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Confiança e honestidade - características cruciais para o enriquecimento de qualquer economia
Tolerância para com criminosos e desonestos garante o atraso

Atitudes como desonestidade, mentira e trapaça não são tratadas com a devida abjeção que merecem. Para se compreender melhor a importância da honestidade e da confiança, apenas imagine como seria nossa rotina diária se não pudéssemos confiar em ninguém.

Quando compramos em uma farmácia um recipiente contendo 100 pequenas pílulas (como vidros de homeopatia, por exemplo), quantos de nós nos damos ao trabalho de realmente contar as pílulas? E quando o remédio é líquido, quantos de nós conferimos se o volume divulgado no rótulo corresponde ao volume verdadeiro? 

Quando abastecemos nosso carro no posto, como sabemos que os litros especificados na bomba realmente correspondem ao volume que entrou no tanque do carro? Quando você vai ao supermercado e compra 1 quilo de carne, você por acaso verifica — por meios independentes — se realmente está levando um quilo de carne? 

Em cada um desses casos, e em milhares de outros, nós simplesmente confiamos no vendedor.

Inversamente, há milhares de situações em que é o vendedor quem tem de confiar no comprador. Após um mês de trabalho, o empregado confia que seu patrão irá lhe pagar o salário combinado. Um comerciante vende um produto e recebe em troca um cheque, o qual ele confia que tenha fundo. Um fornecedor entrega uma mercadoria para seu cliente e confia que este irá lhe pagar dali a 30 dias, como combinado.

Exemplos de honestidade e confiança são abundantes, mas imagine o custo e a inconveniência caso não pudéssemos confiar em ninguém. Teríamos de andar sempre carregando instrumentos de medição para nos certificarmos de que realmente estamos recebendo o volume correto de gasolina e o quilo correto de carne. Imagine a inconveniência de ter de contar o número de pílulas ou de mensurar o volume de um líquido dentro de um recipiente?

Se não pudéssemos confiar em ninguém, se a simples palavra do vendedor ou do comprador não tivesse valor nenhum, teríamos de arcar com o oneroso fardo de fazer contratos por escrito para toda e qualquer transação efetuada. Teríamos de arcar com todos os custos de monitoramento que garantem que a outra parte irá fazer corretamente até mesmo às mais simples transações. 

Podemos dizer com toda a certeza que tudo aquilo que solapa a honestidade e a confiança aumenta os custos de transação, reduz o real valor das trocas voluntárias e nos torna mais pobres.

Honestidade e confiança se manifestam de maneiras que poucos de nós sequer conseguimos imaginar. Em determinadas vizinhanças, por exemplo, é comum que empresas de entrega deixem encomendas muitas vezes valiosas em frente à porta caso o morador não esteja em casa para recebê-la. Não há necessidade de marcar horário para a entrega, o que é bom tanto para o morador quanto para a empresa. Ambos ficam com suas agendas livres e aumentam sua produtividade. 

Da mesma maneira, supermercados e demais estabelecimentos comerciais podem tranquilamente expor várias mercadorias perto das portas de entrada e saída do estabelecimento, ou até mesmo deixá-las do lado de fora do estabelecimento, sem se preocupar com roubos.

Já em vizinhanças notoriamente menos honestas, empresas de entrega que deixassem encomendas na porta de uma casa e estabelecimentos comerciais que expusessem mercadorias perto da rua estariam cometendo o equivalente a um suicídio econômico.

Desonestidade é algo oneroso. Empresas de entrega não podem simplesmente deixar encomendas em frente à porta caso o morador não esteja em casa. A empresa terá de arcar com os custos de fazer uma nova viagem em outro horário. Ou terá de tentar agendar um horário. Ou então o cliente terá de arcar com os custos de ter ele próprio de ir recolher o produto. Se um estabelecimento comercial decidir exibir algumas de suas mercadorias do lado de fora, ele terá da arcar com os custos de contratar um auxiliar — isso se ele realmente puder se arriscar a deixar suas mercadorias do lado de fora.

Nas relações de trabalho, a desonestidade e a falta de confiança podem ser fatais. Patrões desonestos prejudicam seus empregados e podem afetar todo o seu êxito profissional. Empregados desonestos podem quebrar empresas e falir seu patrões, tanto por meio do roubo quanto por acionamentos judiciais desnecessários.

A despercebida tese de Fukuyama

Francis Fukuyama ficou famoso em 1988 por causa da publicação de seu livro O Fim da História. A tese que ele defendia era simplória: a democracia liberal havia derrotado todos os sistemas e, dali em diante, passaria a ser o arranjo preponderante e superior a todos os outros. Isso se comprovou uma óbvia inverdade. Pense no Islã. Pense na política burocrática reinante na China. Pense em Hong Kong e em Cingapura, que não têm democracia — ao menos, não no estilo defendido por Fukuyama.

À época, o livro recebeu uma estrondosa publicidade. Hoje, ele raramente é citado. Nunca entendi por que esse livro foi levado a sério. No entanto, durante um bom tempo, várias pessoas o levaram a sério.

Em 1995, Fukuyama publicou outro livro: Confiança. A publicidade recebida por este livro foi ínfima. Mas o livro é excelente. Digo mais: é um dos mais importantes livros já escritos sobre economia e ordem social.

Neste livro, Fukuyama analisa os efeitos da confiança sobre uma sociedade. Ele concentra sua análise nos Estados Unidos, no Japão, na China e no sul da Itália, onde praticamente não há confiança nenhuma em nada e ninguém confia em ninguém. Ato contínuo, ele analisa como a presença ou a ausência da confiança pode se tornar uma fonte de ordem social, de crescimento econômico e de aumento da produtividade geral. 

Ele descobriu, de maneira nada surpreendente, que os EUA, até aproximadamente 1960, possuíam uma enorme vantagem competitiva em relação ao resto do mundo por causa do alto nível de confiança que seus habitantes tinham em relação aos seus conterrâneos. À medida que a confiança foi declinando, a taxa de crescimento econômico também declinou. Concomitantemente ao declínio na confiança houve um aumento no número de advogados.

Uma das sociedades menos produtivas de toda a Europa Ocidental é a do sul da Itália. Ele atribui isso à falta de confiança que reina na região. Esse é um dos motivos pelos quais as sociedades secretas, especialmente a Máfia, têm tanta influência no sul da Itália: tais organizações provêm um mínimo de ordem social para seus membros, e a população em geral não oferece muita resistência à existência destas organizações.

A seção sobre a China é a mais interessante. Fukuyama diz que os chineses apresentam um grande nível de confiança, mas somente em relação às suas famílias. Isso faz com que seja muito difícil para empresas chinesas concorrerem com pequenos empreendimentos geridos por famílias ou com pequenos empreendimentos que tenham conexões familiares. Faz com que seja mais difícil criar grandes empresas. E faz com que seja ainda mais difícil levantar fundos e conseguir capital para financiar essas grandes empresas.

Já o Japão está em um meio-termo entre os EUA e a China. No Japão, ao contrário da China, há mais confiança em organizações que não estejam ligadas a famílias. No entanto, os grandes conglomerados japoneses possuem em suas raízes um pequeno número de famílias japonesas.

Em seu livro, Fukuyama dizia acreditar que as corporações japonesas poderiam concorrer no mercado internacional de maneira mais efetiva do que as empresas chinesas porque os japoneses podiam contratar as melhores pessoas, muito embora suas empresas não apresentassem conexões familiares. Os japoneses também seriam capazes de conseguir dinheiro para investimentos mais facilmente do que as empresas chinesas.

Se olharmos o que ocorreu ao longo das últimas décadas, creio que essa tese se comprovou. Empresas chinesas demonstraram uma maior tendência de serem mais intimamente associadas ao governo chinês. O estado tem sido a fonte de financiamento das empresas chinesas. O sistema bancário está mais intimamente ligado ao estado na China do que nas nações ocidentais.

A ausência de instituições formais pode ser observada quase que em sua integralidade na República Popular da China, onde a ideologia maoísta foi a grande responsável pelo atraso na introdução de instituições "burguesas", como o direito comercial. Até o presente momento, empreendedores na China têm de enfrentar um ambiente jurídico extremamente arbitrário, no qual os direitos de propriedade são tênues, os níveis de tributação são variáveis e mudam de acordo com as vontades de cada governo provincial, e o suborno é a rotina quando se lida com funcionários do governo. (p. 330)

Fukuyama também escreveu o seguinte:

Um estado liberal é, em última instância, um estado limitado; um estado em que a atividade do governo é estritamente delimitada pela esfera da liberdade individual. Se tal sociedade não se degenerar no caos ou se tornar ingovernável, ela será capaz de apresentar uma autonomia governamental em todos os níveis de organização social.  

A sobrevivência de tal sistema dependerá não somente da lei, mas também do autocontrole e do comedimento dos indivíduos. Se eles não forem capazes de apresentar uma coesão em prol de um propósito comum; se eles não forem tolerantes e respeitosos em relação aos conterrâneos, ou não respeitarem as leis que eles próprios criaram para si mesmos, uma agência com grande poder coercivo terá de ser criada para manter cada indivíduo na linha. 

Por outro lado, um arranjo sem estado pode funcionar em uma sociedade que apresente um grau extraordinariamente alto de sociabilidade espontânea; uma sociedade na qual o comedimento, a temperança e o comportamento baseado em normas fluam naturalmente do cerne desta sociedade, sem ter de ser trazido de fora. 

Um país com um capital social baixo não apenas é mais propenso a ter empresas pequenas, fracas e ineficientes, como também sofrerá mais com a corrupção generalizada de seus funcionários públicos e com uma administração pública ineficaz. Tal situação é dolorosamente evidente na Itália, onde, à medida que se sai do norte e do centro do país em direção ao sul, percebe-se uma relação direta entre atomização social e corrupção (pp. 357-58).

Creio que a teorização acima é correta. Ela é perceptível em todos os países que enriqueceram.  Além dos EUA, pense na Suíça, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Pesquise o nível de confiança vigente nestes países. Pesquise a percepção de honestidade e como sua população interage entre si. Pesquise o grau de burocracia exigido para se fechar um negócio. Depois, faça o mesmo para os países da América Latina e da África.

O fato de honestidade e confiança serem tão vitais deveria nos fazer repensar a nossa tolerância para com criminosos e pessoas desonestas — a começar por todos os criminosos que estão no poder e que gozam de impunidade.

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Leia também:

Sociedades pobres e sociedades ricas - o que faz a diferença 


8 votos

autor

Gary North
é Ph.D. em história, ex-membro adjunto do Mises Institute, e autor de vários livros sobre economia, ética, história e cristianismo. Visite seu website

  • Silvio  02/12/2014 13:12
    À medida que a confiança foi declinando, a taxa de crescimento econômico também declinou. Concomitantemente ao declínio na confiança houve um aumento no número de advogados.

    Pois é. E a coisa fica mais interessante quando descobrimos que o Brasil, sozinho, tem mais faculdades de Direito que todos os países.
  • Felipe  02/12/2014 14:06
    Hahahaha

    Excelente percepção!
  • Ramon  02/12/2014 15:26
    pensei a mesma coisa hauhauhau
  • André Cavalcante  05/07/2017 11:27
    Exceto que o motivo de termos tantas faculdades de direito tem pouco a ver com advogados. Até porque apenas 4% dos que se formam se tornam advogados. O nosso problema é que o governo sistematicamente coopta os melhores cérebros da sociedade por meio dos concursos, e a maneira mais fácil de se preparar para um é estudando direito.
  • André Ferris - advogado - oabrj  09/07/2017 00:29
    Sou Advogado mas discordo, o Brasil tem muitas faculdades de direito pela simples demanda dos alunos, e pelo fato de o curso de direito não necessitar de grande estrutura, como acontece em medicina, engenharia e outros cursos...aliás, eu diria que 90% das pessoas que entram no curso de direito, tem como objetivo fazer concurso público, hoje infelizmente o curso de direito se tornou uma via para o acesso ao funcionalismo, isso sem falar nos cursinhos preparatórios e na literatura voltada exclusivamente para concurso público, os brasileiros fazem grande esforço pra transformar o brasil numa futura Grécia...
  • D.R.  02/12/2014 14:23
    No que diz respeito a serviços, posso dizer por experiência própria que o Japão está muito a frente dos EUA.

    Na minha última visita a Tokyo, é inevitável o uso do transporte coletivo (metrô e trem), a não ser que a pessoa seja endinheirada para pagar o taxi, como não é o meu caso. :-)

    Para quem não sabe, a tarifação acontece por estações.
    Ou seja, se a pessoa vai de uma estação A para B, tem uma tarifa X. Da estação A para C, uma tarifa Y, e assim por diante.

    Pois bem, na minha experiência, comprei um bilhete, que para o meu trajeto mais longo, custou-me 800 ienes.
    É necessário manter o bilhete até o fim do trajeto, para no desembarque, precisar pagar a diferença se acontecer uma alteração no trajeto, por exemplo.

    O problema é que eu perdi o bilhete, e como um turista gaijin, sem falar o japonês direito, como desembarcar?

    Fui ao posto de atendimento da estação, e expliquei através do inglês, de algumas palavras em japonês e do mapa ferroviário, que eu perdi o bilhete, e que tinha vindo da estação A.
    Fui cobrado por um novo bilhete, ou seja, o mesmo preço que tinha pago, e pude inserir o bilhete na catraca e desembarcar.

    Aonde quero chegar com isto?

    É que, a confiança do agente ferroviário para comigo foi a tal ponto que, se eu quisesse ter dado uma de picareta, eu poderia ter falado que eu tinha embarcado numa estação mais próxima, e consequentemente ter pago um novo bilhete com uma tarifa mais barata.

    E é por esta experiência, que eu penso que vamos demorar e muito para ter um nível de negócios ao mesmo estilo que o d Japão.
  • Alfredo  02/12/2014 15:23
    Isso não é nada. Nos países teutônicos não há catracas nas estações de metrô. Você só compra ticket se for honesto. Se quiser andar de metrô de graça, você anda. Desnecessário dizer que (quase) todo mundo paga pelo ticket. Quem não paga ou é turista ou é imigrante.
  • Guilherme  02/12/2014 15:24
    Menção honrosa também aos postos de gasolina, em que não há frentistas (algo que, no Brasil, por causa de uma regulamentação estatal, é obrigatório). Você pára seu carro em uma bomba, abastece livremente, e então, só então, vai lá dentro do estabelecimento pagar. Qualquer um que quiser sair sem pagar, o faz sem problemas.

    Isso seria inconcebível aqui no Brasil.
  • Felipe Lange  05/07/2017 13:27
    O problema é que você pode usar esse argumento consequencialista para justificar a proibição das pessoas de usarem a bomba para colocar combustível. Para uma sociedade avançar moralmente, só com liberdade econômica.
  • André   11/07/2017 18:39
    Na America não é assim, vc vai até o funcionário do posto e diz quanto vc quer abastecer,qual bomba e paga, aí ele libera a bomba e só assim vc pode abastecer.
  • Rene  02/12/2014 15:26
    Lembra daquelas máquinas automáticas de jornal, onde a pessoa insere o valor do jornal e a máquina abre. Aí, a pessoa pega UM jornal e fecha a máquina. Se as pessoas tivessem o hábito de pegar mais de um jornal, ou de deixar a máquina aberta para outros pegarem jornais de graça, as próprias empresas que vendem jornais teriam abolido este sistema.

    Aqui em Curitiba, a prefeitura teve a ideia da Tuboteca: Uma estante com livros onde os usuários podem pegar um livro, lê-lo e devolver em qualquer outro tubo que possua uma Tuboteca. Por estatísticas da própria URBS, somente 20% dos livros pegos são devolvidos. Coisas pequenas como esta demonstram muito do caráter do país.
  • Pedro Ivo  04/12/2014 12:35
    Sobre a confiança mútua entre os escandinavos, vejam Suécia: um modelo para o mundo
  • cmr  22/10/2015 13:03
    Enfiar o bilhete na máquina para desembarcar !!!?????
    É isso mesmo ?.

    De qualquer forma, eu sou mais a Alemanha, onde não existem roletas.
  • Renato Souza  02/12/2014 14:54
    Não é exatamente o tema deste texto, mas creio que é correlato:

    O darwinismo social, além de todos os seus efeitos desastrosos na política (Os marxistas e nazistas eram seguidores desse engano) causou até mesmo uma compreensão errada do capitalismo por parte dos próprios capitalistas. Numa compreensão inteligente e saudável, o capitalismo precisa de confiança, honestidade e humanidade por parte das pessoas. Não que elas sejam perfeitas, mas que pelo menos entendo que essas coisas são boas. No final do século XIX e início do século XX, o conceito de concorrência se desvirtuou, na mente de muitas pessoas, e passou a significar: "vencer a qualquer custo, e destruir toda aquele que possa me fazer concorrência". Esse conceito vem do darwinismo social, e não do liberalismo. Concorrência no mundo econômico não é lei da selva. Na selva, um animal ganha quando outro perde. A saciedade de um significa a fome (e talvez a morte) de seu concorrente. No mundo econômico, mesmo o perdedor recebe algo dos benefícios gerados pelo ganhador. Eu posso não ter feito o melhor produto, posso até ter sido obrigado a mudar de ramo, mas serei beneficiado no uso dos melhores produtos selecionados pelo mercado.

    Competição, no mundo econômico, e cooperação, e beneficia-se da honestidade e respeito. Se isso fosse mais entendido, mais pessoas dariam atenção aos efeitos econômicos da moralidade.
  • Nilo  02/12/2014 15:25
    Artigo na mosca. Só faltou lembrar que o caráter, fonte da confiança, depende da importância que cada um dá às suas próprias ações.

    Por exemplo, o estereótipo do brasileiro "ishperrto" tem como justificativa para seus feitos lamentáveis a crença de que "todo mundo faz, então eu fazer também não tem problema". Para uma sociedade se manter próspera e estável, um dos requisitos é que cada indivíduo se responsabilize pelas suas ações.

    E ninguém é capaz de se policiar por todos os lados, o tempo todo. O enforcement de certo e errado através da pressão social é necessário. Por isso a ascensão do politicamente correto, do "não julgue", da culpa coletiva são acontecimentos agourentos para a civilização ocidental.
  • Heisenberg  02/12/2014 15:26
    Me pergunto por que preciso de um Cartório para dizer que minha assinatura, ou a assinatura de alguém é autêntica. Por que é público? HAHAHAHAH Piada.

    Não é a toa que toda essa burocacia dos cartórios é uma fonte de atraso e corrupção.

    Inexiste confiança para fechar um negócio neste país. O Brasil, com sua escola portuguesa cartorária, prejudica a celeridade das ações humanas e o progresso inerente a qualquer sociedade livre. O que esta nação está longe de ser.
  • lorivaldo  05/07/2017 11:53
    E o pior: Autenticar cópias de documentos. Se eu tiro cópia dos meus documentos, que posteriormente teri que apresentar, por que tem que pagar por um "selinho mequetrefe"?
  • denes dias  02/12/2014 15:34
    "Teríamos de andar sempre carregando instrumentos de medição para nos certificarmos de que realmente estamos recebendo o volume correto de gasolina e o quilo correto de carne."

    não é por isso justamente que permitimos que o Estado assuma essas funções, através de orgãos fiscalizadores? essa não é uma função útil do Estado?
  • Mauro  02/12/2014 15:43
    Ah, sim. E isso é algo que o estado faz com perfeição.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1200
  • Paulo  02/12/2014 15:58
    Na Itália, mesmo sendo um país com bastante burocracia, existe a auto-certificação, através da qual pode-se substituir documentos certificados em uma série de casos simples, como declaração de estado civil, endereço, títulos de formação e uma série de outras. Caso sejam encontradas declarações falsas, a falsidade nos atos e o uso de atos falsos são punidos segundo o código penal e as leis em matéria.

    Ou seja, você, em princípio, diz a verdade.

    Aqui no Brasil, você certamente é um mentiroso, até prova em contrário, prova essa autenticada em cartório e devidamente protocolada.

    Raul Seixas já sabia:

    "Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar!"

    Hoje, ainda faltaria o "cafezinho".
  • Eduardo  02/12/2014 16:47
    Concordo plenamente com o artigo, porém volta sempre ao ponto de quase todas as análises de diferença social, a base da confiança se chama educação, através de aprender que o certo é o certo, temos que respeitar normas e leis para que todos ganhem. A impunidade e a "bagunça" fiscal atrapalham e muito também
  • Fred  02/12/2014 19:00
    Eu discordo com a opinião acima sobre a base da confiança ser a educação. Não acredito que seja educação e sim valores absorvidos na infância e na adolescência. Quem nos cria e dá exemplo molda nossos comportamentos.
  • Senhor A  02/12/2014 19:58
    Pois é. Mas é necessário entender o sentido da palavra "educação" que ele utilizou, se educação como transmissão de conhecimentos (técnicos, humanos, científicos e etc) ou educação familiar (valores morais, éticos, modos e outros).

    Se o intuito dele foi apresentar educação secular como forma de honestidade, então também não estou de acordo. Basta lembrar-se dos demagogos que ensinam nas universidades do país, dos pseudo-cientistas que "provam" teorias bizarras e outros esquisitos e desonestos.

    Educação que incute valores morais e ideias verdadeiras e/ou corretas é educação que põe um homem como empreendedor, criador de riquezas materiais, intelectuais e espirituais.
  • Minarquista  04/07/2017 15:47
    O problema é que não se pode dar o que não se possui. Um indivíduo de moral frouxa - como muitos há no Brasil - jamais passará princípios morais sólidos a seus descendentes.
    Esses princípios morais também não podem vir da educação estatizada - afinal os integrantes do aparato estatal são geralmente mais imorais do que a média. E a doutrinação nas escolas só serve para enfiar ideias imorais na cabeça das crianças.
    Ou seja: a solução não vem nem da educação familiar, nem da escolar.

    []s
  • Minarquista  04/07/2017 16:23
    Caros:

    É óbvio que se todos os seres humanos fossem morais, não precisaríamos de instituições para garantir a moralidade.
    Não é esse o ponto. O fato é que em todos os lugares há seres humanos imorais: podem ser em maior número num lugar, e em menor noutro, mas sempre existem!
    Não dá para imaginar um lugar de indivíduos suficientemente perfeitos, capaz de funcionar sem instituições que defendam a moralidade. E essas instituições devem funcionar em qualquer cenário, seja de muita gente imoral ou não.
    Se a maioria dos criminosos for pega e punida por estas instituições, isso gerará um incentivo para que as pessoas, com o tempo, se tornem mais morais. Se, ao contrário, os criminosos têm chances baixas de serem apanhados, e, quando apanhados não são punidos, ou têm punições brandas, temos formado o cenário ideal para o crescimento da imoralidade. É o caso do Brasil.

    Existem hoje instituições de 2 tipos: censura prévia e censura posterior.
    No Brasil, temos um sistema de mais próximo da censura prévia: o estado considera que todos são imorais até prova em contrário. Assim, precisamos provar o tempo todo que não estamos mentindo, enganando e roubando. Como conseqüência, foi criado todo um aparato para verificar os atos de todos, desde assinaturas (cartórios), até vendas (Inmetro), passando por autorizações, certidões, etc... Isso tudo é muito caro. É um estorvo para a economia e para cada ato de nossa vida. Nesse sistema residem inúmeras oportunidades de corrupção. Ou seja: a imoralidade aumenta!
    Sem contar que o sistema muitas das vezes é de regulação positiva: só pode ser feito do jeito que o estado determina. Isso mata a inovação, que é justamente o motor do progresso e melhoria da qualidade de vida.

    Em países mais morais, temos um sistema mais próximo da censura à posteriori. Ainda há necessidade de várias autorizações e provas de honestidade, mas na maioria dos casos, acredita-se no que as pessoas dizem. Mas, se você for pego mentindo, enganando, roubando, a punição é certa e severa! Ou seja: faça o que você quiser, mas não faça nada errado! A responsabilidade individual por seus atos é fortalecida.
    Nestes países, a regulação estatal na maioria das vezes é negativa: faça o que você quiser - só não faça isto! A inovação fica em boa parte preservada. E o custo deste sistema é muito menor.

    É óbvio que o segundo sistema é muito melhor. O cerne da questão se resume à transformação das instituições.
    Quais leis, polícia e tribunais são os adequados para migrarmos do sistema pré para o pós?

    []s


  • Leonardo  02/12/2014 20:01
    O mote do artigo recorda-me um dos primeiros tomos notáveis que pude desfrutar em defesa das liberdades -- e que ainda hoje guardo como um de seus mais bem pensados postulados: "A Sociedade de Confiança", de Alain Peyrefitte. Recordação de minha primeira participação junto ao Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, aos tempos em que o evento fazia jus ao título, quando encontrar tais publicações equivalia a deparar-se com o pote d'ouro no fim do arco-íris.
  • Felipe R  02/12/2014 20:29
    Além do livro "Confiança", de Fukuyama, há este excelente trabalho sobre o mesmo tema.
  • anônimo  03/12/2014 00:26
    Quando era criança lembro-me de ver nos filmes e desenhos americanos cenas que retratavam a vida numa sociedade onde a maioria é honesta. O leiteiro deixando a garrafa na porta, o jornal arremessado na grama da casa sem muro, o carro estacionado a noite com as janelas abertas, etc. A quantidade maior de politico corrupto é apenas um espelho da sociedade. Não que politico ladrão seja particularidade brasileira. Aqui infelizmente a desonestidade na sociedade é elevadíssima. Tal mau caratismo deságua nos plenários e gabinetes. Talvez o título de maior roubo da história mundial a uma empresa pública pertencerá ao Brasil. Puro reflexo.
  • Wilma Guillot  16/02/2015 19:28
    Ainda nao tem cercas e muros, os jornais sao jogados,
    brinquedos, bicicleta no quintal, carro aberto, ninguem
    leva (na maioria dos casos). A policia publica no jornal
    local quem foi preso por drogas e outros crimes... e tem
    gente que nao tranca portas ou checa se as janelas estao
    bem fechadas (nao o meu caso)...
  • Alfeu Rabelo Neto  03/12/2014 19:27
    Gostaria de saber se no Chile também existia ou existe esse problema de falta de confiança, e também qual a influência da imigração na diminuição que houve nos EUA.
    Sim, estou insinuando que a imigração pode ser ruim para a economia no longo prazo.
  • Caio  04/12/2014 01:58
    Mais ou menos, tanto que cartórios lá nem são tão importantes assim. A população tende a ser desconfiada não pela falta de honestidade, mas por algo meio que cultural.
  • Emerson Luis, um Psicologo  07/12/2014 11:04

    Fukuyama disse que a democracia liberal obteve uma vitória moral sobre todas as demais formas de governo humanamente possíveis, NÃO que todos os países se tornariam liberais. Disse que haveria ameaças à democracia liberal (incluindo a "democracia social"), que continuaria havendo conflitos e possíveis retrocessos.

    Sobre a questão da confiança, ela é mais um fator que explica a estagnação econômica dos países socialistas. Nestes se gasta muito tempo, energia e recursos para se controlar a população. Já nos países mais liberais, todo esse tempo, energia e recursos é empregado na produtividade. O mesmo ocorre com empresas e outras organizações.

    * * *
  • Wilma Guillot  16/02/2015 19:18
    Embora o nivel de confianca esteja declinando, o Fedex ainda deixa encomendas de valor significativo como
    Home Theater, diamond ring, etc... na porta da casa, nos US, o que poderia ser impensavel em SP, por exemplo.
    Aqui isso ainda e normal. Quando morava em SP, fiquei surpresa quando deixaram a entrega de organicos na porta...
    Infelizmente, nao vivemos em um mundo ideal onde todas as pessoas prezam por valores como a honestidade
    e a confianca. Muito do que aprendi, alem do exemplo dos meus pais, foi estudando Moral e Civica. Hoje muitas
    criancas nao tem um modelo nos pais, menos ainda no curriculo escolar. E o que poderemos esperar das geracoes
    de criancas semi-abandonadas?
    Desculpem meu keyboard.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  01/04/2015 22:52
    Todo roubo é prejudicial. Mas, quando o governo cobra imposto a ralé acha normal.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  04/07/2017 22:07
    O roubo é algo pernicioso. Todos devemos evitá-lo, para o bem de todos. Do contrário, estaremos mortos.
  • Renan Merlin  05/07/2017 00:26
    https://www.youtube.com/watch?v=6gzM8nkitMM
  • Gustavo   05/07/2017 01:41
    Creio que este fator cultural da confiança explica parte das diferenças econômicas entre o norte o sul do Brasil.
  • Emerson  05/07/2017 01:43
    A confiança é parte do óleo que permite às engrenagens dos relacionamentos humanos funcionar. Todas as nossas interações envolvem algum grau de confiança, que é como o dinheiro: podemos fazer "depósitos" ou "saques", receber ou pagar "juros", emprestar ou tomar emprestada (a metáfora não é minha, deve ser de Stephen Covey).
  • Gunnar  05/07/2017 01:45
    Eu costumo atrelar confiança à honestidade. Acredito que uma não existe sem a outra. Isso posto, concordo que confiança e honestidade favorecem grandemente o êxito econômico, por dois principais motivos: (1) economia com eliminação de riscos e (2) fortalecimento do tecido econômico. Tentarei explicar ambos com um exemplo simples e real.

    (1) Eliminação de riscos

    Morei, por algum tempo, em um apartamento alugado diretamente junto ao proprietário, que era um padre. Por algum motivo, ele viu em mim uma pessoa honesta (e eu nele) e dessa forma , julgamos satisfatório fazer um contrato de gaveta.

    De cara economizamos tempo, energia e dinheiro com os trâmites burocráticos tradicionais. A flexibilidade de lidar com uma pessoa honesta faz com que os pequenos distúrbios cotidianos do inquilinato (obras, pagamentos, questões de condomínio) se resolvam da forma mais simples, econômica e rápida possível, e sempre com vantagem para ambos.


    (2) Da mesma forma, tenho já há algum um pintor/faz-tudo de confiança, o qual recomendei ao padre, para fazer a pintura quando da entrega do apartamento. Apesar de sua igreja estar em obras, e já ter contratado muitos pintores, ele não conseguia encontrar um que fosse de confiança. Gostou tanto do senhor que recomendei que o contratou também para fazer a reforma inteira do apartamento, e pouco depois, para pintar a igreja.

    Agradecido pela indicação lucrativa, o pintor fez os dois próximos serviços para os quais o chamei sem cobrar. Nessa simples situação, a confiança e honestidade dos "players" possibilitou um grande ganho mútuo para todos: eu resolvi a questão da pintura do apartamento e de bônus ganhei dois serviços; o Padre encontrou um pintor para o apartamento e, de bônus, alguém para fazer as demais obras; o pintor conseguiu um serviço por indicação e, de bônus, serviço extra.


    Por fim, acredito que a desonestidade é miopia social (ou burrice mesmo). Abusar da confiança só confere alguma vantagem ao desonesto à curto prazo. O comportamento de roubar mais de um jornal da máquina automática só levaria a uma elevação dos custos do jornal e possivelmente, à eliminação dessa cômoda tecnologia, piorando a vida inclusive de quem roubou.

    A questão que explica a existência mesma da honestidade e da confiança, no entanto, é mais complexa. Por hora, acredito que é algo cultural. Quanto à discussão mais acima sobre o "ovo e a galinha", a burocracia e a confiança, não vejo um como necessariamente precedente do outro, mas ambos como necessariamente interligados e consequentes de uma certa cultura que, por qual motivo seja, aposta na desonestidade endêmica, apesar dos altos custos econômicos e sociais desse arranjo.
  • lorivaldo  05/07/2017 12:01
    O bom profissional nunca fica desempregado, pois é uma "mercadoria" em falta. Só Deus sabe a raiva que passei com pedreiros e metalúrgicos que eram enrolados e "labrocheiros".
  • Anderson  06/07/2017 03:11
    Boa observação, Gunnar!

    E sobre este parágrafo: "Por fim, acredito que a desonestidade é miopia social (ou burrice mesmo). Abusar da confiança só confere alguma vantagem ao desonesto à curto prazo. O comportamento de roubar mais de um jornal da máquina automática só levaria a uma elevação dos custos do jornal e possivelmente, à eliminação dessa cômoda tecnologia, piorando a vida inclusive de quem roubou."

    Também cito a falta de educação (principalmente financeira e produtiva). A falta de uma faz com que o sujeito seja menos produtivo, portanto, menos inclinado a enriquecer - ou, pelo menos, ter uma boa renda. E a ausência da outra educação, a financeira, faz com que o sujeito seja descontrolado e indisciplinado quanto ao manuseio do dinheiro, não sabendo como poupar e, consequentemente, sendo um dependente do dinheiro a curto prazo; pois, quanto mais você gasta todo o dinheiro que tem, mais precisará dele, já o que pouco gasta e ainda o guarda, acaba por ser menos dependente dele - já que tem muito dele guardado.

    O que quero dizer é que uma pessoa produtiva - tanto por qualificação técnica ou por capacidade empreendedora - e organizada com o dinheiro, tende a não precisar sabotar as coisas para se beneficiar a curto prazo.
  • Duty Free  05/07/2017 02:31
    Ótimo artigo !

    Burlar a competição também é falta de ética. Roubar e enganar são casos mais graves, mas mudar as regras do jogo em benefício próprio também é um erro.

    Um bom exemplo é a pressão de empresários por impostos sobre importações.

    O aumento dos impostos sobre carros importados gerou 300 mil empregos no Brasil, mas ao mesmo tempo fez 20 milhões de pessoas andarem de ônibus.

    Claro que é dificil competir com as regras atuais do Brasil, mas o resultado foi milhões de pessoas andando de ônibus. Se aumentarmos o campo da análise, milhões de pessoas andam com roupas velhas, porque é caro importar roupas e as nacionais também são caras. Ou seja, milhares de pessoas foram privilegiadas, enquanto outras terão que usar roupas velhas.

    O caso mais grave é a comida. As pessoas comem comida ruim, estragada ou passam fome, porque empresários fazem lobby contra a comida barata e de qualidade que poderia ser importada.

    Enfim, ame e respeite a competição e o fair play !


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