Nota da edição:
O artigo a seguir é um trecho dos capítulos 8 e 9 do livro Keynes, The Man. Na obra, Murray Rothbard busca fazer uma análise crítica da biografia do economista John Maynard Keynes, traçando as origens da sua defesa de uma política econômica intervencionista e como ela obteve adesão de parte considerável da opinião pública dentro e fora do ambiente acadêmico.
O Trapaceiro
O jovem Keynes não demonstrava interesse algum por economia; seu principal interesse era a filosofia. De fato, concluiu sua graduação em Cambridge sem cursar uma única disciplina de economia. Não apenas nunca obteve um diploma na área, como o único curso de economia que Keynes frequentou foi uma disciplina de pós-graduação de um semestre ministrada por Alfred Marshall.
Ainda assim, ele considerou aquele contato com a economia empolgante, pois ela apelava tanto a seus interesses teóricos quanto à sua sede de causar grande impacto no mundo real da ação. No outono de 1905, escreveu a Strachey: “Considero a economia cada vez mais satisfatória, e acho que sou bastante bom nisso. Quero administrar uma ferrovia ou organizar um truste ou, pelo menos, enganar investidores” (Harrod 1951, p. 111)1.
Na verdade, Keynes havia recentemente iniciado sua carreira de longa duração como investidor e especulador. Ainda assim, Harrod viu-se obrigado a negar vigorosamente que Keynes tivesse começado a especular antes de 1919.
Afirmando que Keynes não possuía “nenhum capital” antes disso, Harrod explicou a razão de sua insistência em uma resenha publicada seis anos após o lançamento de sua biografia: “É importante que isso seja claramente compreendido, pois havia muitos desafetos (…) que afirmavam que ele se aproveitou de informações privilegiadas quando estava no Tesouro (1915–junho de 1919) para realizar especulações bem-sucedidas” (Harrod 1957). Em uma carta a Clive Bell, autor do livro resenhado e antigo membro do Grupo de Bloomsbury e amigo de Keynes, Harrod insistiu ainda mais no ponto: “A questão é importante por causa das histórias repugnantes, que são muito difundidas (…) sobre ele ter ganho dinheiro de maneira desonesta ao tirar proveito de sua posição no Tesouro” (ibid.; cf. Skidelsky 1983, pp. 286–88).
Apesar da insistência de Harrod em afirmar o contrário, Keynes de fato havia criado seu próprio “fundo especial” e começado a fazer investimentos em julho de 1905. Em 1914, Keynes já especulava pesadamente no mercado de ações e, em 1920, havia acumulado £16.000, o que equivaleria a cerca de US$ 200.000 em valores atuais [em relação a 1992 quando Rothbard escreveu o livro]. Metade de seus investimentos foi feita com dinheiro emprestado.
Não está claro, neste ponto, se seu fundo era usado para investimentos ou para fins mais especulativos, mas sabemos que seu capital havia aumentado mais de três vezes. Ainda não foi provado se Keynes utilizou informações privilegiadas do Tesouro para tomar tais decisões de investimento, embora as suspeitas certamente permaneçam (Skidelsky 1983, pp. 286–88).Mesmo que não possamos provar a acusação de fraude contra Keynes, devemos considerar seu comportamento à luz de sua própria condenação severa dos mercados financeiros como “cassinos de apostas” em The General Theory [A Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda, em tradução livre]. Parece provável, portanto, que Keynes acreditasse que seus sucessos na especulação financeira haviam lesado o público, embora não haja motivo para pensar que ele se arrependesse disso. Ele percebeu, contudo, que seu pai desaprovaria suas atividades2.
Keynes e a Índia
Enquanto estudava em Eton, o jovem Keynes (aos 17 e 18 anos) testemunhou uma onda de sentimento anti-imperialista após a guerra da Grã-Bretanha contra os bôeres na África do Sul. Ainda assim, ele jamais foi influenciado por esse sentimento. Como observa Skidelsky,
“ao longo de toda a sua vida, ele tratou o Império como um fato da vida e jamais demonstrou o menor interesse em rejeitá-lo. (…) Ele nunca se afastou muito da visão de que, considerando-se todas as coisas, era melhor que ingleses governassem o mundo do que estrangeiros” (Skidelsky 1983, p. 91).
No fim de 1905, apesar da insistência de Marshall, Keynes abandonou os estudos de pós-graduação em economia após apenas um semestre e, no ano seguinte, prestou os exames do serviço civil, conseguindo um cargo administrativo no escritório britânico para administrar a colônia indiana [conhecido como India Office]. Na primavera de 1907, Keynes foi transferido do Departamento Militar para o Departamento de Receita, Estatísticas e Comércio. Embora viesse a se tornar um especialista em assuntos indianos, ele ainda assim pressupunha, de maneira despreocupada, que o domínio britânico não deveria ser questionado: a Grã-Bretanha simplesmente difundia boa governança em lugares incapazes de desenvolvê-la por conta própria.
“Maynard”, observa Skidelsky, “sempre enxergou o Raj a partir de Whitehall; jamais considerou as implicações humanas e morais do domínio imperial ou se os britânicos estavam explorando os indianos”. Além disso, na grande tradição imperialista dos Mill e de Thomas Macaulay na Inglaterra do século XIX, Keynes jamais sentiu necessidade de viajar para a Índia, aprender línguas indianas ou ler livros sobre a região, exceto quando tratavam de finanças (ibid., p. 176).
Apesar de sua ascensão a altos cargos do serviço civil, Keynes logo se cansou de seu cargo de prestígio sem muitas responsabilidades e tentou retornar a Cambridge por meio de um cargo de professor. Por fim, na primavera de 1908, Marshall escreveu a Keynes, oferecendo-lhe um cargo de professor assistente de economia. Embora Marshall estivesse prestes a se aposentar, convenceu facilmente seu amigo, aluno favorito e sucessor escolhido a dedo, Arthur C. Pigou, a seguir a prática de Marshall de pagar pelo cargo com seu próprio salário; Neville Keynes [pai de Maynard Keynes] prontamente se ofereceu para complementar a remuneração.
Em 1908, Keynes assumiu alegremente o papel insular de lecionar economia marshalliana em sua antiga instituição, o King’s College, em Cambridge. Mas a maior parte de seu tempo e energia era dedicada à vida agitada de homem de influência em Londres (Corry 1978, p. 5). Uma de suas funções era atuar como conselheiro informal, mas valorizado, do India Office; de fato, sua associação com o órgão se expandiu após 1908 (Keynes 1971, p. 17). Como resultado, ele desempenhou um papel importante nos assuntos monetários indianos, escrevendo em 1909 seu primeiro grande artigo acadêmico sobre a Índia para o Economic Journal; redigindo memorandos influentes que deram origem a seu primeiro livro, a breve monografia Indian Currency and Finance [Moeda e Finanças Indianas, em tradução livre], em 1913; e exercendo um papel influente na Comissão Real sobre Finanças e Moeda da Índia, cargo de prestígio para o qual foi nomeado antes dos 30 anos.
O papel de Keynes nas finanças indianas não foi apenas importante, mas também, em última instância, nefasto, prenunciando seu papel posterior nas finanças internacionais. Ao converter a Índia de um padrão-prata para um padrão-ouro em 1892, o governo britânico acabou criando acidentalmente um padrão ouro-câmbio, em vez do padrão-ouro pleno baseado em moedas de ouro que caracterizava a Grã-Bretanha e as demais grandes nações ocidentais. O ouro não era cunhado em moedas nem estava de qualquer outra forma disponível na Índia, e as reservas indianas em ouro que forneciam lastro para as rúpias eram mantidas como saldos em libra esterlina em Londres, e não em ouro propriamente dito.
Para a maioria dos funcionários do governo, esse arranjo era apenas uma medida intermediária rumo a um futuro padrão-ouro pleno; mas Keynes saudou o novo padrão ouro-câmbio como algo progressista, científico e orientado em direção a uma moeda ideal. Ecoando visões inflacionistas de séculos anteriores, ele afirmava que moedas de ouro “desperdiçam” recursos, que poderiam ser “economizados” por meio de papel-moeda e câmbio estrangeiro.
O ponto crucial, contudo, é que um padrão-ouro falso, como necessariamente é o padrão ouro-câmbio, permite muito mais espaço para gestão monetária e inflação por parte dos governos centrais. Ele retira do público o poder sobre a moeda e coloca esse poder nas mãos do governo. Keynes elogiava o sistema indiano por permitir uma “elasticidade” muito maior (uma palavra-código para inflação monetária) da moeda em resposta à demanda. Além disso, ele elogiou especificamente o relatório de uma comissão do governo dos Estados Unidos, em 1903, que defendia um padrão ouro-câmbio na China e em outros países do Terceiro Mundo que utilizavam prata — uma iniciativa de economistas e políticos progressistas para integrar essas nações a um bloco ouro-dólar dominado e administrado pelos Estados Unidos (Keynes 1971, pp. 60–85; ver também Parrini and Sklar 1983; Rosenberg 1985).
Na verdade, Keynes aguardava explicitamente o momento em que o padrão-ouro desapareceria por completo, sendo substituído por um sistema mais “científico” baseado em algumas moedas nacionais fiduciárias importantes. Uma “preferência por uma moeda de reserva tangível”, opinava Keynes, é “um resquício de uma época em que os governos eram menos confiáveis nessas questões do que são hoje” (1971, p. 51). Aqui já estava a antecipação da famosa caracterização de Keynes do ouro como uma “relíquia bárbara”. De forma mais ampla, as primeiras ideias monetárias de Keynes prenunciavam o desastroso padrão ouro-câmbio arquitetado pela Grã-Bretanha durante a década de 1920, bem como o profundamente falho sistema de Bretton Woods de um ouro-dólar administrado imposto pelos Estados Unidos — com a ajuda da Grã-Bretanha e de Lord Keynes — ao final da Segunda Guerra Mundial.
O economista de Cambridge, contudo, não se contentava em defender o status quo do padrão ouro-câmbio na Índia. Acreditando que a marcha rumo à inflação administrada pelo governo não avançava com rapidez suficiente, defendeu a criação de um banco central (ou “Banco Estatal”) para a Índia, permitindo assim a centralização das reservas, uma elasticidade monetária muito maior e uma expansão monetária e inflação muito mais intensas. Embora não tenha conseguido convencer a Comissão Real a apoiar a criação de um banco central, exerceu grande influência sobre seu relatório final.
O relatório incluiu sua defesa do banco central em um apêndice, e Keynes também liderou o duro interrogatório das testemunhas favoráveis ao padrão-ouro com moedas de ouro e contrárias ao banco central. Uma nota curiosa desse episódio foi a reação de seu antigo professor, Alfred Marshall, ao apêndice de Keynes sobre o banco central. Marshall escreveu a Keynes dizendo estar “encantado com ele como um prodígio de trabalho construtivo” (ibid., p. 268).
Keynes geralmente gostava de abordar a teoria econômica com o objetivo de resolver problemas práticos. Sua principal motivação para mergulhar na questão monetária indiana era defender o histórico de seu primeiro e mais importante patrono político, Edwin Samuel Montagu, membro das influentes famílias Montagu e Samuel do setor bancário internacional londrino. Montagu havia sido presidente da Cambridge Union, a sociedade de debates da universidade, quando Keynes ainda era estudante de graduação, e Keynes se tornara um de seus protegidos favoritos. Nas eleições gerais de 1906, Keynes fez campanha para a bem-sucedida candidatura de Montagu a uma cadeira no Parlamento pelo Partido Liberal.No fim de 1912, quando Montagu era subsecretário de estado para a Índia, surgiu um escândalo nas finanças indianas. O governo indiano, do qual Montagu era o segundo no comando, havia firmado secretamente um contrato com o banco Samuel Montagu and Company para a compra de prata. Descobriu-se que o nepotismo desempenhara um papel importante nesse contrato. Lord Swaythling, sócio sênior da firma, era pai do subsecretário Edwin S. Montagu; outro sócio, Sir Stuart Samuel, era irmão de Herbert Samuel, diretor-geral dos Correios do governo Asquith (ver Skidelsky 1983, p. 273).
Este livro foi originalmente publicado no Mises Institute.
Recomendações de leitura:
Como Keynes conquistou o mundo
- Como Skidelsky aponta, é típico da biografia apologética de Roy Harrod que, ao citar essa carta, ele omita a observação de seu herói sobre “enganar os investidores” (Skidelsky 1983, pp. 165n). ↩︎
- Em uma carta à sua mãe, datada de 3 de setembro de 1919, Keynes escreveu sobre sua especulação em moedas estrangeiras, “o que chocará meu pai, mas com o que espero ganhar muito bem” (Harrod 1951, pp. 288). Para uma crítica penetrante das visões de Keynes sobre especulação como jogo de azar, ver Hazlitt ([1959] 1973, pp. 179–85).
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