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Errata: Consumo não, produção!

Prezado leitor do IMB, perdoe-me a pretensão, porém me vejo obrigado a aproveitar este espaço para corrigir um erro da revista quinzenal Exame, edição 972 de 28/7/2010, cuja capa estampa a seguinte frase: Consumo, a força que move a economia.

Pela presente errata, retifico, não é o consumo que move a economia, é a produção!

Apesar da matéria de capa não entrar no debate econômico, acredito ser imprescindível que os leitores do IMB enxerguem a mídia através das "lentes" austríacas.

O artigo da editora Abril ilustra na verdade o fato de o mercado consumidor brasileiro estar crescendo. Indiscutivelmente e apesar do Governo, a economia brasileira vivencia um bom momento, com desemprego em baixa e aumento de renda, inserindo na economia camadas da população que antes praticamente não participavam. Sem entrar no mérito da sustentabilidade do cenário econômico brasileiro, é fato que este mercado consumidor está aumentando. Não se esqueçam, eu disse "apesar" do Governo.

Mas voltemos ao título da Exame. Ao contrário do que é divulgado intensa e quase que sublinarmente, dia após dia, o consumo não é a força que move a economia. O consumo americano não é o motor da economia mundial, é o principal entrave.

Consumo é a consequência da produção. Para que algo possa ser consumido, é preciso que este algo seja previamente produzido. Economistas keynesianos e do mainstream costumam inverter as relações de causa e efeito.

Portanto, quanto maior for a produção, maior será o consumo. Para que a produção aumente é necessário que haja investimento. Para investir é necessário poupar.

Os chineses pouparam e produziram. Os americanos consumiram comprando fiado dos chineses. Se os americanos não começarem a produzir, jamais poderão pagar a conta.

Enquanto economistas e leigos da mídia continuarem a perpetuar falácias como esta, será difícil corrigir as distorções da economia mundial.



autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

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POST POR DATA
comentários (18)

  • Maurício  28/07/2010 11:54
    Olá, Fernando,\r
    \r
    Concordo plenamente com vc. Lembrei até de um relatório macroeconômico que recebi de um grande banco que faz a mesma confusão. Dizendo, inclusive, que o consumo nos Estados Unidos estava voltando e que isso seria bom para a economia mundial.\r
    O difícil para vc, que trabalha no mercado financeiro, deve ser discordar desse povo que tem um "background" em economia totalmente diferente do seu. É nessas horas que o silêncio é uma arte...\r
    \r
    Abraços\r
  • Angelo Noel  28/07/2010 11:58
    Na chamada de capa da revista diz: "Renda, emprego e crédito estão promovendo um ciclo de consumo sem precedentes no país..."
    Fernando, traduzindo pro "austríaco", isso quer dizer que o crédito vai ter de ser retraído porque a produção está muito abaixo dessa oferta e uma hora alguém vai ter de pagar esse déficit acumulado?
    Obrigado pelo post! Assim como alguns do Leandro Roque, que "esmiuçam" as falácias do mainstream midiático, ajudam a gente a identificar esses contos de fada que terminam em filmes de terror...
    Grande abraço a todos.


  • amauri  28/07/2010 13:05
    Boa tarde Fernando!\r
    Aproveitando o comentario do Maurico e do Angelo e o teu artigo, escrevo abaixo um pensamento e logo após uma pergunta.\r
    Se uma grande parte da população precisa de credito para comprar é por que não tem poupança, sem poupança não há investimento para a produção. Se houve criação de milhões de empregos,não deveria haver necessidade de tanto credito ou, os empregos não foram na produção. Nestas posições este dinheiro emprestado pode não ter lastro, que fatalmente haverá consequencas negativas.\r
    Sem o credito facil haveria tanto consumo?
  • anônimo  28/07/2010 13:56
    Senhores,\r
    \r
    Ao identificar o consumo como o motor da economia, políticos (assessorados por economistas) tomam decisões equivocadas com o intuito de não deixar o consumo arrefecer de maneira alguma. Consumo por si só não gera riqueza, ele não traz prosperidade. Acúmulo de capital gera incremento na produtividade que permite aumentar o consumo.\r
    \r
    Minha intenção neste artigo foi apenas destacar uma falácia comumente divulgada pela mídia nacional e internacional. Estamos acostumados a ler nos jornais que o consumo é responsável por 70% do PIB americano. Alguém sabe como o PIB é calculado? Pois é, ele ignora as etapas intermediárias da estrutura produtiva superestimando o peso do consumo na economia.\r
    \r
    Angelo, isto é a teoria austríaca dos ciclos econômicos (TACE). Não é que o crédito terá que ser retraído, é que quando ele é concedido sem ter lastro em poupança real, desencadeia todos os efeitos dos ciclos econômicos, pois há muito investimento em alguns setores sem que tenha havido uma caída no consumo (poupança). \r
    \r
    E simplesmente aumentar o crédito sem poupança real leva inexoravelmente a inflação. No caso específico do Brasil, acredito não haver potencial de crises da magnitude da americana. Poderemos sim ter correções significativas em alguns setores, um dos mais prováveis é o da construção civil.\r
    \r
    Porém, devido ao fato de o Brasil ter um passado recente de hiperinflação, acho que nosso BC não perderá o controle da inflação. Vamos rezar.\r
    \r
    No entanto, por possuir a moeda de reserva internacional, os EUA conseguiram "exportar" sua inflação para a China, Japão e outros, o que permitiu sustentar crédito barato por um longo período e sem apresentar inflação alta (apesar de os índices de preços americanos serem uma piada). Se estivéssemos em um padrão-ouro internacional, distorções na balança comercial, como a da Americana, jamais poderiam ter sido levadas a tal extremo.\r
    \r
    Amauri, sem crédito fácil não haveria tanto consumo. Se o crédito for sem lastro em poupança real, levará a situações insustentáveis.\r
  • Renê Marcel Oechsler  28/07/2010 15:58
    Olá\r
    \r
    Nunca me interessei muito por economia, somente agora que descobri o IMB é que passei a ler diariamente sobre o assunto.\r
    Falando francamente, e me perdoem o pouco conhecimento, não ficou bem claro para mim, esse artigo acima. \r
    É que me parece muito natural que o aumento do consumo, leve os empresários a aumentar a produção de suas indústrias. E me parece também, que os empresários não aumentariam sua produção, contando que com esse simples fato, venderiam mais.\r
    Se tiverem alguma leitura complementar para indicar eu agradeço.
  • Indivíduo Leitor  28/07/2010 16:50
    Renê, talvez você goste deste vídeo: www.youtube.com/watch?v=bFxvy9XyUtg
  • Erick Skrabe  28/07/2010 18:00
    "Os chineses pouparam e produziram. Os americanos consumiram comprando fiado dos chineses. Se os americanos não começarem a produzir, jamais poderão pagar a conta"

    Eu concordo com a frase. Mas permita-me comentar sobre "jamais poderão pagar a conta". Talvez eles possa passa a conta adiante.

    Não é novidade que o yuan está artificialmente subvalorizado frente ao dólar e que os deficits comerciais americanos são um tanto quanto... gigantescos.

    Estes déficits tem sido bancados pela compra de títulos americanos pelos chineses. Alguém tem q comprar os títulos senão os americanos ñ tem como comprar os produtos chineses e o BC deles ñ pode jogar os dólares q recebe no mercado, senão o dólar se desvaloriza, ops, o yun se valoriza frente ao dólar. E o chinês vende menos.

    A minha percepção é que este é um jogo onde os chinês é que está pagando a conta. Ele está bancando a sua produção, para os americanos consumirem.

    É um arranjo excepcional. Para os americanos. No curto prazo. O problema é que a "mágica" não vai durar para sempre. A esperança é o "Mercado Interno Chinês". Eu acho que vai ser com a história da casa com os tijolos. Vai faltar tijolo para todo mundo.
  • Felipe Sola  28/07/2010 22:24
    Pensei o mesmo ao passar em frente a uma banca e me deparar com essa capa!
  • Arauto da Liberdade  28/07/2010 23:40
    Renê, é fácil de entender:
    As pessoas produzem porque querem poder consumir. Não faz sentido dizer que as pessoas consomem porque querem produzir. Assim, produção precede o consumo por questões lógicas.
    As pessoas vão trabalhar pois querem ganhar dinheiro e assim gastá-lo. Uma sociedade improdutiva está fadada ao fracasso.
  • Tiago RC  30/07/2010 10:37
    @Renê,

    É que me parece muito natural que o aumento do consumo, leve os empresários a aumentar a produção de suas indústrias.

    As coisas têm que ser colocadas na ordem correta.
    Um aumento pela demanda de um item vai provocar um aumento do seu preço. Isso pode, de fato, motivar empreendedores a investir em capital para aumentar sua capacidade produtiva e então produzirem mais.

    Mas veja: de onde vêm os recursos investidos? Eles teriam que antes terem sido produzidos e poupados, pois se fossem consumidos, não estariam disponível para o investimento.

    A poupança necessariamente antecede o investimento, que antecede o aumento da capacidade produtiva, que antecede o aumento do consumo.

    O problema todo nessa história de inverter a ordem das coisas é que essa teoria leva governos a criarem medidas artificiais (manipulação dos juros) para estimular o consumo. E pior: isso tem um efeito demagógico excelente para políticos. Ao estimular o consumo, eles podem de fato provocar um aumento de investimentos e um crescimento econômico no curto prazo, mas isso ao custo de uma redução na poupança. No longo prazo, não haverão recursos poupados suficientes para todos os projetos de investimentos que foram iniciados. Vai ter quebradeira. Mas isso leva anos, e até lá, já será outro político no poder mesmo. :)

    Continue lendo o site, há muitos artigos explicando como ocorrem essas manipulações dos juros e suas conseqüências. Esse aqui é muito bom: www.mises.org.br/Article.aspx?id=552

    Abraços,
    Tiago.
  • Fernando Ulrich  30/07/2010 14:41
    Tiago RC,\r
    \r
    Obrigado pela excelente contribuição. Muito bem colocado.
  • Renê  30/07/2010 20:50
    Agradeço aos colegas pelas respostas. Comecei a entender a coisa.
  • Pedro Mundim   02/08/2010 11:49
    O consumo é apenas a última engrenagem da economia, antes dele vem as redes de venda, distribuição e produção. Se eu paro a engrenagem do consumo, as outras engrenagens também param, e as pessoas ficam sem trabalho.
  • soberania do consumidor  02/08/2010 11:54
    Quando se diz que o consumo move a economia, isto signiica que é as decisões dos consumidores (de comprar e não comprar) que determinam os preços, o que produzir, o que não produzir, os fatores de produção....Os empresários precisam ajustar os fatores de produção, de modo a servir aos desejos dos consumidores. É o que o Mises denomina de SOBERANIA DO CONSUMIDOR.
  • resumindo  02/08/2010 14:45
    O lucro provém da produção e se realiza na circulação...
  • aila nogueira  21/10/2010 17:51
    A baixa estima política, o nível de disputa de inverdades explicita de candidatos nos deixam preocupados com o futuro de nosso pais, como confiarmos em uma pessoa que vai governar um estado de proporçoes gigantescas feito o Brasil se em plena campanha se mostra arrogante, descontrolada?
    Como acreditar se o peixe esta em bom estado de consumo, se os pescadores não sabem a origem deste?
    è assim que vejo a situação econômica do pais, consumimos sem nos preocupar com os resultados que viram amanha. Neste caso, ponto para o governo atual, pois mesmo omitindo os verdadeiros caos instalados no pais, soube contornar a situação sem alardes para não assustar os consumidores de grande e pequeno porte.
  • anônimo  08/02/2015 03:48
    uma dúvida: se a producao de queijo, por exemplo, aumenta, terá uma maior demanda por leite. essa demanda aumentaria o preço do leite e poderia fazer com que produtores de sorvetes diminuissem a producao. entao um aumento na producao de um produto x nao levaria necessariamente a diminuição do produto y?
  • mauricio barbosa  26/10/2015 14:31
    O mercado ajusta oferta x demanda de forma harmônica e o equílibrio geral acontecerá naturalmente,portanto sua dúvida não procede pois ela pressupõe um planejamento central coisa que os soviéticos fizeram e fracassaram e saiba que os empreendedores destes setores citados tem as informações necessárias para driblar estes contratempos de maneira que o queijo,o leite e o sorvete terão seus preços reajustados para benefício de seus consumidores,então relaxa o mercado é sábio e os políticos demagogos...


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