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O precipício fiscal americano

A
mídia americana está atualmente fixada com uma característica aparentemente
nova da economia dos EUA: um “precipício fiscal” no qual os EUA irão cair em
janeiro de 2013.  Ela vê um perigo
surgindo da simultânea implementação dos US$2 trilhões em cortes automáticos de
gastos (os quais ocorrerão ao longo de 10 anos) — acordados na votação da
elevação do teto da dívida do ano passado — e a expiração dos cortes de impostos
feitos durante o primeiro governo Bush. 
Os economistas que a maioria dos jornalistas entrevista alertam que o
impacto conjunto de redução nos gastos do governo e aumento dos impostos irá
desacelerar a “recuperação” e talvez jogar a economia americana de volta para a
recessão.  Embora de fato haja muito com
o que se preocupar na economia americana, este precipício em particular não
deve figurar no topo da lista.

Grande
parte do medo advém da falsa premissa de que gastos governamentais geram
crescimento econômico.  As pessoas tendem
a esquecer que o governo só pode adquirir dinheiro por meio da tributação, do
endividamento ou da simples impressão da moeda. 
Absolutamente nada que o governo gasta vem de graça, de modo a não
prejudicar ninguém e beneficiar a todos. 
O dinheiro que é tributado ou tomado via empréstimo é retirado do setor
privado, onde ele poderia ter sido utilizado mais produtivamente.  Já o dinheiro que é criado do nada pelo Banco
Central serve apenas para criar inflação de preços e ciclos econômicos.  Sendo assim, os cortes automáticos de gastos,
caso eles realmente sejam implementados (o que é duvidoso), tendem a estimular
o crescimento econômico, e não a impedi-lo. 
Mesmo vários economistas mais liberais tendem a aceitar o boato de que
gastos governamentais podem ajudar a economia em geral.  Cortes de gastos afetam
apenas aqueles setores que cresceram acostumados a estes subsídios e que irão
corretamente encolher quando a mordomia for cortada.

O
único motivo de existir este mecanismo de corte automático de gastos é o fato
de o Congresso americano não ter tido a capacidade de identificar e implantar cortes
específicos.  Mas tenha a certeza de que
o Congresso irá inventar outra saída de emergência tão logo se descubra
novamente emparedado.  Acabar com os
cortes de gastos antes de eles sequer serem implementados tornará risível
qualquer plano subsequente de redução do déficit.  Mas políticos sempre irão preferir a
frustração da inação à fúria de seus eleitores, os quais podem ser afetados em
decorrência de decisões reais.  De
qualquer forma, apenas uma fatia extremamente pequena dos cortes
está agendada para 2013.  E se o
Congresso americano se mostrar incapaz até mesmo de cumprir sua promessa de
corte ínfimo de gastos para apenas um ano, como é que ainda existirá gente capaz de
acreditar que o Congresso cortará gastos durante dez anos?


o impacto do fim dos cortes de impostos da era Bush é bem mais difícil de
estimar.  Os efeitos adversos de um
aumento de impostos poderiam ser contrabalançados pelos benefícios da redução
dos empréstimos tomados pelo governo (desde que os impostos de fato resultassem
em um aumento da receita).  Porém,
considerando-se os incentivos negativos criados por um aumento das alíquotas do
imposto de renda, particularmente no que concerne ao seu impacto na poupança e
no investimento, um aumento de impostos pode na realidade resultar em menos
receita, desta forma ampliando o déficit orçamentário.

A
realidade é que a economia americana passará por caminhos extremamente
tortuosos e perigosos independentemente de qual seja a decisão do
Congresso.  O verdadeiro “precipício fiscal” está nos encargos da dívida que os EUA terão enfrentar quando os juros subirem.  E, infelizmente, ninguém está falando sobre
isso.

A
atual dívida pública dos EUA é de aproximadamente US$16 trilhões (e este valor
diz respeito apenas à fatia do orçamento que possui receita específica.  Quando se considera todo o passivo para o
qual não há receita específica, como os programas assistencialistas Medicare e
Medicaid, o passivo pode chegar a estratosféricos US$144 trilhões já em 2015).  Os EUA ainda estão conseguindo pagar o
serviço desta espantosa dívida simplesmente porque as taxas de juros sobre os
títulos da dívida do governo estão em níveis historicamente baixos (hoje abaixo
dos 2%).  Tal nível de juros faz com que
o atual serviço da dívida seja de “apenas” US$300 bilhões por ano, um valor
relativamente controlável.

Caso
mantenha sua atual trajetória, a dívida pública dos EUA provavelmente chegará a
US$20 trilhões em alguns anos.  Se,
quando isto ocorrer, as taxas de juros voltarem a apresentar algum semblante de
normalidade — por exemplo, uma taxa de 5%, que sempre foi seu valor histórico
–, somente o pagamento de juros desta dívida será de US$1 trilhão por
ano.  Esta quantia representa quase 40%
do total de receitas do governo federal em 2012!

Além
de tornar o serviço da dívida totalmente ingovernável, taxas de juros maiores
irão deprimir a atividade econômica, consequentemente reduzindo as receitas
tributárias do governo.  Ao mesmo tempo,
juros maiores levam a maiores gastos do governo, justamente por causa do
serviço da dívida.  Isto elevaria ainda
mais os déficits do governo, gerando ainda mais pressão de alta nas taxas de juros.

Hipotecas
mais caras e desemprego ascendente irão renovar a pressão baixista sobre os
preços dos imóveis, talvez levando a mais uma grande onda de execução de
hipotecas e arresto de imóveis.  Meu
palpite é que apenas as perdas nas hipotecas seguradas pelo governo podem
acrescentar várias centenas de bilhões de dólares aos déficits orçamentários
anuais. 

Quando
todos estes fatores são levados em conta, é possível enxergar déficits
orçamentários anuais se aproximando rapidamente dos US$3 trilhões (atualmente o
déficit é de US$1 trilhão).  Tudo isso
deve estar nas estimativas caso as taxas de juros voltam ao seu patamar
historicamente normal de 5%.

Se
toda esta volumosa perspectiva de endividamento finalmente começar a preocupar
os credores dos EUA, taxas de juros de 5% podem rapidamente subir para
10%.  A este novo valor, o custo anual
dos juros sobre a dívida pública pode ser igual a toda a receita do
governo.  Se isto ocorrer, o governo
americano ou terá de cortar gastos generalizadamente (inclusive cortar
benefícios politicamente sensíveis), elevar impostos significativamente sobre
os pobres e a classe média (bem como sobre os ricos) e dar o calote em sua
dívida, ou irá imprimir dinheiro e com isso subjugar toda a população ao
prolongado impacto da alta inflação. 
Isso, sim, é um precipício fiscal.

Ao
continuar se endividando desvairadamente agora que os juros estão baixos, o
governo americano está levando toda a sua economia para este precipício, ao
mesmo tempo em que mantém os olhos firmemente fixados no espelho retrovisor
(assim como o novo governo francês parece estar fazendo).  Por anos, alertei que
uma crise financeira seria desencadeada pelo estouro da bolha imobiliária.  Meus alertas foram rotineiramente ignorados e
ridicularizados, pois a mídia se apegava à suposição quase universal de que
preços de imóveis jamais caem.  Meus
alertas sobre o real precipício fiscal também estão sendo ignorados por causa
de uma similarmente falsa premissa de que as taxas de juros jamais podem voltem
subir.  No entanto, se a história pode
nos servir de guia, deveríamos olhar o atual período de taxas de juros
extremamente baixas como sendo a exceção, e não a regra.

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37 comentários em “O precipício fiscal americano”

  1. E a caixa “econômica” federal fazendo comerciais vultosos de alegria com atores alienados sobre taxas baixas ordenadas pelo governo.

  2. Esse tipo de artigo é o meu preferido.

    Seria muito bom poder ler mais artigos como esse, mas usando o Brasil como objeto de análise.

    Amplexos.

  3. Uma questão importante (que acho que deveria ser abordado em outro artigo) seria calcular os efeitos no resto do mundo. O que será da UE, da China, do Japão, do Brasil, etc. com uma situação de aumento de déficit insustentável pelos EUA, dentre tantas outras consequências?

    Ainda que feita uma análise superficial do mundo daqui alguns anos, o que se poderia prever?

  4. Olá Leandro,

    Não perco um artigo seu, inclusive já tinha lido este que você indicou.

    Apenas me manifestei para informar sobre demanda por esse tipo de artigo. E à propósito, o gráfico do artigo sobre em que parte do ciclo econômico está o brasil encontra-se desatualizado. =)

    Abraço!

  5. mauricio barbosa

    Se o schiff estiver correto estaremos no pior dos mundos o desafio é saber quanto tempo essa depressão mundial irá durar, infelizmente estamos caminhando para isso, que DEUS NOS PROTEJA.

  6. Olá Leandro. Parabéns por publicar esse artigo!

    Qual/quais seriam o gatilho para isso acontecer? Ânimo dos investidores dos títulos americanos? A velocidade o aumento do déficit dos governos? Qual seria o que teria maiores probabilidades de importância para a crise começar a rolar de vez?

  7. Eduardo, todas estas opções, bem como a tardia percepção da China de que todos os seus trilhões de dólares acumulados em títulos americanos nunca serão quitados, o que fará com que ela pare de continuar financiando o déficit dos americanos. Aí é que a coisa vai desandar, pois será o momento de os EUA finalmente colocarem a casa em ordem. Sangue, suor, lágrimas e desespero.

  8. Meu irmão diz que os EUA vai voltar bombando… vou recomendar esse artigo pra ele.

    Lembro que uma das apostas do Schiff foi a hiperinflação no curto prazo (?). Perdeu a aposta por causa da crise do euro. Acho que essa aposta da dívida ele não tem como perder.

  9. Enquanto o dólar for moeda mundial, não há problema para os gringos. Basta imprimir e distribuir para os outros países, e por sinal é o que está havendo no Brasil. E caso os grandes países credores decidam abandonar o dólar, melhor ainda, uma guerra é o melhor cenário para o governo do tio sam.

  10. Sempre achei muito tola a avaliação de que são os EUA que estão perdendo ao comprar produtos baratos da China. O comércio não é um jogo de soma zero, e tanto o comprador como o vendedor ganha com ele. Inicialmente, a China até pode ter tido vantagens ao acumular altos saldos comerciais com os EUA, pois precisava acumular reservas para decolar. Atualmente, de fato, financia os EUA, haja vista que vende produtos de qualidade muito baratos, incluindo bens de capital.\r
    \r
    Outro fato relacionado ao endividamento excessivo dos Eua não foi mencionado: quando os juros subirem, os títulos do governo vão se desvalorizar, o que fará com que os americanos com títulos do seu governo fiquem mais pobres, provocando uma espiral descendente na economia.

  11. Europa quebrada, EUA quebrando (com potencial de ser um caso muito pior que o europeu) e a China desacelerando com uma bolha imobiliária gigantesca em formação.

    O futuro é promissor…

    No caso dos EUA eu só consigo ver 3 cenários possiveis:

    1- O governo vai tentar elevar drasticamente os impostos para compensar o déficit, o que será desastroso e poderá não resultar em nada no final, já que um aumento nos impostos (graças a curva de Laffer) nem sempre resulta em um aumento na arrecadação. Historicamente (excluindo século 19) a tributação americana teve seus altos e baixos e a arrecadação no final foi sempre em torno de 18-20% do PIB. Se isso acontecer a segunda hipotése se torna mais provavel.

    2- O FED vai começar a imprimir dinheiro que nem louco para comprar os titulos americanos e financiar sua divida, criando uma inflação galopante, o que será mais desastroso ainda.

    3- O calote que por incrivel que pareça, me parece a saida mais “adequada”, pois um calote generalizado irá fazer com que a confiança no governo americano por parte dos credores se anule, o governo não tenha mais como se financiar e seja então, obrigado a viver dentro de seus limites. Como viver dentro de seus limites não é algo que o governo deseja, a opção impostos e inflação, infelizmente, parecem ser as mais provaveis.

    A saida ideal mesmo, que seria fazer o que o Ron Paul propõe, cortar pelo menos 1 trilhão em gastos imediatamente está fora de questão, duvido mesmo que isso venha a ser posto em pratica.

  12. Prezado Leandro,

    Recentemente tive uma conversa com um amigo economista sobre a atual crise econômica americana. De imediato, ele reconheceu que houve apenas uma falha do Federal Reserve, mas a “culpa” foi totalmente atribuída ao sistema financeiro americano. Segundo ele, o Federal Reserve somente tem o poder sobre a taxa de juros de curto prazo, e essa crise se deu por causa da diminuição da taxa de juros de longo prazo, a qual é determinada pelo próprio mercado.

    Poderia me esclarecer melhor essa questão?

    certo de sua valiosa consideração, no aguardo,

    ricardson.

  13. E Jim Rogers e Marc Faber estão falando do horror financeiro que pode vir mais à frente. E a reeleição de Obama não satisfez nem a um nem a outro.

  14. O que poderá fazer com que as taxas de juros que os EUA pagam em seus títulos de dívida aumentem?

    Li em outros artigos que o FED se meteu em um beco sem saída, uma vez que adquiriu muitos ativos (títulos americanos, títulos hipotecários podres, etc) contrabalanceando em seu passivo as atuais reservas em excesso dos bancos. Quando os bancos se sentirem seguros e começarem a liberar esse dinheiro na economia, para segurar a inflação, o FED terá que vender esses ativos podres, ou mesmo títulos americanos, aumentando a oferta e consequentemente os juros, desencadeando assim esse precipício fiscal que o Schiff alerta. É isso mesmo? Há alguma outra saída para o atual arranjo?

    Abs.

  15. Por que a taxa de juros do mercado interbancário não é a mesma que o tesouro estipula para os seus títulos? Os títulos são usados como lastro nas operações interbancárias overnight, logo é de se esperar que seja o valor dos juros dos títulos a taxa básica de juros e não o valor definido arbitrariamente pelo banco central. Resumidamente não compreendo como os títulos, ao entrarem no mercado secundário, tem sua rentabilidade definida pelo banco central e não mais pelo tesouro. É infinita a quantidade de títulos que podem ser usados no mercado interbancário, já que os bancos podem comprar a quantidade de títulos do tesouro que quiserem? Por que isso não torna a tarefa do banco central de manipular os juros impossível?

    O FED paga sobre as reservas em excesso a taxa 0,25% a.a. de forma fixa, ou este valor acompanha a taxa básica de juros? Se amanhã a taxa básica de juros for 10% a.a., as reservas em excesso serão remuneradas nessa taxa?

    Porque se o tesouro elevar os valores dos juros que paga a seus títulos a atividade econômica será deprimida? Isso ocorre mesmo se a taxa interbancária permanecer baixa?

    Quando o juros de um título pré fixado (todos os títulos americanos são pré fixados) é elevado, seu valor atual cai. Ou seja, se eu comprei um título cujo valor de face é $1000 por $500, ele pode estar valendo $400 no futuro devido a um aumento do valor do juros. Na ocorrência dessa queda, o tesouro pode gastar esses $100 por não estarem mais lastreando o valor atual do meu título? O governo não tem para si o valor que conseguiu com a venda dos títulos, mas somente o valor das quedas (do valor atual dos títulos) que o aumento dos juros provocou? O tesouro tem, a qualquer momento, o dinheiro correspondente ao valor atual de todos os títulos que emitiu, para no caso de uma “corrida ao tesouro”, não dar calote?

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