As falácias sobre o PIB brasileiro
por , segunda-feira, 15 de março de 2010

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Lula_e_FHC[1].jpgSejamos diretos: a maneira como se calcula o PIB — tanto no Brasil como no resto do mundo — é uma falácia.  Aliás, não é apenas uma falácia: é também algo extremamente enganoso.  Para ser curto e grosso: trata-se de uma fraude que só se sustenta porque ninguém questiona. 

Muitas vezes divulga-se que o PIB aumentou seguidamente sem que as pessoas do setor produtivo da economia tenham a sensação de que estão realmente melhorando.  Isso, por exemplo, foi muito comum no governo Fernando Henrique e nos quatro anos do primeiro mandato de Lula.

Por que isso acontece?

A maneira tradicional de calcular o PIB de um país é por meio da seguinte (e extremamente simples) equação:

PIB = C + I + G + X - M

C representa os gastos do setor privado, I representa o total de investimentos realizados na economia, G representa os gastos do governo, X é o volume de exportações e M, o de importações.

O problema todo começa ao se fazer confusão entre aquilo que o PIB realmente pretende mensurar e a interpretação que dão a essas mensurações.  Quando a mídia diz que "a economia cresceu", ela está se referindo ao fato de que o número resultante da equação acima para um dado ano (ou trimestre) é maior do que o número encontrado para o ano (ou trimestre) anterior, após ser ajustado pela inflação — utilizando-se para tal um deflator calculado pelo IBGE.

Contabilmente, não há problema algum com a equação acima.  Por definição, ela representa o valor monetário de todos os bens e serviços finais que foram comprados e vendidos dentro das fronteiras do Brasil em um dado ano. Apenas isso.  O problema todo advém do fato de que tal número passou a ser interpretado como medida do bem-estar econômico do país.  E a encrenca começa aí.

Afinal, se o PIB passou a ser interpretado como medida da saúde da economia, não faz sentido algum as importações contribuírem para o decréscimo do PIB, como mostra a equação.  Se a economia está importando maquinário e bens decapital, isso irá torná-la mais produtiva, e não menos, que é o que a equação sinaliza.  Porém, olhando-se estritamente do ponto de vista contábil, as importações são subtraídas porque o PIB está preocupado apenas com aquilo que é transacionado dentro da fronteira brasileira, sem se importar com a nacionalidade do produtor.  Assim, um Audi fabricado no Paraná gera um aumento no PIB; porém, se uma empresa brasileira atuando no exterior vendesse para o Brasil um produto seu fabricado lá fora, mesmo que fosse um bem de capital que aumentasse a produtividade da economia, tal transação diminuiria o PIB.

(Já o Produto Nacional Bruto, que quase nunca é utilizado, exclui a produção de estrangeiros no Brasil e inclui os bens e serviços produzidos por empresas brasileiras no exterior).

O PIB, portanto, inclui a totalidade do consumo, investimento e gastos do governo, mais o valor das exportações, menos o valor das importações.  O valor daí resultante nem de longe serve para inferir qualquer saúde econômica. Veremos o porquê.

Pra começar, um dos grandes problemas do PIB é que ele não faz qualquer esforço para distinguir as transações econômicas que beneficiam a saúde da economia do país daquelas que apenas a enfraquecem.  Atividades destruidoras de riqueza são incluídas em pé de igualdade com atividades produtoras de riqueza.  A intenção inicial do PIB — criado nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial unicamente para mensurar a capacidade de produção da economia americana naquele período belicoso — nunca foi a de mensurar o bem-estar econômico de um país. Porém, como ele inadvertidamente passou a ser utilizado para esse fim, todas as transações monetárias por ele calculadas passaram a ser vistas como sendo um progresso e uma contribuição para a saúde econômica do país.

Assim, quando há um tornado em Santa Catarina ou uma enchente avassaladora em São Paulo, os esforços de reconstrução fazem o PIB aumentar, não obstante toda a destruição e todas as perdas trágicas enfrentadas pela população.  Outras despesas negativas, como gastos para se proteger contra a criminalidade, gastos com médicos, gastos com divórcios, gastos com a defesa nacional, gastos para se reparar depredações etc., tudo isso conta como geração de riqueza e bem-estar econômico.

Da mesma forma, quando alguma indústria, para produzir algum bem, consome recursos naturais até seu completo esgotamento, isso também gera um aumento no PIB.  A distribuição de renda também é completamente ignorada pelo PIB.  Se toda a renda nacional estivesse nas mãos de apenas uma família, e todo o resto da população estivesse à míngua, a renda dessa família, ao ser gasta, iria dar uma bela aditivada no PIB.  Quando a Petrobras faz lambança e deixa vazar petróleo no mar, o dinheiro gasto para limpar o oceano aumenta o PIB.  Se algum lixo tóxico é derramado num rio, o dinheiro gasto para descontaminar o rio estimula o PIB.  Mais absurdo ainda: o dinheiro que foi gasto para criar esse lixo tóxico também gera acréscimos ao PIB.  Quando os estrangeiros aplicam em títulos públicos e esse dinheiro é gasto aqui, o PIB sobe — sem qualquer consideraçãopara com o ônus da quitação dessa dívida, que será transmitido às gerações futuras.

Mas esses detalhes excêntricos nem de longe são o pior — por isso não vamos tratar deles neste artigo.  O que realmente chama a atenção na equação é o fato bizarro de que um aumento dos gastos do governo gera um crescimento da economia!

Essa equação faz sentido apenas no mundo maravilhoso de Keynes, onde cavar buracos para em seguida tapá-los contribui para o enriquecimento e aumenta o bem-estar geral de toda a população.

No mundo real, porém, as coisas são um pouco diferentes.  Os gastos do governo são, sob qualquer aspecto e em qualquer situação, um fardo para toda a economia de um país.  Ao contrário do que se imagina, o que determina o tamanho de um governo não é a carga tributária, mas sim seu total de gastos.  A variável "carga tributária" engloba, obviamente, apenas os impostos arrecadados.  Já a variável "gastos do governo" engloba três variáveis: impostos, endividamento e inflação.

Explica-se: quando o governo gasta, ele está consumindo bens que, de outra forma, seriam utilizados pela população ou mesmo por empreendedores para fins mais úteis e mais produtivos.  Por isso, todo o gasto do governo gera um exaurimento de recursos.  Bens que foram poupados para serem consumidos no futuro acabam sendo apropriados pelo governo, que os utilizará sempre de forma mais irracional que o mercado, que sempre se preocupa com o sistema de lucros e prejuízos.  Portanto, os gastos do governo exaurem a poupança (por ''poupança'', entenda-se ''bens que não foram consumidos no presente para serem utilizados em atividades futuras'').

Ademais, os fundos que possibilitam os gastos do governo vieram (1) dos impostos arrecadados (carga tributária), ou (2) do aumento da oferta monetária (inflação) ou (3) do endividamento do governo via emissão de títulos. 

A tributação, como todos sabem, nada mais é do que uma destruição de riquezas.  Parte daquilo que o setor privado produz é confiscado pelo governo e desperdiçado em maracutaias, salários de políticos, agrados a lobistas e em péssimos serviços públicos.  Esse dinheiro confiscado não é alocado em termos de mercado, o que significa que está havendo uma destruição da riqueza gerada.

Já o aumento da oferta monetária gera a inflação de preços que distorce toda a economia, além de ser o fator causador dos ciclos econômicos.  E a emissão de títulos gera o aumento da dívida do governo, cujos juros serão pagos ou por meio de mais impostos ou por meio da inflação monetária ou por meio de mais lançamento de títulos (que é o que chamam de "rolar a dívida").  Sim, é uma bagunça.

Tudo isso mostra que, por mais detrimental que sejam os impostos, eles não conseguem ser piores do que os gastos do governo.  Os impostos englobam apenas eles próprios; já os gastos do governo englobam os impostos, o endividamento e a inflação monetária.  É impossível haver gastos sem que pelo menos um desses três tenha ocorrido.  E o pior: o fato de estar havendo aumento de gastos significa que um desses três inevitavelmente será aumentado no futuro.  E a hipótese mais plausível é que os três aumentem simultaneamente.

Foi pensando nisso que os economistas da Escola Austríaca, capitaneados por Murray Rothbard, criaram uma maneira mais acurada de se medir o real valor da riqueza de uma economia.  A esse resultado eles deram o nome de PPR: Produto Privado Remanescente.

A maneira de se calcular o PPR é simples: dado que os gastos do governo equivalem na verdade a depredações econômicas, eles devem ser subtraídos do cálculo do PIB.  Ou seja: do valor anual do PIB divulgado, subtrai-se os gastos governamentais duas vezes.  A primeira, apenas para tirar essa variável da equação, obtendo-se assim o Produto Privado Bruto — PPB; a segunda, para levar em conta todos os recursos que o estado tungou do setor privado, obtendo-se assim o Produto Privado Remanescente, que representa a real criação de riqueza de uma economia.

Para ficar mais claro: imagine uma economia simples na qual os agricultores produziram 1.000 bananas.  Ao serem vendidas no mercado as mil bananas, o governo coleta 200 como impostos (pense em impostos indiretos), para distribuir da maneira que ele quiser.  Assim, os gastos do governo serão de 200 bananas, o que fará com que o PIB seja de 1.200 bananas (consumo privado de 1.000 mais gastos do governo de 200). Daí já é possível entender por que essa maneira de calcular o PIB é uma aberração.  Já o PPB será de 1.000 bananas e o PPR será de 800 bananas. De fato, das 1.000 bananas produzidas, 200 foram confiscadas pelo governo e desperdiçadas em distribuições não voluntárias. 

Dado que essas 200 bananas abiscoitadas pelo governo não são vendidas no mercado, e dado que essa redistribuição de bananas está se dando coercivamente (por meio da tributação), isso significa que seu valor foi destruído. Afinal, normalmente quando valorizamos um bem, estamos dispostos a pagar por ele (fato este que representa o valor que tal produto representa para uma economia). Porém, se esse bem é confiscado pelo governo, todo o valor "embutido" nele foi perdido.  Ele foi produzido a troco de nada.  O produtor perdeu parte de sua riqueza. 

Já aquele indivíduo que recebeu "gratuitamente" os frutos do trabalho de terceiros pode até ter ficado melhor do que estava antes, porém isso aconteceu em detrimento da riqueza alheia.  O recebedor de bens gratuitos é apenas um parasita; ele se beneficia à custa de terceiros, não produz nada, destrói riquezas e não agrega nada de positivo para a economia. A economia não fica mais rica por sua causa; ao contrário, fica mais pobre. 

(Por "recebedor de bens gratuitos" entenda-se todos aqueles cuja renda advém da tributação dos membros produtivos da sociedade, sem exceção.  Não importa se o indivíduo é inativo ou possui um emprego cujo salário é pago coercivamente via impostos.  Ambos são destruidores dariqueza alheia).  Em última instância, os gastos do governo nada mais são do que consumo de capital.

Uma observação técnica: alguns podem contestar esse método de cálculo dizendo que serviços estatais como forças armadas, tribunais e polícia, conquanto sejam difíceis de terem seu real valor mensurado, ainda assim são serviços (sem concorrência) em cujos gastos há algum retorno positivo.  Porém, há dois detalhes importantes: (1) esses serviços governamentais muito raramente trazem utilidade direta para seus consumidores finais.  Ninguém está melhor por ter feito um boletim de ocorrência na polícia ou por ter sido acionado judicialmente.  Mesmo em uma ação judicial justa, o vencedor simplesmente é restituído pelo perdedor, e a soma volta a ser zero.  Não houve produção de bens.  (2) Ademais, em sua esmagadora maioria, esses serviços são considerados bens intermediários.  E bens intermediários não entram no cálculo do PIB.  Logo, trata-se de serviços cujos valores não estavam incluídos no cálculo oficial do PIB.

Pois bem.  Entendida a natureza maléfica dos gastos governamentais, busquemos agora então os reais valores da economia brasileira.

De acordo com o IBGE, eis as taxas de crescimento do PIB brasileiro a partir de 1995, primeiro ano completo do Real.

pib2.jpg

Observe que quase todas as taxas foram positivas.  Em 1998 o crescimento foi zero, e em 2009, foi de -0,2%.  Pense novamente no que foi dito no início deste artigo: "Muitas vezes divulga-se que o PIB aumentou seguidamente sem que as pessoas do setor produtivo da economia tenham a sensação de que estão realmente melhorando". 

O período compreendido entre os anos 1999 e 2006 foram períodos de muita angústia para a maioria dos membros do setor produtivo da economia, como todos que viveram naquela época se recordam.  Porém, isso não é o que mostram os dados do PIB, que passam a impressão de que tudo foi róseo.

Por isso, vamos calcular qual foi a real criação de riqueza da economia brasileira nesse período, isto é, qual foi o crescimento do Produto Privado Remanescente —- PPR.

Para calculá-lo, peguei os valores nominais dos PIBs anuais divulgados pelo IBGE para o período 1995-2009 e deles subtraí a "despesa de consumo da administração pública", que é o valor que o IBGE utiliza como gastos do governo (G) em cada ano.  Retirado o G, fiquei com a seguinte equação:  PPB = C + I +X - M

Isso ainda não nos basta.  Temos de considerar também os efeitos das depredações feitas pelo governo.  Para tal, subtraí todas as despesas correntes e todas as despesas de capital feitas pela União (DU - despesas da União) em cada ano.  No quesito ''despesas correntes'' estão despesas com pessoal e encargos sociais, juros e encargos da dívida, benefícios previdenciários, transferências a estados, DF e municípios e demais despesas correntes.  E no quesito ''despesas de capital'' estão investimentos do governo e amortização da dívida (excluídos os refinanciamentos e as inversões financeiras, que são apenas movimentações financeiras de uma conta para outra).  Todo os valores podem ser encontrados aqui.

Observe também que não incluí os gastos dos governos estaduais emunicipais.  Se o tivesse feito, os resultados seriam ainda piores. 

O resultado dessa subtração dupla me deu o PPR nominal de cada ano. 

PPR = C + I +X - M - DU

Para cada um desses valores apliquei o mesmo deflator utilizado pelo IBGE, e obtive o PPR real para cada ano.  De posse desses valores, procedi ao cálculo básico das taxas de crescimento. 

O resultado está no gráfico abaixo (notem a disparidade com as taxas do PIB oficial):

ppr2.jpg

Antes de procedermos à análise do gráfico, tenha em mente um detalhe: um PPR positivo significa que houve um crescimento do setor privado.  Isso não quer dizer necessariamente que o estado encolheu; significa apenas que o setor privado cresceu mais do que o estado.  Da mesma forma, quando o PPR é negativo, está havendo um agigantamento do estado em detrimento do setor privado.

Dito isso, façamos algumas observações (estamos tomando 1995 como o ano base e a taxa de crescimento é anual, isto é, quanto o PPR cresceu em relação ao ano imediatamente anterior):

1)  O gráfico deixa claro por que boa parte da população brasileira não ficou muito satisfeita com o governo FHC: ao contrário do que clama aesquerda xiita, houve um agigantamento do estado durante o governo do sociólogo, de modo que ao final de seu mandato de 8 anos o setor privado havia crescido apenas 1%.  É como se em 2002 tudo ainda estivesse no mesmo patamar de 1995. O estado cresceu tanto, que os esforços do setor privado foram suficientes apenas para acompanhar o ritmo da expansão estatal, quase nunca superando-a.  Portanto, a sensação de privação que várias pessoas sentiram durante o mandato do socialista cepalino, em especial durante o segundo, era real.  Allende e Gramsci não poderiam ter encontrado um discípulo mais aplicado do que o marxista chique.

2) Esse agigantamento do estado durante o governo FHC é facilmente entendido quando os debates ideológicos são deixados de lado: além de ter havido uma explosão nos gastos do governo (que aumentaram, em termos nominais, mais de 184%, o que tornava comum o governo ter déficits primários ao invés de apenas nominais) e um aumento recorde na carga tributária (que saiu de 27% para 36% do PIB), o sociólogo ainda criou inúmeras agências reguladoras com a função de impedir a livre concorrência e praticar o tabelamento de preços e tarifas.  Suas "privatizações" foram todas mentirosas: os setores "privatizados" mantiveram seus monopólios garantidos pelo estado, de modo que o que houve foi apenas uma troca de gerenciamento.  O governo — por meio das agências reguladoras — cuidou de abolir qualquer risco de concorrência, que é o que um livre mercado genuíno impõe.

Além dessa troca de monopólios (estatal para privado), todos os leilões foram feitos com dinheiro do BNDES, sendo que os fundos de pensão de estatais (que, em última instância, são controlados por políticos e sindicalistas petistas) adquiriram participações em várias dessas empresas "vendidas".  Não houve um único setor da economia do qual o estado se retirou por completo.  Assim como a jabuticaba e a pororoca, as "privatizações" brasileiras também são um fenômeno único: aumentam a participação do estado na economia.

(A EMBRAER, por exemplo, fechou negócio com uma empresa aérea estatal argentina.  Os termos?  O BNDES vai financiar nada menos que 85% da operação (veja aqui). Ou seja: trata-se de um capitalismo sem riscos.  A empresa fica com os lucros, e o contribuinte os subsidia.  Não deve haver vida mais fácil).

3) Porém, o fator que talvez mais tenha agravado a situação do setor privado no governo FHC foi a combinação entre juros altos, déficits orçamentários e gastos em constante crescimento. 

Explica-se: juros altos, por si sós, estimulam a poupança, inibindo os gastos presentes.  Porém, se o governo não faz a sua parte e continua tendo déficits e gastando em demasia, a economia passa a viver o pior dos mundos.  As pessoas deixam de consumir por causa dos juros, porém o governo entra em cena e consome o que não está sendo consumido pela população.  Isso impede que ela possa usufruir uma maior abundância de bens no futuro, assim como se aproveitar dos preços que consequentemente seriam mais baixos por causa dessa maior oferta.

E como está havendo déficits orçamentários, o governo ainda recorre à poupança da população para se financiar, o que impede que haja crédito disponível para investimentos privados. 

Portanto, além de os juros altos do governo FHC terem privado as pessoas do consumo presente, o governo — com seus déficits e gastos crescentes — ainda as impedia de colher os benefícios futuros dessa poupança, inibindo o investimento e impossibilitando uma maior abundância de bens e serviços futuros. 

Logo, o sacrifício que a população fazia em decorrência dos juros altos (poupança é igual a sacrifício) era anulado pelos gastos e déficits do governo, o que significa que a população se abstinha de consumir e não obtinha benefício algum desse esforço.  A sensação de privação causada pelo governo era intensificada.

4) Tendo herdado um estado paquidérmico, Lula nem precisou pôr em prática a cartilha que o PT sempre pregou: o homem da Sorbonne já havia feito todo o serviço, dando um chapeu em seu colega ideológico.  O PPR positivo de 2003 e 2004 (e a quase estagnação de 2005)  foi apenas a consequência de um menor crescimento nos gastos do estado.  Ou seja: o governo Lula seguiu aumentando os gastos, porém a uma taxa um pouco menor que a do governo FHC. O estado já estava tão inchado, que um simples crescimento menor dos gastos do governo naqueles dois anos já foi suficiente para fazer com que o setor privado respirasse um pouco.

5) Em 2005, o estado voltou a crescer com mais força, embora o setor privado ainda tivesse conseguido se manter à frente.  Em 2006, com o aumento dos gastos típicos de anos eleitorais, o setor privado definhou 7%.  Porém, em 2007 e 2008 houve de fato um crescimento mais intenso do setor privado, algo que foi sentido por todos (vide os bons índices de aprovação do governo nesses dois últimos anos). Os crescimentos registrados em 2007 e 2008, mesmo este sendo um ano de crise, foram especialmente robustos, o que se traduziu na melhora, ainda que tímida, de vários índices econômicos.  Não tenha dúvidas: os gastos do governo seguiram crescendo e o funcionalismo inchou a níveis soviéticos. Porém, devido a uma conjuntura externa extremamente favorável (ainda que artificial, totalmente estimulada pelo crédito fácil proporcionado pelos bancos centrais mundiais), o setor privado brasileiro — povoado por pessoas inegavelmente criativas e batalhadoras — conseguiu o milagre de crescer mais que o estado.

6)  Com o recrudescimento da crise mundial em 2009, e com os gastos do governo em franca ascensão, não havia como o setor privado fazer mágicas.  A retração de 11,8% no PPR foi a mais aguda desde a criação do real. 

Embora pareça um valor exagerado, uma rápida consulta ao relatório do IBGE mostra que, ao contrário, tal resultado está em total acordo com o que ocorreu em 2009.  Copio do site do IBGE:

A queda da agropecuária em 2009 (-5,2%) se deveu à redução na produção de culturas importantes, como o trigo (-16,0%), o milho (-13,5%), o café (-12,8%) e a soja (-4,8%).

Na indústria (-5,5%), todas as atividades apresentaram queda, sendo que a maior foi na indústria de transformação (-7,0%), seguida pela construção civil (-6,3%), e pela eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana (-2,4%). A extrativamineral registrou variação de -0,2%, com crescimento de 5,7% na produção de petróleo e gás e queda de 22,3% na extração de minérios ferrosos.

No setor de serviços (2,6%), os resultados foram positivos para intermediação financeira e seguros(6,5%), outros serviços (5,1%), serviçosde informação (4,9%), administração, saúde e educação pública (3,2%) e serviços imobiliários e aluguel (1,4%). Por outro lado, os serviços ligados à indústria de transformação tiveram queda: comércio atacadista e o varejista (-1,2%) etransporte, armazenagem e correio (-2,3%).

Na análise da demanda, a despesa de consumo das famílias cresceu 4,1% em 2009, sexto ano consecutivo de aumento. A despesa do consumo da administração pública também aumentou (3,7%), por outro lado, a formação bruta de capital fixo caiu 9,9%.

No âmbito do setor externo, as exportações tiveram redução de 10,3%, e as importações, de 11,4%. Desde 2005 o desempenho em volume das exportações não era superior ao das importações.

Observe que, além do item ''consumo das famílias'' - que cresceu 4,1% em 2009, resultado da política de crédito fácil adotada pelo Banco Central -, houve crescimento de 3,7% no consumo do governo e de 3,2% com administração, saúde e educação pública.  Mesmo no setor de serviços, o único que apresentou crescimento, a maior parte dos gastos se deu com intermediação financeira e seguros, sendo que este último se encaixa naquele quesito despesas negativas.  O resto foi todo negativo.  O PPR, ao levar em conta o efeito deletério dos gastos do governo, apenas deixou explícito o quão forte foi a contração.

7) É importante notar que um PPR positivo não necessariamente se traduz em abundante criação de empregos, da mesma forma que um PPR negativo também não significa que empregos não possam estar sendo criados.  Porém,um PPR negativo - isto é, um agigantamento do estado - inevitavelmente gera uma consequência nefasta: os rendimentos e salários do setor privado ficam estagnados.  Os gastos do estado são tão grandes e distorcivos que os empregos criados dificilmente conseguem pagar mais do que 2,5 salários, ficandoo aumento da renda totalmente dependente do controle da inflação.  (Vejaum exemplo recente de tudo isso aqui).

Ou seja: enquanto estiver havendo um agigantamento do estado, com seus gastos, impostos e déficits (primários ou nominais), os brasileiros estarão condenados a rendimentos escassos no setor privado.  E isso também explica a grande fuga de cérebros para o setor público, onde os salários são mais altos, as mordomias idem, trabalha-se pouco e há estabilidade.  E quem sustenta a boa vida do setor público são os escravos do setor privado. Não é preciso ser um gênio para entender que esse arranjo não se sustenta.  Ele ainda pode durar um bom tempo, mas, quando implodir, será algo cinematográfico.

8) Outro fator que não pode ser negligenciado foi o contínuo aumento observado no setor informal da economia - consequência inevitável de um mercado obstruído por inúmeras barreiras regulatórias e impostos escorchantes, ambos consequência de um estado inchado.  A produção do setor informal não é calculada pelo PIB e, consequentemente, nem pelo PPR.  Entretanto, sabemos que a economia informal de fato gera um aumento no padrão de vida daqueles que participam dela - afinal, se não fosse o mercado informal, essas pessoas estariam à míngua.  Se considerássemos também nos cálculos a riqueza gerada pela economia informal, o agigantamento do estado poderia ser considerado menor.  Porém, aí teríamos um paradoxo: o agigantamento do estado leva a um crescimento da economia informal, e o crescimento da economia informal significaria um encolhimento do estado!  O que se sabe é que o setor informal cresceu em nível recorde em 2008.  Sabe-se também que o setor formal e o informal alimentam-se mutuamente, como bem explica a reportagem do link.  Donde se pode inferir que o crescimento do setor privado em 2007 e 2008 pode ter sido influenciado também pelo forte crescimento do setor informal — que, por suavez, é consequência do agigantamento do estado!  Uma zorra.  O estado gerou duas economias paralelas. Apenas mais um exemplo de como ele é um ente nefasto e desagregador. 

9) Por fim, fica a comparação: após os dois mandatos de FHC, o setor privado havia crescido apenas 1% a mais que o estado.  No governo Lula, apesar da retórica mais à esquerda do que a adotada pelo governo FHC, felizmente a maioria das bravatas não se concretizou. Uma coisa é discurso de palanque para agradar as bases de apoio; outra coisa é ver o que realmente foi posto em prática.  É isso que nos interessa.  E o setor privado no governo Lula cresceu, até o fim de 2009, 12,75%.  Se excluirmos o ano de 2009, vemos que o setor privado havia crescido, até o fim de 2008, 27,9%, o que ajuda a explicar a boa aprovação do governo Lula.

Porém, na soma geral, em 14 anos, 1996-2009, o setor privado cresceu 14% a mais que o estado.  Muito pouco para o período de tempo considerado.

Vale, porém, uma importante observação: o crescimento do setor privado havido no governo Lula não foi consequência apenas de eventuais políticas do governo federal.  A Lei de Responsabilidade Fiscal, que age sobre todos os estados da União, teve provavelmente um efeito maior do que qualquer política do governo federal.  Veja mais detalhes aqui.

Com tudo isso, são duas as conclusões inevitáveis:

a) O método do PPR é muito mais realista que o método keynesiano tradicional de cálculo do PIB, que considera que todos os gastos do governo, de qualquer natureza, geram bem-estar e saúde econômica.  Ademais, o arcabouço teórico que o justifica é muito mais sólido que o do PIB.

b) Se o governo quiser que o país saia rapidamente da estagnação real em que se encontra (em relação ao PPR de -11,8%, o PIB de -0,2% do IBGE para 2009 foi bastante otimista, para não dizer amenizador), ele terá de permitir que o setor privado cresça em detrimento do setor público.  Porém, considerando-se os recentes aumentos nos gastos federais, que cresceram 82% neste início de ano em relação a 2009, e o fato de que este será um ano eleitoral, as perspectivas futuras para o setor privado não são muito alvissareiras.


Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


57 comentários
57 comentários
aécio prado 14/09/2009 12:19:23

de longe o melhor artigo de economia que já li.\n\nvou repassar isso pra muita gente.\n\nparabéns pelo trabalho !

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André 14/09/2009 13:02:11

O PIB Brasileiro tem nariz grande. \nGrande texto do Leandro Roque

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Marcelo Lopes 28/09/2009 19:19:12

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Áurea de Albuquerque 31/10/2009 16:42:06

"Logo de início, já se estranha o fato de as importações contribuírem para o decréscimo do PIB. Não faz sentido. Se a economia está importando maquinário e bens de capital, isso irá torná-la mais produtiva, e não menos, que é o que a equação sinaliza."

Leandro, o que não faz sentido é justamente o que você escreveu acima! Se PIB significa "Produto INTERNO Bruto", ou o que foi produzido INTERNAMENTE, DENTRO do país, não faz sentido computar o que foi produzido em outro(s) paíse(s) (no caso, as importações), pois tal produção já está contabilizada no PIB, PNB desse(s) outro(s) paíse(s), o que configuraria dupla contagem.

Ora, importar não é produzir (ao menos internamente)! Ademais, o ganho de produtividade advindo das importações de maquinário e demais bens de capital irá refletir mais adiante, nos PIBs futuros. A equação não sinaliza, como você observa, produtividade, mas produção no ano em questão.

Já o restante do teu texto considero interessante por trazer à baila a idéia do PPB, além da menção à economia informal. Seria pertinente se todos os anúncios do PIB (ou PNB para os que adotam estes) viessem acompanhado do PPB.

Lembre-se também que o PPR pode ser negativo sem que haja necessariamente um "agigantamento do Estado" por trás.

Responder
Leandro 31/10/2009 19:14:14

Hmmm, mas essa sua lógica (que eu considero correta, diga-se de passagem), vem justamente a confirmar o que foi dito. \n\nAfinal, por que subtrairmos o que foi produzido lá fora e vendido para nós? \n\nQuando você faz um compra qualquer, você subtrai seu ganho, sua riqueza? \n\nSó um detalhe: O PIB registra a quantidade de bens e serviços - medidos em valores monetários - produzidos pela economia durante um determinado período. Ele não necessariamente mede a produção, como você dá a entender no terceiro parágrafo.

Responder
Leandro 31/10/2009 19:41:26

Só pra esclarecer o que disse acima, que pode ter ficado confuso: como o valor das coisas é subjetivo, dizer que uma compra (interna ou externa) subtrai o valor das riquezas de uma pessoa (ou de um país) é algo... subjetivo! Mais ainda: dizer que uma compra deve subtrair a riqueza de alguém é algo incoerente. Afinal, não faria sentido alguém incorrer em uma transação sabendo que sairia pior e/ou mais pobre dela. Logo, afirmar que uma importação tem necessariamente de ser subtraída vai contra essa lógica. Na minha humilde opinião, não deveria existir aquela variável M na equação (pra não mencionar o G). Os mais puristas dizem até que M deveria entrar adicionando, pois trata-se de uma transação voluntária que, por ser voluntária, aumentou a riqueza dos agentes. Enfim... Mas no cálculo da PPR, M foi mantida.

Responder
anônimo 02/11/2009 11:30:12

Primeiramente, tem-se que saber o que é PIB e o que ele representa; indo mais além, conhecimentos de Contabilidade Social e seus Sistemas.

O PIB é UM dos principais indicadores econômicos, não O principal indicador econômico.

O PIB mostra o quadro A, mas eu quero que ele mostre B! A culpa é do PIB?! A questão é o mau uso e/ou uso inadequado (sem falar no uso "politiqueiro", entre outros) desse instrumento, além do desconhecimento.

É como o termômetro, que indica uma temperatura de 18°C mas não informa a umidade; para tal, necessita-se de outro instrumento, no caso o higrômetro. Portanto, a crítica ao termômetro por não mostrar a umidade deve ser direcionada aos que o utilizam para "palpitar" sobre a umidade, e não ao instrumento em si (ou aos que esperam que o termômetro mostre a umidade).

O que você chama de "falácia" na realidade mostra que você busca no PIB o que na realidade está na Conta FORMAÇÃO BRUTA DE CAPITAL FIXO (abaixo, site do IBGE sobre o assunto), onde a IMPORTAÇÃO de tais bens ENTRA na referida Conta:

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/pdf/19_formacao_capital.pdf

Do teu último comentário, de onde você tirou que "uma compra deve subtrair a riqueza de alguém é algo incoerente"? Não argumentei em momento algum em subtrair ou adicionar riqueza, mas simplesmente o que mede a conta PIB, que não é suficiente pra se ter a visão do panorama da Economia (por isso que há as outras contas, dentre elas a supracitada Formação Bruta de Capital Fixo).

O argumento sobre a falácia do PIB é que pode ser, na realidade, falacioso! Já teus argumentos sobre outros índices de mensuração do produto são interessantes porque vão ao encontro de melhoras no Sistema de Contas Nacionais ou à criação de Contas paralelas.

Outro detalhe que merece ser lembrado é a diferença entre a Contabilidade Nacional (ou Social) e a Contabilidade Privada.

No mais, tenha um bom feriado!

Responder
Áurea de Albuquerque 02/11/2009 11:32:36

Desculpe-me, o "anônimo" acima sou eu, que acabei enviando o comentário sem preencher os campos adicionais...

Responder
Leandro 02/11/2009 12:07:41

Prezada Áurea,\n\n\nObrigado pelo comentário. \n\n\nEssa questão do cálculo do PIB é aparentemente insolúvel, pois, embora a equação esteja contabilmente certa, ela não faz sentido em termos econômicos - haja vista o fato de os gastos do governo contribuírem para a riqueza quando, na realidade, ele consome capital.\n\n\nQuanto a FBCF, esta entra na variável 'investimentos' do PIBpm, após ser acrescida (ou subtraída) da variação de estoques. Ou seja, não creio que apenas a FCBF atenda meus anseios. \n\n\nCada um tire a utilidade que quiser do cálculo do PIB. A meu ver, ele serve apenas para, como você também disse, "usos politiqueiros".\n

Responder
Thiago Bezerra 15/03/2010 13:16:23

Parabéns pelo excelente artigo, Leandro.

Responder
João Luís Leite 15/03/2010 13:53:19

Leandro,

Parabéns pelo artigo.
O conceito de PPR parece ser muito superior ao de PIB em termos de representatividade de geração de riqueza e bem estar de um país, além de não sofrer das inconsistências apresentadas para este último.

Acredito, entretanto, que um ajuste é imprescindível para melhorar sobremaneira o conceito.

Considerar que qualquer distribuição não voluntária destrua completamente o valor agregado dos bens ou serviços, conforme idéia apresentada na passagem do texto: " dado que essa redistribuição de bananas está se dando coercivamente (por meio da tributação), isso significa que seu valor foi destruído" é claramente incorreto, pois tornaria equivalente a ação de destruir todas as bananas à ação de redistribuí-las entre os produtores, ainda que em proporções individuais distintas, restaurando o valor agregado original.

A lógica liberal nos ensina, corretamente, que as transações voluntárias livres tendem a maximizar a geração de valor. Assim, qualquer interferência governamental acrescenta ineficiência ao sistema, desperdiçando a utilização dos recursos disponíveis em sua capacidade máxima.

Porém, isso não permite concluir que todas as transações involuntárias decorrentes de gastos governamentais destruam valor completamente. Até porque, se fosse esse o caso, não haveria distinção entre governos mais ou menos eficientes.

Uma analogia seria um motor que funciona em capacidade máxima quando está limpo(sem governo) e quando é acrescentada sujeira (governo), tem sua eficiência reduzida, mas não para.

Matematicamente, a perda de valor decorre da ineficiência da atuação governamental pode ser representada por uma fator de ineficiência (Fi) que varia entre 0 e 1.

Assim, para todos os serviços governamentais que não atendam utilidade genuína do consumidor, ou seja, para os quais na ausência de governo não existisse o serviço, o fator de ineficiência seria 1, pois não há que se falar em eficiência sem utilidade. Nesse caso a destruição de valor seria total.

Para os casos em que o serviço governamental atenda utilidade genuína do consumidor, ou seja, para os quais na ausência de governo a iniciativa privada ofereceria o serviço, o fator seria maior que 0 e menor que 1. Maior que zero, posto que é útil, e menor que 1, posto que é estatal e portanto ineficiente.

Sendo assim, no cálculo do Produto Privado Remanescente - PPR, os gastos governamentais deveriam ser multiplicados por um fator médio de ineficiência, (FixG), e só então subtraídos do valor do Produto Privado Bruto - PPB.

Caberia outro artigo para discutir-se uma metodologia para avaliar essa ineficiência.

Abraços.

Responder
Marcelo Assis 15/03/2010 15:53:19

Puxa... Leandro Roque, o sr. arrasou!\r
Já pensaste em escrever e publicar um livro?\r
Parabéns pelo teu trabalho no IMB. Continua assim!\r
\r
Abraço!\r
\r

Responder
CR 15/03/2010 16:36:59

Leandro Roque para Ministro da Fazenda!
(Tomei a liberdade de citar o trecho de seu valoroso - a continuação ideológica do oportunista da Bobbonne. Tal ideologia é a mesma de Stalin e Hitler: "Se Stálin roubou um banco, não o fez para encher de dinheiro os próprios bolsos, mas para ajudar o seu Partido e movimento. O senhor não pode considerar isso um roubo de banco." (Toland, John, Adolf Hitler: 657)

Responder
Leandro 15/03/2010 19:34:21

Prezados Thiago, João, Marcelo e CR, agradeço-lhes imensamente os elogios.

João, a sua ideia do fator de ineficiência é boa e eu não discordo dela em princípio, embora tenha algumas ressalvas. O único porém é que a introdução de tal fator deixaria todo o argumento totalmente subjetivo, perigando até criar uma grande desvirtuação que, apesar de todas as falhas, não existe no modelo acima - pelo menos em larga escala.

Marcelo: livro? Acho que nem eu iria ler...

Cesar: Ministro da Fazenda? Impossibilidade factual. Não dá pra comandar um ministério que seria abolido por mim no primeiro dia de ministrança.

Grande abraço a todos!

Responder
Marcelo Assis 15/03/2010 20:23:54

Ué, por que nem tu o lerias...? \r
Tu tens uma escrita supimpa, cativante, polida, objetiva e irônica, a qual possibilitaria um ótimo livro. E estás com as idéias certas na cabeça.\r
Se o único jeito é vencer pelas idéias, quanto maior for a oferta de informações da EA, melhor.\r
Mises, na época em que estava vivo, tinha poucos leitores. Hoje, graças ao IMB e ao LvMI, suas idéias se propagaram mais. \r
Demorará, sim, mas chegará o dia em que não mais conviveremos com as mazelas que o "Deus Estado" nos traz diariamente - inflação, burocratização, crises, queda no padrão de vida, insegurança, violência, fome, míséria, ditadura, escassez generalizada...\r
Abraços!\r

Responder
Edik 15/03/2010 22:49:11

Caro Leandro,


Me interessei bastante por essa medida desde o seu primeiro artigo e gostaria de te fazer algumas perguntas:


Pelo o que eu entendi, voce subtraiu importacoes e somou as exportacoes mesmo discordando dessa ideia. E' isso mesmo? Se for, voce nao saberia informar se ha alguma maneira alternativa mais adequada para tratar as trocas com outros paises de acordo com o conceito de PPR? Sera que utilizar a media entre importacoes e exportacoes nao traria uma medida mais exata para o desenvolvimento economico?





A ideia dos indices de inflacao oficiais e' muito criticado porque ele nao reflete diversos aumentos de preco ocorridos na economia. Ja li diversos textos no site do Mises dos EUA explicando porque e voce deve conhecer os argumentos melhor do que eu. Sera que o deflator ideal nao seria talvez calculado a partir do aumento da base monetaria?





Eu tive uma ideia de que talvez fosse adequado somar na formula do PPR as transferencias diretas efetuadas pelo governo. O argumento seria de que esses gastos sao feitos diretamente por cidadaos no livre-mercado, entao nao haveria exatamente uma destruicao de riqueza pelo governo, apenas o cidadao "A" produz e ao inves de gastar, esse valor e' repassado para o cidadao "B". A razao para isso e' inspirada em um argumento seu feito no artigo anterior em que voce tenta achar uma relacao entre o PPR e a popularidade do governo. A partir dessa ideia, eu pensei que seria valido somar as transferencias diretas porque elas invariavelmente colaboram para a popularidade de um governo, independente da justica, moral ou dos efeitos futuros nocivos desse ato. Muita gente credita a popularidade do Lula aos seus diversos bolsa-se-la-o-que, por isso, ao menos de acordo com o artigo anterior somariamos as transferencias diretas: apenas para demonstrar essa transferencia e nao uma destruicao de riqueza.





Algum motivo especial para nao ter incluido os gastos estaduais e municipais na formula?





Eu acredito que vc deve ter pensado tambem em algumas adaptacoes para essa formula, mas nao o fez para simplificar os calculos. Mesmo se for o caso, e se for possivel, ficaria grato se voce respondesse pelo menos conceitualmente as minhas indagacoes.





Muito obrigado e parabens pelo artigo.


Acho a ideia do livro muito boa. A do ministerio da fazenda tambem, mas se pesquisarem seus textos aqui provavelmente vao querer voce longe de qualquer influencia governamental, senao, como ficaria o dinheiro facil deles? hehehehehe

Responder
Leandro 16/03/2010 00:30:08

Marcelo,

Obrigado novamente pelos elogios. Recorro a Machado de Assis: "Tenho a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito: fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis."

Pelo menos um leitor terei para um livro. Seria uma honra. Abraços!


Edik,

Pelo o que eu entendi, voce subtraiu importacoes e somou as exportacoes mesmo discordando dessa ideia. E' isso mesmo?

Sim, pois qualquer outra coisa que fizesse perderia o padrão. Se eu mexesse com as importações, por exemplo, ficaria difícil comparar o PPR com os números do PIB.

Se for, voce nao saberia informar se ha alguma maneira alternativa mais adequada para tratar as trocas com outros paises de acordo com o conceito de PPR? Sera que utilizar a media entre importacoes e exportacoes nao traria uma medida mais exata para o desenvolvimento economico?

Dá um bom debate. Um conhecido deu uma boa ideia:

Como toda troca é vantajosa para ambos os lado, e neste caso metade das partes está no país, cada parte ficaria com metade do valor. Seria algo assim:

C + I - G + (X + M) / 2

Nesse caso, segundo o argumento dele, não seria ruim importar e cada país contaria metade do benefício da troca.

A ideia dos indices de inflacao oficiais e' muito criticado porque ele nao reflete diversos aumentos de preco ocorridos na economia. Ja li diversos textos no site do Mises dos EUA explicando porque e voce deve conhecer os argumentos melhor do que eu. Sera que o deflator ideal nao seria talvez calculado a partir do aumento da base monetaria?

Eu também acho que o deflator ideal seria o aumento principalmente da oferta monetária. O problema dos índices de inflação é que eles ignoram o quanto os preços teriam caído caso não tivesse havido expansão monetária, algo que eu aderecei neste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=314


Eu tive uma ideia de que talvez fosse adequado somar na formula do PPR as transferencias diretas efetuadas pelo governo. O argumento seria de que esses gastos sao feitos diretamente por cidadaos no livre-mercado, entao nao haveria exatamente uma destruicao de riqueza pelo governo, apenas o cidadao "A" produz e ao inves de gastar, esse valor e' repassado para o cidadao "B".

O problema é que, nesse caso, o dinheiro está sendo confiscado de alguém e dado para outro alguém. Impossível não estar havendo destruição de riqueza assim.

A razao para isso e' inspirada em um argumento seu feito no artigo anterior em que voce tenta achar uma relacao entre o PPR e a popularidade do governo. A partir dessa ideia, eu pensei que seria valido somar as transferencias diretas porque elas invariavelmente colaboram para a popularidade de um governo, independente da justica, moral ou dos efeitos futuros nocivos desse ato. Muita gente credita a popularidade do Lula aos seus diversos bolsa-se-la-o-que, por isso, ao menos de acordo com o artigo anterior somariamos as transferencias diretas: apenas para demonstrar essa transferencia e nao uma destruicao de riqueza.

Pode ser, mas o problema de se somar transferências diretas é que nunca sabemos o quanto de fato é transferido e o quanto se perde com corrupção e outros desvios.

Algum motivo especial para nao ter incluido os gastos estaduais e municipais na formula?

Um só motivo: incapacidade humana. Como pesquisar os gastos do 5 mil e tantos municípios? Aquiesça-me um pouquinho de compaixão.

Eu acredito que vc deve ter pensado tambem em algumas adaptacoes para essa formula, mas nao o fez para simplificar os calculos.

Exato.

Mesmo se for o caso, e se for possivel, ficaria grato se voce respondesse pelo menos conceitualmente as minhas indagacoes. Muito obrigado e parabens pelo artigo.
Acho a ideia do livro muito boa. A do ministerio da fazenda tambem, mas se pesquisarem seus textos aqui provavelmente vao querer voce longe de qualquer influencia governamental, senao, como ficaria o dinheiro facil deles? hehehehehe


Fico imensamente agradecido. E sim, já estou travando alguns diálogos com a cúpula da campanha de Dilma. Já pensou?

Abraços!

Responder
Marcelo Assis 16/03/2010 14:38:06

Leandro,\r
\r
Interessantíssima a citação de Machado de Assis. E muito verdadeira. O que a maioria ignorante e inapta vê como defeito a minoria esclarecida e capaz vê como virtude.\r
\r
Sim, eu com toda a certeza leria o teu livro! Na verdade, a honra seria minha!\r
\r
Tenho uma dúvida (que já está na minha cabeça há muito). É sobre Hong Kong. Fico impressionado com o fato de tal lugar ser o mais livre do mundo, tendo como pior nota o item "Monetary Freedom" (83.1, um número até que bem respeitável). Gostaria de entender como é que essa região chegou a ser o que é (apesar dos britânicos imperialistas e dos chineses maoístas) e como funciona o seu sistema de governo. \r
Soube que lá não há democracia. Por um lado é bom, pois a massa ludibriada não pode fazer estragos na hora de votar (= ditadura da maioria), mas por outro... E a questão das liberdades básicas (propriedade, ir e vir, ausência de censura, etc.)? \r
\r
Abraço!

Responder
Marcelo Assis 16/03/2010 14:43:37

Opa! A pior nota é "Freedom from Corruption" (81.0), também um número respeitável.\r
\r

Responder
Leandro 16/03/2010 15:29:09

Marcelo,

O segredo de Hong Kong é justamente não ter havido planejamento algum, tampouco ideias desenvolvimentistas mirabolantes, coisas corriqueiras por aqui.

Os britânicos, donos do pedaço até julho de 1997, incrivelmente não inventaram moda alguma. E nem poderiam: afinal, um local que precisa importar até comida não pode se dar ao luxo de ficar inventando protecionismos e nem choramingando na Organização Mundial do Comércio, exigindo mercado aberto para suas exportações. A única opção que restava aos habitantes era trabalhar duro (algo com o qual chineses não têm problema algum) e criar produtos e serviços de qualidade, conseguindo com eles pagar suas importações.

Após 1997, com a devolução de Hong Kong para a China, nada mudou. O governo de Pequim, que não é bobo, manteve tudo como estava - afinal, nada melhor que ter uma região rica ao seu lado para se aproveitar de sua pujança e dinamismo.
Ao que consta, a maior intervenção do governo foi lançar um programa de habitações públicas em 1967, para apaziguar motins gerados por simpatizantes da Revolução Cultural Chinesa. Até hoje ainda não existe salário mínimo por lá.

Quanto às liberdades civis, realmente é "impressionante" como a ausência de democracia (o que de modo algum gerou uma ditadura, como alguns seres binários gostam de pensar) não gerou restrições nesse quesito. Interessante também foi o desenvolvimento de sua cultura, especialmente na área cinematográfica (eu particularmente sou fã dos filmes de John Woo em sua fase Hong Kong), sem ingerências estatais (pelo menos, não que eu saiba).

A administração é altamente descentralizada. Hong Kong é dividida em 18 áreas administrativas, cada uma cuidando do seu quadrado. Aparentemente esses conselhos distritais foram criados voluntariamente por moradores que falavam o mesmo dialeto. Guardadas as devidas proporções, não é muito diferente do que ocorre na Suíça. Esse mini-artigo da Wikipédia é bom.

pt.wikipedia.org/wiki/Distritos_de_Hong_Kong

Por fim, tem essa interessantíssima análise de Hong Kong feita por Milton Friedman:

www.hoover.org/publications/digest/3532186.html

Um trecho revelador conta que o britânico que foi designado, ainda na década de 1950, para administrar Hong Kong não queria coletar dados e estatísticas sobre a economia local. Quando perguntado por quê, ele respondeu: "Se eu deixar que computem estatísticas, vão querer utilizá-las para fazer planejamento econômico."

A história mostra o quão acertada foi essa decisão.

Abraços!

Responder
João Luís Leite 16/03/2010 16:46:50

Excelente artigo do Friedman. \r
www.hoover.org/publications/digest/3532186.html\r
\r
As conclusões são bastante persuasivas, mas uma análise mais séria precisaria exlcuir outras possibilidades que poderiam explicar a causa do fenômeno.\r
Uma das principais delas seria a de que o desempenho de Hong Kong não decorre da maior volatilidade de renda a que se sujeitam países com pequena população.\r
\r
Essa característica, ou tendência, à volatilidade de renda, pode ser observada na maior e menor rendaS per capita do mundo, que são justamente as de Luxemburgo e Burúndi, ambos países com pequena população.\r
\r
Para uma explicação mais detalhada do processo, recomendo o execelente livro "O Andar do Bêbado" do físico Leonard Mlodinow.\r
\r
O comentário final do artigo é perfeito:\r
In the process, government tends to neglect its basic functions: as I once put it, 'to protect our freedom both from the enemies outside our gates and from our fellow citizens: to preserve law and order, to enforce private contracts, to foster competitive markets.'

Responder
Marcelo Assis 16/03/2010 20:53:33

Leandro,\r
\r
Muitíssimo te agradeço pelas tuas detalhadas explicações sobre a fantástica prosperidade de Hong Kong, uma região de apenas 7 milhões de habitantes.\r
\r
Gostei mesmo de ler o artigo de Friedman. Ele nos mostra o óbvio: Hong Kong, em comparação com a Grã-Bretanha, os EUA e Israel, cresceu mais e alcançou maior padrão de vida e de renda graças puramente ao laissez-faire.\r
\r
A citação do britânico é perfeita, denotando uma acurácia fora do normal. É incrível como tal decisão modificou TANTO o futuro de uma terra quase que inóspita! Cowpertwaite é o cara! Será que há um busto dele em Hong Kong? :)\r
\r
Então a democracia não é pressuposto para a preservação das liberdades básicas; tal pressuposto é, simplesmente, a ausência de governo ou, pelo menos, a existência de um governo limitado por um severo "rule of the law" (o "Estado Mínimo").\r
\r
A descentralização, pelo visto, também teve papel importantíssimo. O interessante de tudo é que tais distritos devem ter sido criados VOLUNTARIAMENTE, o que provavelmente contribuiu para que ainda hoje Hong Kong tenha alto grau de descentralização. E a cultura, claro, sem a "ajuda" do Estado, floresceu bastante.\r
\r
Concluindo: o grande segredo é, simplesmente, seguir ao pé da letra as célebres frases: "Liberty is always freedom from the government" (do Mises) e "Laissez faire et laissez passer, le monde va de lui même!" (de Vincent de Gournay).\r
\r
Grande abraço, Leandro!\r
\r
Mais uma vez, obrigado!!! \r
\r
\r
\r
\r
\r

Responder
Maurício 16/03/2010 23:18:38

Leandro,\r
\r
Você diz que não vê problema contábil com a fórmula do PIB, mas o fato da fórmula convencional considerar os gastos do governo como algo que aumente o PIB por si só não gera uma inconsistência contábil?\r
\r
Você pode discorrer um pouco sobre como se calcula cada uma das variáveis da fórmula?\r
\r
\r
abraços

Responder
Leandro 17/03/2010 05:17:08

Maurício, permita-me ser mais claro: não haverá inconsistência na equação do PIB apenas - enfatizo, apenas - quando dois fatores forem simultaneamente considerados:

1) quando se pensa em termos puramente contábeis, e
2) quando se tem em mente que você está apenas analisando o valor monetário de todos os bens e serviços finais que foram comprados e vendidos dentro das fronteiras de um país.

Somente se você pensar assim, e apenas assim, é que o PIB fará algum sentido. Porém, aí vem a pergunta inevitável: para que alguém pensaria nesses termos? Para nada. A informação dali obtida não faria muito sentido. No máximo, você poderia ver o volume de gastos monetários que uma economia está praticando, sem daí poder extrair grandes informações (volume de gastos não está relacionado a bem-estar, é só pensar em um país em período de guerra).

Só que infelizmente o PIB passou a ser interpretado como medida acurada da saúde da economia, algo que nunca foi seu propósito inicial.

É por isso que hoje o PIB mais confunde do que ajuda, e seus valores dificilmente expressam aquilo que realmente se passa na economia. Portanto, pode-se dizer que o PIB é uma equação que está matematicamente correta para aquilo a que se propõe (medir os valores monetários dos bens e serviços finais produzidos pela economia), embora tal proposição não nos traga informações precisas - ao contrário, pode trazer informações bem desvirtuadas.

Quanto aos gastos do governo gerarem uma inconsistência contábil, isso é algo que deve ser visto sob o prisma correto. Por exemplo, o que quase ninguém pensa é que um aumento em G inevitavelmente gera uma redução ou em C, ou em I, ou em X. G não pode aumentar sem que um desses diminua. Porém, a fórmula nunca deixa isso claro.

Mas em termos estritamente contábeis não se pode dizer que há uma inconsistência porque, repetindo, a ideia inicial do PIB nunca foi a de analisar a situação econômica do país, mas sim analisar a capacidade de produção da economia americana para ver como o país estava se saindo em seu esforço de guerra. Donde se vê que a inclusão de G de fato fazia sentido à época - afinal, era o governo americano o grande fomentador das indústrias bélicas; quanto mais ele gastasse, mais a indústria bélica se expandiria, e maior seria a produção de armamentos.

Porém, haverá inconsistência a partir do momento em que você começar a achar que PIB mede a saúde da economia (que é como todo mundo pensa hoje). Aí, sim, a presença de G desvirtua tudo.

Sobre como se calcula as variáveis, não há muito segredo, embora seja um pouco extenso. Você pode calcular o PIB sob três óticas, e as três darão o mesmo resultado (daí o fato de a equação estar contabilmente correta).

Perdoe-me a comodidade, mas recorro aqui ao preguiçoso artifício de lhe dirigir à Wikipédia, cujo verbete sobre o assunto é bom.

Leia apenas o início e pule para a seção Fórmula para cálculos do PIB. Lendo apenas essa parte já será o suficiente.

pt.wikipedia.org/wiki/Produto_interno_bruto

Responder
Carlos 22/03/2010 20:09:47

Leandro, esse seu comentário está errado:\r
\r
"Para ficar mais claro: imagine uma economia simples na qual os agricultores produziram 1.000 bananas. Ao serem vendidas no mercado as mil bananas, o governo coleta 200 como impostos (pense em impostos indiretos), para distribuir da maneira que ele quiser. Assim, os gastos do governo serão de 200 bananas, o que fará com que o PIB seja de 1.200 bananas (consumo privado de 1.000 mais gastos do governo de 200). Daí já é possível entender por que essa maneira de calcular o PIB é uma aberração. Já o PPB será de 1.000 bananas e o PPR será de 800 bananas. De fato, das 1.000 bananas produzidas, 200 foram confiscadas pelo governo e desperdiçadas em distribuições não voluntárias."\r
\r
\r
Não é assim que se contabiliza. Nesse caso, a economia é fechada, então:\r
\r
PIB = C + G\r
\r
O consumo é de 800 e o gasto do governo é de 200, logo o PIB daria 1000 e não 1200. Não tem sentido nenhum contabilizar duas vezes o gasto do governo.

Responder
Leandro 22/03/2010 20:28:00

Carlos,

Esse trecho - quando da primeira vez que o artigo foi ao ar - gerou uma enorme discussão paralela, o que me obrigou inclusive a procurar um professor de contabilidade social, apenas para desencargo de consciência.

O fato é que o trecho está certo. Veja bem: o PIB mede o valor monetário dos bens e serviços finais, considerando inclusive os impostos indiretos nele embutidos. Veja que chamei a atenção para esse detalhe.

Dizer que o PIB serve para medir produção é algo que depende da boa vontade da interpretação. O PIB mede o valor final de bens e serviços. Só. Portanto, no exemplo das bananas, o PIB de 1.200 não significa que se está dizendo que a produção foi de 1.200.

1.200 é simplesmente o valor (monetário) dos bens e serviços finais, que é o que o PIB mede. Ele não é o valor da "produção" total. É daí que vem a aparente confusão acerca das 1.200 bananas. De fato, passa a impressão que está falando que criou-se 1.200 bananas.

Não. O que se está dizendo é que o PIB calculou o valor monetário de 1.200 bananas.
É por isso que dizer que o PIB mede a produção é inválido. O PIB mede o valor monetário dos bens e serviços finais da economia. Ele não mede a produção per se.
No caso das bananas, na ótica do PIB não houve dupla contagem simplesmente porque não se está medindo a produção da economia.

Supondo que cada banana custe 1 real, então temos que 1.000 reais foram comercializados no setor privado, o governo tungou duzentas como impostos indiretos e em seguida gastou esses duzentos.

O PIB vai apresentar o valor monetário de 1.200 reais. É estranho? É. Mas é assim que eles operam.

Portanto, só pra enfatizar (replico aqui o que me foi dito pelo professor de contabilidade social):

Esse exemplo causa confusão porque as pessoas pensam que PIB significa apenas produção de bens tangíveis. Então as pessoas veem um PIB de 1.200 onde apenas 1.000 bananas foram produzidas e ficam confusas.

A questão é que, em ambos os exemplos, o governo, ao arrecadar 200 de impostos indiretos, utilizou parte desses 200 para pagar o funcionalismo (isto é, aqueles que trabalham para o governo arrecadando impostos). E isso seria um serviço (um bem intangível) que gera renda.

Portanto, de acordo com a teoria keynesiana, os gastos do governo geram renda, e isso tem de ser considerado pelo PIB.

E para aqueles que dizem que tal método produz dupla contagem, a resposta keynesiana padrão seria essa mesma: não houve dupla contagem porque os gastos do governo de fato geram renda para terceiros (principalmente para o funcionalismo que fez a coleta de impostos), e essa renda gerada é um produto intangível, ao contrário das bananas produzidas (tangíveis).

Concordo que não faz sentido a teoria, porém o IBGE trabalha assim. Ou seja: gastos do governo, para os keynesianos, é algo que gera renda. Quanto mais o governo gastar, maior será a renda de todos e maior será o PIB. Sim, é bizarro. Mas a equação do PIB é keynesiana.

Responder
Rhyan Fortuna 11/11/2010 20:46:55

Foi retirado do texto a parte que questiona o valor negativo das importações?

Responder
Leandro 11/11/2010 20:58:36

Rhyan, está lá no quarto parágrafo após a equação.

Responder
Rhyan Fortuna 11/11/2010 21:48:50

Nossa, não tinha visto, valeu!

Responder
Marcelo 05/03/2011 10:13:06

Alguma chance de falar/completar sobre/com o de 2010 (o tal do "pibão")?

Responder
Leandro 05/03/2011 22:48:35

Assim que saírem os dados completos, Marcelo. Há uma pendência com os deflatores utilizados, bem como real volume de gastos totais do governo.

Responder
anônimo 17/02/2012 12:18:20

Sugestão: não sei se já foi levantada a hipotese, se é útil ou mesmo viável isso, mas que tal se o IMB criasse um índice atualizado anualmente do PPR de todos os países do mundo? Aliás, será que já existe algum?

Responder
Andre Cavalcante 17/02/2012 15:28:57

Ou ao menos, uma lista dos países que importam aqui: América Latina (Mercosul), EUA, Canadá, Europa, China, Japão e o tigres asiáticos, talvez Nova Zelândia e Austrália e a África do Sul. Quiça Índia.

Responder
Gustavo 08/03/2012 12:54:50

Leandro,\r
\r
Primeiramente, peço desculpas por te importunar de novo com esse assunto. Mas após muito estudar e pensar, creio que as desavenças sobre quantas vezes devem ser subtraídos os gastos do governo se deve a uma confusão acerca do significado de produção, renda, e dispêndio. Seus valores totais devem ser iguais ao do PIB, mas seus valores privados não. Para uma economia fechada teríamos o seguinte:\r
\r
Chamemos de Y o somatório do valor agragado na economia pelo método atual (PIB pela ótica do produto)\r
\r
Dispêndio Privado= Dispêndio Total - Dispêndio governamental= (C+I+G)- G = C+I= Y-G\r
\r
Renda Privada = Renda Total - Renda Roubada Pelo Governo= Y-T= Y - IR - outros impostos\r
\r
Produto Privado = Somatório do valor agregado pelo setor privado= Y- Valor agregado pelo governo(contabilizado do modo atual)\r
\r
Atualmente o considera-se que o valor agregado pelo governo é igual aos seus gastos com mão de obra. Considerando que o governo também gasta com outras coisas(compra de produtos de entidades privadas), que chamaremos de E, pode se dizer que:\r
G= Valor Agregado pelo Governo(VAG) + E\r
Logo:\r
\r
Produto Privado = Y - (G-E)= Y-G+E\r
\r
Veja que esses valores não são necessariamente iguais. Se a renda privada é maior que o dispêndio (G>T), por exemplo, o setor privado está emprestando ao governo. O dispêndio também é quase que necessariamente menor que o produto, fato decorrente do fato que de que o governo rouba dinheiro do setor privado para depois utilizá-lo para comprar seus produtos, a RENDA volta para o setor privado mas não o produto.\r
\r
Creio que isso é o suficiente para mostrar como ficariam as contas nacionais se abdicássemos de contabilizar o gorverno como produtor. Porém, fica a pergunta, qual deles é o melhor para medir o bem estar?\r
\r
A ótica do dispêndio é a única que mostra o quanto o setor privado realmente mantém para si (medido pelo valor que ele paga, ou seja, pelo valor que ele subjetivamente atribui à mercadoria) por isso é o melhor para o curto prazo.\r
\r
A ótica da renda o quanto o governo nos permite manter da nossa renda e, se abdicamos de parte maior dela, é por livre vontade. O problema é que as dívidas que o governo faz serão afinal pagas pelo próprio setor privado! Ou seja, a não ser que outro pa´si pague a dívida que um governo faz com seus cidadãos, tanto faz se o goveno financia seus gastos com impostos ou empréstimos, o setor privado vai pagar do mesmo jeito. Por isso prefiro olhar o dispêndo privado, embora para um país como a Grécia, talvez valha mais a pena olhar para a renda privada.\r
\r
A ótica do produto é a ideal para medir produtividade do setor privado e estimar com alguma previsão o quanto o produto cresceria se os funcionários público fossem para atividades privadas. Produtividade do setor privado = Produto Privado/PEA não pública. \r
Produção com todos os trabalhadores no setor privado = (Produto Privado/PEA não pública)X PEA \r

Responder
Gustavo 08/03/2012 13:11:40

De volta ao caso das bananas:\r
\r
Você, através apenas do seu trabalho, produz 1000 bananas e me vende, como imposto você paga o equivalente a 150 bananas.\r
\r
Aumento no dispêndio privado = 1000 bananas\r
Aumento na renda privada = 850 bananas\r
Aumento na produção privada = 1000 bananas\r
\r
Se você produzisse mais 1000 e vendesse para o governo\r
\r
Aumento no dispêndio = 0\r
Aumento na renda= 850 (ele cobra impostos até quando compra!)\r
Aumento na produção =1000\r
\r
No final:\r
Dispêndio Privado= 1000\r
Renda= 1700\r
Produção=2000\r
Empréstimos ao setor público= 1000- 300=700 ou 1700-1000=700

Responder
Gustavo 08/03/2012 17:36:33

Podemos expandir o modelo para acima para uma economia mais complexa:

Suponha agora que com 500 das bananas que comprei eu faço 500 bananadas. Se eu vendo 250 para você e 250 para um funcionário público, ao preço de duas bananas:

Valor Agregado por mim: 500X3-500=1000
Minha renda= 1000-150(imposto)=850
Meu dispêndio= 500 (no caso anterior era 1000, mas agora só 500 bananas são utilizadas para consumo)

Se o funcionário público ganha 1000, temos:

Valor agregado por ele:0 (como empregado, o valor é contado como agregado pelo seu patrão)
Renda dele= 1000-150=850
Dispêndio dele=: 750

Valor Agregado pro você= 2000
Sua renda=2000-300=1700
Seu dispêndio=750

"Valor Agregado pelo governo"(contagem tradicional)= 1000
Renda do Governo=300+150+150= 600
Dispêndio do Governo= 1000+1000=2000


PIB(pelas três óticas)= 2000+1000+1000=4000 Produto
= 850+850+1700+600=4000 renda
= 500+750+750+2000= 4000 dispêndio

Produto Privado=2000+1000=3000 ou 4000-2000+1000=3000
Renda Privada= 850+850+1700=3400 ou 4000-600=3400
Renda dos trabalhadores do setor privado= 3400-850=2550 (1)
Dispêndio Privado= 500+750+750= 2000 ou 4000-2000=2000
Dispêndio dos trabalhadores do setor privado= 2000-750=1250 (2)

Note que os conceitos 1 e 2 se aproximam do de Rothbard:
(1)= Y-T-Salário do Funcionalismo=Y-T-(G-E-Impostos sobre os ganhos dos funcioários públicos)
(2)= Y-G-Gastos dos FP= Y-G-(G-E-Parte do salário do FP não gasta com ele mesmo)
=Y-2G+E+Parte do salário do FP não gasta com ele mesmo

Não acredito que os conceitos 1 e 2 sejam bons como medida da saúde da economia. Afinal, funcionários públicos também são gente. Mesmo na pior hipótese, o cara que não faz NADA de útil para a sociedade, a produção não é destruída. Ela é transferida. Compare dois casos, para pensarmos:
1-Um ladrão tenta de roubar, e destrói a mercadoria no processo, resultado final: ninguém tem nada.
2-O ladrão consegue, e leva tudo sem dano.
3-Ele não consegue e você e seu bem ficam intactos.

Em termos de justiça 1 E A 2 são indistinats. Mas em termos de bem-estar final, a 1 e a 3 são próximas.

Responder
Gustavo 09/03/2012 03:53:03

corrigindo o post anterior:
o preço da bananada é de três bananas.
no final são três casos.
a situação 2 e a 3 que são semelhantes em termos de bem estar.

Desculpe-me pela prolixidade, aguardo resposta Leandro. Se você se interessar posso expandir para uma economia aberta...

Responder
Leandro 09/03/2012 04:07:19

Prezado Gustavo, desculpe-me. Eu tentei e me esforcei, mas não consegui ter a mínima ideia de onde você quer chegar ou até mesmo do que quer dizer. Não consegui sequer entender se você estava sendo a favor ou contra alguma coisa, ou se estava apenas apresentando uma ideia nova. Se você fosse mais claro e menos prolixo (e isso por confissão própria), seu esforço seria mais bem aproveitado. Não precisa expandir para a economia aberta, não. Se na fechada deu isso, imagina na global.

Abraços!

Responder
Gustavo 09/03/2012 06:35:43

O que eu quero dizer é que a PPR não condiz, nem com o a renda do setor privado,nem com seus gastos, nem com sua produção.\r
A discussão que você teve com o Carlos ( e que teve com o Richard no blog depósito de idéias) foi devida a você olhar para a renda do setor privado, e ele olhar para o dispêndio.\r
Se você me vende 1000 bananas, o dispêndio é de 1000, pois EU levei as 1000 bananas, elas não foram destruídas. Não há nenhuma necessidade de tirar algo daí, como riqueza "irreal".\r
Mas, se o governo leva de você o equivalente a 150 bananas(no nosso caso 50 bananadas) em impostos, sua RENDA será de 850.\r
Eis o motivo da discordância, vocês estavam olhando para coisas diferentes como se fossem iguais. \r
O que eu apresentei nos outros posts foram as grandezas que considero melhores como medidores do bem estar econômico:\r
\r
Produto Privado= Tudo que o setor privado produz\r
Renda Privada= Tudo que as pessoas tem de renda, para dispender onde quiserem\r
Renda dos trabalhadores do setor privado= o que os trabalhadores desse setor tem de renda, para dispender onde quiserem\r
Dispêndio Privado= Tudo que as pessoas consomem e investem por livre e espontânea vontade\r
Dispêndio dos trabalhadores do setor privado= Tudo que os trabalhadores do setor privado consomem e investem por livre e espontânea vontade\r
\r
Mais uma vez, desculpe-me pela prolixidade, eu ia ficar só no segundo post. Mas acabei achando que precisava explicar mais e me animando.\r
\r
Abraço\r
\r

Responder
Leandro 09/03/2012 06:45:58

Ora, mas o PPR em momento algum se dispôs a mensurar nem a renda do setor privado, nem seus gastos e nem sua produção. Como o próprio nome diz, trata-se do 'produto privado remanescente', uma mera estimativa daquilo que o setor privado mantém para si após as depredações do governo.

Neste seu exemplo da banana, o setor privado produziu mil, mas ficou apenas com 850, ou seja, este foi seu 'produto privado remanescente'. Não deveria estar claro isso?

Sigo sem entender seus pontos.

Responder
Gustavo 09/03/2012 15:01:15

Ora, "o que o setor privado mantém para si após as depredações do governo" no meu exemplo foram 1000 bananas. Veja bem:eu LEVEI 1000 bananas para casa, você levou 0. No total o setor privado (eu e você)levou 1000+0=1000. Esse é o ponto.

O que o setor privado mantém para si é, em termos de produtos o que chamei de dispêndio privado (consumo privado+investimento privado). O que ele leva em termos de direitos sobre o dinheiro é o que eu chamo de renda privada, os dois valores podem diferir muito. No exemplo dado acima, minha renda individual era 0 mas meu dispêndio era 1000. Para isso bastou tirar dinheiro do banco, por exemplo.

O PPR não representa o quanto o setor privado mantém para si. A sua confusão se estabelece por que os exemplos tem apenas uma transação. Para explicar bem contas nacionais se utiliza o fluxo circular da renda, por isso meus exemplos tiveram que ser tão extensos, com cada agente conseguindo sua própria renda. Outra coisa que se utiliza é a tabela de recursos e usos (disponível aqui, caso você queira: www.professores.uff.br/claudioconsidera/ ele foi meu professor e também chefe do setor de contas nacionais do IBGE). Te pergunto, no exemplo anterior, qual foi o PIB? E o PPR, pela fórmula?

Responder
Leandro 09/03/2012 16:08:05

Eu realmente concluí que não apenas estamos falando línguas diferentes (sigo sendo incapaz de entender seu raciocínio), como também parece que moramos em dimensões paralelas.

Você diz que "eu LEVEI 1000 bananas para casa, você levou 0. No total o setor privado (eu e você)levou 1000+0=1000. Esse é o ponto."

Eu, hein? Que que isso tem a ver com o quê? Desde quando eu falei qualquer coisa a respeito disso (exemplo, aliás, que foi você quem inventou)?

"O que o setor privado mantém para si é, em termos de produtos o que chamei de dispêndio privado"

Não necessariamente. O dinheiro que o governo confisca, por exemplo, será gasto, e inevitavelmente irá acabar nas mãos do setor privado. Sempre. É só uma questão de tempo. É por isso que não se deve analisar coisas como "renda", "dispêndio" e afins, pois, em termos contábeis, não interessa se os impostos são zero ou 99%. O fato é que tudo o que o governo toma ele gasta. E, ao gastar, o dinheiro volta para o setor privado -- isto, aliás, é o que faz com que o raciocínio puramente keynesiano conclua que gastos governamentais são bons, pois geram um multiplicador e fazem a economia girar. (Aliás, aproveitando o ensejo, note que se o governo incorresse em déficits e cobrisse esse déficit via inflação, os gastos do governo, a renda e o dispêndio de todos iriam aumentar. Daí a importância do PPR).

O PPR se dispõe a analisar as depredações do governo na forma de gastos, pois, como extensamente explicado na parte inicial do artigo, são os gastos do governo (e não os impostos) o que realmente destroçam a economia.

Mas você ficou keynesianamente fixado em coisas como renda e dispêndio, as quais, em termos puramente contábeis, não serão alteradas no final, independentemente de quão altos sejam os impostos e os gastos. Contabilmente, independentemente de quão altos sejam os gastos do governo, o fato é que a renda total e o dispêndio total da economia não são alterados (se o gasto privado diminui, o governamental aumenta, e vice versa). O que é alterado, portanto, é a "qualidade do gasto" -- se os gastos são majoritariamente governamentais ou majoritariamente privados. E as consequências de cada um deles sobre a economia é que deve ser o objetivo da análise.

Responder
Gustavo 10/03/2012 11:21:07


"Eu realmente concluí que não apenas estamos falando línguas diferentes (sigo sendo incapaz de entender seu raciocínio), como também parece que moramos em dimensões paralelas.

Você diz que "eu LEVEI 1000 bananas para casa, você levou 0. No total o setor privado (eu e você)levou 1000+0=1000. Esse é o ponto."

Eu, hein? Que que isso tem a ver com o quê? Desde quando eu falei qualquer coisa a respeito disso (exemplo, aliás, que foi você quem inventou)?"


Ora, o importante não era ver o quanto sobrou para o setor privado após as depredações do governo? Nesse caso ele levou exatamente 1000 bananas (1000 para mim e 0 para você). Não deveria ser esse o PPR? Há necessidade descontar mais alguma coisa?

O dinheiro que o governo confisca NÂO é necessariamente igual ao que ele gasta. De fato, em um período de um ano (você mediu o PPR anualmente) o valor gasto e o confiscado são, em geral, bem diferentes. Essa diferença faz com que renda privada e dispêndio privado sejam também diferentes, é por isso que eu estou "fixado" nesses conceitos. O dispêndio privado é quanto o setor privado consome e investe (o PPR). A renda privada é quanto ele dispõe em dinheiro, para gastar ou emprestar.

Se parece que moramos em dimensões diferentes é porque desconfio que você não sabe como se calcula o PIB, e, por isso, não entende o que se deve descontar dele para descobrir o quanto sobra para o setor privado. Tente ler o post em que eu calculei o PIB para uma economia mais complexa, e você vai notar a diferença entre renda e dispêndio e a relevância dela. Além de entender por que o dispêndio privado representa o quanto sobrou para o setor privado (ou seja, é conceitualmente o que o PPR tenta calcular). Se você sabe como calcular o PIB, me responda:

Se você produz e me vende 1000 bananas, a um real cada(vejamos se a introdução de moeda facilita pra você). E o governo recolhe 150 em impostos de você. Essas são as únicas transações dessa economia no ano.

Qual o PIB (pelas três óticas)?
Qual o PPR?

Se você se esquivar novamente de responder a última pergunta terei que concluir que você não sabe calcular o PIB nem na situação mais simples possível, e abandonarei o debate decepcionado com um dos meus articulistas favoritos do IMB. Não faça isso comigo, por favor.

Responder
Leandro 10/03/2012 14:28:17

De fato, as dimensões não são apenas paralelas; são intergalácticas.

Constatei que, mesmo após o texto principal, e mesmo após todos os comentários aqui, fracassei miseravelmente em fazê-lo entender que o PPR não está preocupado com carga tributária e impostos em geral, mas sim com os gastos do governo -- o qual é uma variável estatisticamente bem definida e divulgada anualmente; logo, não permite achismos.

Eu realmente não consigo ser mais direto ou didático do que isso. Logo, só me resta a enfadonha alternativa de repetir insistentemente a mesma coisa: O PPR não está preocupado com carga tributária mas sim com os gastos do governo. O PPR não está preocupado com carga tributária mas sim com os gastos do governo.

Deu?

Notei que você desconsiderou por completo a segunda parte da minha última postagem acima, que falava justamente sobre isso, e preferiu se concentrar na primeira parte, sobre a qual não há desavença. De novo: para "ver o quanto sobrou para o setor privado após as depredações do governo", você não calcula impostos, mas sim gastos do governo. E isso justamente para levar em conta os déficits e as impressões de dinheiro, coisa que a carga tributária não computa.

Logo, você está errado em dizer que o PPR é "o quanto o setor privado consome e investe"; o PPR não é isto. Isto já é calculado pelo PIB; não precisa de PPR para isso. O PPR é apenas uma medida de como seria a economia sem os gastos do governo. Gastos do governo afetam, direta e indiretamente, o consumo e o investimento do setor privado. Por isso ele deve ser retirado da equação.

De novo, não dá pra ser mais claro do que isso.

E você também parece não ter entendido que o PPR não faz absolutamente nenhuma alteração nos cálculos do PIB, como você parece ter entendido. Ele, aliás, sequer recalcula o PIB. Tudo o que o PPR faz é pegar o valor do PIB e dele subtrair os gastos do governo duas vezes: a primeira apenas para retirar a variável G da equação. E a segunda para calcular toda a influência dos gastos do governo sobre a economia. Este valor resultante será o PPR. Este valor resultante será o produto privado remanescente. Note que em momento algum se falou de impostos e em momento algum se inventou novas maneiras de se calcular impostos. O PPR, em suma, não faz absolutamente nenhuma pirotecnia com a equação de cálculo do PIB.

Eu realmente não conseguirei ser mais claro do que isso.

Você pode, obviamente, discordar da teoria (que não é minha, como disse no texto; apenas a divulguei. Veja a original aqui, com idêntico exemplo numérico), mas, se quiser fazê-lo, ao menos entenda o básico que ela está propondo. Ela está falando de maçãs e você está discutindo jabuticabas, sobre as quais não há nenhuma controvérsia.

Logo, dado que você continua falando sobre algo que sequer está no debate, e sobre o qual eu jamais expressei qualquer discórdia, quem de fato tem de abandonar o debate sou eu.

Abraços!

P.S.: Ah, sim, sobre o seu "desafio": impossível calcular o PIB e o PPR, dado que os gastos do governo não foram especificados. Entendeu a encrenca? Mas, para não lhe deixar sem resposta, se o consumo privado (C) foi 1.000 e os gastos do governo (G) foram de 150, então o PIB foi de 1.150 e o PPR foi de 850. Se você discorda, vá falar com os estatísticos e contabilistas sociais, e não comigo.

Se quiser comentar de novo, eu imploro, de joelhos e com vela acesa, entenda este básico antes. Não me tire energias discutindo algo que não está em jogo e que não altera em absoluto o que está sendo dito.

Responder
Cesar 27/03/2012 10:58:49

Caro Leandro,
Mais uma excelente aula de economia. Parabenizar este artigo é o mesmo que reconhecer o óbvio.
Desculpe em insistir nesta questao, pois mesmos os comentarios nao foram suficientes para esclarecer minha duvida, qual seja: As depesas da uniao ja nao estao contemplada nos "G" (gastos do governo) no calculo do PIB?(Veja que quero compreender melhor a dupla tungada do governo)
Uma outra questao! posso entender o PPR como a capacidade de geracao de poupanca de uma sociedade?
Grato pela atencao !

Responder
Leandro 27/03/2012 11:54:24

Prezado Cesar, muito obrigado pela proficuidade dos elogios.

Sim, os gastos do governo estão incluídos no PIB. E é justamente por isso que eles são subtraídos do valor do PIB: afinal, queremos retirar este valor da equação.

Portanto, do valor original do PIB (divulgado pelo IBGE) subtraímos os gastos do governo duas vezes: a primeira para tirar o G da equação; e a segunda para computar toda a influência deletéria do G sobre a economia. Quanto maior for o valor do G, menor será o PPR. A equação, portanto, é PIB - G - G = PPR.

(No artigo, subtraí primeiro o G fornecido pelo IBGE e depois as "Despesas da União" apenas para ser mais realista; porém, para uma abordagem mais corriqueira, você pode apenas subtrair duas vezes o G fornecido pelo IBGE).

E a melhor definição de PPR é "tudo o que foi produzido pelo setor privado e que não foi consumido pelo governo"; ou "tudo o que sobrou para o setor privado após as depredações do governo".

Fora isso, eu realmente não tenho como ser mais claro do que isso. Caso ainda este obscuro, pediria para que você tivesse a bondade de reler o texto novamente, mais especificamente a parte que vai até o primeiro gráfico.

Grande abraço!

Responder
Cesar 27/03/2012 15:43:06

Leandro,
Grato pela explicacao. Apos reler exaustivamente seu artigo e refletir acerca da nota de rodapé numero 21 do capitulo 9 do livro America´s Great Depression (Murray Rothbard)compreendi por completo a "dupla subtracao". No entanto, ficou apenas uma pequena dúvida: As estatais do governo nao geram riqueza? Da mesma maneira, os investimentos produtivos do governo nao teriam o mesmo efeito sobe a economia que o investimento privado?
Grato pela disponibilidade

Responder
Leandro 28/03/2012 01:06:07

Investimentos do governo serem produtivo e gerarem riqueza é uma impossibilidade econômica, prezado Cesar (embora, indubitavelmente, gerem muita riqueza para as empreiteiras que os realizam, sem dúvida).

Há dois artigos específicos e completos sobre isso:

Gastos governamentais sempre são ruins para a economia

Por que o governo não é capaz de ofertar serviços eficientemente

Grande abraço!

Responder
Pedro Evandro Montini 12/07/2013 19:41:34

Leandro. Gostei tanto deste artigo que recomendo que você, se possível, faça a "conversão" do PIB em PPR dos últimos anos e também o dos próximos para criarmos, não só uma série histórica, mas também um índice que possa ser utilizado como alternativa séria à metodoligia atual com vista ao melhor entendimento econômico.

Também gostaria de usá-lo para divulgação em outros meios e com isso, quem sabe, torná-lo mais conhecido por parte do grande público.

Obrigado!

Responder
Rafael 12/08/2013 21:52:36

Comecei a ler os artigos nesse site recentemente e estou realmente impressionado. Há uma lógica simples e objetiva por trás da maior parte das análises e esse artigo é um exemplo espetacular disso. Obrigado por essas aulas de economia. Apesar de eu não concordar com tudo que há por aqui, é inegável o valor de muitos dos conceitos expostos. Obrigado mesmo.

PS: também acho que valeria a pena criar uma série histórica com os dados anuais, atualizando esse artigo.

Responder
Trevor Reznik 08/11/2013 14:26:33

Artigo excelente! Parabéns, Leandro! Merece um up.

Achei muito interessante esta análise utilizando o PPR. Por aqui no IMB tem outros artigos fazendo esta análise da economia brasileira com dados mais recentes (pós-2009)?

Conhece algum artigo (pode ser em inglês) que utilize o PPR como indicador para analisar outras economias? (Tenho interesse maior por Chile, Suíça, Hong Kong e Singapura).

Responder
joao 26/11/2013 23:49:17

Leandro, parabéns pelo artigo! Vou reproduzir e passar para os amigos.

Imagino que esteja muito ocupado, mas então você pode me dizer onde eu obtenho os dados para recalcular o PPR atualizado? Por curiosidade mesmo..


Responder
Emerson Luis, um Psicologo 12/05/2014 17:30:37


O governo Lula foi beneficiado pelo crescimento da China e crise nos países ricos, enquanto o governo FHC enfrentou as crises russa e mexicana.

Comemorar o crescimento do PIB é tão keynesiano quanto comemorar o aumento do consumo no Natal.

* * *

Responder
Hugo 23/05/2014 18:09:31

Olá Leandro!

Na fórmula do PPR,assim como o PIB,também deduz o valor total das importações,e não seria melhor também considerar,por exemplo,uma desagregação das importações de consumo e as de bens de capital,e somar essa última no PPR,já que elas realmente têm o efeito de contribuírem pro aumento da capacidade produtiva da economia?

Responder
Leandro 23/05/2014 18:21:10

O problema é que, se algo foi importado, então ele não foi produzido aqui dentro. E a função do PIB, como o próprio nome diz, é mensurar o produto interno. O PPR se propõe a fazer a mesma coisa, apenas excluindo tudo o que foi apropriado pelo governo.

Eu entendi o seu raciocínio e concordo totalmente com a lógica dela (como, aliás, comentei nos primeiros parágrafos do artigo), mas implementá-lo não apenas seria praticamente impossível (eu mesmo não sei onde achar esses dados), como ainda desvirtuaria bastante a base comparativa entre PPR e PIB. O propósito do PPR é apenas o de ser um PIB mais realista; fazer isso que você sugere implicaria acrescentar uma variável nova à equação do PPR, variável essa que a equação do PIB (que é a equação original) desconsidera.

Responder
Giovani 05/08/2014 15:27:50

Excelente artigo!!!

Gostaria de saber quais são as outras falácias, além do PIB, que nos contam.

Por enquanto aprendi sobre as seguintes falácias (resumindo em pouquíssimas palavras):

... do PIB, que é um instrumento estatístico que atua a favor do governo e pode ser "maquiado" devido a políticas keynesianas do governo;

... da Inflação (de preços), que é apenas a consequência da inflação monetária;

... da deflação, que ao contrário do que pregam não significa necessariamente estagnação econômica e redução do consumo;

... do intervencionismo, que serve apenas para cartelizar setores da economia;

... da taxa de câmbio, que desvalorizar a moeda beneficia apenas alguns setores exportadores em detrimento de toda a população;

... políticas regulatórias como "salário mínimo", que prejudicam trabalhadores menos qualificados, dificultando sua entrada no mercado de trabalho;

... quais outra? E por favor, me corrijam se eu resumi de forma errada os tópicos acima.

Obrigado

Responder
Frederico Miranda 25/11/2014 01:28:00

Estou comentando para colocar este artigo no topo dos "Últimos comentários".

Fiquei um pouco intrigado ao ler este outro artigo, pois anteriormente sérias críticas ao uso do PIB como medida da saúde da economia foram utilizados. Aquele outro artigo é a crítica que o Cristovam Buarque fez no plenário. Imagino que, ao invés de começar com uma crítica densa (e bem acertada) como este artigo faz, decidiram uma dose leve para o leitor casual.

É minha humilde opinião, mas acredito que uma ligação entre aquele artigo e este pode ser útil.


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