Mesmo com a taxa Selic em patamares elevados e a inflação corrente mostrando sinais de controle, mas ainda subindo, o mercado de títulos públicos, especialmente o Tesouro IPCA (Juro do Tesouro IPCA+ ultrapassa os 8% ao ano), continua a precificar juros reais (acima da inflação) bastante altos. Essa aparente contradição se explica principalmente pelo risco fiscal percebido no Brasil, que está construindo um cenário de instabilidade, e a eleição está como cortina de fumaça para esconder o risco real de quebra da economia.
O principal motor por trás desses juros elevados é a preocupação do mercado com a trajetória da dívida pública brasileira. Há uma percepção de que o governo pode ter dificuldades em cumprir suas metas fiscais, o que levaria a um aumento ainda maior do endividamento. Fatores como a flexibilização do arcabouço fiscal e a incerteza sobre a capacidade de gerar superávits primários consistentes alimentam essa desconfiança.
Quando o mercado enxerga um risco fiscal elevado, ele exige um “prêmio de risco” maior para emprestar dinheiro ao governo. Isso significa que, para atrair investidores, o Tesouro Nacional precisa oferecer taxas de juros mais altas em seus títulos, como o Tesouro IPCA. Essas taxas elevadas não apenas refletem o custo de financiamento do governo, mas também incorporam as expectativas de inflação futura.
A lógica é a seguinte: se a dívida pública cresce de forma insustentável, o mercado teme que, em algum momento, o governo possa recorrer a medidas inflacionárias para lidar com ela, como a monetização da dívida (impressão de dinheiro) ou uma perda de confiança na moeda. Mesmo que o Banco Central esteja combatendo a inflação atual com juros altos (Selic), a política fiscal expansionista ou incerta pode minar esses esforços ao gerar expectativas de inflação futura.
O risco da expansão monetária artificial e a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE)
A preocupação com o risco fiscal se aprofunda quando consideramos a possibilidade de o governo financiar seus déficits por meio da expansão artificial da base monetária, o que é conhecido como criação de fiat money. Conforme a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE), essa prática distorce os sinais de mercado, especialmente as taxas de juros, que são o custo do capital. Taxa Selic alta ajuda a controlar inflação, tirando fiat money do mercado de crédito. Mas o governo brasileiro está aumentando sua base monetária quase que em ritmo exponencial, como se não houvesse amanhã, conforme gráfico abaixo:
Fonte: Trading View, 2026.
Do outro lado, o Banco Central está tentando reduzir artificialmente as taxas de juros, e vai enviar sinais equivocados aos empreendedores. Somado a isso, projetos de investimentos que seriam inviáveis com taxas de juros naturais (determinadas pela poupança real da sociedade) tornam-se aparentemente lucrativos, graças ao acesso aos juros subsidiados (BNDES e créditos estatais). Isso vai levar aos malditos “malinvestiments” – alocações ineficientes de capital em setores que não possuem demanda real ou sustentabilidade a longo prazo. Estamos presenciando, assim, um “boom” econômico artificial, um crescimento insustentável que não se baseia em poupança e investimento genuínos, mas sim em crédito barato e ilusório. E como o governo não para de ‘imprimir’ dinheiro, a inflação vem correndo por fora, sabotando tudo isso.
Inflação: a perda do poder de compra e seus efeitos perversos
A inflação, nesse contexto, não é apenas o aumento generalizado dos preços, mas a perda do poder de compra da moeda, resultante de um excesso na base monetária em relação à oferta de bens e serviços. Essa desvalorização da moeda distorce os sinais de preço, dificultando a tomada de decisões racionais por parte de produtores e consumidores. A energia produtiva é desviada para a proteção contra a inflação (como a corrida aos supermercados em tempos de hiperinflação), em vez de ser direcionada para a geração de riqueza. A inflação também promove uma redistribuição injusta de riqueza, penalizando os mais pobres e os poupadores.
A fragilidade do sistema bancário e as falhas de governo
O sistema de reservas fracionárias sempre deixou o sistema bancário vulnerável. Em um cenário de crise de confiança, a corrida aos bancos para saques pode levar a “feriados bancários”, como os observados na Argentina (2002) e na Grécia (2015), evidenciando que o fiat money não tem lastro físico suficiente para atender a todos os saques simultaneamente.
Impostos e subsídios distorcem ainda mais os sinais de mercado, criando o que a economia chama de “peso morto” – uma perda irrecuperável de bem-estar social. A história da crise de 1929 nos mostra como tarifas e aumentos de impostos, somados à expansão monetária artificial, transformaram uma recessão em uma Grande Depressão – estamos repetindo esse padrão.
O risco de quebra da economia
Em resumo, enquanto a política monetária (Selic) atua no controle da inflação no curto prazo, a política fiscal (gastos e endividamento do governo) é crucial para ancorar as expectativas de inflação no longo prazo. O alto custo que o Brasil paga em juros no Tesouro Direto é um reflexo direto dessa percepção de risco fiscal. Esse risco já está se materializado em uma expansão monetária artificial e insustentável. Os malinvestiments, a inflação crescente, a fragilidade do sistema bancário e as falhas de governo podem culminar em uma crise econômica profunda, com perda generalizada de confiança na moeda e no sistema financeiro, levando a um colapso da economia.
Este artigo foi originalmente publicado no site do professor Adriano Paranaiba.
