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A culpa é da alcatra
por Diego von Brixen Montzel Trindade, quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A alcatra tem sido vítima de duras críticas nos últimos tempos.  Não só a alcatra, mas também arroz, feijão, açúcar...  Até picanha!  Dizem os economistas, analistas, especialistas de mercado e outros, que estes alimentos são os culpados pela inflação. "A pressão inflacionária do setor agrícola está preocupante!  Mas o Banco Central não vai deixar isso sair do controle." -- Na fértil mente destes economistas, a inflação é culpa dos alimentos, e o Banco Central, em seu cavalo branco, chega para domá-la.

A verdade -- aquela que a maioria dos economistas não consegue perceber, e que os burocratas do governo, que gostam de "mamar nas tetas", preferem não perceber -- é que a inflação é um fenômeno que só ocorre quando o aumento da oferta de dinheiro no mercado excede o aumento da oferta das commodities.  Ou seja, a autoridade monetária do país gera a inflação, e os alimentos são meras vítimas indefesas.  Em uma economia saudável e em crescimento, onde a base monetária não é inflacionada ao bel-prazer de uma instituição de planejamento central (qualquer semelhança desta terminologia com o socialismo não é mera coincidência), a tendência é a deflação, diferente do que pregam os atuais economistas keynesianos.  Isso ocorre naturalmente como resultado dos constantes avanços nos processos produtivos e consequente aumento da oferta dos produtos.

A atual inflação se deve a fatores facilmente explicáveis, mas cuja solução imporia rédeas curtas aos governos social-democratas habituados a se engajar em gastos desenfreados em nome do "desenvolvimento nacional".  Desde o começo da crise de 2008, o banco central norte-americano, na figura de Ben Bernanke, vem inflacionando severamente o dólar.  Essa política vem inundando o mercado internacional com dólares, o qual facilmente encontra compradores: outros bancos centrais espalhados pelo mundo.  A força que o dólar tem vem de seu uso como reserva internacional, uma herança maldita dos tempos do acordo de Bretton-Woods.  Sendo assim, Bernanke confortavelmente imprime mais dólares, criando mais um produto de exportação norte-americano: a inflação.

A política mercantilista praticada por quase todos os governos, principalmente aqueles de cunho social-democrata -- e mais ainda aqueles social-democratas-corporativistas que provêm gordas tetas para empresas bem relacionadas politicamente (Brasil? Não, imagina!) -- obriga os governantes a manterem suas moedas artificialmente desvalorizadas para que as exportações não sejam prejudicadas.  Veja, é mais importante que as exportações sejam mantidas do que a população tenha poder de compra.  Ou seja, é mais importante que a população financie as exportações das empresas bem conectadas politicamente -- mediante o pior dos impostos: o imposto-inflação -- do que a população ser capaz de usufruir um poder de compra privilegiado.

Na tentativa de manter o valor do dólar, o Banco Central atua diariamente no mercado comprando uma moeda desvalorizada (e cuja tendência ainda é a desvalorização), de forma a manter o real artificialmente desvalorizado e não prejudicar os exportadores.  O Banco Central faz isso criando reais do nada, o que gera a inflação de preços.

Porém, poucos percebem o benefício que teríamos de um real mais valorizado.  Os recursos, atualmente ineficientemente alocados para as indústrias exportadoras, seriam realocados para atividades voltadas ao mercado interno.  A valorização do real permitiria que este novo poder de compra do real fosse alocado para investimentos saudáveis e sustentáveis.  A deflação natural (advinda do incremento no valor do real) incentivaria a poupança, o que naturalmente diminuiria as taxas de juros e liberaria capital para projetos e empreendimentos de longo prazo, dando sustentabilidade para a economia.  Tudo isso ocorreria de acordo com as preferências da população de um modo geral, sem intervenções da autoridade monetária.  É a preferência da população que modifica as taxas de juro, seja ela de poupança (preferência para investir em projetos de longo prazo) ou de consumo (preferência por colher agora os frutos de um investimento anterior).  Um país que produz é plenamente capaz de consumir o que produz.

É claro que isso tudo significa acabar com uma série de empresas tidas pelo governo como as forças-motrizes de nossa economia.  A política protecionista, praticamente xenófoba, imposta pelo governo brasileiro impõe ainda mais restrições ao funcionamento saudável dos mercados, tudo em nome da proteção da indústria nacional.

E aí vem a dúvida: que indústria?  Desde que eu nasci, escuto a frase "O petróleo é nosso". Deve ser essa a nossa indústria... Mas por que será que eu ainda pago uma das gasolinas mais caras do mundo se o petróleo é meu também?  Eu esperava que a Petrossauro (que, aliás, não me paga nenhum dividendo, mas deveria, afinal o petróleo é nosso) colaborasse para tornar a nossa gasolina mais barata...

Pobre alcatra.  Levando a culpa pela inflação.  Pobre boi, quieto no seu pasto, sendo culpado pela incompetência dos humanos.