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Ignorar a Economia tem Consequências

A ciência econômica está presente em todas as nossas escolhas: decidimos o que comprar, o que produzir, quanto poupar ou investir — e acima de tudo, como agir em um mundo de escassez. Do sucesso da ação individual à organização da sociedade, tudo depende de como recursos escassos são utilizados.


Nenhuma teoria política pode escapar da realidade de que recursos são escassos. E não é possível ignorar esses fatos sem pagar um preço por isso. Por isso, qualquer visão política que despreze fundamentos econômicos tende a cair em ilusões profundamente equivocadas. Com frequência, essas ideias não apenas falham em resolver problemas, como acabam agravando exatamente aquilo que pretendiam corrigir.

Isso não significa reduzir o ser humano a um agente puramente material. Críticas ao modelo simplificado do homo economicus fazem sentido, mas ignorar a dimensão econômica da vida humana não torna uma análise mais sofisticada, apenas a torna menos realista. Afinal, por mais elevados que sejam nossos valores e objetivos, a vida ainda exige meios concretos. É preciso comer, produzir, trocar, poupar. É preciso lidar com a escassez.

Pensando nisso, selecionamos esta coletânea de artigos que expõem, de diferentes ângulos, os problemas de se ignorar a economia ao fazer análise política.
Abrimos com o artigo “A economia austríaca na era MAGA: por que a economia importa”, como porta de entrada para o debate contemporâneo. Diante de um crescente movimento político que se diz conservador, mas frequentemente despreza a teoria econômica em favor de soluções aparentemente intuitivas — tarifas, manipulação monetária e planejamento industrial —, Tom Woods mostra que ignorar a economia é o caminho mais curto para que a direita reproduza os mesmos erros cometidos pela esquerda.

Em seguida, trazemos a primeira parte do artigo acadêmico “A pobreza do liberalismo anti-economicista: os casos de Barros e Merquior”. Examinando a tentativa de construir uma teoria liberal que não leve em conta a economia, Fabio Barbieri argumenta que um liberalismo apoiado apenas em fundamentos morais e culturais acaba por oferecer versões empobrecidas das ideias de liberdade, deixando de lado dois elementos centrais do pensamento liberal clássico: o estudo das consequências não intencionais da ação humana e o modelo falibilista sobre a distribuição do conhecimento.

Prosseguimos com Ralph Raico em “John Stuart Mill e o novo liberalismo”, que oferece um estudo de caso histórico do mesmo problema. Stuart Mill, considerado por muitos o santo do liberalismo de língua inglesa, foi também um dos principais responsáveis pela diluição da doutrina e por sua progressiva apropriação por correntes social-democratas — um processo que se tornou possível, em boa medida, justamente pelo afrouxamento do compromisso com a análise econômica rigorosa.
Trazemos na sequência um outro artigo de Raico, “O liberalismo de Ludwig von Mises”, que apresenta o contraponto positivo. Aqui, Raico mostra como a obra Liberalismo de Ludwig von Mises representa a tentativa mais sistemática de restabelecer, no século XX, uma visão integrada do liberalismo —em que a economia não é um apêndice constrangedor da doutrina, mas o próprio motivo pelo qual o liberalismo funciona. Para Mises, a defesa da liberdade e da propriedade privada não decorre de um sentimentalismo abstrato, mas da compreensão de como sociedades livres efetivamente operam.

Para concluir, trazemos Lew Rockwell em “Por que a economia austríaca importa”, que oferece o paradigma econômico sugerido por toda a coletânea. Rockwell traça a trajetória da Escola Austríaca desde os escolásticos de Salamanca, passando por Cantillon, Menger, Böhm-Bawerk, Mises, Hayek e Rothbard, mostrando por que essa tradição em particular — fundada na ação humana, no individualismo metodológico e no subjetivismo do valor — oferece a base mais sólida para entender os fenômenos econômicos e, por extensão, para sustentar uma sociedade livre.

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