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O polonês que escapou da morte em um campo nazista para se tornar um dos homens mais ricos do Brasil
por Lawrence W. Reed, segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Para empreendedores honestos e bem-sucedidos, uma jornada que o leva da extrema pobreza à riqueza é recheada de iniciativa, desventuras, recompensa, sorte, azar e várias lições. Na excepcional vida do falecido Samuel Klein, todos estes elementos estão presentes em tamanha abundância, que fazem com que sua história seja quase que inacreditável. 

Certamente é uma das mais incríveis com as quais já me deparei, além de envolver dois dos meus países favoritos. [N. do E.: o autor deste texto é um prolífico resenhista de biografias e esteve pessoalmente envolvido com os ativistas responsáveis pelo fim do socialismo na Polônia].

No caso de Samuel Klein, dizer que ele foi dos trapos à riqueza é um eufemismo. No ponto mais baixo de sua vida, ele esteve no corredor da morte em um campo de concentração nazista na Polônia ocupada. No outro extremo, alguns anos depois, ele era um dos homens mais ricos do Brasil, um mundo de distância.

O filho de um marceneiro

Filho de pais judeus, Klein nasceu no dia 15 de novembro de 1923 no vilarejo de Zaklików, próximo a Lublin, no sudeste da Polônia. Tal localidade até hoje continua sendo um local minúsculo, com aproximadamente 3 mil habitantes. 

Mesmo minúscula, seus cidadãos fizeram uma notável insurreição contra os russos, a qual durou um ano (1863-64), com o objetivo de tentar ressuscitar a República das Duas Nações (Polônia e Lituânia). A insurreição fracassou, mas deixou claro o espírito guerreiro daquele povo.

O pai de Samuel era marceneiro. Sua modesta renda mal conseguia alimentar a si próprio, sua mulher e seus nove filhos. Samuel frequentou apenas os primeiros quatro anos do ensino fundamental, tendo de abandonar os estudos para trabalhar como auxiliar do pai.

Sendo judia, a família Klein passou a correr perigo mortal e imediato quando Hitler invadiu a Polônia, em setembro de 1939. Durante três anos, a família sofreu perseguições e assédios contínuos. Finalmente, em 1942, pais e filhos foram presos. E separados. 

A senhora Klein e cinco de seus filhos foram enviados para o infame campo de extermínio de Treblinka, onde ela e a maioria dos filhos foram assassinados. Samuel e seu pai foram enviados para outro campo, o Majdanek, onde fizeram trabalhos forçados.

Com sete câmaras de gás, duas forcas e mais de 200 edificações, Majdanek era onde Samuel poderia ter encerrado sua vida. Mais de 80 mil prisioneiros foram assassinados lá. Felizmente, Samuel não foi um deles. Com audácia, planejou e fugiu do local, em julho de 1944.

Passou os dez meses seguintes escondido das autoridades enquanto vivia em meio a madeiras e florestas do sul da Polônia, ajudado e protegido pelos cristãos daquele país.

De marceneiro ao Sam Walton do Brasil

Após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, em maio de 1945, Klein se mudou para a Alemanha, onde aprimorou as habilidades de marceneiro que havia aprendido com o pai. 

Foi lá que demonstrou seus primeiros lampejos de empreendedorismo. Ele descobriu que podia ganhar mais dinheiro vendendo vodka e cigarros para as tropas aliadas do que trabalhando com madeira. Com esse dinheiro, abriu uma loja de iguarias.

E então, no início dos anos 1950, decidiu que era o momento de mudar. Saiu da Alemanha com a mulher, Anna, um filho de dois anos de idade, Michael, e aproximadamente US$ 6.000 de poupança — um montante que seria crucial em seu próximo empreendimento.

A primeira escolha de Klein foi os Estados Unidos, mas a política de cotas para imigrantes proibiu sua entrada. A perda da América foi o ganho do Brasil: Klein e sua pequena família foram para São Paulo após uma breve experiência na Bolívia.

Sua poupança lhe permitiu comprar uma casa, um cavalo e uma carroça. Mas a carroça veio com uma lista contendo o nome de 200 fregueses do mascate que vendeu o negócio para Klein. Eles se tornaram sua clientela-base.

Durante aproximadamente cinco anos, com uma estrutura precária e falando um português muito rudimentar, Klein vendeu cobertores, lençóis e toalhas aos nordestinos imigrantes que chegavam aos milhares ao entorno industrial da cidade de São Paulo para trabalhar na nascente indústria automobilística. Sua clientela leal passou a ser de 5 mil pessoas.

Foi no fim de 1957 que Klein decidiu abrir sua primeira loja. Começou vendendo os itens de cama, mesa e banho que ele antes vendia de porta a porta; com o tempo, passou a vender móveis, eletrodomésticos e demais utensílios domésticos.

Os fregueses, chamados de "baianos" pelos paulistas, deram o mote para o estabelecimento: Casa Bahia.

Este logo, no singular, teria de ser corrigido para o plural para refletir o número crescente de lojas. Ao longo dos 50 anos seguintes, este polonês que havia escapado da morte em um campo de concentração nazista transformou a "Casa Bahia" em "Casas Bahia", uma rede de mais de 500 lojas presentes em 15 estados brasileiros e com cerca de 55 mil empregados e milhões de consumidores satisfeitos.

Antes de morrer, em novembro de 2014, aos 91 anos de idade, Klein já havia adquirido a reputação de ser um das figuras empresariais mais queridas do país, "o Sam Walton do Brasil". 

Dos trapos que ele trajava quando fugiu do campo de concentração nazista, ele prosperou até chegar a um patrimônio líquido de quase um bilhão de dólares. Sempre satisfazendo a demanda dos consumidores.

Uma maravilha verdadeiramente atípica

Ao longo de sua jornada, Klein fez coisas notáveis, que garantiram à sua empresa vários prêmios de excelência no varejo. 

Construiu um bom relacionamento com seus fornecedores. Enquanto as grandes fábricas de eletrodomésticos ficavam com a corda no pescoço, ele aproveitava pra comprar todo o estoque de televisores mais barato, pagando à vista. Assim, ajudava seus fornecedores, ganhava reputação como bom cliente e amigo, e conseguia aumentar a margem de lucro comprando por preços menores do que a média.

A economia que conseguia ao comprar seus estoques era repassada em preços menores para os consumidores, os quais se tornavam fiéis.

Ele se tornou um grande amigo de Pelé, que passou a ser o garoto-propaganda da empresa. Ele construiu a maior rede de armazéns e distribuição da América Latina. Ele concentrou-se, com enorme precisão e como nenhum antes dele, na questão dos serviços ao consumidor. Ele criou um popular programa de crediário, que tornou seus produtos acessíveis para as pessoas de baixa renda, o qual inspirou um grupo musical brasileiro (Mamonas Assassinas) a incluir este refrão em uma de suas famosas músicas: "A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia".

E ele foi um generoso filantropo, doando milhões para novas escolas e instituições de caridade.

Pedro Tavares Fernandes, Presidente do Observatório do Empreendedor, em Florianópolis, classifica Klein como um modelo de façanha empresarial:

Por causa de nossa história de inflação e pobreza, sempre foi difícil para os brasileiros comprarem móveis e eletrodomésticos. Samuel Klein desenvolveu um extremamente efetivo sistema de crédito que permitiu aos pobres comprar estes itens. 

Ele alcançou uma enorme massa de compradores oferecendo taxas de juros razoáveis, e estes o recompensaram com baixas taxas de inadimplência e fidelidade. Aqui no Brasil, é muito comum as pessoas dizerem, ao comprarem algo considerado caro, que irão financiar em 24 meses nas Casas Bahia. 

Nunca ouvi falaram nada desabonador sobre Samuel Klein.

Setenta e cinco anos após ter deixado a Polônia, Klein ainda tem admiradores naquele país. Mikolaj Pisarski, presidente do Instituto Mises da Polônia, em Varsóvia, disse-me o seguinte:

Tivesse Samuel Klein vivido na Polônia até o dia de sua morte, ele seria o quinto mais rico do país. 

Na Polônia, assim como em vários outros países ex-comunistas, vários milionários devem sua riqueza ao fato de terem tido relações próximas aos burocratas do antigo regime ou a negociatas com o governo após a transição. Klein, porém, se destaca por ser exatamente aquilo que um verdadeiro empreendedor deve ser. 

Tudo o que ele alcançou se deveu apenas ao seu trabalho duro e à sua engenhosidade. Não recebeu nenhum favor de nenhum governo. Nenhum subsídio. Ele conseguiu tudo sem ter nenhum amigo nos altos escalões. E, no processo, melhorou acentuadamente o padrão de vida das pessoas do país que o acolheu como imigrante.

Barreiras ao sucesso econômico existem no caminho de quase todos, grandes e pequenos, em variados graus. Nada que é grandioso é fácil de ser alcançado, muito menos fortunas construídas honestamente. Algumas pessoas desistem rapidamente.

Mas, felizmente, existem os Samuel Kleins do mundo — as maravilhas verdadeiros atípicas que sobrepujam o inimaginável para se tornarem o inesperado. Estes são os heróis, os construtores, os criadores de riqueza, e os servidores de milhões de pessoas cujas vidas eles aprimoraram.

Algumas palavras finais do próprio Samuel Klein

Nenhum ensaio sobre o incrível Klein poderia terminar sem algumas frases originais deste grande homem. Eu as ofereço para o leitor porque elas sintetizam o espírito de Klein em termos de serviço e empreendedorismo:

— Acredito no ser humano. Caso contrário, não abriria as portas das minhas lojas todos os dias. O que ajuda a me manter vivo é a confiança que tenho no próximo.

— Um mais um é igual a dois. Mas a soma de uma ideia mais uma ideia não são duas ideias, e sim milhares de ideias.

— A riqueza de um homem pobre é o seu nome. … Não importa se o cliente é um faxineiro ou um pedreiro, se ele for bom pagador, a Casas Bahia dará crédito para que ele resgate a cidadania e realize seus sonhos.

— Meu lema é confiar. Confiar no freguês, nos fornecedores, nos funcionários, nos amigos e, principalmente, em mim.

— Temos que amar o país em que vivemos. A palavra crise não existe no meu dicionário. Eu sempre comprei por 100 e vendi por 200.

— Quanto maior o problema, maior a oportunidade.