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A utopia política é o ópio dos intelectuais

A ideia moderna do intelectual engajado e fazendo parte de um grupo especificamente identificado nasceu na França na época do Caso Dreyfus. Sem compor a estrutura de poder de sua sociedade, ele emitia suas opiniões supostamente em nome dos mais elevados princípios éticos e intelectuais, e não de acordo com as verdades oficiais, nos conta Eric Cahm em seu livro The Dreyfus Affair in French Society and Politics.

Durante o século XIX, os intelectuais começaram a entrar e a integrar as instituições que compunham a estrutura de poder exercendo as funções de especialistas e professores. E foi uma parcela desses intelectuais que alimentou e difundiu diversos tipos de utopias apresentadas de forma estruturada, desestruturada ou simplesmente delirantes.

A utopia não é uma exclusividade dos intelectuais, mas o pensamento político utópico e a sua tentativa de realização histórica são uma espécie de monopólio natural de uma numerosa e influente parcela desse grupo.

Suas ideias políticas utópicas estruturam desde a concepção do poder centralizado até a formulação das decisões e ações necessárias para submeter os membros da sociedade onde se pretende desenvolver um projeto de engenharia social com o objetivo de redimir ou aperfeiçoar a condição humana segundo uma política de perfeição e rumo a um futuro radiante e livre dos sofrimentos, restrições e carências do presente e do passado.

Talvez o exemplo histórico mais grandioso da tentativa de implementação de uma utopia política baseada numa política de perfeição tenha sido o período do Terror levado a cabo pelos Jacobinos durante a Revolução Francesa. O estado foi estruturado de forma a permitir que uma determinada concepção de poder centralizado se desenvolvesse e se deslocasse de forma permanente para manter a revolução em progresso e impedisse as eventuais reações.

Um poder móvel é sempre mais difícil de se combater do que um poder estático, cuja manutenção e equilíbrio acabam por ser seu calcanhar de Aquiles.

A utopia jacobina engoliu seus próceres porque é próprio do sistema se retroalimentar mediante a violação ou eliminação sistemática também de seus agentes. E é interessante notar, obviamente com a devida distância histórica e com o cotejo analítico dos diversos relatos e estudos realizados, a grandiosa ingenuidade dos utópicos ao ambicionar ter sob controle, desde o início, toda a complexa cadeia não-linear de eventos suscitados pelas profundas mudanças morais, sociais, políticas, econômicas impingidas.

Os raros líderes utópicos que não foram tragados pela praxis do movimento deram sorte ou rapidamente perceberam como se movimentar nas entranhas da besta que ajudaram a criar.

A ingenuidade de Robespierre, um intelectual e homem de ação, podia ser dimensionada pela sua ambição desmedida. De advogado pacifista, passando por revolucionário inflamado até se auto coroar líder do Ser Supremo, Robespierre perdeu o controle bem antes de perder a cabeça sob uma lâmina afiada.

Por mais que se apresentem apenas como homens de ideias, e assim expõem um insolúvel oximoro, uma parcela numerosa de intelectuais políticos e econômicos constroem mundos utópicos na expectativa de vê-los instituídos e repete a utopia de Robespierre, mesmo que desconheçam, ignorem ou rejeitem a herança parente.

O sofrimento, os males, as violências que integram a sua política de perfeição não são consequências não-intencionais de ideias virtuosas, mas a estrutura interna de um método de ação embalado por uma teoria que muitas vezes é apresentada como uma simpática solução para problemas sérios e reais. Solucionar tais problemas não é a finalidade para esses intelectuais, de esquerda ou não, que buscam a implementação da utopia para substituir os antigos pelos novos problemas, nunca admitidos como tais.

Há, de fato, uma operação para deslocar completamente o bom senso e o senso comum, para soterrar a tradição em nome de uma novidade progressista que conduzirá a humanidade a um excêntrico paraíso terreno. É flagrante a definição de um infame sistema de castas baseado na superioridade moral autoatribuída. O novo sistema utópico progressista é criado para operar sob o comando de uma elite superior composta por eles.

A tão propalada ideia de igualdade é completamente fraudulenta porque estabelece, desde já, dois níveis distintos de seres humanos, um superior e outro inferior. Este deve reconhecer sua inferioridade e transferir, como queria Rousseau, sua vontade individual para a vontade coletiva, um estratagema para diluir o poder e os direitos do indivíduo de forma a redimensionar hiperbolicamente o poder centralizado da elite integrada por aqueles intelectuais.

Os filhos de Rosseau também são netos de Robespierre; e a utopia política, o ópio dos intelectuais.

O ópio dos intelectuais

O termo "o ópio dos intelectuais" evoca dois outros: a primeira, de autoria de Raymond Aron, de que o ópio dos intelectuais era o marxismo[1]; a segunda, escrita por Karl Marx, dizia que a religião era o ópio do povo.[2]

Antes, porém, é necessário fazer um enquadramento teórico. Os estudiosos do fenômeno não chegaram a um consenso para estabelecer um conceito definitivo para a utopia. As definições utilizadas dependiam dos objetivos específicos de cada estudo. Eles concordavam, porém, que qualquer conceito deveria conter pelo menos um destes três elementos: forma, conteúdo e função. A posição que considero mais adequada à interpretação da utopia política, que classifico como revolucionária, é a de Ruth Levitas, para quem a melhor definição deveria ser capaz de incorporar forma, conteúdo e função.[3]

Há uma diferença entre utopia política revolucionária e utopia literária: o fato de que a versão revolucionária da utopia política não apenas descreve e prescreve uma sociedade ideal e perfeita, mas tem um projeto de poder para realizá-la e empreende todos os esforços nesse sentido.

Uma utopia literária não pretende nada além de ser uma descrição detalhada de uma sociedade ou de um mundo idealizado, e a sua forma e função praticamente definem um fim em si mesmos. Romances utópicos podem ser usados por utópicos revolucionários como base para suas ambições, mas não foram realizados, muito embora possam ter sido idealizados, com tal finalidade.

Uma utopia política revolucionária, por outro lado, elabora essa prescrição descritiva, que pode ser explicitamente detalhada ou estrategicamente pulverizada ou diluída de forma a esconder seus reais objetivos, como um plano de instituição de um tipo de regime controlado por uma determinada elite que se apresenta como a única habilitada a empreender aquele projeto de perfeição e a conduzir a sociedade rumo a um futuro ideal.

O filósofo húngaro Aurel Kolnai afirmou que a utopia era não apenas o perfeccionismo, mas, concomitantemente, a impostura do ideal de perfeição. Segundo Kolnai, o mundo utópico constituía, na verdade, um campo simplificado de perfeição no qual a sociedade era um organismo harmônico e os indivíduos eram classificados segundo uma hierarquia cientificamente organizada.[4] 

Karl Marx, por exemplo, tentava esconder o caráter utópico de seu pensamento político sob um verniz científico (o cientificismo versus o utopismo de Marx é discussão para outro artigo).

Intelectuais à esquerda e à direita manifestaram suas utopias políticas ao longo da história de forma mais ou menos articulada e esquemática. Os bem-sucedidos foram justamente aqueles que, unidos a algum movimento ou grupo, conseguiram que suas ideias fossem usadas como programas de um projeto de poder.

Muitos desses intelectuais utópicos sabiam exatamente quais seriam as consequências intencionais de suas ideias e assumiam plenamente a responsabilidade pelas consequências não-intencionais. Alguns poucos, mesmo que professassem algum tipo de boa-fé, preferiam ignorar os resultados daquilo que projetavam para toda uma sociedade em nome de um suposto bem comum, que desconsiderava os modos de vida e os indivíduos que a compunham.

Ambos combinavam um sentido de superioridade moral com o monopólio da virtude. Estavam tão inebriados com a própria bondade e excitados com o sentimento de missão a ser cumprida que fariam qualquer coisa para realizar o projeto de perfeição.

O projeto de perfeição

Tal projeto de perfeição política é alicerçado numa utopia revolucionária que sustenta um projeto de construção futura de uma sociedade ideal e perfeita. Os utópicos consideram legítimo, sob as perspectivas política e moral, utilizar todos os meios e recursos necessários, incluindo a violência, para realizar este projeto. Só assim, acreditam, será possível atingir a plenitude da felicidade, do bem-estar, do progresso, da satisfação dos desejos, e o fim de todos os sofrimentos e necessidades insatisfeitas, ou seja, um estado ideal de perfeição.

A crença de que a política é o instrumento mais adequado para perseguir o estágio ideal de perfeição, e assim com poder para redimir a natureza humana de suas falhas que inviabilizariam o projeto, parte da hipótese utópica segundo a qual todas as questões genuínas (como a busca pela sociedade perfeita do futuro) têm apenas uma resposta correta.

Isaiah Berlin observou que o argumento utópico se desenvolvia no sentido de que a inexistência de uma única resposta correta significaria que todas as questões apresentadas não eram genuínas. De forma complementar, era fundamental que todos os fundamentos da resposta correta fossem verdadeiros porque todas as outras respostas possíveis se baseavam numa falsidade.[5]

Essa estrutura de pensamento permite converter a utopia política em um modelo teórico ficticiamente perfeito que não admite contestação porque qualquer crítica aos seus fundamentos é refutada com a acusação de que o crítico não formulou uma questão genuína e, por isso, não alcançaria a única resposta correta existente.

A defesa da ideia não se dá mediante a força intrínseca dos seus fundamentos, mas por uma forma peculiar de reacionarismo, que tenta destruir seus críticos mediante a desqualificação sistemática dos argumentos contrários, não pelo que apresentam, mas sim pelo que não expõem, em resumo, pela acusação da inexistência de uma questão genuína.

A ideia do tempo na utopia política é bastante peculiar e importante. Quando menciono que o projeto de perfeição é um projeto de futuro é porque a promessa faz parte da estrutura retórica e da necessidade de manter o objetivo final em progresso, e não efetivamente sendo realizado, mesmo que gradualmente. Ao ver a si mesma como a realização da perfeição, a utopia política funciona como se sua existência como ideia prescindisse de uma realização material que efetivamente trouxesse a felicidade aos indivíduos.

Realizar o projeto extinguiria a utopia e, por sua vez, aboliria aquele tipo de poder extremamente concentrado da elite política revolucionária. Ou seja, realizar a utopia significaria o seu próprio fim e, por consequência, o fim dos seus artífices. E não podemos esperar que os agentes da utopia atuem de forma consciente para extinguir aquilo que lhes garante e preserva a existência.

A permanência no tempo da promessa utópica permite que o poder central tenha controle sobre os acontecimentos, direcionando-os, e, principalmente, se mantenha no comando de todos os procedimentos e processos desse work in progress.  

Em sua tese de doutorado sobre a política de perfeição, na qual estuda Isaiah Berlin e Edmund Burke, o professor e colunista da Folha de S. Paulo, João Pereira Coutinho, enquadra a utopia como uma realidade estática que prescinde do futuro porque "ela própria, na sua intocável perfeição, concilia o passado, o presente e o futuro. A utopia não deseja o melhor possível porque ela própria é, desde logo, o melhor e o possível".[6]

Esse tipo de mentalidade se retroalimenta na sua não-realização, o que estabelece, finalmente, um paradoxo extremo: a retórica política utópica é fundamentada na transformação prática e efetiva do mundo de forma a maximizar e distribuir os benefícios e privilégios a cada um dos indivíduos, mas a sua realização, porém, converteria a utopia em qualquer outra coisa que não ela própria, o que faria ruir os fundamentos estruturais intelectuais e expor aquilo o que originariamente é: um poderoso instrumento de ilusão, fraude e falsificação.



[1] Raymond Aron. "O Ópio dos Intelectuais". Brasília: Editora da UnB, 1980.

[2] Karl Marx. Introduction in "A Contribution to the Critique of Hegel's Philosophy of Right". Publicado no jornal Deutsch-Französische Jahrbücher em 7 de fevereiro de 1844.

[3] Ruth Levitas. "The Concept of Utopia", 179.

[4] Aurel Kolnai. "Privilege and Liberty and Other Essays in Political Philosophy", 124.

[5] Isaiah Berlin, "The Decline of Utopian Ideas in the West", in The Crooked Timber of Humanity, 24.

[6] João Pereira Coutinho, "Política e Perfeição: Um Estudo sobre o Pluralismo de Edmund Burke e Isaiah Berlin", (Tese de Doutoramento, Universidade Católica Portuguesa, 2008), 272.


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autor

Bruno Garschagen
é autor do best seller "Pare de Acreditar no Governo - Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado" (Editora Record). É graduado em Direito, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), professor de Ciência Política, tradutor, blogger (www.brunogarschagen.com), podcaster do Instituto Mises Brasil e membro do conselho editorial da MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia.


  • José Ricardo das Chagas Monteiro  22/03/2015 14:22
    Bruno, muito claro, moto contínuo na, ou da, mentalidade revolucionária .
    Perfeito, como sói acontecer.
  • Senhor A  22/03/2015 14:46
    O Sr. Garschagen nos mostra, além de importante mensagem, uma gama de conhecimentos. Ótimo artigo!

    É interessante a sanha maldita desse tipo de "intelectual", que deseja a "revolução", porém, para que seja perfeita, o caminho rumo ao paraíso deve ser guiado por sua pessoa, pois só ela é capaz de entender todas as curvas e identificar todos os buracos. É de um egocentrismo abominável!

  • Silvio  22/03/2015 15:20
    Esse artigo me fez lembrar dessa exposição do Olavo de Carvalho: A estrutura da mentalidade revolucionária.
  • Gustavo  22/03/2015 15:52
    Olá IMB, estou com uma duvida grande a respeito da economia brasileira que não foi sanada com nenhum artigo do IMB que consegui achar. A minha dúvida é: Como que a intervenção governamental na década de 30 feita por Getúlio Vargas, com a sua política que acabou por queimar milhares grãos de café, conseguiu tirar o Brasil da recessão de 1930? É verdade que essa intervenção foi um exceção? O governo realmente conseguiu por meio de uma intervenção tirar o Brasil da crise financeira mundial? Ou tudo isso é uma falácia? Ouvi isso na minha aula de economia e desde então fiquei com essa dúvida, não conseguindo conceber se isso pode ser mesmo verdade após ler livros e artigos deste site.
    Aguardo respostas,

    Grato.
  • Lima  22/03/2015 16:24
    Não é possível que, em pleno século XXI ainda haja quem acredite que queimar café cura recessão e gera prosperidade...

    Em primeiro lugar, quem disse que o Brasil estava em recessão? E quem disse que a queima de café curou a recessão?

    Queimar café é uma medida que serve apenas para garantir lucros artificialmente altos para os produtores de café. E só. Para o resto da população, há apenas aumento de preços.

    Se o governo brasileiro resolvesse queimar carros, as montadoras adorariam. Mas a população ficaria apenas com alta de preços. Como isso cura recessão?

    O que aconteceu é que, com a imposição da tarifa Smoot-Hawley, o comércio internacional entrou em colapso. Com a queima de cafés, o governo garantiu que o setor cafeeiro, majoritariamente exportador, pudesse revender todo o seu estoque no mercado interno, e a lucros artificialmente altos. Toda a população ficou apenas com o aumento de preços; já o setor cafeeiro usufruiu uma reserva de mercado a preços artificialmente altos. Ótimo para eles (em toda intervenção, sempre há um grupo de interesse ganhando à custa de população).

    Agora, dizer que aumentar artificialmente preços gera crescimento econômico, então o Brasil da década de 80 (preços altos e economia fechada) era pra ter sido um potência.
  • Gustavo  22/03/2015 17:19
    Entendo, mas esse raciocino vai mais além...

    A idéia era que com o governo comprando o café dos produtores, "estabilizaria" a receita dos produtores de café (com o alto preço artificial no mercado interno, e o dinheiro do governo entrando nos bolsos no cafeicultores). As produtoras ao invés de demitir seus empregados em massa por não conseguir mais exportar seu café, agora continuariam a empregar pessoas (pessoas essas que por meio de impostos já estariam comprando o café indiretamente) e fazer com que a economia girasse. Com a economia andando e a queda de preços das máquinas na Europa, o Brasil começou a importar maquinaria e daí surgiu uma industrialização no Brasil. Isso confere? Or this is just a big bullshit
  • Sandro  22/03/2015 19:05
    Gustavo, você está incorrendo naquele clássico erro de analisar o que se vê e ignorar o que não se vê.

    Você viu as ajudas que o governo deu aos produtores de café. O que você não viu foram as consequências dessa ajuda para todas as pessoas que não eram do setor cafeeiro, que foram as que realmente pagaram a conta.

    Você viu a bonança para os produtores de café, mas você não viu as prateleiras dos supermercados vazias e a inexistência de todos os produtos que teriam sido criados caso o governo não tivesse confiscado o dinheiro desse setor produtivo para ajudar o setor cafeeiro.

    Outra coisa: não houve importação de maquinário barato da Europa (se tivesse havido, seria menos mau). O próprio Getúlio Vargas e os ideólogos que o bajulam até hoje se vangloriam dessa política de substituição de importações. As importações só voltaram em 1946.

    O que você não viu nessa política foi toda a modernização que não ocorreu no nosso parque industrial, pois a política era só para fazer café. Podemos, inclusive, rastrear o nosso atraso modernizacional a essa política varguista.
  • Sérgio   22/03/2015 19:07
    Um ótimo exemplo prático desse "o que se vê e o que não se vê" é a política governamental voltada para o setor naval brasileiro.

    Veja a pergunta do Raphael Vianna e as respostas do Leandro e do Thiago na seção de comentários deste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1965
  • Emerson Luís  06/04/2015 19:27

    "Não é possível que, em pleno século XXI ainda haja quem acredite que queimar café cura recessão e gera prosperidade..."

    Bom, há certo elemento de verdade: um cafezinho ajuda a superar uma ressaca...

    Agora, falando sério:

    Ideias têm consequências; ideias utópicas têm consequências catastróficas.

    * * *
  • Marcelo Simoes Nunes  22/03/2015 21:27
    Gustavo, até onde sei a política de queimar café começou muito antes, no final do século dezenove. Para entender o significado dessa política é preciso primeiro contextualizar historicamente o assunto. Até 1930 e até mesmo após essa data o Brasil dependia quase que integralmente das exportações de café para sobreviver. O Brasil de então produzia quase que a totalidade do café existente no mundo. A produção de café então concentrava-se em Minas e São Paulo, regiões vizinhas e de clima semelhante. A produção de café variava de ano a ano, conforme o ciclo próprio da cultura (a produção do café não irrigado de então possuía uma produção praticamente bi anual, isto é, num ano produzia muito, no seguinte quase nada), conforme o clima e conforme o plantio, que crescia ano a ano. Então houve vários anos de superprodução e, cada vez que isso acontecia, as finanças do país se viam afetadas. É claro que as intervenções do governo afetam as pessoas desigualmente dependendo de sua inserção econômica em relação ao objeto da intervenção. Porém, em todo esse período em que houve vários anos de queima de café, a intervenção governamental era inevitável, pois o pais dependia totalmente do produto, e os benefícios disso atingiam praticamente toda a sociedade e o próprio governo, exatamente porque o país vivia do café. É muito diferente do que acontece hoje. Por exemplo, quando o governo desonera a linha branca beneficia os compradores de geladeira e seus fabricantes, uma parcela pequena da população. Na época isso significava a falência do próprio governo. Não sei dizer se na época da quebra da bolsa americana o Brasil estava com uma superprodução de café, mas o café era uma commodity com preço internacional. A recessão americana logo se espalha para o mundo todo que entra em recessão. Com isso as compras do exterior são reduzidas substancialmente e o preço do cafe desaba no mercado internacional, chegando mesmo a não ter sequer cotação. Esse processo em si já causaria o efeito de uma superprodução de café ao inverso. Não havia demanda do produto e, com seu preço despencando, sobrava café, independentemente de haver superprodução. Acrescente-se a isso duas observações. O Café não é um produto industrial. Não era um produto produzido por quatro ou cinco produtores, mas por milhares de produtores. Você deve saber, Gustavo, que os produtos agrícolas, ao contrário de muitos dos industriais, funcionam numa perfeita economia de livre mercado, tão livre que o produtor sequer põe o preço em seu produto. Antes, quando o quer vender, pergunta ao mercado quanto lhe paga. Acrescente-se também que em 1930, com o desabamento do preço do café, a cafeicultura foi a falência. E pior, na época, todo o custeio da produção era financiado pelo governo. Então dos produtores estavam falidos e ainda deviam enorme quantia ao governo. Não restava outra alternativa diferente da adotada. E não é verdade que as medidas beneficiaram apenas os produtores, como também não é verdade que a queima do produto não tenha elevado seu preço no mercado internacional. O consumo interno na época era irrelevante, não era nem um centésimo do que era produzido. Espero ter ajudado.
  • Gustavo  23/03/2015 04:25
    Obrigado, as respostas ajudaram bastante a respeito dessa minha dúvida.

    Só que agora me pergunto: Então por que e como que o Brasil começou realmente a se industrializar?

    Desde já agradeço.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  22/03/2015 17:44
    As doutrinas esquerdistas e seus defensores são simplesmente ridículos. Acreditar que é possível reformar o ser humano de acordo com as definições distorcidas e preconceituosas do esquerdista, sobre o que é certo ou errado, é de um mau caratismo próprio de ditadores.
  • Dom Comerciante  22/03/2015 18:55
    O construtivismo dos progressistas é espantoso, eles já conseguiram enraizar o polilogismo e o relativismo tão bem na filosofia do statist quanto fizeram na política, já relegaram o livre mercado ao mais completo vilipêndio e agora só falta despertarem completamente a "consciência política" da população nos principais países, matando qualquer resquício de legalismo ou noção de direitos naturais que ainda exista em algum lugar. Após este último estágio de "zumbificação" em massa dos povos, eles degradarão a humanidade a um ponto em que somente os que não esqueceram do que se trata a verdadeira liberdade poderão emergir dessa podridão ideologizada de baixo para cima e se seccionarão dessa estatolatria vigente.
  • Pedro  23/03/2015 03:58
    Na obra INTELLECTUALS, de autoria do grande Paul Johson (não sei se ha edição brasileira) são analisados os intelectuais de esquerda responsáveis por erguer os fundamentos do pensamento totalitário da esquerda, ou por disseminar tal pensamento. A obra é maravilhosa e nos mostra a contradição das posições desses intelectuais vis a vis àquilo que era a praxis deles. A obra é uma radiografia profunda da vida desses intelectuais, como Rosseau, Marx, Lenin, Stalin et magna cocomitante caterva. Para quem quer entender as raízes do pensamento de esquerda e conhecer as entranhas dos seus autores e a vilania que os alimentava, a obra é autamente recomendável, imperdível mesmo.
  • Alcântara  23/03/2015 14:28
    O livro eu não achei para baixar, mas achei um scan do capítulo referente ao Karl Marx (ah sim, em português): https://docs.google.com/file/d/0B3tnrpeEgUrcZGY5ZGYxYjItNTU1Yy00ZDVlLWI0OTctZWFkMWZlZDIxOTNl/edit?ddrp=1&pli=1&hl=en#

    OBS: no scan inverteram as duas primeiras folhas mas, de resto, o capítulo está ok.
  • Anomalus  23/03/2015 13:23
    O autor errou ao dizer que intelectuais de direita são utópicos. A direita nunca poderia ser utópica, já que se trata de conservar algo que já existe.
  • Douglas  23/03/2015 14:58
    Verdade.
  • anomala  23/03/2015 17:17
    Lógico que direita é utópica, principalmente em se tratando da nova direita, que busca manter os valores da família ao mesmo tempo em que defende, em maior ou menor grau, o estado de bem-estar social (duas políticas antagônicas).

    Isso sem falar na suas políticas de imposição de valores que não solucionam nada e só geram novos problemas, como por exemplo, a política de criminalização das drogas.
  • Douglas  24/03/2015 11:27
    Mas isso não é utopia, isso é realizável na prática e existe no mundo real. Tanto que na maioria dos países do mundo, criticados por esse próprio site, isso continua existindo (criminalização das drogas e políticas de imposição de valores).

    >Direita
    >defender estado de bem estar social

    Escolha um e pare de atacar espantalhos.
  • anônimo  25/03/2015 00:06
    '>Direita
    >defender estado de bem estar social

    Escolha um e pare de atacar espantalhos.'

    Esse rótulo 'direita' não significa nada, dentro dessa tralha tem as coisas mais contraditórias e sem sentido do mundo, gente que diz proteger tua liberdade inventando guerras, algum welfare state, etc
    Foda-se direita, eu sou pelo livre mercado.
  • Douglas  25/03/2015 03:45
    anônimo, você está utilizando a falácia Red Herring, ao trazer material irrelevante ao ponto em discussão para desviar do argumento e do assunto original.

    O histórico da "Direita" é sim de entrar em guerras, proibir drogas, a população e o governo serem conservadores cristãos, mas JAMAIS (com Raríssimas exceções) ser defensor de altos impostos e de Welfare State.

    Abraços.
  • anônimo  25/03/2015 12:55
    "O histórico da "Direita" é sim de entrar em guerras"

    Opa, isso é um mito.

    Tanto esquerda quanto direita tem histórico pró-guerra.

    Por exemplo, nos EUA, quem entrou na 2°GM, interviu na guerra da Coréia e no Vietnam foram presidentes democratas. O próprio Obama interviu em mais países do que Bush. Além de manter as invasões do seu antecessor, invadiu a Líbia, e só não invadiu mais países por falta de apoio político.

    Em termos mundiais a esquerda está tão a associado à guerra quanto a direita. Por exemplo, a URSS invadiu mais países do que os EUA.
  • anomala  25/03/2015 12:23
    "Escolha um e pare de atacar espantalhos."

    Que mundo você vive?

    O que mais tem hoje é pessoas da direita que aceitam ou defendem o estado de bem-estar social.

    Não importa se o rótulo esteja confuso, existe e acabou.

    Por isso concordo com o anonimo, foda-se os termos eu estou a favor do livre-mercado.
  • Pedro  23/03/2015 17:32
    Há também uma obra excepcional, escrita por Yuval Levin, cujo título em Inglês é "THE GREAT DEBATE - Edmund Burke, Thomas Paine, and the Birth of Right and Left". O título já aponta o teor e a importância dessa obra, que não me canso de elogiar e recomendar aos amigos que comungam as mesmas preocupações e o mesmo sabor literário. Está bem delineado no livro as diferenças entre direita e esquerda (esquerda liberal e alguns tons mais fortes. Ocioso sublinhar a grande cultura e a genial criatividade desses dois gigantes (Edmund Burke e Thomas Paine). Sinceramente, acho que a História tem, com a sua cruel realidade, endossado mais a posições de Burke, que comungo. Não sei se o livro já foi lançado no Brasil (vivo nos USA). Desculpem a intromissão e a veleidade de apontar alguma leitura a tão bem escorados debatedores.
  • Liberal Angustiado  23/03/2015 20:48
    Pareceu-me que o texto em questão se amolda tão bem aos marxistas, quanto a alguns liberais ancaps que, no afã de atingir seu nirvana, repudiam a política como veículo de mudança, preferindo se posicionar como uma agente passivo de uma mudança inevitável rumo a uma utopia.
    Os liberais devem mesmo aguardar o desfecho inevitável, a derrocada do estado rumo a uma sociedade privada, ou é legítimo enfrentar o Leviatã para gradualmente reduzir seu poder e, assim, atingir algo mais suportável do que temos hoje? Viveremos pra ver essa evolução ou morreremos escravos?
  • Carlos  24/03/2015 00:38
    Morreremos escravos. A política não se presta a um agente de mudança moral - como bem já afirmara Franz Oppenheimer. E a política é a vida do Estado. Ato contínuo, este leviatã se desincumbe tão bem na sua tarefa de viciar a população ao seu mecanismo de enriquecimento - o roubo - que raríssimas são as pessoas que chegam a admitir, ainda que a título de argumentação apenas, que nada há de bom no sistema estatista.

    O Estado é a droga mais viciante de todas, infelizmente. E sempre há um traficante (político) para criar novos mercados (uma "minoria" aqui, outra acolá), prometendo o maná ( o dinheiro dos outros) para estes "pobres" injustiçados.

    Ao invés de desejar uma mudança que afete a todos, e que eu não verei em vida, eu encontro uma nesga de felicidade em ver como a anarquia diuturna se revela na minha vida. Seja a ajuda espontânea a um estranho que dela necessite, sejam os mercadores de guarda-chuvas no centro do Rio de Janeiro que, mal caem uns respingos, já estão munidos com dezenas de peças para saciar esse mercado que, por um capricho divino, ou pelo clima, surgiu em alguns minutos e irá embora, também em alguns minutos, quando esta cessar.

    Chamem-me de louco, mas é nesses intervalos curtíssimos, em que o leviatã nada faz e os indivíduos, buscando melhor servir seus semelhantes pela troca voluntária, que sinto um prazer enorme de estar vivo. Porque, nesses escassos minutos, é que eu sinto, respiro e vejo a liberdade.
  • Jeferson  24/03/2015 20:40
    Eu também acho que morreremos "escravos", mas podemos pavimentar o caminho para que nossos netos, ou talvez bisnetos, sejam livres, e nossos filhos, e até nós mesmos, ainda que "escravos", possamos gozar de um grau de liberdade maior do que o atual. O Secessionismo Hoppeano me parece a melhor solução alcançável para o problema do estado em nossas vidas, mas simplesmente disseminar essa idéia já será um trabalho hercúleo. Podemos tentar assumir a responsabilidade da transformação, ou podemos deixar a esquerda trabalhar sozinha por seu projeto de mundo ideal, enquanto nós e nossos entes queridos pagamos o alto preço por isso. A decisão cabe a cada um.
  • Wilson  25/03/2015 13:42
    Ótimo artigo. A pergunta que faço: O libertarianismo também não é uma utopia?
  • Felipe  25/03/2015 15:02
    E por que seria?

    Aponte pelo menos 1 fundamento na sua pergunta para haver alguma discussão.

    Socialismo já foi provado sua inviabilidade tanto pela teoria quanto pela realidade.

    Até hoje desconheço alguma teoria racional que inviabilizou o libertarianismo.


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