúmeras pesquisas a respeito. Há algum artigo do IMB que (ainda que indiretamente) aborde esse tema?
Taca le pau, Rockwell!
Eu gostei muito do texto, a única ressalva que acho relevante e não foi feita é a respeito de distinguir as idéias expressas em “O Príncipe” e as idéias do homem republicano Nicolau Maquiavel. É sabido que este conselheiro florentino era um republicano, o que pode ser notado no livro “Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio”. Ao escrever o infame e genial livro referência, se encontrava condenado ao ostracismo, pois foi conveniente aos príncipes contemporâneos dele mantê-lo assim, o próprio livro é dedicado a um. Aconselho a todo mundo que tem a opinião de Maquiavel ser um defensor dos “tiranos e imorais” a reler o livro conhecendo essa outra face, a do homem assaz à frente de seu tempo, que elogiava a República e idealizava um governo humano baseado na virtude. Quando se lê a obra com esse contexto, o livro se torna muito interessante…
É como ler outro “O Príncipe” um tratado de desdém e ironia de um homem que tinha repulsa pela tirania, e assim, é muito fácil entender porque foi mantido no ostracismo, afinal de contas, as pessoas que o conheciam poderiam tomar suas palavras de conselho no seu sentido original, com o tom de sarcasmo que o fez falar em alto e bom som como aqueles governantes eram imorais e perversos.
Off topic.
Pessoal, como faço para comprar a Revista Mises, 2ª edição??? Não achei na loja.
Obrigado
Na época de Maquiavel existia uma corrente de pensamento libertário? Ou algo próximo do que hoje conhecemos?…
Caso não existisse, então é pertinente reavaliar os argumentos que tentam desmontar o posicionamento maquiavélico analisando apenas caminhos conhecidos centenas de anos mais tarde, no caso, agora.
Uma visão paralaxe é de suma importância para desmontarmos pensamentos clássicos.
Maquiavel (usando de ironia ou não) se vislumbrasse para o futuro algo parecido como afronta libertaria ao Príncipe, faria parte do grupo de gênios que enxergam alem dos comuns.
Não sei se sou libertário, odeio o governo com todas as forças (até o ponto de se extinguir) mas não é por causa de PNA nenhum.
Aliás acho até que PNA não é princípio de nada, o princípio é ser uma pessoa decente e o resto é consequência, incluindo não agredir ninguém.
Também não consigo aceitar como o libertarianismo é ambíguo em assuntos como aborto ou pedofilia.
Talvez um dia algum intelectual invente uma filosofia alinhada com meu tipo de pensamento, até lá fico do lado dos libertários mas apenas por pragmatismo.
Voltando a citar Stephen Covey, ele ensinou que nossos valores determinam nossas decisões, mas as leis naturais determinam as consequências dessas decisões.
Isso vale para todos, inclusive para os mais poderosos líderes.
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