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Hans-Hermann Hoppe e os bancos centrais
N. do T.:O texto a seguir é um resumo feito in loco da palestra de Hans-Hermann Hoppe por ocasião do 6º encontro anual da organização que ele próprio fundou, a Property and Freedom Society.  O encontro vai de 26 a 30 de maio e está sendo realizado em Bodrum, Turquia.  As observações a seguir foram registradas pelos suecos Joakim Fagerström em conjunto com Joakim Kämpe e Markus Bergström, os três fundadores do Instituto Mises da Suécia.


O professor Hoppe começou seu discurso relembrando que o propósito da Property and Freedom Society (PFS) é promover o austro-libertarianismo, a filosofia econômica e social representada mais proeminentemente no século XX pelo economista austríaco Ludwig von Mises e por seu principal seguidor americano, Murray Rothbard. 

Os membros da PFS defendem um arranjo que, por vezes, é chamado de 'anarquismo baseado na propriedade privada', ou anarcocapitalismo, ou simplesmente aquilo que achamos ser a definição mais correta: uma sociedade inteiramente baseada na ordem natural e em leis privadas.  A PFS é uma organização internacional cujos membros são exclusivamente convidados, e que reúne a elite intelectual mundial — pessoas que são capazes de enxergar através da cortina de fumaça que os governos criaram para encobrir e disfarçar o totalitarismo de suas atitudes.

O professor Hoppe mencionou todos os elogios que já lhe foram feitos ao longo do tempo: extremista, reacionário, revisionista, elitista, racista, homofóbico, antissemita, arquiconservador, teocrata, ateu cínico, fascista e, é claro, o epíteto indispensável para um alemão, nazista.  Como resposta a essas pessoas, o professor Hoppe cita Rothbard, que diz que "uma pessoa que ainda não foi vituperada é porque certamente nunca fez nada digno de elogio."

Adicionalmente, um dos objetivos da PFS é defender o radicalismo intelectual ético e moral, uma postura em que dizer a verdade pode não ser confortável.  Citando Thomas Jefferson:

Não há uma só verdade que eu tema... ou que desejasse que não fosse conhecida pelo restante do mundo.

Após essa introdução, o professor fez uma impecável abordagem do estado, da moeda e do sistema bancário.  A principal qualidade dos discursos do professor Hoppe é sua sempre excelente clareza e inegável rigor educacional.  Ele sempre começa do básico e, passo a passo, vai explicando todos os pormenores, até chegar à arrebatadora conclusão.  Eis um breve sumário.

Política, moeda e sistema bancário — tudo o que você precisa saber em apenas 30 minutos

Hoppe começa definindo o estado como uma organização que detém o monopólio compulsório da jurisdição de um determinado território; ele é o arbitrador supremo de todas as disputas judiciais, mesmo aquelas que envolvem ele próprio.  Além disso, o estado, de acordo com essa definição, também possui o direito supremo de impor tributos — isto é, de determinar unilateralmente o preço que seus súditos devem pagar em troca de serviços compulsórios de baixa (ou nula) qualidade.

Feita essa caracterização, o professor pede para que nos imaginemos no controle do aparato estatal. 

A política é basicamente um arranjo por meio do qual você pode legalmente confiscar, espoliar e criar problemas para outras pessoas.  Como chefe do aparato estatal, você tenderia a utilizar sua posição para enriquecer a si mesmo e todos aqueles à sua volta.  Se você controla o estado você pode, em princípio, confiscar qualquer coisa que seja do seu interesse, porém você tenderá a confiscar apenas dinheiro e não bens, pois assim você poderá utilizar o produto do seu roubo da maneira que mais lhe aprouver.  Porém, você deve ter cuidado para não aumentar excessivamente o nível da tributação, pois isso não necessariamente irá gerar mais receitas para o estado, dado que os produtores podem acabar produzindo menos em decorrência desse desincentivo.

Para superar esse empecilho e conseguir aumentar a receita e consequentemente o consumo do governo, você pode pegar empréstimos junto aos bancos.  Bancos estão diretamente interessados em que o estado continue expropriando os cidadãos via impostos, pois eles, os bancos, lucram nesse processo.  Quando o governo pega empréstimos junto aos bancos, ele tem de pagar não apenas o principal, mas também os juros sobre esse dinheiro.  E esses juros serão pagos por meio do confisco tributário dos cidadãos que vivem no território que você controla. 

Isso significa que você, o estado, terá agora de enfrentar dois problemas:

1) Há uma oposição generalizada a aumentos de impostos, e sua receita pode cair;

2) Você pode se tornar viciado em pegar emprestado e pagar juros.

Para evitar essas complicações, há várias coisas que você pode fazer.  Primeiro, você pode garantir a si próprio o monopólio do dinheiro circulante, de modo que você se torna o único produtor legal de dinheiro dentro de um dado território.  Você também terá de manter os custos de se produzir este dinheiro os mais baixos possíveis (é muito caro produzir ouro e prata).  Logo, ao utilizar um dinheiro de papel, sem nenhum lastro, você consegue reduzir o custo de produção para praticamente zero.  Porém, não basta apenas ter pedaços de papel, pois, a princípio, ninguém iria aceitá-los.  Por isso, você terá de fazer com que esse dinheiro de papel tenha curso forçado, obrigando todas as pessoas dentro do seu território a aceitá-lo, criando assim, totalmente do nada, um poder de compra para esse seu dinheiro. 

Investido deste novo poder, você pode agora criar dinheiro quando quiser, sempre que julgar necessário.  E não apenas para você, mas também para seus amigos e outros indivíduos que lhe trazem benefícios. 

Haverá agora mais dinheiro em circulação, porém a quantidade de bens existentes continuará sendo a mesma de antes.  Acreditar que mais dinheiro cria mais riqueza equivale a acreditar que uma pedra possa ser transformada em pão.  Os preços dos bens em termos monetários passarão a ser maiores, e o poder de compra da unidade monetária será cada vez menor — que é exatamente a consequência da inflação.

Dado que a quantidade dos outros bens não foi alterada, tal processo de expansão da quantidade de dinheiro fará apenas com que haja uma redistribuição de riqueza para você e para seus amigos, pois vocês foram os primeiros a receber esse novo "dinheiro", antes de todas as outras pessoas, ao passo que aquelas que receberem esse dinheiro por último estarão mais pobres, pois todos os preços aumentaram antes de elas terem esse aumento nominal em sua renda.  O único problema em potencial que você poderá enfrentar será se você exagerar e criar uma hiperinflação, pois, nesse caso, as pessoas abandonarão seu dinheiro e passarão a utilizar outras moedas, bem como outros ativos reais, rejeitando desta forma esse seu mecanismo insidioso de confisco.

Para obter ainda mais vantagens dessa sua posição, você pode também criar um banco central, por meio do qual você pode criar crédito do nada com o qual comprar papeis em posse dos bancos, o que irá diminuir as taxas de juros da economia e aumentar a quantidade de dinheiro em posse dos bancos.  Os bancos, por sua vez, irão novamente emprestar esse dinheiro para você, empréstimo esse que será pago por meio dos tributos que você irá confiscar dos cidadãos que vivem em seu território.

Paralelamente, os bancos também emprestarão esse dinheiro para seus amigos a taxas de juros mais altas do que aquela a que ele empresta para você.  Os bancos poderão também criar mais dinheiro do nada (meios fiduciários), utilizando como base esse dinheiro que seu banco central concedeu para eles e expandindo, por meio das reservas fracionárias, a quantidade de dinheiro em toda a economia.  Isso faz com que os preços aumentem ainda mais.

IMG_7310.jpgAo criar dinheiro para dar aos bancos, estes lhe dão em troca papeis (títulos públicos) que rendem juros, juros esses que lhe serão pagos por meio do confisco tributário da riqueza dos cidadãos que vivem em seu território.  Da mesma forma, seus amigos do sistema bancário estão lucrando ao emprestar algo que simplesmente não existe (meios fiduciários) e cobrando juros sobre isso. 

Essa expansão do crédito altera a estrutura de produção da economia, o que significa que todos os indivíduos da economia estarão temporariamente imbuídos da sensação de que não precisam poupar e reduzir seu consumo presente para investir.  Empresas recebem financiamento bancário para projetos e investimentos que normalmente não seriam lucrativos.  Caso tais projetos tenham prejuízo, você irá socorrê-los criando mais dinheiro.  Esse é um exemplo de um ciclo econômico (expansão econômica seguida de recessão) que ocorre como consequência lógica do crédito criado do nada, sem qualquer poupança.  Alguns investimentos são longos e às vezes leva tempo para que se torne aparente quais não são lucrativos.

E você, por mais poderes que tenha sobre essa economia, nunca poderá alterar o fato de que bens e riqueza não podem ser criados do nada.  Isso significa que vários investimentos originados unicamente da sua expansão monetária irão necessariamente falir e empobrecer a economia.

No longo prazo, suas ações apenas atrapalham o enriquecimento da economia como um todo.


Assista aqui os vídeos da PFS



autor

Joakim Fagerström
, junto com Joakim Kämpe e Markus Bergström, é o fundador do Instituto Mises da Suécia.

Tradução de Leandro Roque

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comentários (4)

  • jaime horowitz  30/05/2011 15:52
    Magnífico. Conciso, prático e bastante elucidativo. Esse governo não tem jeito...
  • Fernando Chiocca  30/05/2011 17:02
    que reúne a elite intelectual mundial - pessoas que são capazes de enxergar através da cortina de fumaça que os governos criaram para encobrir e disfarçar o totalitarismo de suas atitudes.

    Zion
  • Erick Skrabe  01/06/2011 14:21
    Ótimo gancho para lembrar q o "Nobel de Economia" chama-se "Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel"

    Sveriges Riksbank=Central Bank

    Assim fica fácil entender como o Paul Krugman ganhou um. Talvez a única voz dissonante tenha sido Hayek.
  • Giovanni  13/06/2011 12:03
    tá faltando um fórum neste site aqui, hein.


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