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sexta-feira, 14 mar 2014
115º Podcast Mises Brasil - Tatiana Villas Boas Gabbi

logo_baixa.jpgPODCAST 115 - TATIANA VILLAS BOAS GABBI

 

Dentre os temas recorrentes no debate entre defensores da liberdade de mercado e estatistas, a saúde é um dos destaques. Legitimados pela concepção constitucional de que a saúde é um direito, os estatistas consideram o sistema público de saúde um avanço social que pode ser aperfeiçoado se bem administrado e contar com mais verbas. Por outro lado, Austríacos, liberais e libertários, apontam os problemas intrínsecos aos serviços estatais, que sempre utilizarão a riqueza realocada dos tributos de forma menos eficiente do que a iniciativa privada, e o Sistema Único de Saúde (SUS) é a demonstração de que o sistema não funciona no Brasil.

 

Para explicar o problema do serviço de saúde no país da perspectiva da Escola Austríaca, o Podcast do IMB entrevistou a médica dermatologista e libertária Tatiana Villas Boas Gabbi. Criadora da página Médicos Libertários, Tatiana discorreu nesta entrevista sobre a distinção entre saúde e serviços na área de saúde para mostrar o equívoco contido na expressão mercantilização da saúde, citou as consequências econômicas da concepção política de saúde como um direito e os problemas da existência de um programa como o SUS.

 

Tatiana, que é coautora da tradução do livro Definindo a liberdade, do Ron Paul, apresentou argumentos que contrariam a ideia segundo a qual o sistema estatal de saúde beneficia os pobres e afirmou, ancorando-se em Rothbard, que quando o governo não intervém mediante tributos e regulamentações, há um aumento do poder aquisitivo das pessoas, uma redução dos custos dos profissionais de saúde e, como resultado, um aumento da concorrência e a queda nos preços do serviços. Mas ela não guarda qualquer otimismo quanto à hipótese da mudança no sistema no Brasil.

 

A entrevista também abordou a queda de braço entre governo e planos de saúde para ampliação das coberturas de atendimento e reajuste de preços e Tatiana criticou severamente o modelo de atendimento privado, afirmando que o mais adequado para consumidores e médicos é o seguro de saúde, não planos, que, de forma crescente, têm sido criticados pelos seus clientes pela dificuldade e falta de qualidade no atendimento, e pelos profissionais pela baixa remuneração. Para agravar o problema, segundo Tatiana, os médicos são ensinados na faculdade a verem a Medicina como um sacerdócio, não como um serviço a ser prestado aos clientes. Como resultado, são os profissionais os primeiros a pedir por mais intervenção do governo. “Mas quando apresento os argumentos aos meus colegas, eles vêem que há fundamento e concordam”.





  • Paulo Zava  18/03/2014 21:59
    Boa noite,

    Aplicar o liberalismo econômico à saúde vai de encontro ao liberalismo em sí. Considera-se que a liberdade de escolha entre membros de uma relação de consumo é pré-requisito que para haver um mercado livre. Contudo, um paciente em muitos casos não possui liberdade de escolha em uma relação paciente-médicos. Tal restrição surge da própria característica das relações paciente-médico, sendo duas as características principais: peso da recusa do serviço e a impossibilidade de escolha.
    Toda relação de consumo livre demanda conhecimentos mínimos da parte do consumidor, e não seria diferente para a relação paciente-médico. Para fazer uma escolha livre de fato, o paciente deve conhecer pontos como o preço do serviço, as formas de execução dele e os riscos do serviço. Além disso, o paciente precisa de tempo para analisar as propostas e escolher aquela que mais se adequada a suas necessidades. Contudo, não existe tempo algum para reflexão das informações em serviços médicos que são de acesso emergencial. Um exemplo para ilustrar isso é o caso de pais que procuram acesso médico para seu filho recém-nascido. Nessa condição, os pais vão contrataram o primeiro médico procurado, mesmo que haja impossibilidade deles adquirirem o serviço, isso porque o peso da recusa desse fornecedor de serviço para procurar outro pode ser a morte de seu filho, um "bem" que não é passível de reposição.
    Além desse peso, que pende a balança da relação contra o paciente, existe a impossibilidade de escolha de prestadores de serviços médicos, principalmente considerando cidades pequenas ou procedimentos de alto grau de especialização. Em cidades pequenas, onde em geral existem poucos médicos, o paciente tem seu poder de escolha reduzido à aqueles que estão dispostos a atendê-lo (isso porque é comum médicos recusarem atender enfermidades que estejam fora de sua especialidade) ou procurar auxilio em outra cidade. Outro caso onde não há liberdade é em procedimentos altamente especializados, como cirurgias neurológicas. Nesses procedimentos, o paciente torna-se submisso a vontade do médico, uma vez que esses são poucos e controlam praticamente todos os meios de acesso ao serviço em questão.
    Dessa forma, esperar que o livre mercado do setor de saúde beneficie ao consumidor é ao mínimo "nefasto", pois as liberdades individuais tendem a sumir em relações amplamente desbalanceadas como a de paciente-médico. Inclusive é por isso que o consumidor contrata planos de saúde, terceirizando assim à instituição administradora as tarefas de procurar médicos, negociar com eles, e transmitir informações de como e onde o consumidor pode contratar esse serviço, removendo distorções da relação paciente-médico, como o peso da escolha, uma vez que o médico afiliado ao plano tende a atender ao paciente, deixando a negociação dos preços e condições para situação posterior junto à administradora do plano de saúde.
  • Paul Kersey  18/03/2014 22:11
    Prezado Paulo, você começa apresentando pontos interessantes, mas a sua conclusão final é totalmente desconexa em relação às premissas até então apresentados.

    Você descreveu corretamente como funciona um cenário vigente sob intensa regulação estatal (ou não é isso que temos no Brasil?) e daí concluiu que um arranjo de trocas voluntárias é "nefasto". Por quê? Você não explica. Sua conclusão não advém de suas premissas.

    Sugiro intensamente este artigo, o qual tem sido elogiado por médicos tanto da rede privada quanto da pública, que o descreveram como "extremamente acurado".

    Como Mises explicaria a realidade do SUS?
  • Rafael Lira  20/03/2014 10:37
    Olá a todos,

    Sempre achei muito interessante as propostas e conceitos apresentados pelo instituto Ludwin von Mises que acabei conhecendo recentemente através do Podcast Café Brasil, não sou estudioso em economia e política, porém são assuntos que na medida do possível tento me informar um pouco. Os conceitos econômicos apresentados pela escola austríaca me ajudam a compreender cada vez mais sobre economia e política, lembrando porém que sou um aprendiz no assunto. Estou escrevendo essa mensagem, depois de ouvido o Podcast 115 com a entrevista com Tatiana Villas Boas, esse Podcast me interessou por tocar no ponto saúde, como resolver o problema da saúde do Brasil, vários pontos apresentados por Tatiana resolveriam boa parte dos problemas de saúde para uma parte da população brasileira, porém fiquei com uma pergunta que aparentemente não tive resposta ou não entendi com isso seria resolvido. Sobre a questão saúde pública que concordo que é ineficiente e apresenta vários problemas, porém se acabássemos com a saúde pública, como uma boa parte da população iria se beneficiar com isso? A parte da população que recebe um salário mínimo (R$ 724) e tem uma família para sustentar, pagar R$ 50,00 para ir no consultório do Dr. Consulta representa ainda um valor muito alto, sem falar de uma parte da população que recebe menos de um salário mínimo. Não compreendi como essa parte da população iria se beneficiar. Faço o questionamento por sinceramente não ter compreendido como atender essa parte da população.

    Aproveito para elogiar a iniciativa do Podcast e pelo espaço aberto para discussão.

    Abraços,
    Rafael Lira
  • Rafael Lira  20/03/2014 16:22
    Olá Roberto,

    Eu concordo com os dois artigos que você postou, o livre comercio na área da saúde irá trazer muitos benefícios para uma grande parte da população, serviços médicos, medicamento e tratamento mais acessíveis. Porém para mim ainda estamos excluindo os 8,5% da população que por mais que a assistência médica se torne acessível não estará acessível para eles que recebem menos de R$ 70,00 por mês (Fonte: www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/imprensa/ppts/0000000408.pdf). Não consigo visualizar solução para não condenarmos os miseráveis para favorecer o resto da população.

    Abraços,
  • Roberto   20/03/2014 16:37
    Há algumas décadas, antes de o estado se intrometer na saúde, a Igreja mantinha hospitais de excelente nível, fornecendo vários serviços gratuitos -- serviços estes que eram financiados por doações, inclusive de ateus caridosos.. Mas desde que o estado entrou em cena para mostrar todo o seu amor aos pobres, a Igreja perdeu doações, pois as pessoas pensaram: "O estado já faz o serviço; não preciso mais contribuir para serviços caritativos".

    A Igreja era uma instituição presente em todos os municípios, e sempre ajudou os pobres com seus ambulatórios.

    O curioso é que, hoje, absolutamente ninguém toca nesse assunto. Ninguém comenta como os serviços caritativos da Igreja auxiliavam as pessoas no passado e hoje perderam espaço para o SUS. Defensores da saúde estatal é que devem explicações.
  • Paulo Zava  21/03/2014 16:03
    Caro Roberto,
    Os argumentos que você usa para defender a não presença do estado na saúde são totalmente inocentes. Dizer que a Igreja fazia um bom serviço como prestadora de saúde pública é completamente errado. Durante boa parte do século XX, procurar um desses hospitais era considerado a última ação em defesa à vida, muito porque era certo que uma pessoa comum não encontraria o atendimento adequado para sua enfermidade. Um bom exemplo disso eram índices de óbitos que beiravam 80% dos pacientes em emergência.
    Outro argumento que vocês deixam a entender, o de que as pessoas pararam de doar dinheiro para as Santas Casas e por isso elas decaíram é fora da realidade histórica dessas instituições. Elas eram sucateadas desde o começo, principalmente porque o volume de pessoas que procuravam ela era enorme. Padre Vicente Rossi, que foi diretor da Santa Casa de Misericórdia de Goiás em 1934, escrevendo sobre as condições do hospital: "Nós não podemos fazer nada para salvar essas pobres almas, mas somos suas únicas chances de alento".
    Eu concordo que as Igrejas sempre ajudaram, mas gostaria de enfatizar o AJUDARAM. Em 600 anos de Santas Casas, nenhuma delas realmente buscou resolver o problema da saúde, tanto na Europa, quanto no Brasil. Já o SUS é uma tentativa de solução, extremamente problemática? Sim, mas para 80% dos brasileiros esse é o único acesso à saúde que se tem hoje.

    P.S.: Como assim as pessoas pensam "O estado já faz o serviço; não preciso mais contribuir para serviços caritativos"? Eu faço parte do grupo de doadores do Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo - CRER, que é um hospital estatal mas que conta com mais de 12000 doadores e voluntários. Ou seja, eu posso te afirmar que as pessoas não pararam de pensar em ajudar, mesmo que o serviço seja provido pelo estado.
  • Mascarenhas  21/03/2014 17:36
    Prezado Paulo, o Roberto meramente citou sua opinião sobre serviços prestados por igreja. Em momento algum ele se propôs a "apresentar argumentos para defender a não presença do estado na saúde", os quais você diz serem "totalmente inocentes". Como os argumentos podem ser "totalmente inocentes" se ele nada argumentou?

    Os argumentos contra o estado na saúde estão delineados nos dois artigos abaixo, os quais você é livre para refutar linha por linha:

    Como Mises explicaria a realidade do SUS?

    Verdades inconvenientes sobre o sistema de saúde sueco

    Seja menos afobado da próxima, pois dá a entender que você tem problemas de interpretação de texto.
  • Paulo Zava  22/03/2014 13:43
    Prezado Mascarenhas, eu realmente não acredito ter problemas de interpretação de texto, mas gostaria de pedir desculpas pela escolha de palavras na minha argumentação, não tinha intenção de ofender ao Roberto ou qualquer outra pessoa, muito menos você. Contudo, discordando de sua opinião, nós quatro estamos argumentando, uma vez que estamos definindo fatos e hipóteses acerca do assunto afim de chegarmos a uma conclusão específica. No caso de você e do Roberto, acredito que essa conclusão seja a de que a total exclusão do estado na saúde é melhor para nós, enquanto para mim, é necessário a presença do estado para preservar a simetria do mercado e o acesso à saúde.

    De qualquer forma, obrigado por responder.
    Paulo Zava

    P.S.: Eu aceito o desafio proposto por você, tentarei refutar linha por linha dos artigos propostos, até mais.
  • anônimo  21/05/2014 14:22
    Oi Paulo, consegui refutar?
  • Rafael Lira  21/05/2014 14:43
    Prezados,

    Me desculpem pela minha ignorância, já li e reli os artigos falados nessa discussão, porém em nenhum vi solução para a questão de 8,5% da população receberem menos de R$ 70,00 por mês. Não acredito que as propostas apresentadas tornara a saúde acessível o suficiente para essa parte da população. Gostaria que alguém me explicasse como essa parte de população seria beneficiada.

    Gratos pela atenção e pela abertura da discussão.
    Rafael Lira.
  • Jorge  21/05/2014 14:54
    Como não? Caridade, igrejas, voluntariado e preços baixos gerados por livre concorrência. A combinação desses quatro itens irá, no mínimo, salvar uma boa parte dessas pessoas -- as quais, vale ressaltar, não têm tratamento nenhum no atual sistema (a menos, é claro, que morrer nas filas seja considerado um tratamento).

    No entanto, mesmo nesse sistema, sempre haverá algumas pessoas que morrerão porque precisavam de mais e melhores cuidados médicos, os quais poderiam ter-lhes sido ofertados, mas que estavam além de seus recursos financeiros. Simplesmente não há como evitar isso. Trata-se de um aspecto inerente ao fato de que o ser humano é mortal. A menos que você queira que todos sejam imortais, mortes sempre ocorrerão, lamento informar.

    Tentar evitar essa triste realidade obrigando todos os indivíduos não miseráveis a dedicarem suas vidas à tarefa de manter outras pessoas vivas -- de modo a ignorar por completo o valor subjetivo que tal atitude "benevolente" trará para a vida desses indivíduos coagidos -- é uma medida que destrói os incentivos para produzir e prosperar, fazendo com que, em última instância, tal medida coercitiva não traga felicidade e bonança para ninguém.


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