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Como o Efeito Ricardo explica o fracasso das medidas de estímulo keynesianas
por Domingos Crosseti Branda, quinta-feira, 26 de maio de 2011

Na esfera econômica, um ato, um hábito, uma instituição, uma lei não geram somente um efeito, mas uma série de efeitos. Dentre esses, só o primeiro é imediato. Manifesta-se simultaneamente com a sua causa. É visível. Os outros só aparecem depois e não são visíveis. Podemo-nos dar por felizes se conseguirmos prevê-los.

Entre um bom e um mau economista existe uma diferença: um se detém no efeito que se vê; o outro leva em conta tanto o efeito que se vê quanto aqueles que se devem prever.

Frédéric Bastiat

 

Obs 1: Para um melhor entendimento do artigo, sugiro ver antes a majestosa apresentação elaborada pelo IMB sobre a macroeconomia baseada na estrutura de capital, bem como meu artigo sobre a falácia do PIB.

 

Introdução

O Efeito Ricardo é um efeito sobre a estrutura de produção da economia em decorrência de uma maior poupança por parte do consumidor -- ou seja, é um dos efeitos causados por um comportamento mais voltado para o consumo futuro em detrimento do consumo presente.

Tem esse nome devido, justamente, a David Ricardo, que mencionou tal efeito em seu livro "Princípios de economia política e tributação".  Esta idéia, posteriormente, foi resgatada por Friedrich A. von Hayek quando concebeu a sua teoria sobre o capital.

O Efeito Ricardo é um dos três efeitos gerados em decorrência desse comportamento poupador.  Os outros dois são: disparidade de lucros entre as diferentes etapas da cadeia produtiva e a diminuição das taxas de juros sobre o preço de mercado dos bens de capital.

O Efeito Ricardo

Para a compreensão do Efeito Ricardo, é necessário compreender a teoria austríaca do capital e da estrutura produtiva.  Como sua principal característica é trabalhar com a desagregação do capital (pois pressupõe que o capital é heterogêneo) e saber que há uma alocação intertemporal dos recursos, Hayek mostrou que uma taxa de juros gerida puramente pelo mercado é o melhor instrumento para coordenar as decisões entre poupança e investimento.  A representação da estrutura produtiva da economia ficou conhecida como triângulo de Hayek.

Em uma economia em crescimento, o tamanho do triangulo aumenta junto com a fronteira de possibilidades de produção (FPP). Portanto, as decisões de consumo, poupança e investimento (e também a expansão artificial do crédito) têm efeitos diretos no crescimento da economia e nas etapas intermediárias de produção. E um desses efeitos é o Efeito Ricardo.

O comportamento poupador causa uma queda na demanda por bens de ordem inferior (bens produzidos nas etapas de produção mais próximas do consumo).  Contrariamente, os bens de ordem superior (produzidos nas etapas de produção mais longe do consumo) sofrem um aumento de sua demanda.  A estrutura produtiva passa a se caracterizar como estando mais orientada para o futuro e com mais estágios de produção.  De forma sustentável, a economia passa a crescer mais rapidamente do que cresceria caso continuasse com seu antigo comportamento, mais consumista.

No mercado de trabalho, os trabalhadores dispensados da produção de bens de ordem inferior são realocados para as etapas de ordem superior, onde há um aumento de demanda por trabalhadores, justamente em virtude da criação de novas etapas de produção. A estrutura produtiva torna-se mais intensiva em capital, gerando maior produtividade.  Obstruções nessa livre mobilidade de trabalho, consequentemente, são uma fonte geradora de desemprego institucional.

2.1 Existe o Efeito Ricardo na nossa atual economia keynesiana?

O Efeito Ricardo desmistifica o paradoxo da poupança defendido por Keynes.  No entanto, medidas keynesianas são adotadas simplesmente porque são extremamente palatáveis aos governos.  Assim, na nossa atual economia keynesiana, não há o Efeito Ricardo, pois não há estímulo para a poupança; adicionalmente, há a total ignorância acerca do funcionamento da estrutura produtiva, dado que economistas keynesianos e de Chicago enxergam o capital como sendo algo homogêneo, e não uma estrutura complexa.

Assim, quando a recessão se instala em uma economia, os economistas convencionais recorrem a medidas tradicionais que visam a estimular o PIB, mas que são insuficientes para diagnosticar a realidade.  Seria necessário, portanto, considerar esses aspectos intermediários da estrutura produtiva da economia, e apenas a teoria austríaca considera essa realidade.

3. A análise das etapas intermediárias de produção

A macroeconomia baseada na estrutura de capital evidencia erros graves da macroeconomia keynesiana.  Consequentemente, ao analisarmos a metodologia do cálculo do PIB sob luz da teoria de Hayek, descobrimos seu principal problema: o PIB não leva em conta as etapas intermediárias da produção e, tampouco, o fator tempo.  Em resumo, o PIB é uma medida do produto final da economia e não uma medida total.

Devido a isso, HUERTA DE SOTO (2009) afirma que a interpretação e a mensuração do PIB levam a conclusões extremamente errôneas, uma vez que a renda movimentada nas etapas intermediárias da estrutura de capital da economia supera em muito a etapa final de produção.  Com isso, as poupanças e os investimentos brutos que ocorrem nas etapas intermediárias não são levados em conta no cálculo do PIB, deixando de fora o principal aspecto da composição do produto da economia, o que leva a erros graves na mensuração do PIB.

Esses erros graves levam, consequentemente, a avaliações, diagnósticos e soluções erradas pra crises econômicas.  O atual exemplo europeu e americano é emblemático: medidas intervencionistas keynesianas são adotadas como solução para a crise, mas não surtem efeito real, algo manifestado nos índices de desemprego.  As medidas se baseiam no grave erro teórico keynesiano (e neoclássico) de não levar em conta o aspecto temporal, chegando à conclusão errônea de que o consumo estimula o emprego.  Na realidade, o emprego ocorre em função da produção, e a produção se dá em função do consumo futuro.

Essa miopia temporal leva a políticas de inflação monetária e endividamento, pois têm como objetivo único aumentar o PIB e o consumo, desestimulando os agentes a poupar -- sendo que é a poupança quem sustenta as etapas de produção intermediária -- e estimulando-os a gastar.  Como os keynesianos do governo se preocupam apenas com o produto final, não percebem o que ocorre nas etapas intermediárias -- e, consequentemente, não entendem por que suas medidas não surtem efeito.

A análise mais acurada do produto e a proposição de soluções plausíveis para a economia só são possíveis se o produto for medido totalmente, ou seja, se o cálculo do PIB for acrescido da medição das etapas intermediárias. SKOUSEN (1990) propõe uma metodologia que leva essas etapas em consideração, em seu livro "The Structure of Producion".

Ao recalcular o produto dos EUA para o ano de 1982, por exemplo, ele encontrou como resultado da nova mensuração quase o dobro do Produto Interno Bruto (PIB), indicando o grau em que o PIB subestima o produto total.  A volatilidade da nova medida é mais de três vezes a volatilidade do PIB, indicando uma intensidade de efeitos na economia maiores do que aqueles que até então eram medidos pelo PIB.  A essa nova mensuração de produto Skousen chamou de "Gross National Expenditures" (GDE).

O GDE é uma estatística adicional que pode ser facilmente integrada na análise macroeconômica padrão.  É definido como o valor de todas as transações na produção de novos bens e serviços, tanto acabados quanto inacabados, em todos as fases de produção dentro de um país durante um ano. Sua composição é a seguinte:

GDE = PIB + IE, onde:

GDE - Gross Domestic Expenditure

PIB - Produto Interno Bruto

IE - valor de todas as transações na produção de novos bens e serviços, tanto acabados quanto inacabados, em todas as fases de produção.

Portanto, se a estrutura produtiva é diferente e mais volátil da que se tem conhecimento, e a mensuração do produto não evidencia o produto total da economia (o que se vê e o que não se vê, resgatando a citação inicial de Bastiat), as distorções no triângulo Hayekiano são mais intensas.  Grande parte da economia "que não se vê" fica gravemente afetada e, por esse motivo, as medidas keynesianas intensificam o problema, acelerando o conflito entre as etapas da estrutura produtiva e transformando uma expansão econômica artificial em recessão.

Conclusões

O Efeito Ricardo é não é muito conhecido na teoria econômica, mas é um dos pilares do crescimento econômico sustentável. È efeito de poupança genuína e somente ela pode proporcionar este tipo de crescimento.

Porém, a miopia keynesiana -- que leva a políticas de inflação monetária e endividamento -- faz com que esse efeito seja suprimido.  Mais ainda: proporciona o efeito contrário, já que a expansão do crédito -- fruto da inflação e do endividamento -- dilapida capital em virtude dos investimentos errôneos e insustentáveis, e não proporciona o mesmo crescimento econômico (se é que consegue proporcionar) que a poupança genuína.  E só é possível compreender os males keynesianos quando se compreende a estrutura produtiva de uma economia, a qual é explicada apenas pela teoria austríaca do capital.

Portanto, a metodologia de cálculo do produto deve levar em consideração as etapas intermediárias da estrutura produtiva, justamente para se ver o que não se vê.  Somente assim as medidas keynesianas, que hoje sustentam políticas intervencionistas, serão desmistificadas em plenitude.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASTIAT, F. Ensaios. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1989.

GARRISON, R. Os triângulos hayekianos e a estrutura do capital

____________. Tiempo y dinero. 2.ed Madrid. Unión Editorial, 2005.

HAYEK, F. Contra Keynes y Cambridge. Madrid. Unión Editorial. 1996.

HUERTA DE SOTO, J. Dinero, crédito bancário y ciclos económicos. 4.ed. Madrid: Unión Editorial, 2009.

PAUL, R. Por que o PIB é uma ficção.

RICARDO, D. Principios de economía política y tributación. Madrid : Pirámide, 2003.

ROQUE, L. As falácias sobre o PIB brasileiro (revisado e atualizado)

SKOUSEN, M. The Structure of Production. New York University Press, New York, 1990.

___________. Gross Domestic Expenditures (GDE): the Need for a New National Aggregate Statistic.