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Alguns detalhes pouco conhecidos da crise financeira de 2008

Não
demorou muito para que os detratores do mercado descarregassem seus ataques histéricos
ao capitalismo logo após os eventos de 2008. 
A crise financeira que resultou na quebra de vários bancos foi
interpretada como sendo a prova cabal do quão destrutivo o “capitalismo
desregulado” pode ser e do quão perigosos seus defensores são — afinal, os
defensores do livre mercado se opuseram a todos os pacotes de socorro
concedidos aos bancos, pacotes esses que supostamente salvaram os EUA de outra
Grande Depressão.

Em
seu livro The Great Deformation,
David Stockman — ex-congressista e diretor da Secretaria
de Administração e Orçamento
do governo Reagan de 1981-85 — conta toda a
história da recente crise, e ataca impiedosamente o senso comum que credita às
políticas do governo e a Ben Bernanke o mérito de ter salvado os americanos de
outra Grande Depressão.  Neste campo, a
contribuição de Stockman é sem precedentes. 

O
livro aborda todos aqueles argumentos que foram apresentados em defesa dos
pacotes de socorro em 2008, os quais até hoje ainda representam o senso comum
da mídia e da academia.  Tanto naquela
época quanto hoje, o principal argumento sempre foi o de que, caso o governo
não interviesse, um “efeito contágio” iria fazer a crise financeira se propagar
para todos os setores da economia americana, indo para muito além de alguns
poucos bancos e corretoras de Wall Street. 
Sem os pacotes de socorro, as folhas de pagamentos de todas as empresas
americanas não mais poderiam ser cumpridas. 
Os caixas eletrônicos parariam de soltar dinheiro e ficariam
paralisados.  Mas as sábias decisões
políticas tomadas pelo Tesouro e pelo Federal Reserve impediram estes e outros
cenários tenebrosos, e impediram a segunda Grande Depressão.

Peguemos
o exemplo do socorro à gigante AIG [American
International Group
, corporação americana provedora de serviços financeiros
e seguros nos EUA e em outros países].  A
AIG era uma empresa que fornecia seguros contra calotes de hipotecas.  Os bancos concediam empréstimos para a
aquisição de imóveis, e essas carteiras de empréstimos eram seguradas pela AIG.  Para fazer tal seguro, a AIG vendia para os
bancos um instrumento chamado CDS [credit default swap], e os bancos faziam uma
série de pagamentos periódicos para a AIG em troca destes CDS.  Caso os devedores dessem o calote nos
empréstimos bancários, a AIG pagaria aos bancos. 

Porém,
como os calotes foram vários, a AIG ficou completamente insolvente e foi
socorrida pelo governo americano.  O
socorro ocorreu sob um ambiente de total histeria.  Disseram ao público que a AIG tinha de ser
socorrida pelo governo porque, caso contrário, todo o sistema bancário americano,
cujas perdas estavam seguradas pela AIG, quebraria.  O problema é que praticamente nenhum dos CDS
vendidos pela AIG estava em posse dos bancos convencionais, aqueles fora de
Wall Street.  E mesmo em Wall Street os efeitos
seriam confinados a apenas uma dúzia de bancos e corretoras, sendo que absolutamente
todos eles possuíam um amplo colchão para absorver tais prejuízos.

No
entanto, graças aos pacotes de socorro do governo, os barões não tiveram um
dólar de prejuízo em suas hipotecas caloteadas. 
No final, todo o socorro orquestrado pelo governo se resumiu a proteger
os ganhos de curto prazo e os bônus dos executivos a serem pagos no final
daquele ano.

Essa
proteção do estado aos grandes não foi de modo algum uma medida inédita.  Dez anos antes, o Fed já havia emitido um
sinal bastante claro de qual seria sua política futura: ele socorreu um hedge fund chamado Long Term
Capital Management (LTCM)
.  Se aquela empresa foi socorrida, concluiu
Wall Street, então não mais há limites para os tipos de loucura que o Fed socorreria
com sua criação de dinheiro.

Desde o início, o LTCM, diz Stockman, era “um flagrante
desastre financeiro que havia acumulado taxas de alavancagem de 100 para 1 com
o objetivo de financiar gigantescas apostas especulativas em moedas, ações,
títulos e derivativos ao redor do globo. 
A acentuada temeridade e a vultosa escala das especulações do LTCM não possuíam
paralelo na história financeira americana . . . . O LTCM era algo
explicitamente insolvente, e não tinha absolutamente nenhum direito de recorrer
ao governo para utilizar recursos públicos para se safar.”

Quando o índice S&P 500 disparou 50% ao longo dos
quinze meses seguintes, isso não era um sinal de que as empresas americanas
estavam vendo suas perspectivas de lucros aumentarem 50%.  Ao contrário, tal aumento indicava a
confiança de Wall Street de que o Fed iria impedir que futuros investimentos
errados recebessem as tradicionais punições impostas pelo livre mercado.  Sob este ‘capitalismo de estado’, o índice do
mercado de ações passou a refletir “o estímulo monetário que era esperado do
Banco Central, e não a expectativa de aumento dos lucros de empresas operando
no livre mercado.”

Não foram apenas algumas empresas específicas que
usufruíram das benesses do Fed de Alan Greenspan e Ben Bernanke; todo o mercado
de ações foi beneficiado.  As políticas
do Fed passaram a se concentrar no “efeito riqueza” gerado pelo aumento dos
preços das ações.  A ideia era que, se o
Fed estimulasse os preços das ações, os americanos donos destas ações se
sentiriam mais ricos e consequentemente estariam mais propensos a gastar mais e
a se endividar mais para continuar consumindo, desta forma estimulando a
atividade econômica.  E foi isso o que
aconteceu.

Esta abordagem política, por sua vez, praticamente compeliu
a implementação dos pacotes de socorro que inevitavelmente viriam.  Qualquer evento que pudesse derrubar os
preços das ações iria frustrar esse efeito riqueza.  E isso não era tolerável.  Logo, o sistema teria de ser estimulados por
todos os meios necessários.

Quais os resultados desta política?  Ela tem algo do que se gabar?  Stockman fornece a resposta:

Se os planejadores centrais do sistema monetário estavam
tentando criar empregos por meio do sinuoso método do “efeito riqueza”, então
eles têm de estar profundamente constrangidos pela sua incompetência.  A única coisa que ocorreu no front da criação
de empregos ao longo da última década foi uma maciça expansão das ‘brigadas do
urinol e do diploma’ — isto é, os empregos foram criados apenas em hospitais,
clínicas de repouso, agências de saúde domiciliar e faculdades.  Com efeito, o complexo educacional-hospitalar
responde pela totalidade dos empregos criados desde o final da década de 1990
nos EUA.

Enquanto
isso, o número de empregos realmente capazes de sustentar uma família de classe
média não aumentou absolutamente nada entre janeiro de 2000 e janeiro de 2007,
permanecendo em 71,8 milhões.  Toda a
forte expansão ocorrida no mercado imobiliário, no mercado de ações e no
consumo das famílias conseguiu, no final, produzir apenas esta amarga
estatística.  E quando se considera todo
o período de 12 anos desde 2000, houve uma criação líquida de 18.000 empregos
por mês — um oitavo da taxa de crescimento da força de trabalho.

Abaixo,
a evolução da taxa de emprego em relação ao total da população.

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Após o estouro da crise
financeira, o Fed continuou criando dinheiro para irrigar o mercado de
ações.  Em setembro de 2012, o S&P já
havia subido 115% desde suas mínimas atingidas no pós-crise.  Dos 5,6 milhões de empregos capazes de
sustentar uma família de classe média perdidos durante a recessão, somente
200.000 haviam sido restaurados até aquele mês. 
E durante esta tão badalada “recuperação”, o fato é que as famílias
americanas gastaram, no terceiro trimestre de 2012, US$30 bilhões a menos em
alimentos do que gastaram durante o mesmo período de 2007.

O repentino surgimento de enormes déficits
orçamentários nos últimos anos, na casa de US$ 1 trilhão, simplesmente
explicitou aquilo que a bolha dos anos Bush havia escondido.  A falsa riqueza gerada pela expansão do
mercado imobiliário e do consumismo no período 2000-2008 conseguiu reduzir
temporariamente a quantidade de dinheiro gasta em programas assistencialistas,
e temporariamente aumentou a quantidade de receita tributária auferida pelo
governo.  Porém, tão logo essa falsa
prosperidade se arrefeceu, o verdadeiro déficit, o qual havia apenas sido
suprimido por estes fatos temporários, começou a aparecer.

Durante todo este período de bonança artificial, o
Fed havia garantido aos americanos que os EUA estavam vivenciando uma genuína
prosperidade.  Ao inundar Wall Street com
dinheiro criado do nada, o Fed viu o valor das ações e dos imóveis disparar e
anunciou que estava contente com o “efeito riqueza” assim gerado.  As pessoas passaram a utilizar a contínua
valorização de seus imóveis como colateral para refinanciar suas dívidas e
conseguir mais empréstimos junto aos bancos, aumentando continuamente seu
consumo e seu endividamento.  Ao
testemunhar esta farra consumista, o Fed maravilhou-se com o fato de que os
dados macroeconômicos eram ainda melhores do que o esperado. 

Que estas deformações tenham sido confundidas com
prosperidade e crescimento econômico sustentável é uma boa prova da insensatez
sem fim das doutrinas monetárias hoje em voga no meio monetário.

Stockman também discute em seu livro as condições
fiscais do governo americano.  Parte
dessa história nos remete aos gastos militares dos anos Reagan.  A história narrada por Stockman, que foi
membro daquele governo, não é a mesma que se ouve da boca dos políticos.  A verdadeira história é exatamente aquela da
qual todo mundo suspeitava: um frenesi de programas irrelevantes e arbitrários,
os quais, uma vez iniciados, não mais eram interrompidos, dado que vários
empregos passaram a depender deles.

Mas pelo menos esta escalada dos gastos militares
gerou o colapso da União Soviética, certo? 
Stockman não acredita nisso.  “Os
US$3,5 trilhões (em dólares de 2005) gastos em defesa durante os anos Reagan
não fizeram com que o Kremlin erguesse a bandeira branca da rendição.  Praticamente nenhum dólar foi gasto em
programas que de fato ameaçassem a segurança soviética ou debilitassem sua
estratégia de intimidação nuclear.”

No cerne do programa de gastos
militares do governo Reagan . . . havia um paradoxo.  Os tambores da guerra rufavam uma estratégica
ameaça nuclear que virtualmente ameaçou a civilização americana.  No entanto, o dinheiro estava sendo realmente
gasto em tanques, barcaças de desembarque anfíbio, helicópteros de apoio aéreo
aproximado, e uma vasta armada convencional de navios e aviões.

Estas armas seriam de pouco
valor na eventualidade de um embate nuclear, mas eram muito adequadas a missões
imperialistas de invasão e ocupação de outros países.  Ironicamente, portanto, a corrida
armamentista do governo Reagan foi justificada por um Império do Mal (como ele
se referia à URSS) que estava rapidamente desaparecendo, mas, no final, foi
utilizada para iniciar guerras eletivas contra um Eixo do Mal que nem sequer
existia.

O que realmente viria a derrubar a União Soviética
era a sua própria economia centralizada — um ponto que, observa Stockman, os
economistas libertários já vinham anunciando havia algum tempo.  Os neoconservadores, por outro lado, faziam
ridículas alegações sobre as capacidades soviéticas e sobre sua ‘portentosa’
economia exatamente em uma época em que sua decrepitude já deveria estar óbvia
para todos.  Estas asserções inflamadas
sobre os inimigos do regime continuaram a ser o procedimento padrão dos
neoconservadores até muito tempo depois do fim dos anos Reagan.

No final, o objetivo do livro de Stockman é mostrar
como todos os intelectuais da mídia e do meio político enganaram e manipularam
os americanos.  Acima de tudo, seu
objetivo é mostrar que as tentativas de culpar os atuais problemas econômicos dos
EUA no “capitalismo” são ilógicas e absurdas, e revelam uma completa falta de
entendimento sobre como a economia tem sido deformada ao longo das últimas
décadas.

Stockman bate com gosto nos formadores de opinião
progressistas — defensores do cidadão comum, como gostam de se autointitular
— que defenderam os pacotes de socorro aos bancos e naqueles pretensos “livre-mercadistas”
que defenderam o TARP (Troubled Asset Relief Program — Programa de Alívio para
Ativos Problemáticos), como praticamente todos os candidatos republicanos de
2012, com a exceção de Ron Paul.  Ambos
os lados, em uníssono com a mídia convencional, repetiram continuamente
estórias assustadoras sobre o quão grande seria a tragédia caso o governo não
tomasse dinheiro dos pequenos para dar para os grandes.  E ambos os lados só tinha coisas boas a dizer
sobre como o Fed gerenciou a economia americana nos últimos 25 anos.

O livro de Stockman mostra com dados, argumentos e
uma sólida teoria por que o livre mercado tem de ser exonerado das acusações
violentamente proferidas por burocratas, políticos e seus aliados, todos ávidos
para encontrar um bode expiatório que os livrasse das consequências trágicas de
suas próprias políticas.

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31 comentários em “Alguns detalhes pouco conhecidos da crise financeira de 2008”

  1. O pior de tudo é que a mídia acaba acertando quando diz que a culpa foi do “capitalismo”, pois, para essa gente, o capitalismo de mercado, ou seja, o mercantilismo, ou como dizia Musolini, o fascismo, é que é o “verdadeiro capitalismo”. Na boa, precisamos inventar outro nome para o livre-mercado. É só uma questão de marketing mesmo, mas deveras importante.

    Abraços

  2. Acredito que o Brasil está exatamente neste tipo de beco sem saída:

    Inflação alta às vésperas de eleições gerada pela oferta de crédito por meio de impressão de papel moeda, desonerações pontuais para reduzir a mesma mas que aumentam o déficit fiscal, que por sua vez “obriga” o governo a imprimir mais papel moeda. Banco central fazendo de tudo para não aumentar os juros pois isso aceleraria a inevitável e já às portas recessão brasileira.

    http://www.valor.com.br/valor-investe/casa-das-caldeiras/3041208/governo-abranda-ipca-e-amplia-inseguranca-do-investidor

    Alguém poderia dar uma previsão, mesmo que com uma alta margem de erro, sobre quando a recessão vai estar oficialmente nos noticiários e consequentemente na cabeça da população?

    Podem me chamar de sadomasoquista, mas nao vejo a hora da recessão aparecer para que esta inflação parar de corroer meu salário.

  3. Como posso entrar em contato com alguém do Mises Brasil que esteja em são paulo capital ? Eu vou fazer faculdade de economia (tenho certeza absoluta que é isso que eu quero estudar) e ficaria muito feliz se consguisse umas dicas. Obrigado

  4. Leandro,
    Hahahahahahahahaah
    Aposto que despenca mesmo!
    Mas eu to acostumado! Estudo em um desses “colégios chieques de esquerda”, para usar a expressão do Pondé. Hoje mesmo tive uma aula sobre a crise de 29, com os especuladores malvados, os capitalistas malvados e os outros personagens das estórias que os professores de estória adoram contar. Sou muito grato por estudar em um colégio de ideologia tão retrógrada, pois foi o incomodo que surgiu dai que me levou a encontrar o IMB, e a partir daqui meu amigo, não corro mais esse risco.
    Economia e Ética são assuntos muito caros ao meu coração, como se fossem questões pessoais minhas, e vou pensar nelas até o dia de minha morte. Eu tenho interesse em publicar trabalhos acadêmicos no futuro e de entender profundamente economia, mesmo a mainstream, por isso quero fazer uma faculdade de economia, mesmo que eu aprende muita coisa errada, gostaria de saber se em alguma existe ao menos 1 austríaco para me orientar em TCC e etc…
    Não que eu queira fazer disso meu ganha pão, quero ser empresário e investidor(provavelmente não no Brasil). Desde criança eu trocava coisas com meus coleguinhas de escola, eu ia com um iogurte, trocava por uma carta, dai por um carrinho e acabava voltando pra casa com três carrinhos, até que minha mãe disse que eu não poderia mais fazer isso porque ficaria sem amigos. Nunca entendi o dilema das pessoas entre fazer o que gosta e fazer dinheiro. Em se tratando de um emprego, o que me diverte e me realiza é a arte de fazer dinheiro onde ou como ninguém mais pensou em fazer. Se tem uma coisa que me imagino fazendo todos os dias, é isso.
    Mas enfim, queria saber se, para um maluco que decide fazer economia, em qual das faculdades posso encontrar um austríaco?

  5. Hoje, passando pela parte central de brasília, onde funcionava o Touring, vi uma placa onde se lia: “SECRETARIA DE ESTADO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E TRANSFERÊNCIA DE RENDA”.

    Céus (como diria o Tavares do Chico Anísio), o que é isso? A que visa isso? Como se promovem o “desenvolvimento social” e a “transferência de renda” por meio do Estado?

  6. Prezados, sempre que leio os artigos deste site, percebo os mais esclarecidos comentarem sobre a desregulamentação estatal, na qual os mentores destes, sempre detêm coerência e visão aguçada ao abordarem tal assunto. Tentando observar o mundo e a econômia pelo mesmo prisma, me surgiu uma dúvida que gostaria de compartilhar com a equipe:
    Muitas vezes vejo que para lançar um produto no mercado, por exemplo remédios, ou algum cosmético com algum marketing envolvido (propriedades específicas como antiaging), estes materiais tem, por regulamentações da Anvisa, de passarem por diversos testes que muitas vezes são onerosos para a empresa. Pergunto, o mises sugeriria a desregulamentação em casos como no exemplo, onde estamos lidando com a saúde humana? Existe uma alternativa a regulamentação? Penso no caso dos cosméticos, que a empresa não precise comprovar a eficácia, pois caso o produto não funcione, o mercado não mais comprará o produto, pelo motivo de o mesmo não funcionar. Já no caso dos remédios, não consigo imaginar o livre mercado, pois as pessoas não tem como avaliar um medicamento, se ele realmente funciona, aí entra a Anvisa, mas em um livre mercado, a mesma não existiria, como ficaria tal situação?

  7. Novamente está sendo comemorado nos EUA o sétimo dia seguido de recorde do Dow Jones. É impressionante como as pessoas não aprendem.
    Uma dúvida que eu tenho: Quando esses projetos de estimulo a economia são criados pelo governo, eles dizem que a intenção é enganar as pessoas e assim incentivar o consumo ou no papel o argumento é outro?

  8. João Paulo Carvalho

    Olá, membros do Instituto Mises Brasil! Tenho 15 anos e gosto muito do seu trabalho, sendo um grande entusiasta do liberalismo econômico. Hoje tive aulas sobre o tratado de Eden-Rayneval (1786) e, sabendo que os princípios deste eram baseados no livre mercado, na livre concorrencia e no fim das barreiras alfandegárias entre França e Inglaterra, gostaria de saber porque este não deu certo, afinal de contas a concorrência dos produtos britanicos na França deveria ter levado a uma melhora dos produtos franceses para concorrer, e não a falência das empresas. Como creio no liberalismo econômico e sei que há alguma explicação para a falha deste tratado, gostaria de saber qual é. Muito obrigado

    Se quiserem informar-se sobre o tratado, aqui está um link: pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Eden

    Espero que respondam.

  9. @João Paulo Carvalho,

    Bem vindo. É bom ver uma pessoa tão jovem se interessando pelo livre-mercado e pela Economia Austríaca. Na sua jornada pela vida, você verá coisas de arrepiar e isso graças a essa lente de ver o mundo que você começa a adquirir. Mas não se preocupe, ver essas coisas servirão ao seu crescimento e diferenciação e farão de você uma pessoa mais esclarecida. Provavelmente você já é uma pessoa esclarecida no meio de um mar de ignorância. E isso vai piorar.

    Quanto a sua questão, o Leandro já respondeu… Gostaria de, apenas, me aproveitando da juventude do interlocutor, expandir a explicação do cenário para que esse tenha argumentos quando confrontato pelo seu professor de História (provavelmente de esquerda e anti-livre-mercado):

    Veja que se os Franceses não tivessem abolido o Tratado de Éden, logo as pessoas desempregadas oriundas dos setores insolventes e ineficientes iriam buscar emprego em setores eficientes e produtivos; os empreendedores falidos seriam substituídos por empreendedores com ideias novas. Talvez muitos produtos fossem produzidos inevitavelmente na Inglaterra, já que para esses produtos o arranjo inglês pudesse ser mais eficiente, no entanto o mesmo aconteceria na França que teria o domínio de alguns produtos em que fossem mais eficientes; a mão-de-obra, agora livre dos setores ineficientes, ajudaria a baratear ainda mais os custos dos empreendimentos eficientes, que prosperariam.

    Isso levaria a uma redução dos preços de produtos Franceses e Ingleses (pela simples lei da oferta e da procura: aumentou a oferta com a eficiência, logo o preço cai), levando a uma diversificação do mercado (agora existem mais bens de diferentes marcas, modelos disponíveis) a um menor custo, o que significa que pessoas com mais baixa renda agora conseguem adquirir um desses produtos outrora caros. Pense no operário inglês que não conseguia comprar um queijo frances por conta do preço e das barreiras alfandegárias e que agora tem queijo frances todos os dias em sua mesa. Pense no fabricante artesanal de queijos frances que agora pode comprar um equipamento produzido nas fábricas inglesas que outrora custava muito caro e era privilégio da elite.

    Aqui vemos o objetivo do capitalismo: a melhora do padrão de vida de todos os participantes do Mercado. Se alguém argumentar que “agora o operário inglês está ganhando menos por causa da concorrência com os produtos franceses” pergunte a esse operário se ele prefere granhar mais mas não conseguir comprar o “queijo nosso de cada dia” ou se ele prefere ganhar menos mas poder comprar o queijo francês que quiser. Veja que maiores salários só aumentam o padrão de vida de alguém se as coisas puderem ser compradas com ele. Se os salários aumentam e os preços também, ninguém melhorou de padrão de vida… (exceto o burocrata dono da máquina de imprimir dinheiro e seus comparsas).

    O que acontece com tratados semelhantes em todo o mundo é que ninguém quer mudança. O empresário quer continuar na sua vidinha pacata, vivendo dos lucros de sua empresa ineficiente protegida por barreiras alfandegárias; os empregados não querem aprender uma nova função já que estão acomodados na atual; o governo não quer perder a receita de impostos advinda dessas indústrias e dessas barreiras alfandegárias em troca da incerta receita de novos setores mais eficientes.

    O sucesso de tais tratados, no final das contas, é justamente o motivo de seu “fracasso”. Isso acontece pela tendência de acomodação das pessoas e dos povos envolvidos, pela sedução que a inércia do status quo exerce. Toda a vez que você vê um povo vencendo a inércia, você vê fenômenos de crescimento econômico (veja Japão pós-guerra, veja Alemanha pós-guerra, veja Chile, veja Coréia-do-Sul, etc).

  10. Eu li alguns livros que tocaram no assunto LTCM e em nenhum momento afirmaram que houve injeção de recursos públicos ou dinheiro do FED, Tesouro, etc, na jogada.

    O que de fato houve foi que o FED coordenou a “solução” da quebra do fundo com os outros bancos, que absorveram o portfólio do LTCM.

  11. É melhor dialogar aqui mesmo com os leitores. Pessoalmente, não recomendo fazer economia. É preciso ter um preparo intelectual muito alto, senão seu QI despenca. O ambiente universitário brasileiro, na área de humanas, é fecal.

    E pensar que larguei da Engenharia para fazer Economia. Seria inacreditável se eu afirmasse que em 4 anos de curso jamais ouvira falar da EA? Este ano me graduo e meu tema de TCC será a regulamentação das drogas, pra delírio dos esquerdopatas.

  12. Vejam só, Paul krugman (o defensor de déficits) declara falência pessoal:

    dailycurrant.com/2013/03/06/paul-krugman-declares-personal-bankruptcy/

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