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Como surgem os preços de mercado
por Antony Mueller, segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Os preços refletem as relações de troca

Os preços, como demonstrou Carl Menger em seu livro Grundsätze der Volkswirtschaftslehre ("Princípios de Economia Política"), surgem como um fenômeno acidental. Eles não são a essência da atividade econômica. 

Os preços são fortuitos, na medida em que são o resultado não-intencional de uma troca econômica que tem como base avaliações subjetivas. Os preços não determinam a troca; as avaliações subjetivas que os indivíduos fazem das trocas é que determinam os limites dentro dos quais o preço negociado (considerando os bens envolvidos na transação) será acordado. 

Não são os preços que movem a economia; o que move a economia é o esforço das pessoas para satisfazer suas necessidades da forma mais completa possível. Por esse motivo, as pessoas realizam trocas, e os preços aparecem como um efeito colateral não-intencional destas trocas.

Os preços aparecem na superfície como a parte visível das atividades econômicas. Como os preços são um fenômeno constante da vida econômica e são observáveis como fenômenos aparentemente objetivos, muitos economistas presumiram que eles também são a parte mais importante da economia e, portanto, da ciência econômica. 

Os preços aparecem na forma de quantidades numéricas e, portanto, é um erro compreensível considerar os preços o aspecto fundamental da economia. Esse erro gerou a insensatez de se considerar as quantidades de bens que aparecem em uma troca como equivalentes.

Tomando como ponto de partida o raciocínio de que o comércio é a troca de equivalentes, os economistas clássicos colocaram a economia em um caminho errado e inadvertidamente lançaram as bases para a teoria marxista da exploração. Esses estudiosos presumiram que o trabalho é o fator com o qual a equivalência entre os bens em troca poderia ser medida. 

Mas, como explicou Menger, não são os equivalentes que são trocados em uma transação; a transação é motivada porque há valorações e estimativas inversas em uma troca. As pessoas trocam mercadorias porque isso as deixa em melhor situação. Em toda e qualquer transação comercial, cada lado atribui àquele bem que está recebendo um valor subjetivo maior do que atribui àquele bem que está dando em troca. Não fosse assim, a transação simplesmente não ocorreria. 

Logo, a avaliação inversa dos bens entre os parceiros comerciais determina a relação de troca, e o preço resultante reflete essa relação de troca.

A essência de uma troca de bens e, portanto, dos preços que dela emergem, é que o bem específico que está à disposição de um agente econômico tem menos valor para ele em comparação ao outro bem que está à disposição de outra pessoa. Para cada pessoa envolvida na troca, a avaliação de um bem em termos do outro bem em consideração tem um limite. 

Os preços refletem a relação de troca específica de uma transação que determina quantas unidades do bem X são o máximo que alguém está disposto a trocar pelo bem Y, e vice-versa. O preço será acordado entre os limites dados por essas estimativas dos parceiros comerciais.

Princípio da formação de preços

Menger começa sua análise da formação de preços com o exemplo de um bem indivisível de um monopolista.

Um monopolista oferece uma unidade de um bem (um cavalo) a oito compradores potenciais no mercado (fazendeiros que oferecem em ordem decrescente um número específico de unidades de grãos em troca). 

Menger ilustra sua consideração com uma matriz (tabela 1).

tabela1.png

Tabela 1: Matriz de formação de preços

Conforme ilustrado na tabela, os compradores potenciais têm preferências de valor diferentes para um bem específico (colunas), mas também dependendo da quantidade de unidades desse bem (linhas). 

A matriz mostra oito compradores potenciais (B1 a B8) e sua disposição individual de pagar pelo bem oferecido em unidades de grãos. 

É fácil perceber que a mercadoria vai para o comprador com maior preferência. Quando esse monopolista oferece mais unidades do bem, a situação não muda fundamentalmente. O princípio é que o produto vai para o licitante com lance mais alto.

Conforme mostra a tabela, B1 tem a maior preferência pelo bem que está sendo oferecido no mercado e está disposto a oferecer oitenta unidades de grão em troca, ao passo que B8 tem a menor preferência, disposto a oferecer apenas dez unidades de grão em troca por um cavalo que está em oferta. 

O eixo horizontal (I a VIII) representa o número de unidades oferecidas, e as várias linhas mostram que cada potencial comprador tem uma disposição decrescente de oferecer grãos em troca de um número crescente de cavalos em oferta (I a VIII). 

Refletindo a utilidade marginal decrescente, B1, por exemplo, está disposto a dar oitenta unidades de grãos para um cavalo, mas diminuiria sua disposição de trocar para dez unidades de grãos para cada cavalo se estivesse considerando a aquisição de oito cavalos.

Na matriz, os agricultores individuais (B1 a B8) classificam suas preferências em termos de unidades de grãos, e é óbvio que o agricultor que oferecer a maior quantidade de grãos por apenas um cavalo irá obtê-los. Neste caso, o preço em termos de grãos ficaria abaixo do limite de oitenta e acima de setenta, e liquidaria com uma relação de troca definida dentro dessa faixa de acordo com o resultado da negociação entre os parceiros comerciais.

A situação não muda em princípio quando a quantidade oferecida do bem aumenta. Neste caso, também, os licitantes mais altos se tornarão os compradores. Caso sejam ofertadas três unidades, o preço ficará entre sessenta e setenta unidades do grão. Dentro desses limites, B1 pode melhorar sua situação econômica comprando dois cavalos, enquanto B2 comprará um cavalo. 

Se seis unidades forem oferecidas em vez de três, pode-se mostrar, similarmente, que B1 compraria três, B2 compraria dois e B3 compraria um cavalo. 

Neste caso, o preço de cada unidade cairia para entre cinquenta e sessenta unidades de grãos.

O mesmo princípio é válido quando os concorrentes entram no mercado e diferentes fornecedores oferecem o mesmo tipo de produto. No caso de dois concorrentes, dos quais o fornecedor A1 oferece um cavalo e o A3 dois cavalos, será oferecido um total de três unidades. Assim, o agricultor B1 compraria duas unidades e o agricultor B2 uma unidade, e a relação de troca se estabeleceria entre sessenta e setenta unidades de grãos. 

Se A1 e A2 trouxessem seis cavalos ao mercado, B1 adquiriria três, B2 dois e B3 uma unidade em oferta. Nesse caso, o preço cairia para entre cinquenta e sessenta unidades de grãos.

Monopólio e concorrência

Menger mostra com esses exemplos como a competição começa a aparecer partindo-se de um monopólio. O aumento da competição é a característica distintiva do desenvolvimento econômico, com o número e a variedade da oferta de bens se expandindo. 

O princípio da formação de preços, entretanto, permanece o mesmo. 

A quantidade de bens oferecidos para a venda chega às mãos dos compradores potenciais que oferecem o máximo em quantidades de troca, independentemente de ser um arranjo de monopólio ou de livre concorrência. As mercadorias chegam às mãos dos licitantes que têm os maiores graus de preferência por elas.

Os mercados funcionam de acordo com o princípio de que, quanto maior a quantidade de oferta, menor será o número de excluídos do lado da demanda. A competição tem o efeito de aumentar a satisfação dos participantes do mercado, pois menos pessoas são excluídas quanto mais unidades ofertadas entram no mercado. 

Em todos os casos, a formação do preço dá-se entre os limites fixados pelas respetivas quantidades que o potencial comprador mais interessado e o menos interessado se dispõe a dar em troca.

O monopolista pode aumentar seu lucro reduzindo a quantidade ofertada. Menger fornece os exemplos de um monopolista que tem mil unidades de um bem à sua disposição. Ele poderia vender todas as suas unidades ao preço de seis unidades de pagamento para cada uma, enquanto a venda de apenas oitocentas aumentaria o preço para nove unidades de pagamento. O monopolista que maximiza o lucro escolheria a quantidade menor pelo preço mais alto e simplesmente eliminaria os bens em excesso.

Quando a concorrência aparece, esse privilégio desaparece. Ao passo que o monopolista aufere grandes lucros por unidade com poucos clientes, a concorrência alcança lucros menores por unidade, mas ganha um grande volume de clientes. Quando mais concorrentes entram no mercado, a quantidade total de bens ofertados aumenta, e os concorrentes individuais não mais conseguem aumentar seus lucros limitando a oferta. 

Em um mercado competitivo, além de os fornecedores não conseguirem limitar a oferta, eles também perdem sua capacidade de segmentação de preços para diferentes grupos de compradores.

Conclusão

O objetivo de melhorar o bem-estar individual está no cerne das atividades econômicas, e é a razão das transações econômicas. Uma troca de equivalentes não contribuiria para esse objetivo e, portanto, não faria sentido. 

Os preços não são a essência da economia, mas são um sintoma do equilíbrio das múltiplas atividades econômicas humanas. Porque as pessoas se esforçam para melhorar sua condição, elas trocam mercadorias e, nesse sentido, os preços são uma consequência não-premeditada do esforço humano em prol da melhoria.

Os preços são, portanto, determinados pelas pessoas comprando e vendendo, e por aquelas que se abstêm de comprar e de vender. Em última instância, os preços são determinados pelo juízo de valor feito por cada consumidor. 

Cada indivíduo, ao comprar ou ao não comprar e ao vender ou não vender, dá a sua contribuição à formação dos preços de mercado. Porém, quanto maior for o mercado, menor será o peso da contribuição de cada indivíduo. Assim, a estrutura dos preços de mercado parece, a um indivíduo, um dado ao qual ele deve ajustar sua própria conduta. Aquilo a que chamamos de preço é sempre uma relação que ocorre no interior de um sistema integrado, sistema esse que é o resultado das várias relações humanas.

Preços são, em suma, um fenômeno do mercado. Eles são gerados pelo processo de mercado e são o cerne da economia de mercado. Não há como existir preços fora da economia de mercado. Preços não podem ser criados como se fossem produtos sintéticos.

Por fim, o princípio da formação de preços é o mesmo para o monopólio e para a competição. Concorrência significa que o número de bens em oferta aumentará e, portanto, a concorrência elimina as condições de obtenção do lucro extra do monopolista. O aparecimento de mais concorrentes é a marca do desenvolvimento econômico.