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Governar menos para empreender mais
Entrevista concedida ao Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo 

Com a menor taxa de juros em dois anos, o Brasil ainda convive com uma inflação alta em comparação com outros países e o governo precisa soltar as amarras da atividade econômica, abrindo espaço para a livre iniciativa.  Helio Beltrão, presidente do Instituto Ludwig von Mises, afirma ser improvável uma recessão no Brasil, mas o PIB deve crescer menos de 5% pelo menos nos próximos dois anos.

 

Ibef News: O BC reduziu a Selic para 9% ao ano — a menor taxa em dois anos — mesmo com a inflação distante do centro da meta.  Como você vê esse curso de ação por parte do BC?

Helio Beltrão:  O saudoso Millôr Fernandes dizia que "a inflação está para a economia assim como a falsificação está para a moeda".  Millôr tinha razão.  O Banco Central pode criar moeda do nada, tal qual um falsificador.  Essa "inflação da moeda" gera distorções e a ilusão de que certas atividades dão lucro.  A inflação brasileira é alta demais; a própria meta de 4,5% é alta.  Compare com Peru (banda de 1% a 3%), Chile, Colômbia e México (de 2% a 4%), e os países desenvolvidos em geral (2%).

A pesquisa Focus indica cerca de 5% para o IPCA em 2012, e 5,5% em 2013.  Acho provável que esse cenário se realize. Após a superinflação que amargamos durante os anos 1980 e 1990, nós não merecíamos mais essa inflação de terceiro mundo.

Ibef News: A revista americana The Atlantic trouxe na capa de sua edição de abril o presidente do Fed, Ben Bernanke. Como você avalia o desempenho dele?

Helio Beltrão: O fracasso do Fed, tanto na última década quanto na atual gestão, é retumbante.  Sob Alan Greenspan, produziu a maior bolha de todos os tempos, devido principalmente à política de baixas taxas de juros; as consequências incluem desemprego, piora nas contas governamentais e protestos em países europeus.

Sob Bernanke, a ação tem sido intensificar a mesma política que contribuiu para a crise de 2007/08.  Hoje é racional para um banco tomar esse dinheiro a custo zero e comprar um estoque de papel higiênico, que ao menos se valoriza com a inflação.  O papel-moeda do Fed, portanto, se tornou pior que papel higiênico!  Banqueiros centrais sofrem da pretensão do conhecimento: como fabricantes de árvores de Natal, eles acham que podem fazer um trabalho melhor que o da natureza.

Ibef News: Você é presidente do Instituto Ludwig von Mises Brasil — cujo homônimo foi líder de uma das principais escolas de pensamento econômico do século XX.  De que forma seria possível lidar com a atual crise global segundo o pensamento da Escola Austríaca?

Helio Beltrão: Daqui para frente, o recomendável é que o Fed pare de injetar moeda e volte a permitir taxas de juros reais positivas.  Ele também deve permitir que o sistema se desalavanque — liquide dívidas em excesso, bem como investimentos ruins e insustentáveis (que não teriam existido não fosse essa política de juros negativos), ainda que isso derrube os preços de alguns ativos.

Ibef News: Como você avalia o chamado "capitalismo de estado" da China? O país cresce cerca de 10% em média há pouco mais de três décadas sob esse "sistema".

Helio Beltrão: Parece-me que o Brasil se assemelha mais a um modelo de capitalismo de estado do que a China. Empreender ou ser empresário no Brasil é um desafio quixotesco: o país é uma ilha de iniciativa cercada de governo por todos os lados.  A intrusão estatal é asfixiante, fruto de um garrote de mais de oitenta impostos, uma burocracia acachapante, incontáveis estatais e um governo que a cada semana troca as regras.  Ser empresário hoje significa estar próximo do "rei" ou participar da corte.  O estado chinês, por outro lado, governa menos em aspectos econômicos: patrocinou um choque de liberalismo a partir de 1978, e parece mais amigável à iniciativa privada, a despeito da linha dura nas questões política e de liberdades individuais.

Ibef News: Nos EUA já está até nos para-choques o slogan "End the Fed".  Bancos centrais seriam de fato dispensáveis?

Helio Beltrão: O problema não são os bancos centrais em si, ou as funções que teoricamente possuem, mas seu caráter monopolista.  Isso gera situações estranhas à economia de mercado — como determinar os juros por decreto a cada 45 dias, fazer com que os bancos tenham lucros privados e prejuízos socializados, e permitir que os correntistas tenham seus fundos garantidos pelo estado.  Não se analisam as causas fundamentais das crises sistêmicas; os custos das crises nunca são internalizados pelos bancos, e sedimentou-se no imaginário do mercado termos como "put de Greenspan" e "too big to fail".  Não é necessário, portanto, extinguir-se o banco central e suas "fotos da onça pintada" — basta acabar com a obrigação de que usemos exclusivamente a sua moeda e suas regras.

Ibef News: O Brasil vem de dois trimestres de desempenho mais fraco e, no primeiro semestre deste ano, também perdeu fôlego. Como você avalia o desempenho do país atualmente?

Helio Beltrão: O Brasil está entrando na fase de contração do ciclo econômico descrito pela teoria dos ciclos da Escola Austríaca. A acentuada expansão monetária e de crédito iniciada em 2009 estimulou a economia. Porém, a restrição no crescimento da oferta monetária iniciada em meados de 2011 não apenas arrefeceu o crescimento econômico (artificial), como também está elevando a inadimplência das empresas e famílias.

No lado fiscal, tivemos em 2009 um dos maiores impulsos do passado recente, porém desde 2011 o governo está sendo mais moderado, inclusive nos desembolsos do BNDES. O cenário externo favorável dos últimos dez anos dá mostras de fadiga, com o comércio internacional em queda e os principais centros de exportação de capital em crise.  Finalmente, o governo aumenta suas intrusões em diversos setores da economia.  Por todos esses fatores, o PIB não deve voltar aos níveis de 5% de crescimento nos próximos dois anos, embora também seja improvável uma recessão séria.  O Brasil poderia estar muito melhor.

Ibef News: No limite, que papel tem o governo em termos da economia do país?

Helio Beltrão: O principal papel do governo é governar menos para que o empreendedor possa empreender mais. O governo deve cortar as amarras à atividade econômica, como eliminar e reduzir impostos ao máximo, substituir regulamentações estatais por outras não-estatais determinadas por agências independentes em competição, e privatizar o máximo possível — mas sem transformar um monopólio estatal em um oligopólio privado de compadres.


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SOBRE O AUTOR

Helio Beltrão
é o presidente do Instituto Mises Brasil.


Friddi. Eu discordo de sua afirmação: "2o O plano Morgenthau poderia ter ajudado caso que Alemanha não teria perdido seus territorios no leste (o que é hoje parte de Polonia e Russia; Silesia, Prussia leste e Oeste)."

Até o final do século XVIII a Polônia fazia da Comunidade Polaca-Lituana, independente. Entre os anos de 1792 e 1795 esta comunidade foi dissolvida na marra pelos Império Russo, pelo Reino da Prussia e pelo Império Austriaco dos Habsburgos, que a dividiram entre os três no que foi chamado de "Tripartição da Polônia".


Esta partição criou uma grande emigração de poloneses para outros paises da Europa.

A Polônia só recuperou sua independência quando os impérios alemão e austro-húngaros foram derrotados na Primeira Guerra Mundial.

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, Hitler e Stalin dividiram novamente a Polônia, ficando a parte ocidental para a Alemanha nazista e a oriental para a URSS.

Ao final da Segunda Guerra novamente a Polônia foi libertada.

Inclusive, áreas atuais do leste da Alemanha, pré-historicamente eram habitados por povos eslavos e não germânicos (originários da região ocidental da atual Alemanha e países nórdicos (Dinamarca e etc.), como já demonstrado por descoberta arqueológicas realizados na atual Alemanha por alemães

Assim sendo, a Alemanha não perdeu terreno para a Polônia mas recuperou pois eram territórios pré-historicamente e historicamente eslavos, e que desde a pré-história habitavam inclusive terrritório que hoje pertence a Alemanha e não o contrário.

O vale do Rio Elba (nasce na República Tcheca, corta o leste da Alemanha, a oeste de Berlim, e desagua no Mar Báltico era habitado na idade média por povos eslavos, osSlowianie polabscy.

PS:
1) Sou descendente de alemães por parte de mãe: meus avós maternos vieram ao Brasil no entre-guerras. Tenho muitos primos na Alemanha;
2) de poloneses por parte de pai: meus quatro bisavôs paternos eram eslavos, nasceram, cresceram, casaram numa pequena comunidade situada a cerca de 50 km a leste da Alemanha.
Os quatro só falavam polonês, tinham feições e raizes eslavas e se consideravam poloneses, não prussianos. Mas, ao virem ao Brasil na segunda metade do século XIX vieram com passaportes prussianos, o passaporte dos dominantes da Polônia à época.

Aliás, por conta disto não consegui a nacionalidade polonesa pois quando a Primeira Guerra acabou meus bisavôs já haviam morrido e, portanto, não trocaram seus documentos de prussianos para poloneses.

Algumas fontes:

-
https://global.britannica.com/event/Partitions-of-Poland

- Norman Davies, God's Playground: A History of Poland in Two Volumes, Oxford University Press, 2005, ISBN 0-19-925339-0

- Bideleux, Robert; Jeffries, Ian (1998). A History of Eastern Europe: Crisis and Change. Routledge. p. 156

- Batt, Judy; Wolczuk, Kataryna (2002). Region, State and Identity in Central and Eastern Europe. Routledge. p. 153

Estudos sobre a presença de povos eslavos na atual Alemanha, escritos por alemães:

- The Archeology of Medieval Germany, by Günther P. Fehring :
https://books.google.com.br/books?id=7RMcBQAAQBAJ&pg=PA196&lpg=PA196&dq=slavic+settlement+Germany&source=bl&ots=DnBMN4Yl37&sig=oS9F03wUrlqh54GxzF-aZV58at0&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwjWr7-k2LXPAhVLCpAKHd_OB8AQ6AEIbzAQ#v=onepage&q=slavic%20settlement%20Germany&f=false


- Herrmann, Joachim (1970). Die Slawen in Deutschland (in German). Berlin: Akademie-Verlag GmbH
kudos 4u, WDS !
(btw, o IMB devia possibilitar aos leitores avaliar c/ up\downvotes tanto os artigos como seus comentários).

Sobre o trecho "...pessoas de bom-senso que percebessem o abuso das medidas nada poderiam fazer, pois o Estado tem o poder de impor arbitrariamente esse tipo de decisão aos cidadãos.", acho que hoje finalmente já há sim ao alcance de muitos algumas
medidas c/ verdadeiro potencial "game changer" p/ se contornar\mitigar essa tirania dos governos imposta essencialmente pela monopolização do (pseudo-)dinheiro e do sistema monetário.

Curioso em saber o percentual de frequentadores deste fórum que de fato já tomam iniciativas pessoais de combate efetivo ao poderio estatal nesse fronte, considerando a facilidade c/ que agora se pode adquirir e transacionar (transferir a outros como pgto e recebimento) tanto cripto-moedas como metais preciosos...

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • mauricio barbosa  23/05/2012 22:09
    Hélio Beltrão brilhante como sempre,simples e direto,admiro você e seu trabalho árduo no IMB, continue assim para o bem da causa libertária e que nossos ideais de liberdade alcance bons frutos e mudanças neste país sofrido.Um abraço.
  • Helio  30/05/2012 15:52
    Obrigado, Mauricio.
  • thalita  29/09/2012 21:31
    '' Por todos esses fatores, o PIB não deve voltar aos níveis de 5% de crescimento nos próximos dois anos, embora também seja improvável uma recessão séria. O Brasil poderia estar muito melhor.''

    Então o ano de 2013 provavelmente será melhor que 2012, mesmo com as atuais medidas do FED e a alta inadiplência dos brasileiros, crise imobiliária e etc ?

  • Típico Filósofo  21/05/2014 16:10
    "Estatal compra 341 trens mais largos que plataformas. 50 milhões jogados fora."

    economia.terra.com.br/franca-estatal-compra-341-trens-mais-largos-que-plataformas,3604418777e16410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html?ecid=g_editors_pick&google_editors_picks=true
  • Mr. Magoo  21/05/2014 21:31
    Devem ter usado sistema de peso e medidas do Piketty...


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