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O erro fatal de Marx e Smith: o lucro não é deduzido do salário; o salário é que é deduzido do lucro
por Wladimir Kraus, quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O que Karl Marx e Adam Smith, tidos como pensadores opostos, têm em comum? 

Smith cometeu um erro extremamente básico e Marx criou toda sua teoria em cima deste erro — um erro que possui monumentais consequências e que mudou o mundo para sempre.

Em seu famoso tratado sobre a riqueza das nações, Adam Smith afirmou que, em condições primitivas ou em cidades pequenas, aqueles indivíduos que vão ao mercado para vender seus produtos (sejam eles produtos agrícolas, parte do seu rebanho ou mesmo produtos manufaturados) ganham, nesse processo de venda, um salário. 

Isto é, a renda auferida por esses indivíduos autônomos que vendem bens no mercado é o seu salário.

Tanto Marx quanto Adam Smith (que veio antes de Marx) presumiram erroneamente que, "no estado rude e primitivo da sociedade" (para utilizar as palavras de Smith), todas as rendas obtidas eram salários. 

Salário? Grave erro. Aquilo que é obtido por alguém que sai da autossuficiência agrícola para vender seus produtos no mercado não é um salário, mas, sim, um lucro. Ou um prejuízo

Para Smith e Marx, porém, não havia lucro neste modelo. O lucro, segundo eles, só passou a existir com o surgimento do capitalismo.  

Mais ainda: segundo eles, o lucro ocorre à custa dos salários. Outro erro. E grave. Foi daí que surgiu toda a teoria da exploração e da mais-valia.

O surgimento dos salários

Imagine um criador de ovelhas, autônomo, em algum lugar das estepes do Cazaquistão, cem anos atrás. 

Suponha que esse criador de ovelhas não seja autossuficiente, de modo que ele precisa adquirir roupas, pães e uma variedade de outras coisas que ele pode comprar no mercado da cidade mais próxima. Ademais, suponha que a economia do Cazaquistão é desenvolvida o suficiente a ponto de utilizar moedas de ouro como dinheiro.

Quando precisa adquirir bens, esse criador de ovelhas vai ao mercado e vende algumas de suas ovelhas por, digamos, dez moedas de ouro. 

Aqui vem a pergunta crucial: podemos dizer que essas dez moedas de ouro que ele recebe pela venda de suas ovelhas representam seu salário? Não, não podemos.  

Por definição, um assalariado é alguém que não é o proprietário de nenhum meio de produção exceto seu próprio corpo e quaisquer outras habilidades excepcionais que ele porventura possua. Logo, as dez moedas de ouro não podem ser consideradas seu salário porque, para receber um salário, um indivíduo precisa antes de tudo ser o empregado de alguém. 

Esse criador de ovelhas é o seu próprio patrão e pode decidir o que fazer com sua propriedade (o rebanho de ovelhas). O dinheiro que ele recebe após vender algumas ovelhas é apenas a receita das vendas de seu produto

Se ele considera que o propósito de sua atividade produtora — criação de ovelhas — é o de lhe propiciar receitas de venda, então ele é um empreendedor. Da perspectiva dele, a receita das vendas de seu produto é um meio em potencial para sua sobrevivência — ou, alternativamente, é a sua renda.

Desta renda, se ele subtrair todos os custos incorridos na produção e no transporte do produto, ele terá o lucro.

Supondo que não há custos de produção para este criador de ovelhas, temos que toda a sua receita já é o seu lucro.

Portanto, temos que este empreendedor não aufere um salário, mas sim um lucro.

Agora, se ele decidir investir uma parte deste lucro empregando um trabalhador e pagando a ele uma quantia definida de dinheiro — em termos mensais, por exemplo —, então ele estará agora tendo novos custos empresariais.  

Esse seu investimento na forma de salários mensalmente pagos diminui regularmente a fração da receita que antes era considerada lucro — ou seja, o salário pago diminui a diferença entre a receita da venda de produtos (que continua a mesma) e os custos (que aumentam).

Observe que, quando o agricultor não está incorrendo em custos na forma de pagamentos salariais mensais, a receita total obtida com a venda de seus produtos é o seu lucro. Já quando os salários passam a ser pagos, estes advêm do lucro. 

Esta análise abstrata mostra que os lucros, e não os salários, são a forma original de renda.

O salário é uma forma de pagamento que surge apenas  quando um capitalista entra em cena. 

Surge o assalariado

Para compreender a questão mais claramente, vamos ampliar nosso exemplo inicial e supor que nosso criador de ovelhas contrata seu vizinho de nome Murat, que não é proprietário de nada, para ajudá-lo a cuidar de suas ovelhas, protegendo-as contra eventuais ataques de lobos famintos.  

Eles voluntariamente acordam que Murat receba uma moeda de ouro por mês de serviços. 

Agora, o cenário ficou totalmente diferente. Há um assalariado e um empreendedor/capitalista.

Será que podemos dizer que, nesse caso, Murat tem o direito de ser o dono de todas as ovelhas apenas porque ele cuidadosamente as protege contra o ataque de lobos? É evidente que não.  

É verdade que a produtividade marginal do rebanho aumentou desde que Murat foi contratado, mas esse fato por si só não significa que Murat tem agora o direito de reivindicar o produto marginal (ovelhas salvas dos lobos) para si próprio só porque ele foi contratado.

O que ele recebe como salário não é o produto marginal de seus serviços de vigília, mas apenas uma moeda de ouro. 

Observe o papel crucial desempenhado aqui pelo proprietário do rebanho: o salário de Murat — a moeda de ouro que ele recebe — existe unicamente porque o dono das ovelhas é sábio e prudente o bastante para poupar uma moeda de ouro de sua receita de vendas e utilizá-la para pagar Murat.

Ao empregar Murat, o criador de ovelhas espera, naturalmente, ganhar mais moedas de ouro do que ele gasta como salário de Murat. Entretanto, ainda assim, a verdade é incontestável: Murat só ganha a moeda e só contribui para uma maior produtividade marginal — o que justifica seu salário — por causa da poupança e das sábias decisões empresariais do criador de ovelhas.  

Não há aí nenhuma exploração. Não há aí nenhuma mais-valia.

Tivesse o criador de ovelhas consumido essa moeda — digamos, comprando frutas deliciosas para sua esposa —, Murat teria permanecido desempregado e em pior situação. E, como consequência, haveria menos ovelhas para os humanos consumirem.

O erro que se perpetua

No mundo primitivo, portanto, as receitas de venda representavam o lucro total. Não havia custos com terceiros a serem deduzidos das receitas.

Foi posteriormente, com o surgimento do capitalismo, que surgiram os salários dos trabalhadores, os quais são deduzidos dos lucros dos capitalistas.

Adam Smith errou sobejamente quando chamou de salários aquilo que empreendedores obtêm quando comercializam bens nas cidades. E Marx errou quando construiu toda a sua teoria tendo por base essa tese de que o ganho original de qualquer indivíduo é o salário, e que os lucros só passam a existir quando são deduzidos deste salário.  

A realidade é que um salário só passa a existir quando uma pessoa contrata uma outra, pagando-lhe regularmente uma quantia fixa. E este salário, por definição, será deduzido das receitas desta pessoa.

E isso altera toda a análise econômica.

O surgimento de assalariados ocorre somente porque existem, e continuam existindo, empreendedores/capitalistas que estão dispostos a pagar salários com recursos retirados de suas poupanças.

Empregados assalariados não têm possibilidade de auferir lucros, porém — e ainda mais importante — estão livres de prejuízos. Com efeito, os empregados têm mais chance de receber renda do que o capitalista. O fazendeiro, por exemplo, deve pagar os salários de seus empregados mesmo que tenha havido uma geada no dia anterior à colheita. Os empregados, por sua vez, estão isentos do ônus do prejuízo. Tampouco pode o fazendeiro, para sermos justos, compartilhar com eles seus lucros.  

Uma empresa farmacêutica irá vender seus produtos somente quatro ou cinco anos após a ideia inicial de se criar esses novos produtos. Nesse meio tempo, ela terá de pagar salários para centenas, talvez milhares, de pessoas. O salário é pago hoje independentemente de como serão as vendas futuras.

De maneira geral, pode-se dizer que os salários auferidos pelos trabalhadores representam uma antecipação das receitas futuras esperadas pelo capitalista com a eventual venda dos produtos finais. Para que um operário de uma fábrica possa fabricar mercadorias, o capitalista investiu uma montanha de dinheiro na fábrica. Ele investiu, digamos, $ 100 milhões (construiu a fábrica, comprou maquinários e paga os salários) para recuperar, na forma de fluxo de caixa anual, aproximadamente $ 10 milhões. Serão necessários 10 anos apenas para recuperar todo o capital adiantado. (Fora a inflação do período).

Ou seja, o capitalista abriu mão de $ 100 milhões em consumo presente para receber, anualmente, uma receita de $ 10 milhões. Tudo dando certo, daqui a uma década o principal será recuperado (e desvalorizado pela inflação).

Já os trabalhadores que este capitalista emprega não precisam esperar até que os bens sejam produzidos e realmente vendidos para receberem seus salários. O capitalista adianta um bem presente e garantido aos trabalhadores (salário) em troca da expectativa de receber um bem futuro (o retorno do investimento). 

Por tudo isso, os lucros dos capitalistas não representam uma dedução daquele valor que, segundo Marx, pertence por direito aos trabalhadores na forma de salários. Os lucros representam aquilo que o capitalista ganhou em decorrência principalmente de seu trabalho intelectual, de seu planejamento e de suas decisões. O capitalista produz um produto próprio, feito com seus investimentos e com seus bens de capital, embora utilize a ajuda de terceiros cuja mão-de-obra ele emprega com o propósito de implementar seus planos e consequentemente produzir seus produtos.

Salários são deduzidos dos lucros, e não ao contrário

Lucros (ou prejuízos), portanto, são a forma original de receita; são obtidos apenas por empreendedores. Já o salário é uma forma de pagamento que surge apenas quando um capitalista entra em cena. 

O erro compartilhado por Smith e Marx gerou a ideia de que, para obter lucros — a famosa "mais-valia" exploradora —, os capitalistas tinham de manter para si parte do salário de cada empregado. Mas a realidade é outra: a riqueza é criada por aquele indivíduo que sabe como transmitir suas visões, arriscar recursos e reconhecer oportunidades — tudo isso ao mesmo tempo em que ele cria uma renda regular para terceiros durante esse processo.

O surgimento do capitalismo, portanto, não foi o responsável nem pela dedução dos salários e nem pelo surgimento do lucro. Ele foi o responsável pela criação dos salários.  

O lucro do capitalista não ocorre à custa dos salários dos empregados. Ao contrário: os salários dos empregados são deduzidos do lucro do capitalista. 

Primeiro surgiu o lucro; só depois é que surgiu o salário. É o salário que é deduzido do lucro dos capitalistas, e não o lucro que é deduzido do salário dos trabalhadores.

Concluindo com uma provocação

No que concerne à relação entre capitalistas e assalariados, a verdade é exatamente o inverso daquilo que é alegado pela teoria da exploração. 

Os capitalistas não deduzem seus lucros dos salários dos trabalhadores; os capitalistas são os responsáveis pelo surgimento dos salários. Sendo um custo de produção, os salários são deduzidos das receitas, as quais, na ausência de capitalistas, representariam o lucro total.

Antes dos capitalistas, todos tinham de assumir por completo todo o risco de uma dada atividade. Já hoje, podemos delegar os riscos para aqueles que são mais ambiciosos e mais capacitados para atividades empreendedoras, já sabendo que, no final do mês, receberemos nossos contracheques.  

Tal arranjo é infinitamente mais produtivo e eficaz. Em última instância, é ele quem elimina a pobreza.

O que nos leva à pergunta derradeira: quem de fato "explora" quem? Os empreendedores e capitalistas exploram os trabalhadores, ou os trabalhadores basicamente vivem da inteligência, produtividade e prudência dos empreendedores e capitalistas?

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