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A Teoria Monetária Moderna já está sendo aplicada - e explica a inflação do ouro e dos "day traders"
por Anthony P. Geller, quarta-feira, 29 de julho de 2020

Não seria exagero dizer que a Teoria Monetária Moderna (TMM) ganhou a disputa — pelo menos temporariamente.

Sem muito alarde, e sem que tivesse havido qualquer debate, os governos e bancos centrais ao redor do mundo simplesmente adotaram seus pressupostos.

Parodiando a frase supostamente atribuída ao general romano Júlio César, a TMM surgiu (ou melhor, ressurgiu), dominou e venceu.

O básico da TMM

Um dos pilares básicos da TMM é a tese de que um governo que tem a liberdade de imprimir a própria moeda não sofre de nenhuma restrição fiscal. 

Sempre que quiser incorrer em qualquer gasto (ou em qualquer aumento de gasto), basta o Banco Central imprimir a quantidade de moeda necessária. 

É realmente simples assim. (Mas jamais mencione que o governo brasileiro fez exatamente isso na década de 1980, pois aí você estraga a narrativa).

Se os fatores de produção (mão-de-obra e todos os maquinários industriais) não estiverem 100% ocupados — ou seja, se a economia não estiver a pleno emprego, com o PIB crescendo aceleradamente —, não há por que se preocupar com qualquer pressão nos preços. O Banco Central pode imprimir sem medo.

No entanto, caso a inflação de preços porventura comece a incomodar, basta o governo aumentar impostos. Isso irá "enxugar" todo esse excesso de moeda da economia.

Sim, para os adeptos da TMM, a função da tributação não é "obter receitas" para o governo (ele não precisa de receitas, pois pode simplesmente imprimir moeda). 

A tributação, ao contrário, tem duas funções: a) retirar moeda da economia quando esta se torna excessiva e começa a pressionar os preços; e b) motivar o uso da moeda nacional e obter sua aceitação geral, pois é essa unidade de conta que o estado reconhece como meio de pagar impostos.

Sim, você leu corretamente: uma das funções da tributação é obrigar o público a usar a moeda, pois, segundo a teoria, a aceitação da moeda decorre do fato de que ela pode ser usada para quitar impostos.

A tributação, portanto, tem uma função reguladora: ela reduz o excesso de demanda e modifica o comportamento individual.

Como consequência de tudo isso, todos os gastos do governo podem ser financiados ou pela criação direta de moeda pelo Banco Central ou pelo endividamento do governo. O endividamento seria apenas uma espécie de "alternativa de luxo", a qual não geraria nenhuma consequência negativa, pois o estado pode emitir dívida e, depois, imprimir moeda para quitar esta dívida.

E como os gastos públicos levam à criação de moeda, os próprios gastos criam a poupança necessária para financiar o déficit orçamentário (as pessoas recebem a moeda criada pelo governo e, em seguida, podem utilizar essa moeda para comprar novos títulos do governo). Consequentemente, o governo pode definir a taxa de juros em qualquer nível que desejar, de preferência em zero (André Lara Resende propõe a manutenção da taxa básica de juros sempre abaixo da taxa de crescimento da economia.)

Confira com seus próprios olhos

Em decorrência da pandemia de Covid-19, os governos fecharam suas economias ao redor do mundo. Como consequência desta violenta intervenção estatal, a atividade econômica entrou em colapso. PIBs desabaram, o desemprego disparou, as receitas tributárias caíram e os gastos governamentais voltados para o "combate" da pandemia — o que majoritariamente inclui o repasse de auxílios financeiros a desempregados e autônomos — aumentaram substantivamente

Como houve uma queda nas receitas e um aumento nas despesas, uma parte desse buraco foi coberta por endividamento do governo (a juros reais negativos ao redor do mundo) e outra parte foi coberta via impressão monetária.

Os mecanismos e as leis que permitiram essa impressão monetária já foram detalhados nestes artigos (aqui para o Brasil e aqui para os EUA), de modo que, no presente artigo, estamos interessados apenas nas consequências.

Por uma questão de brevidade, vamos abordar apenas EUA e Brasil. Mas creia-me: os efeitos abaixo são similares para todos os principais países do mundo, da zona do euro ao Japão, passando por Reino Unido, Suíça, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

O gráfico a seguir mostra a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil.

m1brasil.png

Gráfico 1: evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil.

Observe a disparada ocorrida a partir de março, um movimento completamente atípico e inaudito. Nos últimos 12 meses (de junho de 2019 a junho de 2020), o aumento foi de 40%.

O mesmo fenômeno pode ser observado nos EUA.

O gráfico a seguir mostra a evolução do M1 nos EUA.

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Gráfico 2: evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) nos EUA.

Nos últimos 12 meses (de junho de 2019 a junho de 2020), o aumento também foi de 40%.

Vale ressaltar que, em um cenário normal, a oferta monetária aumenta quando pessoas e empresas pegam empréstimos bancários. No arranjo monetário e bancário do mundo moderno, a oferta monetária aumenta quando há endividamento de pessoas e empresas. 

Em momentos de normalidade, o Banco Central não injeta moeda diretamente na economia; ele injeta moeda apenas nos bancos (aumentando a base monetária), e os bancos é que decidem se irão despejar esta moeda na economia (por meio da criação de crédito). Se os bancos não expandirem o crédito, o dinheiro simplesmente não entra na economia. Não há outra maneira de o dinheiro entrar na economia que não seja pelo sistema bancário.

Agora, porém, os Bancos Centrais deram um jeito de contornar esse arranjo e, em vez de depender de emprestamos concedidos pelo sistema bancário, passaram a jogar moeda diretamente na economia (de novo: ver aqui e aqui).

Essa mudança de comportamento é o que explica a explosão do M1 nos gráficos 1 e 2 após anos de "crescimento normal".

Como consequência dessa acelerada inflação monetária e do fato de os juros reais estarem negativos, o preço do ouro está batendo seguidos recordes — afinal, é para o ouro que sempre correm os investidores experientes quando estes prenunciam uma futura desvalorização da moeda e os juros reais estão baixos. É no ouro que eles protegem seu patrimônio.

O gráfico a seguir mostra a evolução do preço do ouro em dólares:

ourodolar.png

Gráfico 3: evolução do preço do ouro em dólares

Máxima histórica.

E agora, a evolução do preço do ouro em reais:

ouroreais.png

Gráfico 4: evolução do preço do ouro em reais

Também na máxima histórica.

O que podemos comprovar, por ora, é que toda essa criação de moeda perpetrada pelos Bancos Centrais está pressionando o preço do ouro, o que indica que os investidores estão em busca de proteção. 

(Uma boa parte dessa moeda também está indo para os mercados acionários, sendo a Nasdaq a bolha mais explícita de todas. Quem souber a hora certa de sair colherá formidáveis lucros. Mas isso é só para especulador experiente.)

Como ainda não está havendo uma explícita inflação de preços (devido às enormes incertezas econômicas, as pessoas estão preferindo poupar os valores recebidos do governo, em vez de gastar), os governos ainda não estão preocupados em interromper toda essa inflação monetária. E enquanto ela perdurar, haverá gás para o preço do ouro.

Esta prática de injetar moeda diretamente na economia para bancar os gastos do governo (dando um drible no sistema bancário) foi retirada diretamente do manual da Teoria Monetária Moderna. Assim, pode-se dizer que metade de TMM já foi implantada (criação de moeda para financiar gastos do governo, o que gera juros reais zero). A outra metade — aumentar impostos para enxugar o excesso de moeda da economia — ainda não precisou ser implantada porque, em tese, a inflação de preços ainda não incomoda.

A conferir o futuro.

Falsificando preços para reativar a economia — e a inflação do day traders

Além de todos os outros problemas, essa política de criação livre de moeda é nefasta porque ela destrói aquele que é o mais importante recurso de uma sociedade livre: preços corretos gerados pela oferta e pela demanda.

Estes preços são a baliza que os empreendedores utilizam para decidir quanto pagar por bens de capital, fatores de produção (como mão-de-obra) e serviços, na expectativa de obter uma maior renda no futuro com a venda do serviço e do bem de consumo final. 

Mas o sistema de preços está sendo destruído pelas políticas de déficits e criação de moeda. A ausência de poupança foi mascarada pela criação de moeda. A forte queda observada nas taxas de juros de longo prazo precifica isso: a moeda criada pelo Banco Central está fazendo parecer que há uma abundância de poupança disponível para bancar novos projetos.

Logo, aqueles que preveem uma recuperação rápida em decorrência dessa manipulação monetária estão realmente dizendo o seguinte: "Informações erradas são essenciais para a recuperação econômica. Sem a completa distorção do sistema de preços por meio de aumento de gastos, déficits orçamentários e criação de moeda, estaríamos em depressão." 

Em outras palavras, as atuais condições de oferta e demanda gerariam uma depressão; e a única maneira de a depressão ser evitada, e a plena prosperidade ser recuperada em um ano, é essa: sinais de preço falsificados pela intervenção governamental. 

Ou seja, falando no popular, fake news é a base necessária para uma recuperação econômica real.

É óbvio que não tem como dar certo. Tais políticas, repetindo, apenas fazem com que os preços (principalmente o mais crucial deles, que são os juros) na economia não mais reflitam as condições de oferta e demanda. Isso significa que os empreendedores passam a receber informações erradas. E eles tomarão suas decisões baseando-se nessas informações erradas. Isso irá gerar perdas. Empreendedores que acreditam em informações erradas e que investem segundo estas informações erradas terão perdas no futuro.

Se não sabemos quanto algo custa em termos das atuais condições de oferta e demanda, não sabemos qual é o seu real valor na economia.

Consequentemente, não é possível estimar qual será o seu valor daqui a um ano. Criação de moeda pelo Banco Central e um maciço aumento de gastos governamentais não geram alocação racional de capital. Ao contrário: geram alocação irracional de capital.

E é isso o que explica essa verdadeira inflação de day traders — normalmente amadores que nunca operaram ações, mas que, vendo os contínuos aumentos da bolsa de valores, acreditam ser fácil enriquecer comprando e vendendo ações no mesmo dia. 

Recentemente, uma famosa influencer de Instagram — que ganhou fama dando dicas de alimentação e atividades físicas — anunciou que agora iria se dedicar a ganhar dinheiro fazendo day trade na bolsa, pois era ganho garantido. Após alguns ganhos, ela disse ter constatado que "nasceu para isso".

Assim como ela, várias outras pessoas físicas estão fazendo o mesmo. (Eu mesmo conheço um cirurgião que deixou a medicina para virar day trader. Segundo ele: "Estudei dois anos. Já consigo fazer".)

Nos EUA, esse fenômeno é muito mais intenso. A injeção monetária está sendo tão intensa, que todas as ações estão subindo e, com isso, vários investidores pessoas físicas que recém-entraram na bolsa estão tendo retornos maiores que muitos fundos de investimento famosos.

Um destes, que se tornou famoso, chegou a dizer que day trade é o jogo mais fácil que já jogou na vida, e que Warren Buffet é um idiota.

E já há casos de suicídio em decorrência das perdas vivenciadas.

Todo esse fenômeno é apenas um exemplo de toda a distorção de preços e de incentivos gerada pela impressão de moeda.

No final, é disso que se tratam os pacotes de socorro, principalmente a impressão de moeda feita pelo Banco Central: a crença de que preços falsificados, bolhas e alocação irracional geram retomada econômica.

Para concluir

Se você é especulador profissional e experiente, esse é um ótimo momento para você aumentar seu patrimônio. Sabendo a hora certa de entrar e de sair, você pode se aposentar. A Teoria Monetária Moderna foi feita para você.

Já se você é apenas um amador (popularmente conhecido como "sardinha"), resista ao impulso, contenha-se e concentre-se apenas em proteger o seu patrimônio — o que já é um grande desafio neste cenário dominado pela TMM, a qual é contra indivíduos frugais e poupadores.

O que é realmente certo é que tal arranjo não é propício para a racionalidade econômica. E muito menos para um progresso econômico saudável.

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