Quais
são as diferenças essenciais, do ponto de vista metodológico, entre as ciências
naturais e as ciências sociais? A
primeira e mais direta resposta pode soar estranha e difícil de acreditar, mas
é a mais perfeita definição da diferença entre ambas: as ciências naturais
estudam fenômenos relativamente simples e
fáceis. Já as ciências da ação
humana estudam fenômenos relativamente complexos. Ou, ainda mais apropriado, fenômenos extremamente complexos.
Logo,
em termos mais práticos, o que distingue um praticante das ciências naturais —
como um químico, um físico, um biólogo, um médico — de um economista é o fato
de que o químico, o físico, o biólogo e o médico estudam fenômenos simples e
fáceis, em termos relativos, ao passo que estudiosos das ciências sociais lidam
com fenômenos de extrema complexidade.
É
isso mesmo? Procede dizer que, por
exemplo, físicos que estudam assuntos aparentemente herméticos e esotéricos,
como mecânica quântica, gravitação quântica, teoria quântica de campos, buraco
negro, termodinâmica de buracos negros, quantum de energia, fótons, magnetismo,
cargas elétricas, mecanismo de Higgs etc. executam uma tarefa mais fácil do que
a daqueles que se propõem a estudar a sociedade, algo que aparentemente todo e
qualquer político e burocrata está sempre fazendo? O que pode haver de difícil em determinar se
se deve subir o salário mínimo, aumentar impostos, reduzir impostos,
intensificar regulamentações, diminuir regulamentações, desburocratizar,
expandir a oferta monetária, reduzir juros, elevar juros, aumentar subsídios,
cortar subsídios etc.? Tal tarefa certamente
não deve exigir o mesmo intelecto exigido de um físico, que, para ser um bom
físico, tem de se entregar a vários anos de intensos e pesados estudos. Certo?
Apesar
das aparências, a realidade é exatamente contrária. Digo mais: são tão complexos os fenômenos estudados
pelas ciências sociais, que quase ninguém os entende de fato. E isso, paradoxalmente, faz com que eles
pareçam simples e irresistíveis demais para não se dar palpites a respeito. É justamente por isso que todos os ignorantes
se atrevem a pontificar com desenvoltura e segurança sobre assuntos
aparentemente simples, mas genuinamente complexos, dos quais não possuem os
mais básicos conhecimentos a respeito.
Quanto mais aparentemente simples um assunto, maior a gama de ignaros
que ele atrai.
Ninguém
se atreve a palpitar resolutamente sobre fissão nuclear sem ser um especialista
doutorado em física atômica. Tampouco é
comum ver um leigo perorando profundamente sobre as reações de um organismo em
decorrência de uma quimioterapia. No
entanto, todas as pessoas falam com total pretensão e afetação sobre o que deve
ser feito a respeito de salários, previdência social, relações trabalhistas,
regulamentações, juros, impostos, tarifas de importação, bancos centrais, ajuda
aos pobres etc., desconsiderando que os fenômenos sociais são extremamente mais
complexos e completamente mais imprevisíveis do que os do mundo da física, da
astronomia, da química ou da medicina.
Justamente
por serem mais complexos, somos capazes de entender apenas uma mínima fração
deles. E é exatamente por isso, por
entenderem tão pouco, que a imensa maioria das pessoas se atreve a dar palpites
sobre o assunto. É difícil ser
genuinamente consciente da complexidade daquilo que se ignora totalmente.
Os
fenômenos do mundo da economia são extremamente mais complicados que os do
mundo das ciências naturais porque o grau de complexidade conceitual e
categórico é infinitamente maior. Ao
passo que na física você pode isolar variáveis e trabalhar com constantes, nas
ciências sociais são sete bilhões de seres humanos interagindo entre si de
forma espontânea, imprevisível e criativa.
Cada interação humana cria um conhecimento que antes simplesmente não
existia. Nenhum átomo, nenhum elétron,
nenhuma supernova é capaz de ter ideias, de criar, de descobrir, de compor
sinfonias, de projetar novos modelos de televisão ou de carros, de conceber
novos sistemas operacionais para computadores etc.
Hayek
sempre dizia que, de longe, a ordem mais complexa do universo é o processo da ordem espontânea de um mercado.
E o grande paradoxo, nunca é demais
repetir, é que, quanto menos o ser humano realmente entende a respeito desse
complexo processo espontâneo, mais ele se julga apto a parolar sobre um assunto
do qual absolutamente nada sabe ou entende.
Dependendo dos poderes que um indivíduo ou um conjunto de indivíduos
possua, sua intromissão nesta ordem espontânea pode trazer danos
irreversíveis. No extremo, pode destruir
toda uma civilização. Uma única
regulamentação, um único tributo, um único processo burocrático pode impedir
que um determinado ser humano venha a interagir de forma criativa com outro ser
humano, e, como consequência desse impedimento, deixem de pôr em prática uma
ideia empreendedorial. É impossível
quantificar quantas coisas benéficas à humanidade não foram criadas por causa
de intromissões engendradas por cientistas sociais nas interações
empreendedoriais humanas.
Uma
segunda diferença entre as ciências naturais e as ciências sociais é que o
objeto de estudo das ciências naturais são as coisas, as matérias, as
substâncias: uma pedra, um mineral, uma planta, uma vesícula biliar. Já o objeto de investigação ou estudo das
ciências humanas não são coisas, mas
sim ideias
— as ideias que os seres humanos têm a respeito de seus objetivos e dos meios
com os quais alcançar esses seus objetivos.
Esta é uma diferença essencial entre o mundo da ciência natural e o
mundo da ciência social. Nas ciências naturais, seus profissionais estão sempre fazendo experimentos em laboratório,
observando e analisando como reagem coisas externas a nós; nas ciências
sociais, investigamos as ideias que outros indivíduos têm, investigamos como
agem e o que fazem — ou seja, investigamos seus objetivos e os meios
utilizados para alcançarem estes objetivos.
Em
seu livro The Counter
Revolution of Science, Hayek fornece o seguinte exemplo: um cosmético,
como um creme de rosto, não é um cosmético por causa de seu composto químico
(os elementos descritos em seu rótulo); ele é um cosmético porque determinados
seres humanos, homens e mulheres, acreditam
que esse creme que passam em seu rosto todas as noites possui uma utilidade —
acreditam que fará bem à sua pele, revigorando-a para o dia seguinte, reduzindo
as rugas etc. O creme pode muito bem não
ter eficácia nenhuma, mas não importa; basta que um indivíduo acredite que o
creme lhe trará um benefício para que aquele composto de produtos químicos
passa a ser visto como um cosmético. Em
termos econômicos, esse cosmético não é classificado de acordo com seu composto
químico, mas sim de acordo com a ideia
que outros têm a respeito dele; de acordo com a maneira como elas acreditam que
esse cosmético irá servir para elas alcançarem um determinado fim.
O
cosmético, portanto, é um meio para
se alcançar um objetivo (uma pele revigorada).
Como todo meio, ele possui a sua utilidade. A utilidade é a valoração subjetiva que um
indivíduo dá a um meio em função do valor (também subjetivo) do fim que ele
pode alcançar com aquele meio.
Um
exemplo que particularmente gosto de fornecer, pois ilustra esse princípio à
perfeição — e que virou curiosidade no YouTube –, é um vídeo em que rasgo uma
cédula de 10 euros.
Quem vê uma pessoa
rasgando uma cédula de dinheiro fica compungida não pelo composto de celulose e
tinta que foi rasgado, mas sim por inevitavelmente pensar em tudo aquilo que aquele pedaço de papel
poderia lhe propiciar. Isso
significa que aquela cédula é um meio
para se adquirir coisas de valor; é um meio para se alcançar múltiplos fins. Como todo meio, ela também possui uma utilidade.
Para
muitas pessoas, esta utilidade é extremamente alta, pois aquela cédula é um
meio necessário para que consigam se alimentar, se locomover ou mesmo para se
divertir indo ao cinema. A destruição de
uma cédula de dinheiro gera pesar em muitas pessoas justamente pelas ideias que elas têm a respeito dos
desejos que poderiam ser satisfeitos com aquela cédula. Ao rasgar uma cédula de papel, destruí algo
que a outra pessoa faz falta.
As
pessoas concedem uma categoria econômica à cédula não em função de seu composto
de celulose e tinta, mas sim em função das ideias
que podem satisfazer com aquela cédula, dos fins
que podem alcançar com aquela cédula. A
cédula, portanto, é um meio e seu valor é subjetivamente determinado por um
indivíduo de acordo com o contexto de sua ação.
Conclusão
A
ciência econômica, que é a ciência da ação humana, lida com as ideias que
outros seres humanos possuem a respeito do que fazem, do que querem alcançar, e
dos meios que utilizam para tal. Já as
ciências naturais lidam com coisa externas às relações e ações humanas. Embora esta última tenha a fama de ser
hermética e inalcançável para a maioria dos mortais, é a primeira que realmente
não pode de maneira alguma ser confiada a leigos, aventureiros, ou
idealistas. O estrago pode ser
irreversível para toda uma civilização.
Da mesma forma que você fala que é fácil ignorar a complexidade das “ciências” sociais é fácil ignorar (por falta de conhecimento) a complexidade MUITO maior da física. Na economia você precisa levar em consideração causas e efeitos que você ve e pode avaliar, obviamente várias coisas são imprevisíveis, mas pelo menos depois que você faz um experimento (aumentar o salário) você consegue ver o resultado.
Adoro o IMB mas comparar decisões econômicas com conhecimentos de multiversos, teoria de cordas, matéria escura, wormholes etc é ridículo e mostra a falta de conhecimento que vocês tem sobre o assunto.
Tudo bem falar que Economia é mais complicado que algo simples na física como a Gravidade de Newton (que está errada), mas não passa disso. As abstrações que um físico tem que fazer para chegar em teorias como a das cordas é simplesmente impressionante. Comparar Mises que é um mestre da economia por exemplo com Stephen Hawking é até uma piada de mal gosto…
O artigo é excelente, como todos do professor Huerta de Soto, mas quando eu estava mais empolgado com a leitura, ele acabou. O tema é tão fascinante que eu fiquei esperando mais.
Outro dia assisti de novo aquele filme ‘Contato’
Da primeira vez que vi tinha achado que era só um filme de ficção científica com um pouco de realismo, mas vendo de novo agora dá pra notar o tanto de ideologia que tem nele
-O empresário que ajuda a mulher é um cara escroto que tem crise de consciência e quer devolver o que ‘sugou’ da sociedade
-Os cientistas que fazem pesquisas inúteis são os heróis
-Quem financia tudo é praticamente o ‘vilão’ da história, o retardado egoísta que quase não quer dar dinheiro pra uma coisa tão fantástica e maravilhosa como é a ciência do sexo das baratas
-Pesquisas inúteis são uma coisa boa porque é delas que vai sair a nave espacial que vai te levar pro outro lado do universo.
-O cara que sugere procurar algo mais pé no chão é mostrado como o safado que vai querer ficar com o mérito da nave espacial depois
…e por aí vai.
Eu acho que o objetivo do livro no final era esse, incentivar as massas a dar dinheiro pros cientistas, ou justificar quando o governo faz isso por eles.
Seu Jesús foi particularmente infeliz na escolha das palavras desse texto.
Eu acredito entender a mensagem, a ideia de que pessoas que não entendem nada de economia dando palpites sobre o assunto tende a ser catastrófico. Concordo plenamente.
Mas dizer que ciências naturais estudam fenômenos simples e fáceis, em relação às ciências sociais? Por favor. Desafio um economista que acredita nisso a entender como se faz o mapeamento de uma cadeia de DNA, do aspecto biológico ao computacional, e ver se realmente é mais fácil de entender do que os efeitos negativos de um salário mínimo.
Já li bastante sobre economia aqui no IMB e considero ter uma noção acima da média geral. Também já li um pouco sobre física. Não sou profissional em nenhum dos dois campos. Confesso que tive mais facilidade para entender como a expansão monetária pode levar a ciclos econômicos do que entender como diabos a luz pode ter velocidade constante independente do referencial – na verdade, isso ainda não entra na minha cabeça direito.
Qualquer campo de estudo pode ser “fácil” ou “difícil”, “simples” ou “complexo”. Tudo depende de quão mais fundo você pretende mergulhar nos estudos.
O que talvez o autor queira ter dito é que ciências naturais tem um menor nível de abstração que ciências sociais.
Física é a ciência natural com menor nível de abstração. Estuda as reações e regras fundamentais do universo. A química já trabalha com maior abstração, estudando moléculas etc. A biologia, muito mais abstrata: está longe das reações atômicas, das regras fundamentais, trabalhando com estruturas bem maiores, como um organismo. Não dá pra tentar precisar todas as reações atômicas que acontecem num órgão humano como o o coração por ex. Para estudá-lo, é necessário abstrair detalhes.
Quando se trata de ciências sociais então, a agregação de reações fundamentais é tão absurdamente grande que um nível muito maior de abstração é necessário. Tão maior, que o próprio método científico tem que mudar: o empiricismo não serve mais.
Pela maneira como ele escreveu esse texto, soou como uma esnobação com relação às ciências naturais. Não ficou bom. O que é uma pena, pois a mensagem que ele tenta passar é importante. A ignorância geral sobre economia – que eu atribuo em parte ao controle estatal sobre a educação – é algo grave.
Ziemann diz: “Tudo bem falar que Economia é mais complicado que algo simples na física como a Gravidade de Newton (que está errada), mas não passa disso”
A Gravidade de Newton está errada?!
‘como diabos a luz pode ter velocidade constante independente do referencial’
Se você está numa nave quase na vel da luz e liga a lanterna, a velocidade daquela luz vai ser constante pra você.O espaço e o tempo são distorcidos dependendo da sua velocidade.
Na minha humilde opinião, o pessoal das ciências naturais não precisa ficar ofendido com o artigo, pois na verdade a complexidade das ciências sociais deve-se a fato que elas são subjetivas ao ponto que as ciências naturais ser objetivas. Vou mais além, ciências humanas como história é literatura, nunca podendo ser chamada de ciência. Muitas ciências sociais não poderiam ser chamadas de ciências, pois muitas vezes seus pesquisadores não tem como objetivo descobrir a verdade, mas sim, favorecer grupos ou pessoas.
Acredito que a comparação entre as ciências naturais e sociais foi mal feita. A pesquisa nas ciências naturais é completamente diferente das ciências sociais. Em matemática (minha área), qualquer afirmação tem que ser provada e a demonstração aceita por vários matemáticos para ser aceita. É um trabalho longo e exige muita abstração. Isso também ocorre na física teórica. Porém, não vejo isso acontecendo nas ciências sociais, onde teorias são criadas e extintas rapidamente. Quando estudei economia, diversas variáveis eram tomadas como constantes para que pudéssemos verificar o efeito em uma variável dependente, e isso é experimento controlado (e hermético).
Talvez tivesse sido melhor para o autor expor a importância da responsabilidade no estudo das ciências sociais sem atacar ou diminuir a importância e a complexidade das ciências naturais.
O prof. De Soto sempre traz em seus artigos, de forma brilhante, questões essenciais relacionadas às ciências econômicas. De antemão peço desculpas se minha contribuição a este debate ficar um tanto confusa. Entendo que as ciências sociais, especialmente a Economia, são incomparavelmente mais complexas que qualquer ciência natural. Vejam o desdobramento científico da contribuição de Bastiat.
"Na esfera econômica, um ato, um hábito, uma instituição, uma lei não geram somente um efeito, mas uma série de efeitos. Dentre esses, só o primeiro é imediato. Manifesta-se simultaneamente com a sua causa. É visível. Os outros só aparecem depois e não são visíveis. Podemo-nos dar por felizes se conseguirmos prevê-los. Entre um bom e um mau economista existe uma diferença: um se detém no efeito que se vê; o outro leva em conta tanto o efeito que se vê quanto aqueles que se devem prever. E essa diferença é enorme, pois o que acontece quase sempre é que, quando a consequência imediata é favorável, as consequências posteriores são funestas e vice-versa." [Bastiat, O que se vê e o que não se vê]
Nas ciências naturais muitos dos eventos são controláveis, reproduzíveis em laboratórios. O conhecimento gerado pelos experimentos pode ser representados por dados tabuláveis, que por sua vez são adequados para a previsão de eventos futuros. As ciências naturais, grosseiramente falando, lida com aquilo que se vê.
Em Economia a coisa muda completamente de figura. Conforme muito bem alertado por Bastiat, fenômenos importantes ou são invisíveis ou só aparecem muito tempo depois de uma determinada ação. Criatividade empresarial, valoração subjetiva, concorrência potencial, efeitos gerados pelos fechamento de mercado, são invisíveis e impossíveis de serem captados por dados.
Os adeptos da econometria ignoram isso. Insistem em utilizar métodos das ciências naturais no reino das ciências naturais. Entendem que comportamentos humanos podem ser previstos por meio de relações objetivas e estáveis entre variáveis observáveis. Como Mises sempre enfatizou, no campo da ação humana não existem constantes; ademais, somos "guiados" por valorações subjetivas, ideias e incentivos impossíveis de serem representados por dados objetivos. Nessa linha, os métodos das ciências naturais utilizados no domínio das ciências sociais não padecem de imperfeição e limitações. Eles são inaplicáveis. Insistir neles constitui um grave erro intelectual.
Em O Uso do Conhecimento na sociedade, Hayek nos alerta:
"Um dos motivos para a crescente incapacidade dos economistas de atentarem para as constantes pequenas mudanças que compõem o todo da atividade econômica é provavelmente que eles estão cada vez mais preocupados com dados estatísticos, que passam uma imagem muito mais estável da economia do que os pequenos movimentos diários. No entanto, a relativa estabilidade dos grandes dados estatísticos não pode ser explicada – como os estatísticos freqüentemente querem fazer crer – pelas "leis dos grandes números" ou pela mútua compensação de pequenas mudanças aleatórias. O número dos elementos com que eles lidam não é grande o suficiente para que essas forças acidentais produzam estabilidade. O continuo fluxo de bens e serviços é mantido por ajustes deliberados e constantes, por novas decisões tomadas diariamente à luz de circunstâncias que eram desconhecidas até o dia anterior, pela decisão de B de entrar em cena quando A deixa de executar o seu papel." [F. A. Hayek, O Uso do Conhecimento na Sociedade]
Para finalizar, quando os "austríacos" falam da complexidade das ciências sociais eles não estão se referindo, toscamente, ao tempo de estudo necessário para se compreender determinados problemas. Complexidade diz respeito fundamentalmente à quantidade de variáveis (observáveis ou não) envolvidas nos problemas. A implementação de legislações trabalhistas restritivas na China pode afetar o preço do cafezinho que você toma na esquina. De novo nas palavras de Hayek:
"O que nos leva à questão crucial: a diferença entre a Ciência Econômica e as Ciências Físicas. Ao contrário das ciências físicas, na ciência econômica — e em outras disciplinas que lidam com fenômenos essencialmente complexos — os aspectos dos eventos a serem estudados, e sobre os quais podemos coletar dados quantitativos, são necessariamente limitados. Além disso, esse número necessariamente limitado de aspectos quantitativos pode não incluir aqueles aspectos mais importantes. Nas ciências físicas geralmente se supõe, provavelmente com boas razões, que qualquer fator importante na determinação dos eventos observados é ele próprio diretamente observável e mensurável. Já no estudo de fenômenos essencialmente complexos — tais como o mercado, que depende das ações de vários indivíduos —, todas as circunstâncias que irão determinar o resultado de um processo dificilmente serão totalmente conhecidas ou mesmo mensuráveis. (…) Assim, ao passo que nas ciências físicas o pesquisador é capaz de mensurar, com base em uma teoria aparentemente evidente, aquilo que ele julga ser importante, nas ciências sociais frequentemente só se dá importância àquilo que por ventura possa ser mensurado. Esse modo de pensar é algumas vezes levado ao ponto em que se exige que nossas teorias sejam formuladas de uma maneira que leve em conta apenas grandezas mensuráveis." [F. A. Hayek, A pretensão do conhecimento]
Diante de tudo isso, com a experiência de uma graduação em Economia mainstream hardcore nas costas, entendo que o uso dos métodos das ciências naturais só aprofundará a crise por qual passa a ciência econômica. Os "austríacos", desde Menger, sempre alertaram a comunidade acadêmica sobre isso. O retorno ao apriorismo e à praxeologia é fundamental.
Que nostalgia! Eu estava nessa aula que aparece no artigo!
Além de dominar a ciência econômica, Huerta de Soto é um excelente professor e incrível orador.
Quem tiver a oportunidade, recomendo que faça o mestrado de Escola Austríaca do de Soto. Experiência única!
É importante observar que a ciência econômica não pode se descolar da realidade empírica, necessita sempre da corroboração desta, senão vira uma atividade estéril, de meras especulações intelectuais.
Uma coisa deve ser deixada clara,
Complexo não significa dificuldade. Seu real significa está associado a “tecer junto”, ou seja, fazer relações. Como o modo de pensar mecanicista ainda impera, este conceito é associado à dificuldade, principalmente no ocidente.
Em sendo assim, a Física, por exemplo, é mais complexa do que a Economia, caso contrário deve haver mais seres humanos na Terra do que Fótons, Elétrons, Átomos etc.
Dotar a Economia de maior dificuldade analítica devido a subjetividade das ações humanas não comprova o fato de ela ser mais difícil de analisar/investigar/compreender uma vez que, por exemplo, as micropartículas em dissipação não possuem comportamento linear, como comprovado já no inicio do séc. que se findou.
Será que um peixe, por exemplo, no caso da biologia, assim como os humanos, não tomam decisões? Quanto a nós seres humanos já sabemos muita coisa sobre os fatores e circunstâncias que nos levam a certos fins, e quanto aos animais?
Compartilho das idéias e teorias do IMB e reconheço a enorme dificuldade encontrada pela Economia devido ao objeto de estudo que ela ousadamente se propões a investigar mais que a comparação aqui foi infeliz!
Eu sou físico, e economista. E é algo que me deixa extremamente desconcertado a afirmação de que as coisas na física são “fáceis ou exotéricas”. Jamais! Um exemplo é que a pergunta aparentemente fácil da física sobre o porquê de uma massa atrair outra quantidade de massa nunca ter sido respondida. A física é a ciência mais fundamental de todas, e possui problemas extremante complexos para a compreenção humana. Assim como a “ciência” econômica. O que as diferencia é algo simples: “A capacidade de ajustar modelos que sejam reprodutíveis”. Isso não tem a ver com facilidade ou complexidade. Aliás o termo “sistema complexo” nasceu na física! Enquanto uma ciência tenta responder como se deu a origem do universo. A outra tenta prever, modelar ou enquadrar o comportamento dos agentes econômicos. Na verdade a economia funciona como a física estatística, tudo pode ser mensurado, entretanto com uma margem de precisão, olhando sempre para o comportamento médio. O fato é que os fenômenos de natureza econômica são estremamente voláteis e não podem ser controlados dentro de um laboratório. Logo a maioria dos modelos desde os mais complicados até os mais simples são muito ruins para prever o comportamento dos agentes. Precisa-se assumir uma série de simplificaçãoes para que se possa extrair alguma informação, que na maioria da vezes é inútil!
Em resumo, é cada macaco no seu galho!
O site http://www.laprensa.com.ar/399440-Finlandia-encabeza-un-ranking-educativo%3b-Argentina-lo-cierra.note.aspx informa que de 40 países, a educação no Brasil está em 39º lugar, à frente só da Indonésia. Deu nisto, se colocar filosofia, sociologia,etc. num curriculum já inchado. Deu nisto se colocar o os métodos de marxistas como Paulo Freire nas escolas. Por sinal, no site http://www.youtube.com/watch?v=-Mlc68kAuA8 , Olavo de Carvalho pede, com plena razão que Paulo Freire, seja declarado o Patrono da Educação Brasileira. Sobre as cotas raciais na universidade brasileira, outra coisa imposta pelas esquerdas, no site http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=53540 tem um curto artigo meu tratando delas. Há mais de cem anos que as fundações americanas Ford, Kellogg, Rockfeller,etc. vem sustentando financeiramente o racismo , às vezes sob outros nomes (eugenismo, maltusianismo, etc.). Quanto à ligação de marxistas com racismo, não é novidade nenhuma. O próprio Karl Marx era um racista (e satanista ) declarado. E mais, o satanista e racista Karl Marx era também, um apoiador da escravidão. Confira neste site: http://www.nacaomestica.org/MarxMFP.htm
Estou meio dividido em relação ao artigo.
Por um lado, gostei muito do tema: de fato, muitos falam sobre tudo em termos econômicos e poucos entendem do que falam. Depois de um tempo lendo os artigos do IMB, a gente percebe que a imprensa e os políticos (justamente os que influenciam e tomam as decisões!) são cegos conduzindo cegos…
Por outro lado, a comparação com as ditas ciências naturais (e já comentei isso aqui antes) é um tanto complicada. Me pareceu justamente que faltou base sobre a metodologia das ciências naturais nos exemplos e comparações do de Soto, justamente o que ele critica em relação à economia e demais ciências sociais.
Por exemplo: o uso de termos como fácil e difícil não devem ser aplicados à fenômenos, mas ao que você sabe os mesmos (ao entendimento).
Da mesma forma, o termo complexidade tem várias nuances.
Se usar no sentido da complexidade física, os fenômenos naturais são muito mais complexos que os humanos, justamente porque os fenômenos humanos são apenas iterações daqueles outros ditos naturais.
Se usar no sentido da formação de padrões (Shalizi) então as sociedades humanas são apenas um subconjunto dos problemas estudados e, de novo, os fenômenos naturais seriam mais complexos, sendo os fenômenos humanos apenas um subconjunto daqueles.
Por outro lado, se se pensar em complexidade como a quantidade de relacionamentos entre as partes que formam um sistema, em um só êmbolo termodinâmico há trilhões de interação realizadas por trilhões de entidades (átomos) que formam o gás, interações essas que seguem movimentos absolutamente aleatórios e, de novo, a complexidade de um simples êmbolo é maior que a complexidade de todos os 7 bilhões de humanos.
Outro exemplo: as iterações ecológicas são tão ou mais complexas que as iterações humanas, se tomarmos o sentido de complexidade o resultado das iterações: somente de insetos há milhares de espécies dos quais dependem todos os ecossistemas terrestres e, em última análise, a sobrevivência do humano.
Ainda outro exemplo: a interação entre a radiação solar e os oceanos é o que, em última análise, define o clima. Apesar de todas as técnicas mais avançadas, nem começamos a entender o que é isso. Se assumirmos que um sistema é complexo devido ao fato de que diferentes condições inicias, apesar de bem próximas, geram resultados muito diferentes (portanto, não previsíveis), então o estudo do clima é mais complexo.
Mas, no sentido de complexo como de complicado de entender e de grande impacto, realmente as ciências sociais são campeãs e, talvez, a economia, a pior delas, no quesito impacto (ao menos psicológico).
O problema que vejo é que o texto tá muito forçado e pouco científico, até porque de Soto não definiu os termos qualitativos que usou, deixando pra cada qual a sua interpretação, o que torna o texto um faca com dois gumes – serve tanto para se defender quanto para se atacar o autor.
Resumo: gostei muito do artigo (acredito que entendi a visão dele) e, como sempre, o IMB nos trás novas ideias, mas não gostei da maneira que o de Soto usou, desta vez.
Abraços
Eu concordo com o artigo. Ciências naturais são fixas, previsíveis e nos dá a falsa impressão de que tudo (até mesmo o mercado e as interações sociais) é previsível.
O ser humano tem horror ao imprevisível, ao incontrolável e à incerteza. Acho que este é o motivo principal de a teoria austríaca não ser largamente aceita no mundo.
Discussão estéril. Ambas são importantes. A evolução de uma depende da outra. Exemplo: sem estabilidade econômica não se produz ciências naturais de qualidade. As pesquisas econômicas de alto nível são realizadas muito mais rapidaemnte com o auxílio de computadores. Ambas são importantes. A comparação do tipo “quem é mais importante” é infantil.
Causa-me espanto a incapacidade intelectual daqueles que se prestam a comentarem o texto criticando o argumento do professor, especialmente os advindos das ciências naturais, postos em evidência em seus próprios discursos. Sou formando em engenharia civil, e não me senti ofendido ou injustiçado pela dedução dele. Pelo contrário, concordei já na primeira tese desenvolvida, em que reitera a complexidade da ação humana.
Infelizmente, é da natureza do brasileiro ler um texto e não se ater propriamente ao que foi dito, mas entender pelo que acredita – baseado em sua concepção idiossincrática das coisas, logo pré concebida ou pré conceituada – que o redator da obra quereria expor. Lê-se com intenções puramente lúdicas: gostei ou não gostei, ponto. Será que não repararam ao menos que os termos polemizados estão escritos em Itálico? Todos os que estão em concordância com de Soto compreendem a complexidade que há em esferas do conhecimento das coisas naturais. As próprias ciências da Terra são um exemplo claro, com questões que exercem profunda influência nas ciências sociais, tais como geologia ou meteorologia, que mesmo se tratando de estudos científicos naturais, não são exatos, carregando em si um conjunto de variáveis e microssistemas dinâmicos envolvidos no todo dinâmico que são incontáveis.
Devo elogiar os moderadores e mantenedores do site que se mostram solidários em refutarem tais comentários da forma mais educada e racional possível, mas a mim causa profunda angústia saber que o analfabetismo funcional se consolidou no Brasil com estrondoso sucesso. O indivíduo consegue transformar palavras em sons, mas não em ideias ou novas ideias.
Quem fala que ciências naturais são fixas e previsíveis ainda não estudou nada de física quântica
Pessoal do IMB,
Parabéns pelo excelente texto.
Dados os questionamentos, da próxima vez, tentem testar em laboratório alguns fenômenos sociais e naturais, e meçam quais são mais complicados…ops…vai ser difícil colocar 9 bilhões de pessoas em um laboratório!
Abr,
O Jesus Soto comentou sobre a questão do valor dos bens como uma projeção da utilidade sobre o bem, você pode indicar artigos que reforcem essa ideia?
Obrigado!!
bom, eu nao sou estudioso de nenhuma área mas acredito que as ciencias humanas sao mais subjetivas, o que torna mais difícil ter alguma previsao. As ciencias naturais sao mais concretas, o que a priori dá a impressao de ser menos complexa.
Não me atrevi nem sequer ao mero término de uma leitura tão estupendamente ultrajante não só as ciências naturais, como a todas as áreas que o conhecimento humano foi capaz de produzir ao longo de milênios.Primeiro, julgando pelo fato de estarmos tratando a suposta “diferença de complexidade” entre diferentes áreas do conhecimento, já se mostra pela própria mãe de todo o conhecimento do universo, a absoluta e transcendente lógica algo completamente falacioso, pois se tratando de estabelecer tais níveis estaríamos tratando uma questão de dimensão apriorística, pois seria a única forma real de se determinar em termos de necessidade a “diferença de complexidade” entre diferentes áreas do conhecimento, dessa forma pela própria lógica em si, é concluído que não existem diferenças padronizadas em determinadas áreas do conhecimento em relação a outros, mas sim uma gama absolutamente relativa de níveis em relação de um a outro, assim um varredor de rua pode ser mais complexo que um tão intelectualizado economista, quiçá as habilidades extraordinárias do varredor de rua superem os cálculos e análises complexos do economista tão aclamado pelo autor deste texto absurdo.
O pessoal que costuma vir ao site já deve ter topado com um ou dois comentários meus “metendo o pau em autores” que fazem certas comparações entre ciências naturais e sociais, em particular dando exemplos de conceitos aplicados em ciências naturais que são, no mínimo, uma particularidade e não refletem necessariamente aquela ciência…
É é por isso que posso dizer aqui sem ser piegas: o De Soto acertou em cheio!: o grande problema com as ciências ditas sociais é que elas estão entregues a gente que não sabe nada nem sobre a natureza, muito menos sobre gente. Já repararam que a turma “foge” do vestibular para matemática, engenharia e afins, mas um curso de direito, de economia e afins, bomba?! E a procura é justamente por aqueles que “não são tão bons para fazer física”…
Uma nota sobre complexidade: vários cientistas naturais já estão se debruçando sobre sistemas complexos e tirando grandes lições – que os “cientistas humanos” tomem cuidado, senão até o que eles parecem que possuem, vai lhes ser tirado pela evolução mesma das coisa.
A propósito da natureza ser simples – perfeito! E simplicidade aqui não significa ter que estudar muito para realizar as abstrações necessárias ao estudo das coisas, como parecem que esqueceram alguns em seus comentários acima. O simples está pelo fato de o objeto de pesquisa ser algo externo ao ser humano e, em princípio, “sem vontade própria”, ou seja, segue leis que podem ser sim estudadas sistematicamente.
A complexidade da economia, do direito, da sociologia, da psicologia, da filosofia etc., está em que o seu objeto de pesquisa é o próprio ser humano, ou como disse o De Soto, nas ideias que eles fazem sobre si mesmo e os outros. Quem aqui pode ter certeza de seu próprio pensamento? E, filosofando (kkk) um pouquinho: Q. Qual a coisa mais difícil para o ser humano? R. Conhecer-se a si mesmo.
Abraços
Acho que não dá para ter um ponto de vista correto sobre nenhum dos assuntos. O autor do texto defende a tese de que nas ciências humanas existe uma verdade que mesmo não sendo a absoluta é a mais ”correta”. Isso não é verdade. Não se pode jamais padronizar ou dizer que as ciências humanas tem um ponto de vista correto, até porque seriam baseados em que ? Enfim, as pessoas falam mais das ciências humanas porque isso faz mais parte do dia dia delas. Se você puxar conversa com alguém sobre física alguma coisa sairá, só que com conhecimentos muito mais rudimentares do que uma discussão sobre política. É questão da vivência. O texto peca porque tenta impor um padrão para o conhecimento das ciências humanas e desvaloriza o conhecimento intuitivo, o que nem nas ciências exatas é desvalorizado.
Texto provavelmente escrito por alguém que estuda algo na área de humanas e quis vender seu peixe. Mas é apenas a sua opinião, assim como esse comentário representa a minha.
Vou deixar uma palavrinha para reflexão FENOMENOLOGIA