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Uma radiografia de como a Covid-19 já impactou salários, vendas e setores da economia brasileira
por Leandro Ávila, quarta-feira, 8 de abril de 2020

Este artigo irá se concentrar exclusivamente em mostrar alguns dados que fazem parte de pesquisas pessoais que venho realizando para entender o impacto da epidemia do novo coronavírus na economia, nas empresas e no comportamento das pessoas.

O objetivo deste compartilhamento de informações, e de suas respectivas fontes, é estimular o leitor a fazer seus próprios estudos e se adaptar à nova realidade que nos acomete. 

Situação do comércio

Começo com alguns dados que fazem parte de uma pesquisa feita pela Elo Performance e Insights (você pode encontrar os dados neste endereço ou aqui).

Os números mostram que as vendas no varejo brasileiro caíram pela metade até o fim de março, refletindo o forte impacto da crise provocada pela pandemia de Covid-19. É possível que esses números estejam muito piores hoje, pois o processo de fechamento do comércio por determinações de governadores e prefeitos ainda não terminou.

O estudo comparou as vendas do varejo nas últimas semanas de março com uma média de períodos anteriores, quando ainda não existiam casos registrados do novo coronavírus no Brasil e o comércio ainda estava totalmente aberto.

Observe no gráfico abaixo que a linha azul representa as compras utilizando cartão de crédito e a linha preta as compras realizadas com cartão de débito em todos os estabelecimentos do país. 

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O governo confirmou o primeiro caso de coronavírus no dia 26/02 (fonte). Já a primeira morte foi confirmada no dia 17/03, justamente no início do declínio das vendas utilizando os cartões em comparação ao mês anterior. Exemplo: o número -50% no dia 25 de março, no gráfico acima, significa que as vendas por cartão de crédito caíram 50% em relação ao dia 25 do mês anterior. 

Podemos observar, no canto direito da figura, que essa queda foi de 91% no setor de vestuário. Os supermercados, por outro lado, foram os menos atingidos.

Já no gráfico abaixo temos os dados dos supermercados e farmácias separados dos demais setores.

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Podemos observar um forte aumento nas vendas dos supermercados e farmácias antes mesmo da confirmação da primeira morte. Logo depois ocorre um declínio desse aumento (ou seja, uma desaceleração) em relação ao período anterior, pois provavelmente as pessoas aumentaram suas compras na fase inicial para evitar sair de casa.

O próximo gráfico mostra as vendas pela internet (e-commerce). 

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Podemos ver que, no geral, as vendas online caíram 35% em todo Brasil (linha laranja). A venda de bares e restaurantes cresceu 85% pela internet (canto direito da imagem). Supermercados online tiveram alta de 17% nas vendas por meio do cartão. Podemos entender que os brasileiros estão concentrando suas despesas em produtos essenciais.

Expectativas

Agora, eis os dados recentes de uma pesquisa sobre as expectativas das pessoas e seu comportamento diante da crise. Expectativas são cruciais. São elas que mais interferem nas decisões de compra dos consumidores e de investimentos dos empreendedores. Você encontra a pesquisa aqui

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No gráfico acima podemos somar os valores e descobrir que 36% das pessoas pesquisadas acreditam que a crise terá duração de 1 até 3 meses. Somadas, temos que 57% das pessoas esperam uma crise que dure de 6 meses para mais. E 19% esperam que a crise dure por mais de 1 ano. 

Esses valores, como dito, são cruciais, pois as pessoas normalmente tomam decisões de consumo e investimentos com base nessas expectativas.

No relatório detalhado (fonte) podemos ver que as pessoas com mais escolaridade estão mais pessimistas: 17% dos mais escolarizados se preparam para uma crise superior a 2 anos. Por outro lado, apenas 4% das pessoas com menos escolaridade esperam que a crise dure mais de 2 anos.  

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As pessoas entre 25 e 40 anos são as mais pessimistas enquanto as pessoas com mais de 60 anos são as mais otimistas (onde existem muitos aposentados). As pessoas com maior renda estão mais pessimistas e as de menor renda, mais otimistas.

Medo e incerteza

Já o próximo gráfico mostra que 31% das pessoas conhecem alguém que já perdeu o emprego após o início da pandemia.

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Saber que seus amigos, parentes e conhecidos estão perdendo o emprego favorece o aumento do pessimismo e isso inevitavelmente produz efeitos nas decisões de consumo, economia de dinheiro e investimentos.

No próximo gráfico temos uma espécie de "medidor do medo". Sabemos que o comportamento dos consumidores e dos investidores possuem como principais motores: o medo e a ganância/euforia. Muitos negócios como imóveis, eletroeletrônicos, moda, entretenimento, turismo entre outros, dependem de pessoas  otimistas com relação ao futuro.

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Ninguém compra um imóvel maior, abre um novo negócio, faz investimentos de maior risco e de longo prazo, ou gasta dinheiro com luxo e entretenimento quando está com medo de perder o emprego. Normalmente as pessoas gastam mais dinheiro com o essencial e com a educação ou com qualquer tipo de qualificação que possa melhorar seus resultados financeiros. As pessoas tendem a cortar os supérfluos e a aumentar o hábito de poupar, e começam a se preparar para o que está por vir (que podem ser riscos ou oportunidades).

Pelo gráfico, 43% das pessoas estão com medo grande ou muito grande de perder o emprego nessa fase inicial da crise. Nos detalhes da pesquisa existe a informação de que 87% das pessoas acredita que a taxa de desemprego será maior (49%) ou muito maior (38%) nos próximos 3 meses.

Redução salarial

Já o gráfico abaixo mostra que 46% dos entrevistados já tiveram, ou acreditam que terão, redução em sua renda mensal.

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E mais: entre as pessoas que já tiveram perdas na renda, a média dessa perda foi de 44%, como mostrado abaixo.

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Pelos números, e adotando-se uma estimativa conservadora, as pessoas que ainda não tiveram redução de renda já deveriam agora estar tomando medidas preventivas para se preparar para uma redução de pelo menos 30% na renda. Tudo indica que até mesmo os funcionários públicos estaduais, outrora estáveis, irão entrar nessa.

Endividamento

O que torna tudo isso muito pior são as dívidas. O gráfico abaixo indica que 58% das pessoas estão endividadas.

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Nos detalhes da pesquisa, 56% dessas pessoas que possuem dívida declararam que terão de atrasar o pagamento de algumas dívidas. Isso significa que além das empresas já estarem prejudicadas com a queda nas vendas, elas terão problemas para receber o pagamento da vendas que já fizeram no passado.

Agora, preste atenção aos valores vermelhos. Podemos observar que 64% das pessoas reduziram gastos com compra de roupas, 56% reduziram compras de bens duráveis como eletrodomésticos e eletrônicos, 54% reduziram compra de bebidas, 47% reduziram a compra de comida pronta (restaurantes). As pessoas estão comprando mais produtos de limpeza, remédios e alimentos em supermercados.

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Agora é com você

Espero que esses dados possam ajudar você que trabalha, empreende ou investe nos setores que aparecem nas pesquisas.

Assim como as grandes empresas estão nesse momento estudando, planejando e tomando decisões preventivas e proativas, os indivíduos deveriam fazer a mesma coisa.

Existem pessoas cantando e batendo panelas na varanda. Existem pessoas que passam o dia fazendo maratona nas séries do Netflix e fingindo heroísmos nos videogames. Existem aqueles que ficam vigiando e brigando com outras pessoas nas redes sociais. Tudo isso resultará em paralisia.

Para quem tem um emprego e está agora no home office, esse é o momento de ser ainda mais produtivo, proativo e preocupado com a empresa onde você trabalha, como se você fosse o dono dela.

Para quem tem um negócio, esse é o momento de desenvolver um plano de ação e começar a agir. Para o empreendedor, não importa o que vai acontecer. O importante é se ele sabe o melhor a ser feito diante dos possíveis acontecimentos. O bom empreendedor espera o melhor e se prepara para o pior. É o momento de fazer mais com menos.

Para quem é investidor e fez seus estudos no passado e já entende como os investimentos funcionam, esse é o momento de praticar o que aprendeu. Para quem só tomou decisões de investimentos baseadas em recomendações de terceiros, esse é o momento de dedicar um tempo para aprender sobre o funcionamento dos investimentos. Esqueça a ideia de que as pessoas que fazem recomendações sabem o que vai acontecer no futuro. Elas apenas sabem como os investimentos funcionam e vão tomando decisões e ajustando as carteiras de investimentos diante dos cenários que se apresentam.

Enfim, o que você está fazendo para mitigar as enormes incertezas futuras?

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Este artigo foi originalmente publicado no site Clube dos Poupadores, cuja leitura é fortemente recomendada.

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