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O Bundesbank quer seu ouro de volta – mas sem pressa

Há quase duas semanas, o
Bundesbank (o Banco Central da Alemanha) surpreendeu os mercados de todo o
mundo ao anunciar
que irá repatriar uma considerável porção de suas reservas de ouro que estão na
França e nos EUA
.  Para muitos, tal
anúncio, vindo do segundo maior detentor de ouro de todo o mundo, foi um sinal
de que está havendo uma crescente, embora ainda clandestina, desconfiança entre
os próprios bancos centrais, possivelmente estimulada por suas divergentes
políticas monetárias. 

Os alemães fizeram de
tudo para arrefecer o alarmismo gerado por seu anúncio, enfatizando uma miríade
de razões logísticas, práticas e históricas que deveriam servir para mostrar
que seu anúncio, na verdade, era rotineiro. 
No entanto, o tamanho, o escopo e o momento desta medida fazem com que
seja difícil não crer que haja outros motivos de cunho mais estratégico.

Sendo anunciada durante
uma época de suposta cooperação entre os bancos centrais de todo o mundo, a
decisão alemã de repatriar bilhões de dólares em barras de ouro estava fadada a
gerar algum susto.  No momento, o Banco
Central alemão possui oficialmente 3.396 toneladas de ouro em seu
balancete.  Deste valor, 1.500 toneladas
estão no Federal Reserve de Nova York e 374 toneladas estão em Paris.  A Alemanha anunciou que irá
repatriar 674 toneladas de ouro — 300 do Fed de Nova York (avaliadas em
US$17,9 bilhões) e todas as 374 toneladas de Paris (avaliadas em US$22,3
bilhões). 

Em tese, repatriar tal
volume de ouro deveria ser uma operação relativamente simples.  De Paris, o ouro poderia ser transportado de
trem ou de caminhões para Frankfurt.  Dos
EUA, utilizando alguns aviões militares ou navios.  No entanto, tão logo o anúncio foi feito, o
Bundesbank afirmou que plano é fazer essa
repatriação aos poucos, ao longo dos próximos sete anos
.  Ou seja, as 674 toneladas de ouro só serão
totalmente reavidas em 2020.  Trata-se de
um adiamento inexplicável.  Em
específico, as 300 toneladas que estão no Fed de Nova York representam apenas 5%
das mais de 6.700 toneladas mantidas em seus cofres.  É bastante esquisito que o Fed necessite de
tanto tempo para entregar algo que deveria ser uma retirada corriqueira e
manejável.  Isso só confirmou as
suspeitas de que o ouro, na prática, não existe mais. 

Paralelamente, junto com
a declaração do Bundesbank há um pdf
cujo slide número 14, sob o título “Armazenamento no Federal Reserve Bank de
Nova York”, parece muito mais uma fotomontagem do que ouro genuíno.  A óbvia intenção da foto é fazer acreditar
que aquele ouro é o estoque pertencente ao Bundesbank.  Isso entrega todo o jogo: é tudo uma pura
manobra de relações públicas.

Embora alguns medalhões
financeiros, como o presidente do Fed Ben Bernanke, tenham dito que ouro “não é
dinheiro”, e investidores respeitados como Warren Buffet tenham descrito o ouro
como uma “relíquia bárbara”, qualquer anúncio envolvendo grandes movimentações
de ouro geram forte impacto emocional. 
Tal reação é justificada?

Após a Segunda Guerra
Mundial, a ameaça de uma repentina invasão soviética convenceu várias nações
europeias ocidentais a diversificar a localização de seu portfólio de ouro,
enviando o metal particularmente para os EUA e o Reino Unido.  Hoje, a Alemanha mantém apenas 31% de seu
estoque de ouro nos cofres do Bundesbank. 
Do restante, 45% está no Federal Reserve Bank de Nova York, 11% está no
Banco Central da França (Banque de France) em Paris, e 13% está no Banco
Central da Inglaterra (Bank of England) em Londres.  Mas agora que a ameaça
militar russa já se dissipou, os alemães corretamente reavaliaram a
conveniência dessa distribuição.

Durante décadas, os
bancos centrais mantiveram grande sigilo sobre seus estoques de ouro.  Apesar disso, ainda hoje, são poucas as
pessoas que duvidam dos valores dos estoques publicados nos balancetes dos
bancos centrais.  No entanto, quando o
assunto é a quem exatamente pertence o ouro mantido nos cofres dos bancos
centrais e de alguns bancos comerciais, as perguntas tornam-se bem mais sérias.  Para o espanto de vários cidadãos alemães e
observadores internacionais, o Bundesbank admitiu alguns anos atrás que havia
décadas que ele não efetuava uma auditoria do seu estoque de ouro. 

Os países desenvolvidos
adotaram uma forma de economia keynesiana que criou um mundo inundado de
dinheiro fiduciário desvalorizado, o qual está lastreado em uma aparentemente
insuportável montanha de dívida pública. 
Em tal mundo, é compreensível que os cidadãos alemães sintam que o ouro
de seu país deveria estar em
casa.  Tal sentimento
tem potencial para se espalhar.  O partido
CDA
(Christen-Democratisch Appèl; Apelo Cristão-Democrático) da Holanda já pediu que
as 612 toneladas de ouro do país sejam repatriadas dos EUA, do Reino Unido e do
Canadá.

É legítimo imaginar se
tais sentimentos irão se espalhar e revelar que há uma escassez de ouro físico
naqueles cofres até então tidos como confiáveis.  Adicionalmente, em um mundo em que a
confiança nos bancos centrais está desaparecendo rapidamente, os próprios
bancos centrais estão se tornando cada vez mais desconfiados uns dos outros.

Ao mesmo tempo, os bancos
centrais dos países em desenvolvimento, particularmente os da China e do
Sudeste Asiático, estão comprando e acumulando ouro velozmente, assim como
também o estão fazendo países como Rússia, Turquia e Ucrânia.  A China já é hoje o maior produtor mundial de
ouro, mas ela não apenas retém toda a sua produção, como também compra ouro
continuamente no mercado aberto.  Isso já
ocorreu até mesmo em momentos em que nenhum outro grande banco central estava
vendendo quantias significativas de ouro. 
A desastrosa investida feita pelo Banco Central da Inglaterra no início
da década de 2000, quando ele vendeu centenas de toneladas de ouro a um preço
menor que $300 por onça, sem dúvida é um fator controlador.

A relutância dos bancos
centrais em abrir mão do ouro alheio que está sob sua custódia, fato esse que
foi apenas ressaltado pela repatriação exigida pela Alemanha, está em profundo
contraste com as políticas destes mesmos bancos centrais durante as décadas de
1970 e 1980, quando todos eles fizeram esforços de maneira concertada para
desmonetizar o ouro, algo que só podia ser feito por meio da venda efetiva de
grandes quantidades de ouro.  Será que
esta mudança de postura reflete uma crescente e mútua desconfiança na moeda
fiduciária por parte de investidores sofisticados, que agora estão acumulando
ouro?

Mesmo a repatriação de
uma pequena fatia do ouro alemão, especialmente se tal medida for copiada por
outras nações como a Holanda, deve ser vista com grande preocupação.  Hoje, nenhum banco central ousaria, sem
nenhum motivo, perturbar o equilíbrio de todo o sistema dos bancos centrais.  Se o Bundesbank ousou fazer isso, então é
porque ele sabe de algo.  À medida que as
economias keynesianas vão desandando rumo ao desastre financeiro, qualquer
aumento na repatriação do ouro dos bancos centrais é um indicativo de que há um
genuíno temor acometendo aqueles que detêm as verdadeiras informações
privilegiadas — os próprios bancos centrais.

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65 comentários em “O Bundesbank quer seu ouro de volta – mas sem pressa”

  1. A inflação alta aqui no Brasil, porém o dolar não se valoriza. Será que isso é sinal de que o FED está fazendo tanta besteira quanto o Banco Central do Brasil?

  2. Mercado de Milhas

    A Rainha não deu recentemente uma conferida no estoque de ouro da Inglaterra ?

    A desconfiança dos BCs uns nos outros pode levar a que ?

  3. O governo da Alemanha e o Bundesbank são o que eu chamaria, mesmo correndo o risco de parecer ridícula, de dupla do mal. Defendem medidas que só atrasam a recuperação da zona do euro e por consequência da economia mundial. São políticas ultrapassadas de sofrimento inútil.

  4. Já repararam que parece foi deixado para os libertários apenas ficar falando de economia, enquanto os marxistas tem a escola de Frankfurt que pega toda a atividade humana.

    Quem é o nosso Gramsci, quem é nosso Adorno.

    O liberalismo somente conseguiu fincar suas raízes na cultura ocidental, onde a ética judaico cristã, o direito romano(propriedade), e a filosofia grega(razão) são as suas bases.

    O libertários(de direita) não se misturam com os conservadores(de direita), ai fica fácil para o marxista chega num conservador e fica falando de economia, chega num libertário e ai fala de existencialismo e teoria critica.

    E qual é mesmo a doutrina social do liberalismo?

    Eu daria uma sugestão de olhar para a DSI, doutrina social da igreja(católica), os marxistas não tem a teologia da libertação?, só fazer uns encaixes na parte econômica que ta pronto.E tem as neopentecostais que pregam em parte o liberalismo sem saber, da mesma forma que na DSi só fazer uns encaixes na parte econômica.

    Depois uma politica de ocupação de espaços, um movimento, um vereador, um prefeito um governador, um senador e finalmente presidente.Espera ai que vou fazer uma revolução e já volto.

  5. Pessoal, o que vocês tem a dizer sobre as toneladas de ouro extraídas ilegalmente na Amazônia todos os anos? Qual o real impacto deste roubo de nossas riquezas? Quem ganha com isso?

  6. Leandro

    Noto que esses países europeus poderiam ter adotado os mesmos métodos dos paises do extremo oriente, que cresceram sustendadamente.

    Um ponto crucial é que os países orientais cresceram voltados para o comércio exterior, com importações e exportações bastante livres. Vejo duas grandes vantagens: A demanda mundial de qualquer bem não pode ser facilmente manipulada. Os países são cada um diferente do outro e, na média, o mercado mundial será mais realista e menos manipulado que o mercado interno.

    Um segundo ponto, exportar (ou concorrer com importados) implica em aumentar a produtividade, que é precisamente o que os PIIGs, em geral, não fizeram. A nescessidade de exportar bens e serviços de grande valor agregado implica também em maior racionalidade do governo em seus gastos e burocracia, porque impostos e regras asfixiantes matariam a galinha dos ovos de ouro. Governos de países que adotaram esse caminho tem grande preocupação em não matar a inventividade, o empreendedorismo, e a produtividade.

    Já um governo que quer promover um surto de crescimento baseado no crédito fácil (criação de dinheiro ou dinheiro vindo de fora), gastos governamentais, e nada mais, não se preocupa com nada disso. Os resultados costumam ser imediatos, e a resposta positiva das urnas os torna cegos para o que vem a seguir.

    Quanto à questão do déficit público, isso pode não ter sido um problema original na Irlanda, mas era em Portugal, Espanha e Grécia. Em particular, Portugal e Grécia iriam à falência de qualquer jeito. Se não estourasse agora, seria mais tarde, a não ser que houvesse um repentino e grande aumento da produtividade.

    Estou correto na minha análise?

  7. Tava lendo uma reportagem na revista “Desafios do Desenvolvimento” do IPEA e me deparei com o seguinte parágrafo:

    “Mesmo assim, o movimento gerou efeitos profundos em nossas relações econômicas internas: instituições financeiras foram pressionadas a reduzir juros cobrados de clientes, aplicadores a diversificarem investimentos, o governo federal viu cair o gasto com o financiamento da dívida pública, e até empresários puderam recalcular, para cima, a rentabilidade de novos projetos, diante da queda do custo do capital.”

    Basicamente, o autor considera uma boa coisa o fato de os empresários considerarem rentável (ou mais rentável) investimentos que antes não eram em razão da manipulação da taxa de juros por parte do governo. Que coisa maravilhosa…

  8. Leandro, o escrito abaixo pode ser uma das causa do crescimento economico da era Lulla?

    Com a guerra do Iraque e Afeganistão os Estados Unidos inundaram o mundo com dólares falsos para sustentar a guerra, provocando uma liquidez esquizofrênica no mercado financeiro internacional, levando o preço do petróleo a sair de US$ 24,53 o barril em 2001 para US$ 112,69 o barril em agosto de 2012. Aumento de preço de 359,40% em 10 anos. Os preços das commodities (alimentos) tiveram um aumento de 227,49% de 2001 até agosto de 2012 e os preços das commodities geral (alimentação e metais) de 176,51% no período de 2001 até agosto de 2012.

    Sendo o Brasil grande exportador de commodities se beneficiou dessa valorização, levando nossas reservas em moeda estrangeira de US$ 35,9 bilhões em 2001 para US$ 352,0 bilhões em 2011. Crescimento de 880,50% no período. Porém não podemos comemorar, visto que foi gerado pela emissão de dólares falsos, assim sendo sem nenhum valor econômico, haja vista que essas reservas são remuneradas pelos Estados Unidos ao Brasil com juros negativos (juros zero menos inflação americana), ou seja, estamos pagando aos Estados Unidos para financiar a sua dívida. E a estupidez coletiva brasileira comemora.

    Em vista do acima exposto a ilusão monetária acima descrita (dólares falsos) fez com que a economia brasileira aumentasse sua capacidade de crédito, saindo de R$ 332,4 bilhões (25,52% do PIB) em 2001 para R$ 2.029,8 bilhões (48,99% do PIB) em 2011. Crescimento real em relação ao PIB de 91,97%.

    Como o Brasil não cresceu na mesma proporção do endividamento das famílias, é óbvio e ululante que essa mágica está para explodir, da mesma forma que explodiu na década de 80, terminado assim o segundo falso milagre brasileiro.

    Para encerrar devo afirmar que o verdadeiro milagre brasileiro, ou de qualquer país, somente ocorre com base na poupança e na educação do seu povo. O resto é debate de bêbados.

  9. As bases americanas na Alemanha e a base ouro
    por Antal E. Fekete [*]

    A Alemanha não é nem independente nem soberana, apesar das pretensões habituais. Ela tem tropas americanas no seu solo por razões inexplicadas e inexplicáveis após a retirada de todas as tropas soviéticas há quase 25 anos atrás. Igualmente significativo é o facto de que a fatia do leão da reserva ouro alemã esteja sob a custódia americana. Se o Bundesbank pediu a repatriação de uma parte simbólica daquele ouro durante um longo período de tempo, podemos considerar como garantido que isto foi feito sob instruções americanas.

    Mas por que os americanos pediriam ao Bundesbank para requerer o retorno de uma parte do ouro alemão armazenados na “segurança” dos porões do Federal Reserve Bank of New York na parte baixa de Manhattan? Certamente não porque os porões estejam cheios de ouro americano e eles tenham de arranjar espaço para mais.

    É tudo grande teatro. Há uma agenda oculta que tem de ser camuflada. O melhor meio de fazer isso é montar um show. O público fica fascinado por imagens com tramas de ouro de bancos centrais.

    Uma razão, talvez a principal para este exercício, é que os administradores do sistema de moeda fiduciária (fiat money) global estão a preparar-se para a próxima confrontação decisiva, a cortina final sobre o que há alguns anos atrás chamei de The Last Contango in Washington. Por outras palavras, os decisores políticos estão a preparar-se para (ou a tentar defender-se da) a permanente escassez ( backwardation ) nos mercados futuros de ouro de todo o mundo que está a ameaçar rasgar em pedaços o actual e desgastado sistema de pagamentos mundial que repousa na fé (make-belief).

    A multa por atraso ( contango ) é a condição normal dos mercados futuros de outro quando o preço spot do ouro está com um desconto em relação ao preço de contratos futuros. O contango demonstra que está disponível muito ouro para satisfazer a procura actual. As pessoas estão confiantes em que promessas de entrega de ouro serão honradas. A condição oposta à situação de contango é chamada de escassez (backwardation) que se verifica quando os preços futuros perdem o seu prémio em relação ao preço spot e ficam menores. No mercado de ouro esta condição é altamente anómala porque, face a isto, permite aos comerciantes ganharem lucros sem risco. Eles vendem ouro spot com um prémio e compram-no de volta com um desconto para entrega futura. Contudo, lucros sem risco são efémeros uma vez que a própria acção de comerciantes os eliminará instantaneamente. O que isto sugere é que escassez permanente de ouro nunca poderia acontecer pela própria natureza do caso.

    Mas sem o conhecimento do público geral um perigo muito grande está a surgir, perigo semelhante a um que não ameaçava o mundo desde o colapso da parte ocidental do Império Romano há mais de 1500 anos atrás. Este perigo, se se materializar, marcaria o fim da nossa civilização e princípio de uma nova Idade Média (Dark Age). Estou a falar acerca da ameaça do súbito e completo colapso do comércio mundial. Isto seria anunciado pela escassez permanente de ouro, algo que alegadamente nunca poderia acontecer. Directamente nos seus calcanhares seguir-se-ia o colapso do sistema de pagamentos em dólar. O comércio por trocas (barter), naturalmente, começaria entre países vizinhos, mas o comércio mundial tal como o conhecemos desapareceria junto.

    O indicador pelo qual a viragem do contango para a escassez (backwardation) poderia ser medido é chamado a base ouro. É o prémio sobre o preço do ouro para entrega futura de acordo com o contrato que o acompanha relativo ao preço spot. Portanto a base ouro negativa é equivalente a escassez. Mal se passaram uns 40 anos de história de orientação pela base ouro, porque não havia comércio organizado de futuro de ouro antes de a América incumprir suas obrigações internacionais de ouro em 15 de Agosto de 1971.

    O comércio de futuros começou com uma base ouro robusta. O contango estava no seu pico. A base ouro não pode ser mais elevada do que o pleno encargo de armazenagem (carrying charge) (também conhecido como o custo de oportunidade de possuir ouro, cujo principal componente é o juro). Mas bastante cedo a base ouro começou a erodir-se e a erosão continuou até hoje. Isto foi um processo agourento e que foi ignorado por todos os políticos, economistas e jornalistas financeiros.

    O desvanecimento da base ouro é ainda mais curioso uma vez que tem estado a acontecer contra o pano de fundo de um avanço constante no preço do ouro. Os manuais de teoria económica ensinam que um avanço no preço sempre e em toda a parte chama novas oferta. Contudo, os manuais de teoria económica são impotentes quando se trata de ouro. Para o ouro, o verdadeiro é exactamente o oposto: um avanço no preço faz a ofertar contrair; e um avanço muito grande pode fazer a oferta desaparecer totalmente. A razão para este paradoxo é que o ouro é um metal monetário. Toda a difamação do ouro por economistas pagos por governo não alterará este facto. Nesta altura o declínio foi tão longe que a base ouro é praticamente zero, com ocasionais afundamentos em território negativo.

    A academia evita ostensivamente investigar a base ouro, pretendendo que ela tem tanta relação com a economia mundial quanto a base para carcaças de porcos congelados. O público é mantido na ignorância total. Mas só se pode ignorar a base ouro correndo perigo. Trata-se do único indicador disponível que mostra a deterioração progressiva do sistema de moeda fiduciária. Como é bem sabido, em toda a história nunca houve um experimento com êxito de moeda fiduciária. E nem foi por falta de tentativas. Todos estes experimentos ou foram abandonados quando governos esclarecidos decidiram retornar a divisa a uma base metálica, ou acabaram em fracasso absoluto provocando tremendo sofrimento económico para o povo quando a moeda fiduciária estava a perder rapidamente todo o seu poder de compra.

    A implacável contracção da base ouro significa que o ouro disponível para entrega futura está a desaparecer rapidamente. O ouro está constantemente a mover-se para mãos fortes que o agarram e não o abandonarão mesmo em face de altas de preços abruptas. Finalmente a oferta de ouro secará e a escassez esporádica dará lugar à escassez permanente. As minas de ouro recusam-se a receber papel-moeda pelo seu produto. Se quiser ter ouro, terá de recorrer ao barter.

    Escassez permanente significa que a confiança na divisa fiduciária em papel e nas promessas do governo de pagar evaporaram-se. Afinal de contas, considerando a sua origem, notas de banco irresgatáveis são nada mais do que promessas desonradas de pagar ouro. Uma vez estilhaçada a confiança, todos os cavalos do rei e todos os homens do rei não podem juntar Humpty Dumpty outra vez. A escassez permanente é como um buraco negro. Não há caminho para dele sair. Nem mesmo um raio de luz pode escapar das suas garras. Eis como os buracos negros ganharam sua fama. “Escassez permanente” não é um nome tão sugestivo como “buraco negro”, mas mesmo assim pode devorar a economia mundial.

    A base ouro é afim à eficiência do dinheiro de suborno. A princípio o suborno é aceite sem se fazerem perguntas. Mas quando se torna uma característica regular do comércio de ouro, a sua efectividade é perdida. No fim o suborno é recusado quando se percebe que o objectivo é trapacear o proprietário e retirar-lhe a sua posse de ouro. Um sistema de comércio construído sobre o suborno é um castelo de cartas. Ele é desonesto. Depende do engano e de tramas falsas.

    Isto traz-me de volta à reserva ouro alemã. Como a escassez esporádica em ouro torna-se cada vez mais frequente, os cavalheiros responsáveis pelo andamento do sistema mundial de moeda fiduciária ficam alarmados. O único meio de pacificar o mercado é libertar cada vez mais ouro de bancos centrais. Ouro físico. A besta deve ser alimentadas. O ouro de papel não o fará (mas, naturalmente, estes cavalheiros continuarão a tentar inundar o mercado com ele).

    Libertar ouro americano directamente do Fed para os mercados de futuros está fora de causa. Isso confirmaria a suspeita, já desenfreada, de que o dólar é um colosso com pés de barro sustendo-se com água até os joelhos. Assim, deixem os estados clientes da América fazerem a libertação. Os alemães têm a reputação de favoráveis à divisa forte. Eles estão relutantes em aderir à “corrida para a base” das divisas. A Alemanha é a escolha natural para alimentar mercados futuros de ouro num esforço para proteger o dólar contra o último assalto que está a perfilar-se.

    Durante muito tempo a América tem estado a torcer o braço de outros países, incluindo o Reino Unido e a Suíça, fazendo-os vender centenas de toneladas de ouro do banco central, ao passo que a América não estava a vender nem uma onça. “Faça como eu digo, não como eu faço!” Durante todo este tempo a Alemanha tão pouco estava a vender. Era mantida a aparência de que esta decisão foi tomada na Alemanha. Não foi; ela tem, ao invés, a marca “made in USA”. O ouro alemão é a última defesa do dólar. Por esta altura praticamente todos os bancos centrais ignoram o canto de sereia da América. De vendedores eles se tornaram compradores de ouro. De acordo com o plano mestre americano a Alemanha é a última fortaleza [a impedir] a desintegração do sistema global de moeda fiduciária. A Alemanha não falhará: é para isso que se mantêm tropas americanas no solo alemão. A Alemanha cumprirá obedientemente a tarefa de alimentar com ouro os mercados de futuros num esforço para defender-se da escassez permanente. A repatriação de uma parte a reserva de ouro alemã é um balão de ensaio. Se os mercados ficarem com medo e verificar-se pânico de vendas antes de o Bundesbank começar a vender, então muito melhor. Mas se a trama falsa fracassar e a marcha do mercado mundial de ouro rumo ao entesouramento privado continuar constante, então deixem o Bundesbank, não o Fed, sangrar ouro. O ouro da América deve ser poupado apesar de todos os riscos.

    Sobre tais truques e enganos está fundamentado o sistema monetário internacional.

    Qual é, portanto, a solução? Como pode ser impedida a morte súbita do comércio mundial? Felizmente, ainda há políticos erectos. Godfrey Bloom do Parlamento Europeu, deputado pelos círculos de Yorkshire e North Lincolnshire no Reino Unido, sugere que a Alemanha deveria repatriar TODO o seu ouro e reinstaurar um marco alemão ouro.

    A causa subjacente da crise financeira mundial é dívida desenfreada. O ouro é o único extintor final de vida. A partir da sua expulsão do sistema monetário internacional a dívida total no mundo só pode crescer, nunca contrair. Para travar o crescimento canceroso da dívida o ouro deve ser reinstaurado na sua antiga posição como o guardião da qualidade de dívida.

    Se, em desafio dos desejos americanos, a Alemanha tomar a iniciativa de criar um marco ouro e abrir a Cunhagem Alemã ao ouro em que todos os que se apresentarem possam converter seus lingotes de ouro em moeda de ouro, o curso da história mundial será mudado. Seria o mais admirável momento da Alemanha. A civilização terá sido salva e o arranque da nova Idade Média impedido. O marco-ouro poderia circular lado a lado com o euro e dólar irresgatáveis. Deixem as pessoas decidirem se querem ser pagas em divisas fiduciárias tendentes à crise ou, talvez, se preferem a estabilidade da moeda de ouro respeitada pela sua antiguidade. Não há dúvida do que seria a escolha das pessoas.

    A iniciativa alemã porá em funcionamento uma reacção em cadeia de actos virtuosos semelhantes por parte dos principais bancos centrais do mundo, a fim de impedir a depreciação fatal das suas divisas contra o marco-ouro. Este tornar-se-á a divisa mais cobiçada do mundo para comércio internacional. O sistema financeiro será salvo do suplício das desvalorizações competitivas de divisas e do efeito corrosivo de défices governamentais sempre em expansão. Governos serão forçados a enfrentar a realidade e viver responsavelmente dentro dos seus meios como toda a gente. Agricultores já não serão pagos para não cultivar a terra e trabalhadores fisicamente aptos para não trabalhar. O desemprego juvenil, em particular, será coisa do passado.

    Há um precedente. Em 1948 a Alemanha desafiou a força ocupante quando criou o Deutsche Mark sem se aborrecer a pedir permissão em Washington.

    Mas não será o padrão tendente à deflação? Na década de 1930 o padrão ouro internacional entrou em colapso por causa disto mesmo, não foi?

    Como disse o pai do Deutsche Mark, Wilhelm Röpke (1899-1966): não foi o padrão ouro que fracassou, mas aqueles a cujos cuidados estava confiado.
    28/Janeiro/2013

    [*] Nasceu em Budapeste, Hungria, em 1932. Matemático e cientista monetário. Em 1958 foi nomeado professor assistente de Matemática e Estatística na Memorial University de Newfoundland, Canadá e em 1993 reformou-se como Professor Titular. Em 1974 fez uma palestra sobre ouro no seminário de Paul Volcker na Universidade de Princeton. Posteriormente, foi investigador visitante (Visiting Fellow) no American Institute for Economic Research e editor sénior da American Economic Foundation. Em 1996 o seu ensaio, Para que o ouro? (Whither Gold?), que se encontra em http://www.fame.org/htm/Fekete_Anatal_Whither_Gold_AF-001-B.HTM , ganhou o primeiro prémio no concurso internacional sobre divisas patrocinado pelo Bank Lips, da Suíça. Durante muitos anos foi perito em vendas e hedging de barras de ouro de bancos centrais, e os seus efeitos sobre o preço do ouro e da própria indústria da sua mineração. Dedica-se agora a escrever e fazer palestras sobre reforma fiscal e monetária, com ênfase especial no papel do ouro e da prata no sistema monetário.
    No sítio web do jornalista Lars Schall consta também esta entrevista do prof. Fekete: ” Gold: Permanent Backwardation Ahead! “

  10. Belicoso alemão, sua última postagem parecia um artigo e não um comentário, se eu tivesse achado tão agradável o que eu estivesse lendo, talvez nem teria desconfiado, mas deveria ser óbvio para você que o que você considera groselha em minhas postagens, pela diferença de opiniões é o que eu considero groselha nas suas. Se hoje temos espíritos assombrados do nazismo-comunismo passeando livremente pela sociedade, e se a mentalidade estatista vem crescendo desde a segunda guerra, você deveria agradecer a Churchill, pois se ele não tivesse acabado com a aliança entre Hitler e Stálin, você não estaria vendo espíritos assombrados e crescimento da mentalidade estatista, estaria vendo a materialização desses espirítos e dessa mentalidade na forma de um governo mundial totalitário. Você credita os males do comunismo de Stálin na conta do Churchill, esses males não são de Churchill, são de Stálin, se Churchill tivesse sido fiel aos poloneses e tchecos, e perdido a guerra, os males de Stálin ou de Hitler, não seriam espíritos assombrados passeando pela sociedade, seriam tão concretos quanto uma parede de cimento.

  11. Cuma? Churchill destruiu a aliança entre nazistas e comunistas? Como? Eu pensei que tinha sido os alemães quando invadiram a URSS em 22 de junho de 1941. Se dependesse dos comunistas essa aliança nunca seria desfeita, palavras do próprio ministro Vyacheslav Molotov. Stalín correu para os aliados quando os nazistas chutaram a porta. Apesar de todo o apoio material que os ocidentais deram para a URSS (praticamente toda a cadeia logística do exército vermelho no fim da guerra era feita por caminhões emprestados), eles foram passado para trás. Curiosamente, não apenas Churchill, mas Roosevelt(e depois Trumman) tentaram se aproximar dos soviéticos fazendo concessões territoriais, no pós-guerra. Anos depois, mostrou-se que grande parte dos “secretários”, “consultores” e a casta burocrática ocidental responsável por fazer um acordão com Stalín era nada mais nada menos do que agentes soviéticos infiltrados nos governos ocidentais. Haja incompetência!

  12. Pessoal, o que acham desta notícia:

    Cientistas descobrem uma bactéria que ‘produz’ ouro em segundos
    noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2013/02/04/cientistas-descobrem-uma-bacteria-que-faz-ouro.htm

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