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Política, Economia e a hierarquia do conhecimento

Economia, nas palavras de Ludwig von Mises, é o estudo da ação humana. A todo instante tomamos decisões, como usar nosso tempo, nosso esforço e os materiais que criamos para atingir nossos objetivos. O estudo destas decisões e de suas conseqüências é a Economia.

 

Política é o estudo da ação governamental. Um governo é uma organização que detém o monopólio do uso da força física em uma dada região. Política é o estudo sobre o propósito, as regras e a estrutura de tal organização.

 

Estas definições deixam claro que Política e Economia são assuntos fundamentalmente distintos. A primeira lida com o uso da força física nas relações humanas, a segunda com a ação produtiva do homem. É evidente que as disciplinas não são independentes. As regras que são impostas politicamente ao indivíduo afetam suas escolhas, afetam sua ação econômica.

 

Conhecer o ambiente político em que atuam os agentes econômicos é necessário para poder estudar sua ação. A análise econômica depende do conhecimento do ambiente político. A teoria política, por sua vez, não depende do estudo econômico. Determinar qual o uso legítimo da força nas relações humanas depende fundamentalmente de uma teoria Ética, não Econômica.

 

A hierarquia do conhecimento, portanto, é que a Política depende da Ética, a Economia depende de conhecer o regime político em vigor. É fundamental para o estudante de Economia manter esta hierarquia em mente.

 

O conhecimento de Economia, e da teoria Austríaca em particular, permite prever as conseqüências econômicas de decisões políticas. O risco que o estudioso corre é inverter a hierarquia do conhecimento, e tentar justificar uma tese política através da análise econômica.

 

A criação de um salário mínimo, por exemplo, é uma ação política. Trata-se de proibir pela força que indivíduos realizem contratos voluntários de trabalho por um preço abaixo do valor estipulado. O conhecimento de Economia permite prever as conseqüências desta ação.

 

A capacidade de produzir valor dos indivíduos não é alterada pelo decreto governamental. Criado o salário mínimo, todos aqueles incapazes de produzir mais do que o valor estipulado tornam-se não empregáveis. Ninguém contratará alguém por um valor maior do que ele é capaz de produzir.

 

Por outro lado, as tarefas de baixo valor que estas pessoas poderiam fazer ainda precisam ser feitas. Como não é economicamente viável contratá-las pelo salário mínimo, torna-se necessário realizá-las por outros meios. A única solução é usar pessoas mais qualificadas para realizar estas tarefas.

 

As pessoas mais qualificadas também são mais caras. Para realizar estas tarefas de baixo valor, elas estão sendo deslocadas de outras tarefas de maior valor. Para que isto seja viável, é necessário que elas sejam mais produtivas. A solução é empregar mais capital - máquinas, ferramentas, tecnologia - para que as tarefas de baixo valor possam ser realizadas em alto volume, por pessoas qualificadas.

 

O economista é capaz de prever, portanto, que o salário mínimo gera uma legião de desempregados, cuja única opção é o trabalho "informal". É capaz de prever também que o salário mínimo leva ao deslocamento de mão de obra qualificada e de capital para as tarefas simples que estes desempregados poderiam realizar.

 

Se você conhece um país onde há uma multidão incapaz de conseguir um emprego formal, com contrato de trabalho; se você conhece um país onde há uma constante carência de mão de obra qualificada, embora sobre mão de obra disponível; se você conhece um país onde há milhões de desempregados, mas as empresas investem milhões em maquinário e tecnologia para realizar trabalho simples - como agricultura e construção civil, a análise econômica permite saber que o salário mínimo é uma das causas destes fenômenos.

 

Mas a análise econômica não pode dizer se isto é bom ou ruim, certo ou errado. O salário mínimo é bom por incentivar o uso de tecnologia ou ruim por gerar desemprego? É bom por aumentar os salários de pessoas qualificadas ou é ruim por forçar outras pessoas para a informalidade?

 

Politicamente, um governo deve ou não estabelecer um salário mínimo?

 

A Economia não responde a esta pergunta. O que deve ou não ser feito por um governo, inclusive e especialmente aquelas ações que afetam a vida econômica, só pode ser determinado por uma teoria política. A Economia apenas descreve as conseqüências de cada sistema ou decisão política, não fornece um critério para julgar estas conseqüências como boas ou ruins.

 

Muitos economistas, inclusive muitos da escola Austríaca, implicitamente ou explicitamente assumem a maximização da produção de bens como critério ao julgar as conseqüências de uma dada política econômica. Mas majorar a produtividade é o que determina o que é correto? Isto é uma teoria ética que teria de ser validada à parte, por ser hierarquicamente precedente. Não é uma definição que possa ser derivada da Economia.

 

O Economista pode dizer que a existência do salário mínimo diminui a produção de bens, mas apenas um estudioso de Ética e teoria Política pode dizer que estabelecer um salário mínimo é errado.

 

Estude a teoria econômica Austríaca. Ela é verdadeira - explica corretamente a realidade - e, portanto, é uma ferramenta fundamental para compreender o mundo e a sociedade em que se vive. Mas não caia na tentação de substituir Ética e Política por análise econômica.

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SOBRE O AUTOR

Pedro Carleial

escreve no site O Capitalista.



OFF-TOPPIC: pessoal do IMB, seria possível vocês redigirem um artigo refutando as teorias conspiratórias sobre o Nióbio que abundam desde a época do Enéias? Quinta-feira o Instituto Liberal reiniciou o debate, e seria ótimo se vocês dessem continuidade. Eis o que comentei no website do IL, é o que resumidamente penso do assunto:

"Se há indícios concretos ou, ao menos, motivos para crer que as empresas autorizadas pelo Estado brasileiro a retirarem do solo e comercializarem este metal estão cometendo fraudes de qualquer natureza, em conluio com grupos estrangeiros ou não, a solução é, em se confirmando as irregularidades, rescindir os contratos de permissão em vigor e abrir este mercado para mais empresas interessadas no empreendimento - seja lá de onde elas forem. A que oferecer a melhor barganha leva as jazidas - e paga impostos sobre tudo o que produzir. Elevar o preço na marra? Claro, abusar desta condição de quase monopolista pode funcionar no começo, mas no médio prazo surgirão alternativas de melhor custo-benefício para atender a demanda daqueles insatisfeitos com a situação. Deixar de vender o Nióbio como comodittie e agregar valor ao mineral em nossa indústria da transformação? Seria ótimo, se nosso parque industrial não estivesse parado no tempo desde meados do século passado. Só falta criarem a estatal NIOBRÁS no Brasil, que dará origem ao escândalo do NIOBRÃO. O brasileiro não aprende mesmo: sempre achando que vai encontrar um bilhete premiado no chão e poderá passar o resto da vida bebendo e sambando."
"Tal afirmação nunca foi feita. Em ponto nenhum do artigo. E nem em nenhum outro artigo"

Não me refiro à uma frase ou texto escrito nos artigos do IMB. Estou questionando a percepção daqueles que defendem esse modelo de afrouxamento da terceirização proposto pelo governo, pois essa discussão toda é parte da realidade em que estamos vivenciando. Aliás, não creio que esse artigo seja uma mera exposição teórico-dissertativa acerca do que seria e quais os benefícios de uma terceirização segundo os liberais, muito menos um texto desvinculado da conjectura atual, como você transparece para quem lê. Logo, minha indagação é pertinente, ainda que, o que questiono, não esteja explicitamente escrito no artigo.

Em relação ao artigo linkado, em momento algum vi algo a mostra que abordasse diretamente o problema terceirização-corporativismo privado que eu levantei acima. O que mais se aproxima seria esse trecho:
"Em primeiro lugar, a ideia de que custos menores para empresas é algo ruim. Além do fato de que custos baixos permitem maior acúmulo de capital — o que possibilita mais investimentos e mais contratações —, falta explicar como que custos de contratação menores podem ser ruins para pessoas à procura de emprego."
Sim, não há problema algum em um empresário tentar reduzir seus custos para se adequar a concorrência e auferir maiores lucros. O entrave se encontra, como eu falei, no empresário monopolista que não possui um fator invísivel para motivá-lo à otimizar sua produção. A mão visível do Estado garante que seu produto inevitavelmente será consumido e, com isso, seu lucro será certeiro. Por conseguinte, não há a preocupação constante deste em inovar, melhorar a qualidade, aumentar a produtividade da sua mão de obra. Nesse sentido, a terceirização beneficia esse empresário, justamente por rebaixar seus custos com contratados (temporários ou não) à niveis abaixos daquilo que os empregados produzem, sabendo se que eles estão confortáveis em relação aos processos trabalhistas que enfrentarão (ajudinha estatal). Bem como, estagna ou retarda as inovações, tendo em vista que sua produção atual será adquirida pelos consumidores à um preço "monopolístico" durante um tempo maior que o de uma concorrência que existiria num livre mercado. Ademais, seu produto foi feito empregando mão-de-obra com um ônus muito abaixo daquilo que ela de fato produz. Desse modo, a margem de lucro é gigantesca, sendo que esse lucro pode sim ser revertido em capital para futuras melhoras, o que, na minha opinião, não aflinge ou preocupa de modo algum uma empresa monopolista, pois esta pode facilmente pegar crédito subsidiado de bancos estatais, ou ser empreendido em outros investimentos pessoais e, na minha percepção, fúteis e de pouco potencial de gerar valor no futuro.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Fernando Chiocca  13/03/2008 16:44
    Muito bom Pedro. De fato, muitos "economistas" sequer conhecem este limite e acabam misturando considerações éticas subjetivas com economicas. Falta conhecimento sobre a irrefutável Escola Austríaca, sobre a "ciência econômica livre de juizo de valores" (value-free economics) que Mises ajudou a desenvolver, estabelecendo estes limites. Quanto as cosiderações da esfera ética política, estas também podem ser respondidas objetivamente, através de uma teoria ética racional. E Rothbard elaborou em seu tratado ético (The Ethics of Liberty, em processo de tradução pelo IMB) respostas para essa questão; "a questão de o que eu tenho permissão de fazer aqui e agora".
  • Otávio  14/03/2008 05:26
    A desgraça maior é que não existe um único professor universitário que ensine tais conceitos. (Se houver, alguém por favor manifeste). E, assim, segue-se a rotina: o cara entra na universidade já totalmente calibrado e doutrinado por um ensino médio de cunho marxista. Aí, na universidade, ele é apresentado a uma diversidade um pouco maior: ou continua marxista ou vira keynesiano (alguns poucos viram neoclássicos, outra bobagem, ainda que menor). Dada essas opções, não resta outra alternativa para aqueles que pretendem estudar seriamente a economia que não o estudo paralelo. Obrigado a todos que fazem este site.
  • Eliana Caitano de Campos  05/05/2015 23:53
    Prezado Otávio (nome do meu filho também).
    Sou professora universitária, mas antes de ser,também tive essa dificuldade. Prova disto que várias gerações provam que o ensino brasileiro possui grandes deficiências. Formam apenas pessoas autômatas, especialistas em procedimentos ligados à uma área, conforme o currículo escolar. Contudo, é o professor que dá sentido à técnica, dá luz à análise dos fatos, referenciados pela técnica, a fim de tornar válida ou não tais técnicas. O conhecimento é dinâmico. A internet está aí para popularizá-lo. Contudo, se não for bem dirigido, pode ser mal empregado ou mal orientado e não atender a seu propósito. Sempre será preciso nos primeiros anos de formação a orientação de alguém experiente. A leitura faz isto por nós. Só que levam anos e anos para nos tornarmos seres pensantes. Somente através da técnica apresentada na universidade que é superficial, mas nos dá direções, muita leitura e alguns anos de experiência é que nos tornamos independentes para formular novos conhecimentos acerca de qualquer área de conhecimento. A repetição, a exaustão em busca do saber e o tempo nos levam a ser formadores de opinião. E, esta também tem seus efeitos lentos na sociedade. É por isso que estamos muito atrasados neste planeta. Onde o ter suplantou o ser e o saber. A ciência é apenas fruto da observação de pensadores, que mudam o mundo, a passos lentos. Imagine se não os tivéssemos! Mas, podemos ir muito mais além se tivermos essa consciência e influenciarmos mais pessoas sobre o saber, o fazer e o ter (salário mínimo é consequência deste desequilíbrio). A economia não está separada de todas as outras ciências. Na verdade tudo acontece ao mesmo tempo, só que o conhecimento é fatiado para não permitir que as pessoas tenham o conhecimento integral sobre si mesmo, o outro, a sociedade e o mundo(leia-se cosmos) que fazemos parte.
    A Internet é apenas fruto dessa necessidade que nos tiraram desde os tempos antigos, separando a nobreza da plebe, impedindo que os leigos tivessem a compreensão de mundo integral. Só este conhecimento integral liberta, eleva a qualidade de vida dos seres humanos e amplia a perspectiva de vida e futuro. É o primeiro passo para mudarmos o status da vida atual, em todo o mundo, que bem disse o autor do artigo (Pedro Carleial), a política depende da ética, e a economia depende da política. Ora pois, vivemos uma crise mundial por causa dos valores igualmente em crise, os quais estão em desordem e em reorganização por causa da falta de ética, da política, do capitalismo desenfreado é que a educação seja formadora de profissionais de baixa qualidade ao invés de cidadãos completos e com alta capacidade. O nível de informação que a internet trouxe à humanidade afeta essa compreensão, mas não é clara para todos. É preciso que os formadores de opinião (educadores em especial) tomem as rédias para ajudar a humanidade a melhorar essa crise de valores que o mundo vive. O que poderá propiciar grandes mudanças, mas não será muito fácil, assim como as grandes guerras que a humanidade vivenciou. Estou na minha luta, tentando dar sentido integral de conhecimento às pessoas, não importa qual área de conhecimento a pessoa tenha preferência. Sei que é pouco, mas se todos que tiverem condições de fazer será um grande passo, sem depender da política ou da economia em si, isoladamente, mas, sim das pessoas e de seus conhecimentos transformadores.
  • Ayrton Macedo  28/03/2008 11:10
    Rapazeada, muito bom esse site. Tava fazendo uma pesquisa sobre a Enron e cheguei aqui, muito bom mesmo, parabéns!
  • Natan Cerqueira  23/05/2008 16:30
    Estou grato por ter lido esse excelente texto, pois como há escrito em outro comentário, os interessados no estudo sério de Economia têm de fazê-lo por fora e este site, como o artigo acima comprova, constitui uma valorosa fonte de conhecimento. Parabéns.
  • CHURRAS  25/05/2009 18:59
    CHURRAS!


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