Uma vida de ideias - Hans-Hermann Hoppe no Brasil

A primeira vez em que fui exposto completamente ao brilhantismo de Hans-Hermann Hoppe foi em um seminário da Mises University, no qual ele deu a palestra principal sobre metodologia.  Naquela ocasião, ele ofereceu uma nova abordagem sobre o método kantiano de Mises.  Hoppe explicou a tipologia de proposições de Kant, e mostrou como Mises, dando-lhes uma nova perspectiva, havia se apropriado delas.

Em vez de categorias de pensamento e categorias da mente, Mises foi ainda mais longe do que Kant ao delinear categorias de ação, as quais são o fundamento do raciocínio econômico.  Nessa palestra, todos nós descobrimos algo que até então não sabíamos sobre Mises, algo mais formidável e mais grandioso do que tudo que julgávamos saber, e que nos fez pensar de maneira diferente sobre um assunto que pensávamos dominar por completo.

Esse mesmo efeito hoppeano — aquela sensação de ter sido profundamente iluminado por uma maneira completamente nova de entender algo — aconteceu várias outras vezes ao longo dos anos.  Ele deu inestimáveis contribuições à ética, à economia política internacional, à teoria da origem do estado, aos sistemas comparativos, à cultura e sua relação econômica, à antropologia e à teoria e prática da guerra.  Mesmo um assunto sobre o qual todos pensam mas que ninguém parece realmente entender — o sistema da democracia —, Hoppe esclareceu suas nuanças de tal forma que você passa a ver o funcionamento do mundo sob uma luz completamente nova.

Não há muitos pensadores que provocam esse tipo de efeito.  Mises foi um.  Rothbard foi outro.  Hoppe certamente se encaixa nessa linhagem.  Ele é o tipo de pensador que nos relembra que ideias são coisas reais que moldam a maneira como entendemos o mundo à nossa volta.  Ouso dizer que ninguém é capaz de ler Democracy — The God that Failed, A Theory of Socialism and Capitalism, e The Economics and Ethics of Private Property e sair inalterado dessa experiência.

Normalmente, quando você ouve algum de seus argumentos pela primeira vez, você tenta resistir.  Lembro-me de quando ele palestrou em uma conferência que fizemos sobre a história americana, e ele apresentou uma monografia sobre a Constituição dos EUA.  Ninguém acreditava que um economista alemão pudesse acrescentar algo de valor ao nosso conhecimento sobre esse tópico.  Mas Hoppe o fez.  Ele argumentou que a Constituição americana representou um vasto aumento no poder governamental, e que esse era justamente seu real intento.  A Constituição americana criou um poderoso governo central, utilizando a retórica da liberdade como desculpa para sua criação.  Hoppe citou a Constituição americana como um exemplo característico de um argumento ainda maior: todas as constituições possuem a mesma intenção.  Em nome de estar limitando o governo — que é o que elas supostamente defendem —, elas invariavelmente surgem em períodos da história em que as elites estão se reagrupando para emergir de uma situação que consideram ser de quase anarquia.  Uma Constituição, portanto, representa uma afirmação de poder.

Quando ele terminou, era possível ouvir um lenço caindo no chão.  Não estou certo de que alguém ali presente tenha sido instantaneamente persuadido.  Afinal, Hoppe havia acabado de desafiar tudo o que imaginávamos saber sobre nós mesmos.  Os aplausos foram corteses, mas não entusiásticos.  Entretanto, seu argumento ficou cravado em nossas mentes.  Ao longo do tempo, creio que todos nós que estávamos ali finalmente conseguimos digerir esse desafio intelectual e concordar com Hoppe.  A Constituição americana havia sido precedida pelos Artigos da Confederação, os quais Rothbard havia descrito como sendo praticamente anarquistas em efeito.  Quem eram as pessoas que improvisaram essa Constituição?  Eram os remanescentes da guerra: líderes militares, financistas e outros tipos sórdidos — pessoas bem diferentes daquelas que assinaram a Declaração de Independência.  Thomas Jefferson estava fora do país quando a Constituição foi aprovada.  E qual foi o efeito da Constituição?  Restringir o governo?  Não.  Foi precisamente o oposto, exatamente como Hoppe havia dito.  Ela criou um novo e mais poderoso governo que não apenas não se restringiu (qual governo já fez isso?), como também cresceu exponencialmente até chegar a essa monstruosidade que temos hoje.  Foi necessário fazermos uma completa reconsideração sobre tudo o que julgávamos saber da história americana.  E o fato é que o que Hoppe havia dito na década de 1980 e que havia chocado todos ali presentes acabou se comprovando a mais absoluta verdade — e este é apenas um exemplo dentre vários.

Falo em nome de muitos quando digo que ele me ajudou a entender que a democracia é uma forma de nacionalização dos cidadãos.  Todos nós nos tornamos o governo — ou, todos nós nos tornamos propriedade pública.  E o que acontece com propriedade pública?  Ela é utilizada em excesso e descuidadamente, terminando destruída porque nenhuma pessoa ou nenhum grupo de pessoas em particular é dono dessa propriedade.  E é assim que, sob a democracia, os indivíduos se tornam um mero alimento de gado.  Somos tributados sem limites.  Não há maneira alguma de restringir o estado, uma vez que ninguém em particular pode ser responsabilizado pelo descalabro de nossa situação.  Nossos governantes são meros gerentes — não proprietários, como são os monarcas — que possuem todos os estímulos para pilhar a população e ir embora.  Eles estão ali apenas como fachada do verdadeiro estado, o qual é um aparato permanente e sem rosto, e que em nada se importa com o valor do povo de uma nação. 

Hoppe contrastou essa situação à monarquia não porque ele defenda a monarquia, mas sim para nos ajudar a entender a verdadeira face da democracia.  Na monarquia, o monarca é o proprietário.  Ele possui um incentivo para preservar o valor das coisas em seu território.  Ele pode legar seu território valorizado para um herdeiro.  Herdeiros foram criados e treinados para a governança, e, por sua vez, para legarem essa herança para seus próximos herdeiros.  Portanto, é de se esperar que eles sejam relativamente mais civilizados quando comparados a líderes democráticos.

A história confirma isso.  Hoppe data o início da democracia moderna a partir da Primeira Guerra Mundial, e ele escandalizou várias pessoas ao dizer que tanto os EUA quanto a União Soviética e a Alemanha nazista são democracias; mas ele diz isso em seu sentido especial: as pessoas não donas delas próprias e também não são propriedade de ninguém.  Os cidadãos são propriedade pública e todos são ordenados a participar de sua própria governança, elegendo um estado executivo.  Tal é a moderna forma de governo que desalojou a antiga forma — e ela explica o advento das guerras e do estado totalitário.

Há várias outras questões que Hoppe também ajudou a clarificar de maneira única — seu Economics and Ethics of Private Property ajudou as pessoas a imaginarem, como nunca antes, o funcionamento de uma sociedade sem estado.  Na questão da imigração, ele mostrou como os governos modernos utilizam a imigração como meio de expandir o poder do estado.  Ele também abordou a questão dos contratos e cláusulas de propriedade e suas relações com a propriedade privada.  Há muito mais.  Todos nós suspeitamos que isso irá culminar em um arrebatador tratado sócio-econômico, um tratado magistral e integrado, dentro das linhas do grandes livros austríacos do passado.  Esse tratado já está sendo escrito.

Hoppe é um pensador original, mas ele jubilosamente reconhece sua dívida para com Mises, Rothbard, Eric von Kuehnelt-Leddihn e todos os pós-modernistas de sua educação alemã.  Ele se apoiou sobre os ombros de gigantes e expandiu o pensamento econômico para muito além deles, como Murray Rothbard frequentemente confessava.  Não existem muitos pensadores que podemos apontar como tendo sido tão generosos na formulação de suas constatações e que tenham nos fornecido tantas ferramentas para nos ajudar a compreender o mundo ao nosso redor de maneira mais clara.

Permitam-me finalizar mencionando que Hans possui algo mais em comum com seus predecessores.  Ele é um homem de coragem e convicção.  Ele teve várias oportunidades de se vender ao establishment em prol de promoções e cargos honoríficos e lucrativos.  Porém, ele manteve sua dignidade e persistiu na batalha, comprometido com a verdade, com a liberdade e com o livre mercado de ideias.  Ele é um guerreiro vigoroso, obstinado e inflexível, que todos nós podemos e devemos admirar.  Ele não tem medo da verdade.  É por tudo isso que posso confiantemente prever que ele irá sempre emergir de suas batalhas como um campeão.

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Clique aqui para ver todos os artigos do IMB escritos por Hans-Hermann Hoppe.

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A seguir, algumas fotos da recente passagem de Hoppe pelo Brasil, na ocasião do II Seminário de Escola Austríaca promovido pelo IMB.  Como as fotos oficiais ainda não estão prontas, ficamos apenas com as fotos amadoras.  Caso algum leitor tenha interesse em compartilhar suas fotos tiradas com Hoppe, mande-nos um e-mail e sua foto será publicada.

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Em São Paulo, com sua esposa Guelcin Imre, Robert Murphy, Helio Beltrão, Fernando Chiocca e Leandro Roque

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Visitando as instalações do IMB, com Fernando Chiocca e Helio Beltrão

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Dando entrevista ao jornal Valor Econômico

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Ainda na entrevista ao Valor, sob intensa supervisão do editor Leandro Roque, seu consultor particular para assuntos econômicos

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No estacionamento do prédio do IMB, impressionando as mulheres

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Com Fernando Chiocca, experimentando a culinária gaúcha, sob o escrutínio de sua esposa

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Fernando Chiocca mostra, de maneira explícita, o quanto está honrado com a presença do mestre

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Falando sobre a situação do Oriente Médio. Mais tarde, o professor Ubiratan confessou sua conversão ao hoppeanismo

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Cristiano Chiocca ensina praxeologia e individualismo metodológico para Hoppe


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Ubiratan Iorio oficializa sua conversão ao hoppeanismo


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Bob Murphy acaba de disparar uma piada


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Antony Mueller reafirma que o euro não acabará


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Jörg Guido Hülsmann faz piadas sobre Angela Merkel

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Com o leitor Patrick Gappo


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Explicando para a cúpula do Partido Libertários como a política corrompe

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Com André Cardoso, de 16 anos, presente em todos os eventos do IMB desde 2009


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  Explicando os malefícios das reservas fracionárias para uma dupla paulista

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                         Sob o atento olhar de Lucas Mendes

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Lucas Mendes é fã confesso


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Em ação

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     O que fazer? Enquanto houver bancos centrais, as crises econômicas serão inevitáveis

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Mesmerizando a plateia


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Explicando que uma população só é genuinamente livre quando está devidamente armada


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Gente de classe

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Renovando a lua-de-mel


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É óbvio que, não fosse o genuíno acúmulo de capital gaúcho,...


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... a produção não teria sido possível. Uma questão de economia básica. (Feministas, tremei)

Fotos: Daniela Villar

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SOBRE O AUTOR

Lew Rockwell
é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.




"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Angelo Noel  14/04/2011 09:29
    Equipe do IMB, vcs pretendem traduzir e comercializar o "Economics and Ethics..."?
    Gostei da camisa do Fernando! hehehe!
    Mto bacana o Hoppe todo galã na foto. hahaha!
    Grande abraço.
  • Marco Aurélio  14/04/2011 09:39
    Sensacionais as fotos! Legal ver esse lado descontraído de todos vocês. Enormes abraços!


    P.S.: Fernando, de onde vem essa camisa espetacular?
  • Fernando Chiocca  14/04/2011 12:48
  • Lucas Mendes  14/04/2011 09:52
    eheheh muito boa as legendas das fotos! Parabéns!
  • Domingos  14/04/2011 10:04
    Fotos sensacionais, bem como as legendas esclarecedoras eheheh.\r
    Parabéns ao pessoal do IMB por trazer ao seminário esse pensador incrível.\r
    \r
    Um abraço
  • mcmoraes  14/04/2011 11:28
    LR disse: "...Todos nós suspeitamos que isso irá culminar em um arrebatador tratado sócio-econômico, um tratado magistral e integrado, dentro das linhas do grandes livros austríacos do passado. Esse tratado já está sendo escrito..."

    Q rufem os tambores! Vida longa e saudável ao Homem!
  • André Ramos  14/04/2011 11:29
    Eu consegui minha foto com o Hoppe!
    Tá devidamente gravada.
    Ansioso pelo próximo seminário.
    Valeu, IMB!
  • Patrick  14/04/2011 12:54
    a minha foto com o Hoppe ficou muito boa!
  • Altair  14/04/2011 16:01
    Otimas fotos.\r
    COmo faço para obter/acessar a entrevista de Hans Hope ao Valor Economico que foi citada e fotografada acima?\r
    grato
  • Leandro  14/04/2011 16:21
    Prezado Altair, a princípio, a entrevista está programada pra sair na quarta-feira, dia 20.
  • Indivíduo na Seca  14/04/2011 16:17
    As duas últimas fotos são as melhores disparado. Mandem mais!
  • Angelo Noel  14/04/2011 17:15
    Com esse sexteto, não há keynesiano/marxista que resista... rsrsrs!
  • Alexandre Melchior Rodrigues Filho  15/04/2011 01:42
    Eu também tirei minha foto com o Hoppe.

    Segundo ele, o certo é falar "Róp" e não "Rôupi" como muitos dizem...

    Faltou tirar uma foto com o Leandro. Porra, só eu acho o cara genial??
  • Victor Cezar  30/05/2012 21:01
    Bem, eu falo alemão, o "o" e o "e" ficam abertos após consoantes duplas. Então com certeza é "Rópe".
  • mcmoraes  09/05/2011 19:53
  • Joao Alberto  03/01/2013 19:21
    Curiosidade dos bastidores: Porque na família Chiocca tem tantos libertários engajados?
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/11/2014 19:55

    Aprecio autores que veem o que todo mundo está vendo

    e percebem o que ninguém está enxergando.

    * * *


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