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Nos 150 anos da ‘Revolução Marginalista’, um resumo de suas cruciais constatações

Este ano de 2021 representa o sesquicentenário da chamada “revolução marginalista” na ciência econômica, que suplantou a Escola Clássica e deu origem à escola neoclássica e à Escola Austríaca de Economia.

A efeméride se refere à articulação independente e quase simultânea —por Carl Menger, William Stanley Jevons e Léon Walras— dos princípios da “utilidade marginal decrescente” e da “teoria subjetiva do valor”, pilares centrais da atual economia mainstream (a ciência econômica mais ensinada nas universidades ao redor do mundo).

No entanto, mesmo estes conceitos básicos, porém cruciais, seguem sendo mal compreendidos.

Utilidade marginal decrescente 

Durante milênios, pensadores como Platão, Copérnico e Adam Smith fracassaram em explicar o paradoxo do valor: por que uma garrafa d’água vale menos no mercado do que um quilate de diamante, que é menos importante e útil que a água? 

Os pensadores estavam aprisionados à convicção de que o valor de um bem deveria guardar relação umbilical com sua utilidade.

Menger demonstrou que a satisfação propiciada por uma unidade de um bem é avaliada pelo indivíduo, subjetivamente, segundo a utilidade daquela unidade adicional (a unidade “marginal”) adquirida.

Pense em água e em diamantes e veja o preço de cada. Nós não valoramos a categoria “diamantes” em relação à categoria “água”; não fazemos uma comparação direta entre ambos os produtos, que são distintos não apenas em sua composição, como também em suas finalidades. 

O que realmente fazemos é valorar uma unidade a mais de diamante em relação a uma unidade a mais de água. Este é o conceito de margem. 

Uma unidade a mais de água, tudo o mais constante, não faz diferença nenhuma para você. Já uma unidade a mais de diamante, um bem extremamente mais escasso que a água, faz muita diferença para você. A água é um bem superabundante. Diamantes não. Eis a margem.

Não está em jogo passar a vida toda sem água ou sem diamante, caso em que a água valeria todo o dinheiro do mundo. Na prática do dia a dia, o indivíduo normalmente já tem acesso a água. Portanto, a utilidade de uma garrafa adicional é pequena, ao passo que a utilidade de um diamante pode lhe parecer alta, em particular se não possuir nenhum.

Este conceito de marginalidade é muito importante na economia. Termos como “custo marginal”, “utilidade marginal”, “produção marginal” são extremamente utilizados.

Uma confusão ortodoxa

Um grande erro corriqueiramente feito pelo mainstream está em confundir “utilidade marginal decrescente” com “saciedade”.

É comum vermos economias convencionais pensando em utilidade marginal em termos de “saciedade” ou “satisfação” (aquele surrado exemplo de o primeiro copo d’água no deserto). 

Em termos técnicos, o mainstrem diz que utilidade marginal é a “quantidade de necessidades que são satisfeitas” quando se incrementa em uma unidade o consumo de determinado produto. Ou seja, o mainstream inventa uma soma que não existe e não faz sentido.

Mas não é assim que funciona. A utilidade marginal não está ligado à saciação, mas sim à valoração de itens homogêneos.

Eis alguns exemplos que ajudam a entender a correta definição de utilidade marginal.

Se um indivíduo possui 5 carros idênticos, os quais satisfazem completamente todos os seus desejos, então o valor de cada carro será determinado pela importância que esse indivíduo atribui ao quinto carro que ele possui (no sentido de que há um ranking de preferências pelos carros, e supondo que o quinto carro é o menos importante para ele). 

Assim, se ele por exemplo perder esse quinto carro, o valor de um carro aumentaria de acordo com a satisfação que ele agora tira do quarto carro no seu ranking de importância.

Caso ele perdesse quatro carros, ficando com apenas um, o valor desse único carro restante aumentaria enormemente, e o indivíduo agora passaria a valorizá-lo de acordo com a importância que esse único carro tem para ele na satisfação de todos os seus afazeres diários.

Por outro lado, caso ele ganhasse em um sorteio 100 carros iguais — um número que excede em muito a hipótese inicial de que 5 carros o satisfazem completamente —, então a utilidade marginal e o valor de cada carro agora seria de zero, pois a satisfação de todos os seus desejos automobilísticos não dependeria da posse de um centésimo carro — aliás, não dependeria nem mesmo de um sexto carro.

Portanto, o valor que um indivíduo atribui a uma unidade de uma determinada quantidade de bens é igual à importância que ele dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por essa unidade.

Se você está com fome e tem centenas de cédulas de 10 reais, perder uma cédula não lhe fará diferença alguma. Por outro lado, se você, estando com a mesma fome de antes, porém tendo agora apenas uma cédula de 10 reais, perder essa cédula, isso pode significar a diferença entre comer e morrer de fome. 

Logo, sua utilidade marginal para a cédula de 10 reais é nula no primeiro caso e, no segundo caso, possui o valor de sua vida.

Este é o verdadeiro conceito de utilidade marginal.

Resumindo: uma unidade adicional de um bem (oriundo de uma oferta de bens homogêneos) terá para você um valor que equivale à importância que você dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por este bem adicional.

Um copo d’água a mais para quem já está sem sede nenhuma não tem valor algum. Já um diamante a mais para um milionário ainda terá muito valor.

Por outro lado, imagine esta mesma situação para um indivíduo completamente perdido em um deserto inóspito. A valoração será totalmente inversa.

Deve-se sempre pensar em termos de valor subjetivo.

Quando você entende isso, percebe que não faz sentido nenhum, por exemplo, a ideia de valor-trabalho. E perceberá que a única explicação para o valor das coisas é a subjetividade dos indivíduos.

As consequências

A adoção do subjetivismo e do individualismo metodológicos descritos acima inverteu a seta causal defendida pela Escola Clássica. 

Na visão do clássico David Ricardo, a causalidade no valor dos bens se dava no mesmo sentido que a produção. Recursos naturais (por exemplo minério de ferro e carbono) são usados para produzir bens intermediários (por exemplo, aço e alumínio), que, por sua vez, são transformados em um bem final (por exemplo, smartphone) que atende às necessidades do consumidor.

Para Ricardo, o valor dos recursos naturais determinava o valor dos bens intermediários, que, por sua vez, determinava o valor do bem final que o consumidor comprava. Derivou daí a errada teoria ricardiana de que o valor é atrelado ao custo de produção, a qual Karl Marx adotou para sua teoria do valor-trabalho — um erro que mudou o mundo para sempre.

Ambas as teorias foram refutadas pela revolução marginalista. Em 1871, em seu livro Grundsätze der Volkswirtschaftslehre (“Princípios de Economia Política“), Menger demonstrou que a seta causal era a oposta: a partida do processo é a determinação (inter)subjetiva do valor do bem final pelos consumidores.

Em outras palavras, o valor não tem a ver com o custo, com o trabalho envolvido, ou com as propriedades inerentes do bem, mas é determinado por sua utilidade marginal para o consumidor. 

A partir daí, os preços dos bens intermediários e dos recursos naturais são derivados (ou “imputados”), sucessivamente ao longo da cadeia, de trás para a frente, a partir da avaliação do bem final pelo consumidor.

Esta constatação de que os preços dos bens de consumo dependem da valoração dos consumidores, e não dos custos de produção, possui consequências cruciais para coisas como empreendedorismo, políticas de controle de preços, teoria da exploração do trabalho e mais-valia.

No final, caminhos distintos

No nascimento, em 1871, a Escola Austríaca e a escola neoclássica pareciam dividir a mesma forma de ver o mundo. Com o tempo, ficou aparente que o ramo neoclássico considera a economia uma ciência exata e a Escola Austríaca julga o ser humano, imperfeito e temperamental, como ponto primeiro e central de todo o processo econômico.

São visões irreconciliáveis, refletidas em diferentes métodos para conduzir a ciência. Boa parte das contribuições da Escola Austríaca foi incorporada ao mainstream. Mas a diferença de visões persiste e não foi totalmente resolvida.

Apesar de a Escola Austríaca ser minoritária comparada aos neoclássicos, é a escola econômica mais antiga e a que mais cresce no mundo desde a falência da Curva de Phillips, nos anos 1970, processo acelerado a partir da crise financeira de 2008.

Os conceitos nucleares da economia austríaca contemporânea (ação humana, meios e fins, valor subjetivo, análise marginal, individualismo metodológico e estrutura temporal da produção), junto com a teoria austríaca do valor e dos preços, que formam a alma da análise austríaca — tudo isso advém da obra pioneira de Menger. 

Depois de 150 anos da “Revolução Marginalista”, Menger vive, e seu método para as ciências sociais ainda procura uma refutação.

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76 comentários em “Nos 150 anos da ‘Revolução Marginalista’, um resumo de suas cruciais constatações”

  1. Imagine um indivíduo, João, que tem uma esposa, uma filha, um cachorro e a seguinte escala de valores:

    1. Alimentar sua família com um bolo.

    2. Alimentar sua filha com um ovo

    3. Alimentar sua esposa com um ovo

    4. Alimentar a si próprio com um ovo

    5. Alimentar seu cachorro com um ovo

    Suponha que ele necessite de quatro ovos para fazer um bolo. 

    Com seu primeiro ovo, ele irá alimentar sua filha, pois ele prefere isto a todos os outros conjuntos de desejos que podem ser satisfeitos com apenas um ovo.  Com seu segundo ovo ele irá alimentar sua esposa, e com seu terceiro ovo ele irá alimentar a si próprio.

    Agora, suponha que João compre um quarto ovo. Isso nos leva a um possível falso juízo: “Ahá! Com o quarto ovo, João pode alimentar toda a sua família com o bolo, arranjo este que ele claramente prefere a alimentá-la apenas com ovos mexidos! Portanto, é óbvio que a utilidade marginal do quarto ovo é maior que a utilidade marginal do terceiro ovo. Logo, a utilidade marginal está aumentando!”

    Só que esta linha de raciocínio ignora um ponto crucial: o quarto ovo só pode ser utilizado para fazer um bolo junto com os três primeiros ovos

    Dado que a “utilidade marginal” é um conceito que pode ser aplicado somente a unidades homogêneas de uma dada oferta, "um ovo” deixa de ser a unidade relevante da análise

    A homogeneidade das unidades é determinada pelo conjunto de desejos que podem ser satisfeitos com uma unidade de um bem. Neste caso, a unidade relevante para a análise é “1 unidade = um arranjo de quatro ovos”. Assim, a escala de valores de João passa a ser:

    1. Alimentar sua família com um bolo

    2. Alimentar sua família com ovos mexidos

    Ele obviamente irá escolher alimentar sua família com um bolo. E, caso obtenha um segundo conjunto de quatro ovos, fará os ovos mexidos.

    Note que a escala de valores listada acima foi elaborada de acordo com os desejos satisfeitos pela unidade marginal de um determinado bem, e não pelo bem em si. João não preferia intrinsecamente o primeiro ovo ao segundo; ele preferia alimentar sua filha a alimentar sua esposa. Se houvesse apenas um ovo disponível, ele teria de escolher entre fins concorrentes, e o fim que mais o satisfaz é alimentar sua filha.

    Ou seja, a lei da utilidade marginal é merecedora deste exato status epistemológico: uma lei. Este teorema, que pode ser deduzido do axioma da ação, é mais do que apenas empiricamente demonstrável: ele é irrefutavelmente verdadeiro.

  2. eu acho que as duas teorias são validas, a do valor-trabalho de Marx ajuda a formar um preço-base e a teoria marginal muda este valor de acordo com a sua satisfação. Mas como sei que aqui não acreditam na teoria do Marx, não vou me alongar.

  3. Aí uma baita coisa que seria bom se ensinassem nas escolas, mas preferem doutrinar os alunos botando professores esquerdistas nas aulas de sociologia para alienar as pessoas de acordo com o que o corriculo do MEC para o ensino diz.

  4. Entendi, mas gostaria de saber o quê precede o quê. A lei da oferta e procura ou a lei da utilidade marginal decrescente? Ou é a mesma coisa?

  5. A utilidade marginal também varia de acordo com as propriedades intrínsecas do bem econômico homogêneo? Por exemplo: leite condensado vai enjoar muito mais rápido que a mesma quantidade de leite comum. Mas isso se deve à propriedades do leite condensado, não é?

  6. Fazia tempo que tentava entender isso. O artigo foi fantástico, mas os comentários e as respostas foram ainda mais esclarecedores. Obrigado aos que comentaram e aqueles que responderam. Me ajudaram muito a entender esses conceitos e perceber que que realmente a utilidade marginal é que faz o preço. Não adianta nada ter um bem ou serviço que você acredita vale muito ( e que pode realmente ter um valor/custo alto) se as demais pessoas não tem interesse/utilidade de possuir este bem ou serviço.

    Assim, ainda que vc coloque o bem/serviço (bom,caro ouchique) com um valor abaixo do seu custo, certamente você ainda perderá se aquilo não tiver uma utilidade marginal para os demais.

  7. Ex-microempresario

    Se os preços fossem determinados pelo “valor-trabalho”, filé mignon e fígado deveriam custar a mesma coisa, já que o trabalho para produzi-los foi o mesmo.

    Mas como as pessoas, na média, atribuem um valor marginal maior para o mignon, sua demanda é maior e consequentemente o preço também.

  8. Segundo e teoria mainstream, uma diminuição no preço de um produto, ceteris paribus, gera um aumento na demanda do mesmo. Mas isso não acontece quando se instaura o pânico no sistema financeiro. Por exemplo, todos resolvem vender ações, mas ninguém quer comprar, logo, seu valor cai. Entretanto, isso não gera um aumento da demanda por ações, muito pelo contrário, o comportamento das pessoas se torna “bovino”, fazem o que todos estão fazendo: tentam vender ações, derrubando ainda mais os preços, até o crash.

    Como explicar esse fato da perspectiva austríaca?

  9. Como se aplica o conceito de utilidade marginal ao dinheiro? Tipo assim, quanto mais o cara tem mais ele quer. Isso não vai contra o conceito de utilidade marginal decrescente?

  10. LUIZ HENRIQUE AMADOR

    Pessoal, gostaria que alguém esclarecesse uma dúvida de leigo minha. Bom… sei que estamos em um período difícil, e muitas pessoas estão falando que estamos em crise, mas sinceramente eu não vejo que estamos em crise AINDA. Sei que várias pessoas perderam empregos, e várias empresas faliram, porem, apesar disso, eu não enxergo que estamos em crise. Vejo várias pessoas construindo casas, comprando carros, motos principalmente. Sei que esse aumento no consumo foi devido ao choque na demanda , devido a expansão monetária, via auxílios do governo à população , e também dos empréstimos bancários com custo baixíssimo às empresas. Trabalho em um escritório de contabilidade, e as empresas nas quais prestamos serviços nunca faturaram tanto como na pandemia. Teve empresa que o faturamento mensal triplicou. Mas o que eu quero dizer é: estamos realmente numa crise, ou estamos em uma pré-crise economica? A verdadeira crise ainda está por vir?

  11. Isso é o que você vê, como o Vladimir disse logo á cima, as pessoas “menos produtivas” e que recebem salário mínimo foram às mais afetadas pela inflação crescente, e pessoas assim são encontradas nas partes mais pobres da sociedade.

    Moro em uma periferia, e vejo muito trabalhador que tem que sustentar á família passando sufoco, pois às coisas ficaram mais caras, mas o salário deles não subiram no mesmo ritmo.

    Quem recebe de três salários mínimos para cima obviamente não estão passando sufoco, mas ainda sim o poder de compra deles diminuiu.

    Aliás, agora é uma ótima época para pegar empréstimos imobiliários e bancários, conheço um cara esperto que está enriquecendo cada vez mais nesses últimos anos, pois está se aproveitando disso, e ele nem é empresário.

    “Mas o que eu quero dizer é: estamos realmente numa crise, ou estamos em uma pré-crise economica? A verdadeira crise ainda está por vir?”

    Não estamos exatamente em uma crise, mas sim em um momento de grande elevação da inflação devido a enorme desvalorização do real. Acontece que o orçamento do governo está uma lambança, e os juros reais estão historicamente negativos, os investidores estrangeiros estão fugindo do Brasil, obviamente não tem como o real valorizar assim, elevar á selic para ao menos 7% é o mínimo.

    E eu não sei dizer exatamente se alguma bolha foi criada no meio da pandemia, pois não sou economista, e ainda estou estudando sobre às bolhas econômicas, mas no meu ponto de vista, não, pois os bancos estão sendo cautelosos e estão emprestando apenas para pessoas com um excelente histórico.

  12. Bolsodilma,

    É uma falácia e tanto dizer que o governo irá falir em tão pouco tempo por causa da situação fiscal, á única coisa na qual os investidores realmente estão preocupados na parte fiscal, é se o governo irá ou não conseguir pagar os juros de sua dívida.

    Diria que á situação só irá se tornar realmente insustentável quando os gastos com juros baterem os 100%, á partir daí o governo irá desabar em efeito dominó caso nada seja feito.

    E está muito, muito longe dos gastos com juros atingirem esse nível, 2 anos não faz nem cócegas.

    “Toda expansão monetária infla uma bolha”

    Correção: Toda expansão monetária que fornece crédito fácil e farto infla uma bolha.

  13. Fabio Anderaos de Araujo

    Gostaria de perguntar aos defensores da teoria marginalista ou teoria subjetiva do valor, como essa teoria explica o valor do salário pago a um trabalhador braçal, especificamente ao indivíduo que trabalha na limpeza de ruas nas cidades ou para uma empresa ferroviária, preparando a terra para colocar os trilhos por onde passará um trem? Não há como fugir da teoria do valor-trabalho incorporado.

  14. Fabio Anderaos de Araujo

    Em primeiro lugar, eu não exijo respostas completas, pois seria presunção de minha parte. Segundo, não li os dois primeiros artigos porque já sei do que se trata: não se pode comparar o salário de um lixeiro ou de um professor com o de artistas em geral, jogadores de futebol etc. Quanto ao segundo artigo, é óbvio que só o “trabalho duro” não garante prosperidade ou elimina a pobreza, porque existe uma outra variável fundamental, o papel da ciência e da tecnologia que aumentam a produtividade e ampliam os horizontes de um país. Basta comparar o PIB per capita da Suíça com o da Costa do Marfim, por exemplo. Um país que fica restrito a exportar matérias primas com reduzido valor-agregado não pode esperar que sua população desfrute de maiores e melhores padrões de consumo e de vida, exceto na Arábia Saudita e países do Golfo Pérsico, nos quais os recursos obtidos com a exportação de petróleo sustentam artificialmente um padrão elevado de consumo de grande parte de sua população. Mas não é disso que estamos tratando aqui. O indivíduo que atende pelo nome de Vladimir (não sabemos de quem se trata realmente, se Vladimir é um apelido etc, pois esse nome não consta da relação de autores do Von Mises Brasil) se utiliza da estratégia da comparabilidade entre rendimentos auferidos por pessoas que exercem diferentes papéis na sociedade para desviar o foco da minha questão: como é determinado objetivamente o salário de um simples trabalhador braçal? É óbvio que existe uma referência objetiva. Por exemplo, como a companhia Vale calcula o custo de produção de uma tonelada de minério de ferro extraída de Carajás, antes de chegar ao porto para exportar essa matéria-prima? Já o preço de venda é determinado exogenamente, por um conjunto de fatores que chamamos genericamente de mercado. Vladimir ainda tem a arrogância de dizer que sou avesso a leituras e que tenho receio de ter minhas convicções abaladas. Ora, se eu tivesse esse receio, não estaria aqui debatendo um tema ou assunto. Vladimir faz essas afirmações em tom professoral, cujo objetivo é subestimar meu conhecimento e como se a teoria marginalista fosse insuperável, que não pode ser questionada. Sugiro a Vladimir ler os trabalhos de Piero Sraffa e o debate entre este último e Friedrich Von Hayek na década de 30. Entendo que o Instituto Ludwig Von Mises Brasil é um forum para debates e com a função de esclarecer questões econômicas sob a ótica da teoria subjetiva do valor. Recorro à famosa frase de Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra” para lembrar a Vladimir que ninguém é dono da verdade.

  15. Fabio Anderaos de Araujo

    Creio que as tentativas de transformar a Economia em uma ciência exata não lograram êxito. No caso da teoria do valor-trabalho, ela consegue explicar a determinação dos preços de produção como um somatório de quantidade direta e indireta de trabalhos datados (Sraffa, 1960, cap VI) de um conjunto de mercadorias na sua forma mais elementar, em que prevalece a comensurabilidade física entre insumos e produtos. Porém, na economia moderna, a comensurabilidade física entre insumo e produto representa uma pequena fração da produção total porque as mercadorias sofrem uma transformação física no processo produtivo (leite como insumo, manteiga ou queijo como produto, por exemplo). À medida que o processo produtivo vai evoluindo com o progresso tecnológico, a participação do trabalho direto vai diminuindo proporcionalmente à quantidade total de trabalho, tendo como contrapartida uma participação crescente da quantidade de trabalho indireto, representado pelos meios de produção (equipamentos, maquinário, insumos e outros bens intermediários). Agradeço à equipe do site do Instituto Von Mises Brasil pela oportunidade do debate neste forum.

  16. Bluepil (Ou introvertido, são dois Nicknames que eu utilizo)

    Prezado Fábio, eu estava escrevendo um texto que iria refutar todos os seus argumentos, mas eu estou utilizando celular no momento, e acabei clicando na maldita barrinha de “Home” que existe no topo do Chrome, e quê é extremamente fácil de acidentalmente clicar, por causa disso acabei perdendo todo o texto, e fiquei extremamente frustado, se puder facilitar á minha vida, coloque todos os seus argumentos bem organizados aí, baseados nessas minhas perguntas á seguir, pois não estou afim de reescrever tudo…

    1) O que você vê de incorreto na Teoria marginal?

    2) O que você mensura como correto na teoria de valor-trabalho?

    PS: Espero ser mais ativo nesse site no futuro, quando eu arrumar meu PC, escrever argumentos e textos via celular é demorado e também pode ser bem frustante.

  17. Fabio Anderaos de Araujo

    Prezado Introvertido (sobre seu comentário de 02/mai/2021 – 19h14)

    Veja como são as coisas, eu posso ter interpretado erroneamente a teoria austríaca por falta de conhecimento suficiente, mas você e Flávio têm uma visão rudimentar da teoria do valor-trabalho.

    A teoria do valor-trabalho em Marx não é algo passível de ser comprovada na prática, pois esse conceito de "quantidade de trabalho socialmente necessária" para se produzir uma mercadoria é muito vago e filosófico, por assim dizer. Eu pessoalmente tenho muita dificuldade para entender esse conceito. Marx usou esse conceito para subsidiar sua teoria da exploração, isto é, a teoria da mais-valia.

    Há bom tempo atrás eu optei por ser mais realista e usar a teoria do valor-trabalho incorporado de maneira mais concreta, isto é, analisar o sistema de preços com base nas quantidades (físicas) de trabalho quantificáveis ou passíveis de mensuração.

    A abordagem de Marx para se determinar os preços de produção, isto é, partindo dos valores-trabalho para se chegar aos preços de produção está totalmente superada.

    Primeiro, Marx não tinha um conhecimento matemático suficiente para perceber que ao usar nas suas esquemas ou equações grandes agregados (Lucros, Salários, Produto e Capital) e ainda distribuídos em três setores (Bens de salário ou de subsistência, Bens de Capital e Bens de Luxo), ele simplificou o sistema de produção a tal ponto que só existiam três mercadorias.

    Porém, mesmo que Marx tivesse dividido o setor produtivo em n indústrias (n mercadorias), faltou a ele outro parâmetro fundamental: um postulado de invariância, como demonstrou Francis Seton, da Universidade de Oxford, em 1957 (Review of Economic Studies, vol 24, 1957, pp 149-60).

    Como temos n indústrias ou ramos de produção, cada um produzindo uma única mercadoria, temos n equações de produção e (n + 2) incógnitas, ou seja, n preços de produção, a taxa de salário (w) e a taxa de lucro (r ). Mesmo que ele, Marx, lançasse mão de uma proxy para a taxa de lucro, por exemplo, a taxa média de juros de longo prazo praticada na economia, falta mais uma equação independente para igualar o número de incógnitas com o número de equações independentes. Um postulado de invariância seria (n +2)a equação. Também não se pode, como muitos pensam, escolher arbitrariamente o preço de uma das mercadorias como numerário, isto é, definir o preço dessa mercadoria como igual à unidade (p* = 1 ).

    O que eu quero dizer com postulado de invariância?

    Um postulado de invariância teria que ter a propriedade de ser invariável à distribuição da renda ou do excedente entre salários e lucros (estamos supondo uma economia que produz um excedente econômico, isto é, acima das necessidades mínimas de reprodução do sistema econômico). Qualquer aumento dos lucros totais teria que ser exatamente compensado por uma redução de mesma magnitude dos salários totais.

    Marx não conseguiu encontrar ou formular um postulado de invariância. Daí a razão do problema marxiano da transformação dos valores-trabalho em preços de produção ter ficado sem solução.

    Na prática, dois padeiros poderão ter desempenhos diferentes para preparar a mesma massa de um pão ou de um brioche usando os mesmos ingredientes nas mesmas quantidades. O primeiro padeiro, mais habilidoso, pode preparar a massa em menos tempo do que o segundo padeiro. Isto significa que o primeiro padeiro é mais produtivo do que o segundo.

    Se os dois padeiros trabalham na mesma empresa, possivelmente recebem o mesmo salário, mas essa situação não pode durar indefinidamente porque o gerente de produção vai perceber a diferença de produtividade entre os dois padeiros e pode adotar o seguinte procedimento: o padeiro menos produtivo terá que fazer um treinamento para melhorar sua produtividade ou promover o padeiro mais produtivo para justificar um salário maior. O primeiro padeiro poderá também pedir ao gerente de produção um acréscimo de salário pode ser mais produtivo. Na prática as coisas são muito dinâmicas.

    Como a teoria do valor-trabalho lida com essa situação para explicar e determinar os preços de produção?

    Sabemos que em toda modelo teórico há necessidade de se adotar algumas simplificações porque ele não consegue captar a dinâmica do mundo real, senão o modelo seria tão complexo e possivelmente muito difícil de operacionalizar.

    Uma das simplificações é que essas diferenças de produtividade entre os dois padeiros é uma exceção no conjunto das panificadoras ou n indústria de panificação para um determinado período de tempo e não afeta de modo relevante o cálculo econômico.

    Em outras palavras, a teoria do valor-trabalho usa o conceito de produtividade média. A quantidade de massa de pão produzida pelos dois padeiros em determinado período de tempo é dividida pelo número de horas dispendidas pelos dois padeiros em conjunto, de modo que para o modelo não há distinção entre a produtividade de cada um deles.

    Veja que ainda não entramos na questão tecnológica, da substituição de trabalho-direto por trabalho-indireto (o trabalho contido ao se fabricar os equipamentos e máquinas) ou a substituição do trabalho humano por máquinas.

    Ao supor que o custo da hora/trabalho em uma economia seja de R$ 10, você está simplificando a teoria do valor-trabalho e tirando conclusões equivocadas.

    1] Temos que analisar o sistema de preços como um todo, dada a interdependência entre os setores produtivos. Produtos de uns são insumos de outros setores. Um sistema de equações tipo insumo-produto. Não podemos

    2] Os preços das mercadorias diferem por vários motivos: tecnologia & produtividade, valor agregado (leite e queijo, um casaco simples de algodão, um casaco de cashmere ou de couro forrado e assim por diante).

    3] Nem o salário é uma dedução do lucro e nem o contrário. O sistema produtivo cria um excedente econômico que será divido entre salários, lucros e renda. Se não existe excedente econômico para ser distribuído, não existe lucro (r = 0). Podemos pensar, em tese, na existência de um excedente econômico inteiramente apropriado pela classe trabalhadora. Matematicamente isso é possível.

    4] A concorrência perfeita é uma das grandes simplificações das teorias econômicas. Na prática a concorrência perfeita é observada em setores nos quais não existem barreiras à entrada de novas firmas, produtores ou concorrentes. Mas isso não impede de analisar as economias com a presença de oligopólios ou monopólios. É uma questão de adaptar os modelos de sistema de preços com essa característica.

    5] O comerciante não pode mesmo definir o custo ou preço de venda de uma mercadoria com base na quantidade de trabalho ou do tempo de trabalho exigido para produzi-la porque o comerciante cumpre a função de distribuir e vender a mercadoria junto ao público consumidor intermediário ou final. Ele não tem influência direta na produção. O custo da mercadoria para o comerciante é o preço de venda do produtor. O comerciante acrescenta ao custo da mercadoria que adquiriu do produtor os custos de distribuição e sua margem de lucro para formar o preço de venda ao consumidor.

    Define-se excedente econômico como sendo a produção de bens acima das necessidades de reprodução do sistema, ou seja, repor os bens consumidos no processo produtivo, pagar os salários, a renda da terra, aluguel de ativos, os juros sobre empréstimos para capital de giro e investimentos etc. O que sobrar é o excedente econômico, que será dividido entre capitalistas (lucros), eventualmente um salário-extra aos trabalhadores (uma espécie de bonificação, um ganho acima do salário mínimo necessário à reprodução da classe trabalhadora).

    Não vamos por hora entrar na discussão se há ou não exploração dos trabalhadores pelos capitalistas.

    Sem a coordenação do sistema produtivo pelos agentes econômicos eu não acredito que um sistema econômico no qual não exista a propriedade privada dos meios de produção possa funcionar eficiência e na sua plenitude. O ser humano não é desprovido de ambições e nem possui um desprendimento suficiente para trabalhar e viver sem se preocupar com a propriedade privada.

    Marx acreditava em uma sociedade igualitária que na prática não funciona e jamais irá funcionar. Qualquer tentativa nesse sentido redundou em sistemas totalitários em que alguns poucos se beneficiam em detrimento da maioria. A antiga URSS é um dos melhores exemplos.

    O que não pode existir são abusos, cartéis e monopólios não-naturais e latifúndios improdutivos. Daí a necessidade de se ter entidades reguladoras, sem ingerência política (algo também difícil) com a finalidade para coibir abusos de qualquer natureza, protegendo interesses de produtores e consumidores.

  18. Tecnicamente isso não é uma contribuição, já que isso já foi dito nesse debate, e o prezado Fabio também aparentemente já foi capaz de compreende-lo, mas talvez os seus exemplos dados esclareçam um pouco á mentalidade que o Fábio possui sobre á utilidade marginal austríaca, porquê ele parece jurar que o valor real de todos os produtos possam ser avaliados por meio da matemática macroeconomia ensinada em universidades, e por meio de uma teoria bizarra que diz que o valor dos bens são decididas de acordo com uma média aritmética de horas que se leva para criar tal produto, e por um valor por hora – E eu não faço idéia de qual contabilização é utilizada para decidir o valor por hora de produção de um determinado produto na Teoria de valor-trabalho -, sem se considerar á teoria marginal.

    Eu tento fundamentar meus argumentos por meio dos artigos desse site, para tentar passar uma facilidade de compreensão dos argumentos que eu uso, mas parece que o prezado Fábio não tem qualquer interesse em lê-los, e sinceramente eu não tenho saco para ficar explicando coisinha por coisinha em debates, já que eu gosto de debater seriamente com pessoas que já possuem uma compreensão geral dá teoria, não leigos.

    Eu tentei resolver esse dilema refutando os argumentos de valor-trabalho que ele utiliza, mas eu não sou versado nessa teoria, além de que eu sinceramente não tenho interesse em aprender teorias que soam errôneas, e que já foram refutadas até pela mainstream, como essa do valor-trabalho. Até porquê quem tá tentando refutar alguma teoria aqui é o Fábio, não eu.

    Então eu dei um tempo para ele se tornar mais versado na teoria austríaca, e agora só estou no aguardo de uma resposta para o argumento que eu dei, vai ver ele resolveu começar á ler os artigos ou até os livros de econômia austriacos, se bem quê isso já é ter muitas expectativas de alguém que até um tempo atrás aparentemente utilizada á teoria do valor-trabalho em todas às suas discussões sobre Econômia, e confundia á teoria marginal austríaca com á neoclássica.

  19. Fabio Anderaos de Araujo

    Vou voltar ao assunto e responder a Bluepill em breve sobre a taxa de juros.

    Por ora, entendo que existe uma taxa de juro neutra, de equilíbrio, que pode ser dada pela seguinte relação:

    i = [ r* – r (1 – p)]/p,

    sendo: r* = taxa geral de lucro;

    r = taxa de retorno sem risco (riskless rate of return);

    p =proporção média do capital investido com recursos de terceiros (0 0, porque as empresas tomam recursos de terceiros para investir, para capital de giro etc (alavancagem financeira etc). Se p = 0, a taxa geral da economia seria igual à taxa de retorno livre de risco.

  20. Esta teoria explica bem o ditado “uma pessoa só dá valor a algo que tem quando o perde.”

    Seja um bem, um serviço ou um relacionamento saudável, quanto menos destes temos, mais os valorizamos… muitas vezes, só depois de perder o “quinto” carro/curso/pessoa na nossa vida.

  21. Eu creio que tudo que precisa de muita explicação não tem valor! E creio que saber que algo esta largamente oferecido vale menos que algo escasso é uma explicação bastante! Todo mundo pode fazer uma faxina mas pouquíssimos podem fazer um projeto de um avião!

    O único que rouba essa ideia é o político, ou não….Muitos podem ser políticos e todos que são levam tudo…Esse é o verdadeiro problema que a sociedade não consegue solucionar rapidamente.

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