Mises Brasil Instituto Ludwig von Mises Brasil
http://www.mises.org.br


O coronavírus
por Gary North, quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A epidemia (que pode virar pandemia) de coronavírus tem sido levada extremamente a sério na China. É realmente impressionante a rapidez da reação. Quarentenas de regiões inteiras foram impostas.

O vídeo a seguir é um bom exemplo de quão efetivas e baratas são as câmeras de smartphones. Trata-se de um relato em primeira mão, in loco, de tudo o que está acontecendo em Wuhan, a cidade na China que passou a ser conhecida como o epicentro da difusão do surto. Na prática, esta cidade de mais de 11 milhões de habitantes se tornou um local deserto. As pessoas estão trancadas em casa. Todos os empreendimentos (comércio, indústria e serviços) estão fechados.

O que irá acontecer a estas economias locais se o coronavírus — que vem apresentando um crescimento mais exponencial que a epidemia de SARS, entre 2002 e 2003 — continuar se espalhando, e as lojas e fábricas continuarem fechadas? Qual será o impacto na economia chinesa e, por consequência, na economia mundial, considerando-se também que o tráfego aéreo para a China está parcialmente suspenso (hoje a Air Canada também anunciou sua interrupção)?

A divisão do trabalho é fortemente dependente de tudo isso. Com a interrupção do tráfego de viajantes e de consumidores nas lojas, o comércio irá falir. Quando a epidemia acabar, haverá amplas barganhas para quem estiver com dinheiro e houver sobrevivido à epidemia.

Pandemia

Comecei a assistir ao documentário Pandemia, no Netflix.

Ele começa com um resumo do total de mortos da Gripe Espanhola, de 1918.

Este tema de pandemia é uma constante: não é uma questão de 'se', mas de 'quando'. Os especialistas não estão blefando e nem fazendo terrorismo barato. Algum dia acontecerá de novo; eles apenas não têm como saber quando e nem como tudo irá ocorrer. Mas estão convencido de que irá. Pior: eles não oferecem nenhuma bala de prata para lidar com isso. Não há. O que eles realmente garantem é que todo o sistema de saúde entrará em colapso e será paralisado.

Haverá vários efeitos imprevisíveis em uma pandemia. Mas é óbvio que algo assim irá solapar todo o sistema de saúde. Qualquer pessoa sofrendo alguma emergência médica de qualquer tipo não conseguirá ser atendida. Todos os leitos estarão ocupados.

No primeiro episódio da séria da Netflix, somos apresentados a uma mulher de uma pequena cidade do estado de Oklahoma. Ela é a única médica do hospital local. Ela tem de tratar todos os tipos de doenças, de lesões e de crises médicas que levam as pessoas a procurar um hospital. Ela é bastante franca quanto ao fato de que não há a mais mínima chance de ela lidar com algo semelhante a uma pandemia. O hospital ficaria lotado. 

Fato semelhante ocorreria em várias pequenas cidades ao redor do mundo.

Outro efeito óbvio seria este: médicos, enfermeiras, anestesistas, auxiliares, residentes, plantonistas etc. começariam a morrer. Alguns outros iriam simplesmente abandonar o serviço. Não creio que a maioria faria isso. A mentalidade dos profissionais da saúde é semelhante à de soldados em combate. Mas haveria um declínio no número de profissionais da saúde, e eles não podem ser facilmente substituídos. Após a pandemia perder força, haveria uma escassez de médicos. Os preços dos serviços subiriam. Provavelmente seria instituído algum racionamento nos serviços de saúde. Vários hospitais privados iriam à falência.

O mesmo fenômeno aconteceria nas escolas, que seriam fechadas (o que, ironicamente, seria ótimo para cursos online, como a Khan Academy).

Salas de cinema teriam enormes prejuízos. Assim como os restaurantes.

Empresas aéreas? Quebradas.

O desemprego subiria sensivelmente. As pessoas perderiam seus empregos assim que os consumidores desaparecessem.

Os empregados que ainda mantiverem seus empregos pediram para começar a trabalhar de casa. Os patrões teriam de aceitar. Vendedores começarão a utilizar o Skype e o Zoom.

As compras no atacado, principalmente de alimentos, iriam crescer exponencialmente. As pessoas passariam a comprar no atacado para não terem de fazer comprar rotineiras em supermercados tradicionais. Elas estariam dispostas a pagar mais caro para ter a comida entregue em casa.

Igrejas? É provável que as celebrações passariam a ser transmitidas online, algo que já é feito atualmente. Haveria muito mais pessoas participando dos rituais pela internet do que as que hoje participam presencialmente, sem pandemia.

Nós nunca pensamos nestas probabilidades e nestes cenários simplesmente porque nunca tivemos de enfrentar algo semelhante a isso nos últimos 100 anos.

A corrida já começou 

Quatro décadas atrás, conheci um homem que era especialista em biologia. Ele era Ph.D. na área. Era um sujeito extremamente preparado e muito versado no assunto. Comecei a conversar com ele sobre pandemias. Eis o que ele me disse. Jamais me esqueci.

"Epidemiologistas estão em uma constante corrida contra alguma nova variedade de micróbios, contra os quais os seres humanos não têm nenhuma imunidade. Esses bichos desenvolvem imunidades contra as inoculações da ciência. Os cientistas, por muito pouco, ainda conseguem se manter à frente dos bichos. Mas chegará o dia em que os bichos ultrapassarão os cientistas. Este será o dia em que começará uma pandemia."

Minha avó vivenciou a gripe espanhola. Foi a última grande pandemia do mundo. Minha mãe tinha aproximadamente um ano de idade à época. Elas viviam em Washington, D.C.  Ambas viviam em uma pensão que pertencia a uma chinesa. Segundo minha avó, a chinesa obrigava todos os inquilinos a comerem alho e cebola ao menos uma vez por dia. A justificativa era que isso criaria resistência à doença. Minha avó não tinha nenhuma opinião sobre a efetividade da dieta, mas também disse que ninguém naquela pensão adoeceu. 

Aproximadamente 50 anos atrás, tornei-me interessado em estudar com profundidade o pior desastre natural já registrado na história da humanidade: a peste bubônica de 1348-50. Ela simplesmente transformou a civilização ocidental. Aproximadamente 35% dos europeus ocidentais foram dizimados. Nas cidades, as mortes chegaram a metade de população. O Renascimento acelerou-se nesta época porque as elites intelectuais perderam a fé em Deus. 

Havia vários tipos de tratamento recomendados. Nenhum funcionou.

Meu palpite é que ocorrerá o mesmo fenômeno no próximo surto. Algumas pessoas irão recorrer ao Tamiflu. Outras irão se entupir de vitamina C. Outras tomarão vacina anti-gripe. Mas eis a realidade: nos estágios iniciais da próxima pandemia, nada irá funcionar. É por isso que será uma pandemia. Será só após a pandemia já ter se disseminado, abatendo aqueles cujos sistemas imunológicos não possuem defesa operacional, que as taxas de mortalidade irão desacelerar.

A gripe espanhola surgiu antes do desenvolvimento dos medicamentos sulfa. As sulfonamidas só foram descobertas em 1908, mas, pelas três décadas seguintes, ninguém fez nada com elas em termos médicos. Foi só no final da década de 1930 que os medicamentos sulfa se tornaram comuns. Desde então, vivemos em uma era em que os remédios sulfa e maravilhas similares são comuns. Conseguimos manter as criaturas microscópicas — que, um século atrás ameaçaram as vidas de dezenas de milhões de pessoas — isoladas e sob controle. 

Consequentemente, não nos enxergamos como sendo vulneráveis a um surto de algo comparável a uma pandemia. Mas os especialistas na área sempre nos alertaram que essa nossa autoconfiança não era justificada. Como aquele meu amigo me explicou há 40 anos, em algum momento os microorganismos irão ultrapassar os cientistas.

Ao redor do mundo, as bolsas de valores começaram a cair forte por causa de um punhado de casos confirmados de coronavírus. Ou, ao menos, essa é a justificativa que está sendo apresentada para as quedas. Mas é fato que os investidores estão ficando nervosos. Como consequência, o ouro disparou substantivamente. Estava em aproximadamente US$ 1.500 pouco antes do início de 2020. Agora já se aproxima de US$ 1.600. Igualmente, os juros dos títulos de longo prazo do Tesouro americano caíram forte em decorrência da maior procura por segurança. A taxa caiu de 1,95% para 1,55%.

Ainda assim, não traz benefício nenhum ficar se preocupando com qualquer um desses vírus. Faz um século que estamos escapando da ameaça. Pode ser que consigamos o mesmo durante o próximo século. Ou não.

Conclusão

Não se sabe se o coronavírus irá se tornar uma pandemia. As chances são de que não, mas as chances sempre dizem isso em relação a qualquer tipo de vírus. O que se sabe é que os verdadeiros especialistas da área estão dizendo há décadas que, em algum momento, em um dia qualquer, alguma colônia de microorganismo irá se tornar imune o bastante para superar as chances.

Chris Martenson, Ph.D. em toxicologia, publicou um vídeo em 24 de janeiro alertando para isso. E ele não está exagerando.

A China está tomando medidas extraordinárias para manter o surto sob controle. Apenas um governo autoritário, que não está preocupado com eleições, pode se dar ao luxo de trancar as pessoas dentro de suas casas em várias cidades. Mas como esse governo conseguirá fazer isso sem afetar toda a economia chinesa? 

Independentemente dos efeitos fora da China, os efeitos econômicos dentro da China podem desencadear uma recessão na nação que é a força-motriz do crescimento econômico. Uma recessão na China pode derrubar (como já está derrubando) os preços das commodities, o que irá afetar principalmente as economias em desenvolvimento. As moedas destes países já estão sofrendo

O lendário investidor de commodities Paul Tudor Jones fez exatamente essa previsão.

Tudo o que podemos fazer é ficarmos parados observando. Mas jamais nos esqueçamos de que todo o conforto e progresso trazidos pela moderna economia dependem da ausência de uma pandemia. Jamais parta do princípio de que sua saúde e bem-estar são coisas certas e garantidas.