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Em defesa do boicote social

Um dos grandes problemas humanos sempre foi o de conviver
com outros humanos. Existem conflitos de todos os tipos, seja seja pela não
compreensão dos outros enquanto humanos, seja pelo alto número de conceitos
prévios, e seja também pela incompatibilidade ideológica — religiosa, política,
filosófica, econômica e moral.

A partir deste ambiente, surgem diversas críticas ao tipo
de homem que o ideal da liberdade pode fazer surgir. Fala-se dos humanos fechados em suas bolhas,
favorecidos pela individualidade e auto-aprisionamento proporcionado pela
tecnologia.  Há também a ideia do caos
total, de ausência de senso para as ações, possibilitando tudo de ruim que a
mente humana pode imaginar.

Tais críticas são elaboradas para demonstrar que uma
sociedade baseada no princípio da não-agressão deixa diversas brechas para
ações, as quais estes críticos gostariam que houvesse punição.

Para exemplificar o que se critica: se numa sociedade
baseada na propriedade privada e no princípio da não-agressão, um indivíduo usar
a sua propriedade para torturar cães e gatos, que pertencem a ele, o que a
sociedade pode fazer, se moralmente condena a agressão a animais?

É de se pensar que o apoio a entidades coercitivas, como o estado, se dê pelo fato de as leis desenvolverem um senso de civilidade (aquela
liberdade da qual Platão versava). Assim, debaixo da lei dos homens, poderiam
ser criadas atitudes virtuosas pela punição da má conduta que fere o Bem e o
Belo social.

Porém, numa sociedade genuinamente livre, alguns poderiam
pensar em aplicar a devida punição ao agressor dos indefesos animais.  Mas esta índole justiceira apenas colaboraria
para com a iniciação de agressão contra o indivíduo que agrediu os animais.  É, sim,iniciação de agressão, pois consiste no
ferimento da liberdade e dos direitos de propriedade do zoófobo.  Entre as coerções exercidas, existe a invasão
de sua propriedade, seja para prendê-lo ou simplesmente para espancá-lo.  Há também a desculpa de ver as ações contra
o agressor como apenas uma reação, pois foi ele quem iniciou a agressão,
violando o princípio da não-agressão contra os animais.

Este último ponto merece um pouco mais de atenção, afastando-nos um pouco do exemplo do agressor de animais.  É bastante estranho um humano responder por
alguém que não lhe diz respeito.  Não faz
sentido eu ser chamado para testemunhar sobre um conflito que ocorreu há
milhares de km.  Tal assunto não me diz
respeito para que eu participe como testemunha, seja de acusação ou de defesa
de ambas as partes.  Se o caso me
interessar, eu posso, no máximo, analisar o conflito e emitir meu julgamento
sobre o caso.  Obviamente que meu
julgamento só terá validade se eu houver sido escolhido para ser o mediador do
conflito. Um juiz não é aquele que participa ativamente para comprovar uma
tese, mas o que coloca na balança as teses apresentadas para emitir seu juízo,
previamente acatado por ambas as partes que concordaram em chamá-lo para
julgar.

Tudo transcorre normalmente se os envolvidos são seres
humanos.  Seria um ótimo julgamento,
levando em conta o princípio de proporcionalidade, quando A rouba de B e A é
condenado a ressarcir B pelo dano causado. Há problemas, entretanto, quando um dos lados
não está presente — o caso do assassinato, por exemplo.  Como a vítima iria ao julgamento e quem
abriria um pedido de julgamento por conta do assassinato? Rothbard pensou neste
assunto escrevendo que “um problema pode surgir no caso de assassinatos — já que
os herdeiros de uma vítima podem se mostrar pouco interessados em perseguir o
assassino” (2010, p. 146).  A solução
apresentada é que as pessoas deixem em testamento o tipo de punição que desejam
caso sejam vítimas de assassinato. Ele pensa desta forma, pois

na sociedade libertária, existem, como
dissemos, apenas duas partes em uma disputa ou ação judicial: a vítima, ou o
reclamante, e o suposto criminoso, ou o réu. É o reclamante quem presta queixa
nos tribunais contra o transgressor.  Em
um mundo libertário, não existiriam crimes contra uma mal definida
“sociedade”, e, consequentemente, nem a figura do “promotor de
justiça criminal”, que é quem decide sobre uma acusação e então presta
queixa contra o suposto criminoso (Ibidem. p. 145).

Dito isto, quem pode ser o reclamante dos animais que
sofreram agressão?  Se ninguém é o dono
legítimo dos animais agredidos, não há uma pessoa qualificada a promover a
justiça em nome da sociedade que considera maus tratos um crime.  Se uma pessoa pegasse o animal de outra e o
maltratasse, isto obviamente se enquadraria em lesar a propriedade de
terceiros, um crime quando os direitos de propriedade são assegurados.

Se ninguém pode falar em nome de todos os animais, há quem
conclame os direitos dos animais.  É bem
estranho este tipo de abordagem, pois os “direitos dos animais” deveriam se aplicar a
todas as espécies, de modo que matar baratas, moscas, ratos, bactérias e vírus
também seria uma agressão seguida de morte.  O fato é que os animais não possuem a mesma natureza humana
e, entre outras coisas, não podem reclamar seus direitos, e é por isto que
Rothbard concluiu que eles não possuem os mesmos direitos de um ser humano.[1].

Com esta impossibilidade de agir contra aquilo que se
considera um ato repudiável, muitos se afastam do direito libertário e passam a
defender a existência de um governo que seja responsável pela justiça.  No fundo, querem a garantia de punição com o
aval para invadir propriedades e violar liberdades, efetivando assim a
aplicabilidade da “justiça”.

Há, entretanto, uma outra forma de criar civilidade.  Outra maneira de demonstrar que uma atitude é
condenável sem que, para isso, exista iniciação de agressão ou supressão de
liberdade.  Esta maneira já foi, de certo
modo, previamente utilizada por sociedades do passado.  Falo do boicote social.

Boicote Social

Este boicote social é bem diferente do ato de enviar
pessoas para o exílio, como alguns estados fazem. As pessoas que eram jogadas
para fora das muralhas das cidades estavam sendo expulsas pela administração
governamental.  O exílio e a expulsão não
são o que chamo de boicote social, apesar de serem um tipo de boicote social,
acrescido do adjetivo coercitivo.

O boicote social que defendo é a prática de não realizar
transações comerciais ou ter relações sociais com o indivíduo boicotado.  Se numa sociedade há a garantia do direito à
propriedade, a melhor forma de condenar uma pessoa é através de um pacífico
boicote por conta dos estabelecimentos comerciais.  O custo de não vender pães, carne, cigarro,
bebida ou de realizar serviços de mecânica, assistência etc. pode ser
subjetivamente positivo para os moradores e comerciantes da região, que podem
passar a boicotar estabelecimentos que aceitem a entrada do sujeito que as
pessoas não desejam.

Os mais atentos podem indagar que grupos étnicos e algumas
minorias poderiam ser boicotados apenas pelo fato de pertencerem a estes grupos
e não por alguma ação que seja condenável.  Certamente que numa sociedade livre um dono de
um estabelecimento poderia praticar tal ato.  Porém, levando-se em conta que a maioria das
pessoas sensatas acharia a existência de um estabelecimento que se negasse a
realizar uma troca com determinado grupo étnico ou grupo minoritário um
absurdo, novamente o boicote social entraria em ação.  Desta vez, o boicote
aconteceria contra os donos do estabelecimento e seus frequentadores.  É muito custoso para o dono de um
estabelecimento o fato de seu estabelecimento ser boicotado, o que geraria
quedas nos lucros — além do fato de que ele passaria a ser visto como uma pessoa
indigna do convívio social.  O boicote
por pura discriminação não é vantajoso economicamente e socialmente, bem diferente
do boicote social apresentado anteriormente.  Boicotar por capricho é um risco, enquanto
boicotar como reação a atitudes condenáveis resulta em prestígio.

direitos_animais2.jpgSe em determinadas questões a justiça libertária, baseada
na propriedade privada e no princípio de não agressão, impede que pessoas sejam
condenadas por práticas que não violem a propriedade e liberdade de terceiros,
mas que violem uma moralidade e uma determinada visão de mundo, o boicote
social é uma penalidade mais efetiva do que a prisão, o linchamento ou a morte.

No caso do agressor de animais que agride os seus próprios
animais, não há uma impossibilidade de ação diante dos fatos. De acordo com a ética que envolve a liberdade,
agredir o agressor de animais é iniciar agressão, por mais que se tente
justificar o ato.  Não podemos obrigar
pessoas a deixarem de ser idiotas. Muitas
realmente são.  Mas há algo que pode ser
feito, sem violar liberdades, para que o idiota perceba o quanto sua ação é
repudiada.  O boicote social pode fazer
uma pessoa perceber que perdeu algo realmente de valor, não o valor econômico,
mas o valor de ser merecedor do convívio social que o pertencimento à
humanidade possibilita.

 

Referências:

ROTHBARD, Murray. A Ética da Liberdade.
São Paulo: Instituto Mises Brasil, 2010.

 



[1]
Ver o capítulo XXI “Os
direitos dos animais
” em A ética da
liberdade
de Murray Rothbard.

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193 comentários em “Em defesa do boicote social”

  1. Que texto interessante!
    Este fato que causou repulsa nacional já tinha me feito pensar na ótica libertária sobre o fato e eu não tinha encontrado uma solução ideal para o caso. Tudo bem, a solução aqui proposta está longe de ser perfeita mas creio ser a melhor dentre as possíveis.
    Outro ponto interessante mostrado no texto é que normalmente, matamos ratos; insetos; baratas e outros animais sem nos importar com suas dores, mas os animais dóceis e que expressam seus sentimentos por meios de uivos e gemidos nos causam um sentimento diferente. Interessante…

  2. ‘ O fato é que os animais não podem reclamar seus direitos, e é por isto que Rothbard concluiu que eles não possuem os mesmos direitos de um ser humano[1].’

    Alguns podem sim, existem vários estudos com chimpanzés que se comunicam com linguagem de sinais e chegam a ter a inteligência de uma criança de 5 anos

  3. ‘animais não podem reclamar seus direitos’

    Fora que isso depende de como vc interpreta esse ‘reclamar seus direitos’
    Quando uma tribo de lobos, ou leões, ataca outro leão ou lobo que invadiu o território deles, eles estão fazendo o que?

    Uma pessoa em coma permanente também não pode reclamar pelos direitos dela, e aí?

  4. ‘O boicote por pura discriminação não é vantajoso economicamente e socialmente, bem diferente do boicote social apresentado anteriormente. ‘

    Ainda outra implicação é de que isso só funcionaria numa sociedade onde todo mundo tivesse mais ou menos os mesmos valores morais.
    Conclusão: nem na anarquia o multiculturalismo funciona.

  5. o “oposto” seria “bullying”. Boicote por nao pertencer a um determinado grupo social. Alguém sabe qual seria a perspectiva Libertária em relação ao bullying?\r

  6. @Celeti: “…O fato é que os animais não podem reclamar seus direitos, e é por isto que Rothbard concluiu que eles não possuem os mesmos direitos de um ser humano…”

    Essa frase está errada. O Rothbard não concluiu que os animais não possuem os mesmos direitos de um ser humano porque eles não podem reclamar seus direitos. Ele concluiu que os animais não possuem os mesmos direitos de um ser humano porque eles diferem dos humanos em sua natureza.

    Nas palavras dele:

    “…a falha fundamental na teoria de diretos dos animais é muito mais básica e efetiva.1 Pois a declaração dos direitos humanos não é propriamente uma simples declaração emotiva; indivíduos possuem direitos não porque nós “sentimos” que eles deveriam possuir, mas em virtude de uma análise racional da natureza do homem e do universo. Em resumo, o homem tem direitos porque eles são direitos naturais. Eles são fundamentados na natureza do homem: a capacidade individual do homem de escolha consciente, a necessidade que ele tem de usar sua mente e sua energia para adotar objetivos e valores, para decifrar o mundo, para buscar seus fins para sobreviver e prosperar, sua capacidade e necessidade de se comunicar e interagir com outros seres humanos e de participar da divisão do trabalho. Em suma, o homem é um animal racional e social. Nenhum outro animal ou ser possui esta habilidade de raciocinar, de fazer escolhas conscientes, de transformar seu ambiente a fim de prosperar, ou de colaborar conscientemente com a sociedade e na divisão do trabalho…”

    Sugiro corrigir o artigo.

  7. Prezado Filipe,

    Como Rothbard trataria o caso do indivíduo que aprisiona e mantém sob regime de trabalhos forçados seus próprios filhos menores?

    Ou ainda, um exemplo mais corriqueiro, o de um pai que sai de viagem e deixa seu filho menor trancafiado, numa situação de extremo risco e absolutamente desumana?

    1. Ainda que não haja dano físico objetivo, a situação enseja uma óbvia restrição de liberdade através de coerção;
    2. Seria absolutamente impossível imaginar que crianças possam determinar o tipo de reparação ou punição de seu algoz;
    3. A quase totalidade das pessoas, excluindo os sociopatas, consideraria a situação inaceitável e concordaria com algum tipo de “agressão” (eu chamaria de ação em legítima defesa das vítimas) contra o autor.

    Me parece que não é possível escaparmos de algum conceito de moralidade que represente um conjunto básico de valores compartilhados pela quase totalidade de um grupo de indivíduos que interagem socialmente.

    A esse conjunto de valores podemos dar diversos nomes, como por exemplo o de direitos humanos. E ao conjunto de atos que representam claramente uma afronta a esse conjunto de valores chamamos “atos repudiáveis“.

    Nos exemplos citados de “atos repudiáveis“, não creio que o boicote social seja o caminho a ser seguido.

    Em nossa filosofia libertária partimos do pressuposto que todo ser humano tem direito à propriedade, inclusive a do próprio corpo, e, como corolários, a liberdade de pensamentos, de expressão e de movimentos.

    Ainda, para para manter a consistência interna desse sistema, é preciso que todos tenham o direito de serem tratados com igualdade perante a “lei”, assim entendido o direito à propriedade.

    Fica claro, então, que para um libertário, ou seja, para o indivíduo que aceita os pressupostos desta filosofia, deve ser considerada agressão toda ação tendente a restringir os direitos de propriedade, ou de outra forma, a impedir que as pessoas sejam tratadas com igualdade perante a “lei”.

    Dito isto, não posso concordar com a afirmação de que: “Com esta impossibilidade de agir contra aquilo que se considera um ato repudiável, muitos se afastam do direito libertário e passam a defender a existência de um governo que seja responsável pela justiça. No fundo, querem a garantia de punição com o aval para invadir propriedades e violar liberdades, efetivando assim a aplicabilidade da “justiça”.”

    Entendo que o correto seria: “Atos repudiáveis devem ser punidos e a punição do agente infrator deve ter as funções de:
    1. Reparar do dano causado, quando possível;
    2. Restringir o autor do convívio social para prevenir a reincidência da ação;
    3. Reprimir o comportamento e reafirmar, na prática, os valores baseados no direito à propriedade.

    Conferindo à “justiça” um aspecto prático de adequação da filosofia libertária à realidade fática.”

    PS. A interpretação do termo “justiça” deve ser feita sem correspondência à “justiça estatal monopolista” que temos hoje.

  8. ÉDERSON MARTINS PEREIRA

    Fato é que ótica libertária é baseada na razão e o estado atual ainda amantém vinculos com a consciência religiosa e por isso alguma sequelas como o julgamento emocional supera a logica.
    Acho a alternativa do boicote interessante, no entanto tal perspectiva seria aplicada se vivessemos em uma civilização razoavel.
    Não, não tem os animais a capacidade de se defender e na logica penal” não há crime sem vitima”, contudo submeter animais, qualquer que seja, a tortura seria crime porque a civilazação(a maioria) não quer. E esta maioria é democracia e ela detem esta soberania e poder de decisão para reprimir e reeducar. Um tratamento humano para humano é o mais razoavel com tecnicas mais eficientes que prisão.

  9. Um caso interessante de boicote social é descrito em ‘O Guia Politicamente Incorreto do Brasil’, onde o autor cita o caso da sociedade britânica, na época imediatamente antes do fim da escravidão brasileira, onde a população passou a boicotar os produtos feitos por mão de obra escrava, o que no fim acabou levando ao governo britânico a pressionar pelo fim da escravidão nos países com que tinha relações comerciais.

  10. Hoje esse boicote social já existe através da internet . Essa condenação furiosa de um espancamento sem sentido de um cão nada mais é do que um boicote ‘virtual’ e social ,visto que o agressor deve ter sentido a contrariedade de todos ( tanto amigos como desconhecidos)

  11. De certa forma, já é isso o que acontece quando uma pessoa é pressa, não? Interessante o ponto de vista, porém, penso que o ato de maltratar um animal doméstico é considerado “crime” exatamente pelo processo de domesticação. Na sociedade atual, alguém que não age de acordo com as normas de civilização é afastado da sociedade (vai preso). Quando nos tornamos “civilizados” o ato de matar para comer se tornou tolerável para animais não-domésticos, portanto, maltratar um animal doméstico, que nós próprios escolhemos para ser nossos “amigos”, é uma coisa desnecessária, é, simplesmente, causar sofrimento, um ato claro de psicopatia, crueldade e não-civilidade. Esse perfil, no entanto, não se encaixa no perfil considerado civilizado e oferece risco à sociedade, portanto, deve ser afastado da sociedade, pois, não age de acordo com as normas de civilização. Por isso sou a favor sim de que tenha um órgão que legisle e julgue esses atos de maus-tratos.

    “E matamos ratos, insetos e baratas por que eles podem nos transmitir doenças. Já os cães, quando bem cuidados e alimentados, não representam nenhum perigo. “
    (Alan Denadary)

  12. É triste ver tais filosofias sendo defendidas aqui. Animais devem ter direitos, por que não? É desonestidade intelectual afirmar que animais devem ser privados de todo e qualquer direito somente porque tais direitos não se estendem a baratas e moscas.\r
    Anarquisas são mesmo cruéis, não apelando para um sentimentarismo irracional, mas na verdade o são.\r
    Mises era um gênio. É triste ver seu nome usado em um instituto enormemente anarquista. Para quem não sabe, Mises nunca foi anarquista. Nem ele, nem a maioria de seus alunos. Apenas um, irracionalmente revoltado e radical ( embora ótimo em economia ), era anarquista: Murray Rothbard. Mesmo isolado, Rothbard foi promovido a grande sábio por anarcocapitalistas, que tentam misturar o excelentíssimo liberalismo econômico com a podre anarquia, cuspidora das liberdades reais.\r
    Vejam um texto de autoria do próprio Mises:\r
    “Liberalismo não é anarquismo, nem tem absolutamente nada a ver com anarquismo. O liberal entende claramente que, sem recorrer à compulsão, a existência da sociedade estaria ameaçada e que, por trás das regras de conduta cuja observância é necessária para assegurar a cooperação humana pacífica, deve estar a ameaça da força, se todo edifício da sociedade não deve ficar continuamente à mercê de qualquer um de seus membros. É preciso estar em uma posição para obrigar a pessoa que não respeita a vida, a saúde, a liberdade pessoal ou a propriedade privada dos outros a aceitar as regras da vida em sociedade. Esta é a função que a doutrina liberal atribui ao estado: a proteção da propriedade, liberdade e paz.”

  13. A teoria de punição proporcional defendida por Rothbard é interessante e de fato contribui com a busca de um sistema de justiça coerente com os princípios libertários.\r
    \r
    É, porém, bastante incompleta e desnecessariamente restritiva quando enfoca somente o conceito de reparação e desqualifica, como se fossem alternativas e não complementos, os obviamente importantes conceitos de dissuasão e reabilitação. Além de não tocar no importante conceito da prevenção.\r
    \r
    A punição deve ter em mente sempre a tripla função de reparar, quando possível, reprimir e prevenir.\r
    \r
    A teoria diminui seu escopo ao afirmar que "Na sociedade libertária, existem, como dissemos, apenas duas partes em uma disputa ou ação judicial: a vítima, ou o reclamante, e o suposto criminoso, ou o réu.".\r
    \r
    E também ao afirmar que "Em um mundo libertário, não existiriam crimes contra uma mal definida “sociedade”, e conseqüentemente, nem a figura do “promotor de justiça criminal".\r
    \r
    Só é possível aplicá-la aos casos que atendam, concomitantemente, aos três requisitos abaixo:\r
    1. Haja subtração de direitos ou dano à propriedade individual.\r
    2. Os pólos da ação (reclamante e criminoso) sejam perfeitamente identificáveis.\r
    3. A vítima seja absolutamente capaz, ou seja, tenha o discernimento necessário para torná-la apta a compreender e participar dos atos da vida em sociedade.\r
    \r
    Além destes, existe uma infinidade de outros crimes que precisam ser tratados e que, obviamente, exigem uma compreensão mais abrangente dos conceitos de dano, vítima, réu e capacidade.\r
    \r
    Os vários exemplos de crimes onde, pela falta de qualquer um dos requisitos acima indicados, não poderia ser aplicada a teoria da punição proporcional exigiriam, sim, a figura de um ou mais representantes ("promotor de justiça") escolhidos por uma coletividade, "uma mal definida sociedade", com a função de defender seus direitos difusos.\r
    \r
    De forma ampla, qualquer ato que gere externalidades negativas sobre uma coletividade, transforma todos os seus membros, e não somente os diretamente envolvidos, em partes interessadas, convertendo-os, portanto, em potenciais reclamantes.\r
    \r
    Assim, por exemplo, se um assassino violento é perdoado pelos herdeiros da vítima, ou pior, transaciona com estes a compra de sua liberdade (pode até ter sido contratado por estes) e é solto para voltar ao convívio social como se nada houvesse acontecido, como argumentar que o aumento da insegurança vivenciado pelos demais membros da sociedade não os diz respeito?\r
    \r
    Se um pedófilo, através de coerção ou manipulação, aproveita-se da ingenuidade de um impúbere para praticar atos condenáveis, não será, certamente, o menor o pólo ativo da acusação penal, mas todo aquele que, convivendo em sociedade, entende que seus pares devem submeter-se às regras básicas de condutas estabelecidas pelo direito natural?\r
    \r
    Se um indivíduo, num ato terrorista, lança uma granada em um transporte coletivo e, por obra do acaso, a granada falha e ninguém sai ferido, por acaso o autor do ato é menos criminoso?\r
    \r
    Estas e outras questões devem ser levantadas e mostram que a tentativa de subtração de direitos, a intenção clara do ato lesivo, a usurpação de direitos difusos, a desobediência às regras básicas de convivência também podem e devem ser considerados crimes.\r

  14. Acabo de folhear uma apostila de "educação para o meio ambiente" do meu filho de 7 anos, do colégio PH – um dos mais bem conceituados do RJ – e vejo algo realmente incrível. Depois de uma breve história em quadrinhos mostrando um dono de um cavalo maltratando-o, segue a pergunta: Você acha que os animais devem ter os mesmos direitos de um ser humano? Depois vem algumas figuras de rostos de animais felizes e tristes, para que o aluno marque os de fisionomia triste.

    É importante dizer também que, na mesma apostila, tal problemática veio acompanhada dos temas ambientais da moda preferidos de 10 entre 10 escolas do Brasil, que vão desde a certeza da participação do homem no aquecimento global até a glorificação da vida selvagem, e a consequente demonização da civilização.

    A julgar pela doutrinação escolar maciça, a visão ambientalista será a cultura mainstream daqui a 15 ou 20 anos sem a menor dúvida.

    Em tempo. Lembremos que estamos muito longe de uma eventual sociedade regida pelas regras libertárias, portanto não devemos nos esquecer de interpretar os acontecimentos dentro do contexto em que vivemos, isto é, sob o jugo de um estado cada vez mais tirânico. Quem irá executar uma sentença a um malfeitor de animais senão o estado? Que tal dar este bônus ao seu já extenso e nefasto poder? Esperemos para ver.

  15. Eu estava pensando sobre esse assunto antes desse excelente artigo ser publicado.

    Veja onde meu pensamento foi: Qual seria a pena para alguém que maltrata ou mata um animal (cão por ex.) de outra pessoa? Pois não bastaria pagar 2x o valor do cão, mesmo porque o cachorro pode ter sido ganho. Muitas pessoas consideram seus cães como membros da família.

    Outro tema seria o uso de animais em pesquisas científicas. Aqueles que acham que animais não podem ser usados, acham que humanos seriam as primeiras cobaias?

    Pode pararecem corretas as leis que proibem maus tratos, mas em vários casos industriais isso é impossível.

  16. REINO DOS CÃES FELIZES

    — Ser Humano! Um povo místico elaborou conceitos em torno desta palavra! Como se houvesse algum valor em ser humano! Ser Humano! Isto é apenas uma concepção biológica. Eis algo que precisamos abolir tão rápido quanto possível.
    Karin Boye, Kallocain

    Que é Karin Boye, Kallocain? Politico da Social Democracia, Leia-se COMUNISTA.

    Na Suécia existem centenas de publicações, desde revistas e jornais até inesgotável literatura especializada. Nas bibliotecas e livrarias, ao lado de O Primeiro Bebê, encontra-se O Primeiro Cão, O Primeiro Gato. Nos supermercados, alimentação para cães e gatos, nacional e importada, é consumida paralelamente pelos estrangeiros. Não só por ser mais barata, como também incomparavelmente mais gostosa que certos pratos nacionais.

    Ainda em 72, surgiu — e foi festejada pela imprensa — em Estocolmo a primeira ambulância para animais da Europa. Seu telefone está acoplado ao 90.000, número memorizado por todos. A ambulância não atende apenas cães e gatos, como também raposas, esquilos e texugos feridos nas estradas ou aves marítimas envenenadas pelo petróleo. Um leitor escreve: "perguntando por que se mata um cão quando este passa a morder homens, pois afinal, quando um homem mata outro, é condenado à prisão e não à morte. “No entanto, continua o revoltado leitor, ele (Homem) é muito mais perigoso para a sociedade que o cão. Abaixo a injustiça!”.

    Uma imigrante argentina, consciente desta psicologia (Destrutiva contra o ser Humano), passou a explorá-la. Ao dirigir-se para receber seguro desemprego ou assistência social, leva consigo um cão emprestado. Afirma ser atendida com mais rapidez e menos entraves burocráticos utilizando este recurso, pois o funcionário tudo fará para que o cão não passe fome. Esta tendência a dedicar mais afeto aos animais que a seres humanos é uma das chaves para colocar o Homem abaixo da importância que ele tem em uma sociedade livre (Engenharia Social). O fenômeno não é exclusivamente sueco, ocorrendo também nos EUA e demais países europeus. (É no Brasil também) Na Alemanha, por exemplo, a lei dispõe que um cão pastor necessita de 12m2 para habitar, enquanto um trabalhador imigrante necessita apenas 8m2.

    A minha opinião sobre o fato da enfermeira ter matado o cachorro, Eu não estou nem um pouco preocupado se ela (enfermeira) ou qualquer outra pessoa venha a matar 1 ou 100 mil cachorros, vacas, cavalos, patos, galinhas, gatos, porcos, passáros entre outros, pois estou mais preocupado com as 50 mil mortes de brasileiros que acontece por ano no Brasil. A VIDAS HUMANA É SEM DÚVIDA, MAIS IMPORTANTE.

    Informações tirada do Livro: O PARAÍSO SEXUAL DEMOCRATA,JANER CRISTALDO

    No Brasil e no mundo está cheio de INDIOTAS úteis.

  17. Que afirmações absurdas, Gutemberg e Catarinense. Vocês realmente acreditam que a enfermeira não cometeu crime algum? Nós sempre reclamamos dos comunistas pelo dogmatismo irracional deles, vamos evitar fazer o mesmo.\r
    Gutemberg, uma pessoa pode perfeitamente defender a vida de seres humanos e dos animais ao mesmo tempo; acho um equívoco você afirmar que a vida dos animais é insignificante pelo fato dos seres humanos terem maior importância.\r
    Catarinense, se formos esperar que criminosos aprovem sua exposição à sociedade, não haveria punição de crimes, nem mesmo aquele contra a propriedade privada. Se você entra em um processo contra alguém por furto, esta pessoa está tendo sua imagem danificada sem permissão, você não acha?\r
    Em vez de ficar pregando algo sem sentido, temos que nos concentrar em disseminar o ideal do liberalismo econômico da Escola Austríaca. Quem se juntaria a nós ao ver tais argumentos sendo defendidos? Claro, não podemos fazer concessões só para atrair seguidores; porém vamos deixar bem claro o que é pensamento da Escola Austríaca, e o que é filosofia anarcocapitalista; dissociando, com razão, uma da outra.

  18. Não seja tão melindroso, Paulo Sérgio. Tenho certeza de que você adora esse site. Caso contrário, por que você seria um leitor tão assíduo, cujos comentários abundam em diversos artigos publicados aqui?

  19. As divergências entre os leitores são claramente perceptíveis. Que bom que elas são relacionadas à filosofia anarcocapitalista radical, algo externo a Escola Austríaca e a Mises, em contraposição à filosofia liberal-democrata misesiana.\r
    Felizmente, quase todos nós temos em comum a essência da Escola Austríaca, o liberalismo econômico. Todos nós rejeitamos as ingerências estatais no mercado. Acreditamos que a liberdade garante a prosperidade geral dos povos.\r
    Não há como não brigar, vamos brigar em nossas divergências, com civilidade e inteligência, isso é bom, melhora nossa argumentação. \r
    No entanto, durante isso, que não nos esqueçamos das nossas semelhanças; daquilo que pode nos unir; do que pode fortalecer a causa liberal.\r
    Chegamos todos aqui devido à nossa essência liberalista comum, não saiemos devido a alguns radicalismos, espero eu, bem-intencionados; equivocados, porém bem-intencionados.

  20. Adorei o texto.. sempre fico feliz ao ler artigos deste site, pois parece que não estou sozinho no mundo.

    Creio que não podemos julgar a mulher que agrediu o Yorkshire, ela deve ter seus motivos, o que eu creio ter sido errado foi executar os atos em frente à uma criança, tendo em vista que isso possa refletir em seu modo de agir nos anos sequentes. A economia também é praxeologia, tudo é um ciclo.

    Abraços a todos.

  21. Já viram o concurso que o New York Times está realizando? (www.nytimes.com/2012/03/25/magazine/tell-us-why-its-ethical-to-eat-meat-a-contest.html?_r=3)

    Estão aceitando redações de até 600 palavras pedindo para explicar porque é ético comer carne.

    Rules: This is a very specific contest. Don't tell us why you like meat, why organic trumps local or why your food is yours to choose. Just tell us why it's ethical to eat meat.

    Guidelines: Send written entries of no more than 600 words to [email protected]. Entries are due by April 8; no late submissions will be considered.

    The Prize: The best essay or essays will be published in an upcoming issue of The New York Times.

  22. Do ponto de vista Antropocêntrico – onde o Homem é o Centro do Universo e o Capitalismo é a única viseira que permite ver o mundo de uma forma “verdadeira”, os animais não têm direito. Vamos considerar esse AXIOMA como verdadeiro DE FATO.
    Mesmo assim, se o Homem é a medida de todas as coisas, alguém que resolve defender os animais (não os “direitos” animais), ISSO sim é permitido. E chore quem quiser chorar, mas EXISTEM pessoas que SE INCOMODAM com as torturas animais. E elas não podem ser ELIMINADAS ou tratadas como ALIENADAS. Não é uma “MODINHA”. É um sentimento natural que pode surgir em qualquer ser humano. E que sejam chatos mesmo. O ponto de vista antropocêntrico não é MELHOR nem PIOR que o Holístico.

  23. Correto, mas você apenas falou generalidades. É preciso ser mais específico. Por exemplo, se uma família em total estado de privação resolve matar um vira-latas ou um gato para se alimentar, você defenderia que eles fossem para a cadeia?

    Se sim, então, por uma questão de lógica, você tem de defender cadeia para suinocultores, avicultores e pecuaristas. Não faz muito sentido dizer que pode matar, mas só se for visando ao lucro e impondo uma morte rápida aos bichos.

  24. Primeiro, não falo de cadeia. Mas simplesmente de pessoas que dizem não ao sofrimento animal, que promovem o boicote e a conscientização nesse sentido. Nesse sentido, a morte para o lucro é algo que não pode ser “proibido”, mas pode ser ‘combatido” através dessa “conscientização”. Inclusive para criação de novos mercados, não só o da “ditadura da carne”.
    Claro que nunca o mundo vai ser totalmente vegetariano. Acho até idiota pensar assim. Mas muita gente se torna voluntariamente vegetariano.
    Segundo, matar pra ter prazer em VER o sofrimento do outro não parece ser um sentimento nobre (tourada, caçada etc.). Matar pra comer (excetuando-se o lucro, que ja foi mencionado acima) é justificável.

  25. Cadê o bom senso? O que vocês acham disso? Acham que alguém tem o “direito” de maltratar um animal desta forma? Acham que a única punição a este tipo de covardia deve ser um simples “boicote social”?

  26. Se partir do pressuposto de que os animais não tem direitos, porque eles não raciocinam, então concluiremos que o aborto é lícito, o infanticídio é lícito (afinal, crianças e fetos não pensam), torturar e asassinar deficientes mentais também é lícito (afinal, deficiente mental não pensa, e portanto, não tem noção de direito). Enfim, os crimes mais covardes são lícitos, só porque estas pessoas não pensam.

  27. os animais não são tão indefesos assim,um animal pode te atacar apenas por não gostar da pessoa,sem a pessoa nem sequer ter olhado para ele

    o princípio da não agressão não se aplica aos animais,pelo fato da vida deles serem limitadas pela vontade do ser humano

    eu acho que numa sociedade sem Estado,as pessoas que maltratam animais poderiam até não admitir publicamente,mas elas poderiam comprar animais de compradores e num lugar bem escondido da sua propriedade,ela poderia fazer o que ela quiser com o animal

  28. O agressor de animais, provavelmente sendo algum tipo de psicopata, continuaria torturando animais, não importa o boicote que lhe impusessem. É o prazer dele. Prisão e multas são punições adequadas.

    No mais, a proposta simplesmente não funcionaria. Imaginem um caso extremo em que o agressor fosse um aposentado, ou seja, alguém que tem proventos de aposentadoria garantidos todo mês, não passível de ser demitido de seu emprego por conta do “boicote”. Recursos ele teria para subsistir e continuar sua prática repugnável. Comprar também não seria problema, pois por certo se formaria um “mercado negro” disponível para pessoas “socialmente boicotadas”. Onde tem uma demanda, tem alguém para oferecer, ainda que por um preço maior que o de mercado.

  29. GABRIEL DA COSTA COELHO

    Ainda estou aprendendo sobre essa proposta de Liberalidade, contudo não entendo como seria feito com um serial killer, dentro da situação proposta…

  30. Creio que o “Boicote Social” não funcionaria. Muito “clean” e “Beatifull” teoricamente, mas pouco prático na vida real.

    Um boicote para uma louco de grande influência ( digamos que Bill Gates fosse estuprador) não surtiria efeito, pois mesmo com a “negação social” a maioria com ligação e influência com Gates continuaria a comprar e vender seus produtos. Foda-se se ele faz isso (pensaria o diretor da Hp ), como em qualquer sociedade há humanos podres no meio, o que interessaria, para uma meia dúzia, seria o lucro.

    Vejam o Lula como prova: mesmo sendo corrupto “o povo” ainda votaria nele! Imagina esse sonhado “boicote social”. Nunca aconteceria….

    Sou a favor do liberalismo e do capitalismo, mas não sou inocente.

    A justiça é algo não podemos abdicar.

    Olho por olho, dente por dente!

  31. “Não podemos obrigar pessoas a deixarem de ser idiotas. Muitas realmente são. Mas há algo que pode ser feito, sem violar liberdades, para que o idiota perceba o quanto sua ação é repudiada. O boicote social pode fazer uma pessoa perceber que perdeu algo realmente de valor, não o valor econômico, mas o valor de ser merecedor do convívio social que o pertencimento à humanidade possibilita.”

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