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Economistas do lado da oferta vs. economistas do lado da demanda - entenda esta distinção crucial
por Anthony P. Geller, sábado, 14 de dezembro de 2019

Quando destituídas de toda a retórica e de todos os jargões acadêmicos, há apenas duas escolas de pensamento econômico: a que vê a economia pelo lado da oferta e a que vê a economia pelo lado da demanda.   

Os economistas do lado da demanda se concentram nos consumidores: mais especificamente, se concentram no bolso dos consumidores. 

Já os economistas do lado da oferta se concentram nos produtores: mais especificamente, na retirada de barreiras para a livre atuação de produtores, empreendedores, investidores e trabalhadores.

Economistas do lado da demanda

Para os economistas do lado da demanda, são os gastos dos consumidores que fazem a economia crescer. Quanto mais o governo estimular e facilitar gastos, maior será o crescimento econômico. 

Consequentemente, o ponto central na análise de um economista do lado da demanda são as mudanças na quantidade de dinheiro no bolso dos consumidores e também das empresas, que irão usar esse dinheiro para comprar bens e serviços (inclusive mão-de-obra).

Se a economia está "superaquecida" ou se os preços estão subindo a um ritmo além do desejado, o economista do lado da demanda irá atuar mexendo na quantidade de dinheiro na economia. No caso, irá defender o aumento de juros para esfriar a demanda dos consumidores e reduzir a demanda das empresas por empréstimos para gastarem com mão-de-obra e equipamentos. 

Neste cenário, segundo a teoria, o consumo cai, os investimentos caem, o desemprego aumenta e, como consequência, os preços param de subir. (Algumas franjas também defendem o aumento de impostos com o intuito de também reduzir a demanda de indivíduos e empresas.)

Inversamente, se a economia está "desaquecida" e o preços estão "bem comportados", o economista do lado da demanda irá atuar no sentido oposto. No caso, irá defender a redução de juros para estimular a demanda dos consumidores e aumentar a demanda das empresas por empréstimos para gastarem com mão-de-obra e equipamentos. Neste cenário, segundo a teoria, o consumo aumenta, os investimentos crescem, o desemprego cai e, como consequência, os preços voltam a subir.

Na prática, portanto, para um economista do lado da demanda, uma maior demanda por bens e serviços leva automaticamente a uma maior oferta destes bens e serviços. A questão de como surgirá a produção é totalmente secundária (em algumas escolas de pensamento, a figura do empreendedor sequer é citada). Apenas acredita-se que uma maior demanda levará a um um maior emprego de mão-de-obra e, consequentemente, a mais produção.

E essa maior demanda por bens e serviços pode ser aumentada ao se implantar políticas que aumentem o poder de compra dos indivíduos: empréstimos a juros mais baixos, déficits orçamentários do governo (que "retiram" dinheiro da poupança das pessoas e o repassam ao governo, que então gasta, criando mais demanda) e, no extremo, a simples criação direta de dinheiro.

Este é o modelo dominante no mundo atual. Praticamente todos os governos, bancos centrais e ministérios das finanças seguem esta teoria.

Economistas do lado da oferta

Já para os economistas do lado da oferta, o que faz a economia crescer não é o consumo, mas sim a produção de bens e serviços

O consumo é uma consequência natural da produção. Por meio de nosso trabalho (produção), nós produzimos bens e serviços específicos com o intuito de auferirmos uma renda, a qual então utilizaremos para demandar (consumir no presente e no futuro) outros bens e serviços.

Quais bens e serviços iremos consumir? Aqueles produzidos por terceiros, e os quais serão adquiridos por nós com o dinheiro que obtivemos com a nossa produção (trabalho). Isso significa que, para o economista do lado da oferta, nosso consumo, e tudo aquilo que desejamos consumir, não é a força-motriz da economia.

O consumo ocorre quando encontramos bens e serviços que nos aprazem e cujos preços consideramos acessíveis, e os quais foram produzidos por empreendedores antes mesmo de termos manifestado nosso desejo de consumir.  

Em outras palavras, a quantidade de bens e serviços disponíveis para nós facilita o consumo. Não podemos consumir o que ainda não foi produzido. Consequentemente, a produção, feita com o propósito de permitir o consumo (e, quando bem-sucedida, trazendo lucro ao produtor), é o que conduz a economia.

Para o economista do lada da oferta, portanto, o foco está na produção de bens e serviços, e não na demanda dos consumidores.

Ademais, dado que a demanda por bens e serviços é natural e intrínseca ao ser humano — o simples fato de sermos humanos faz com que nossos desejos e necessidades sejam infindáveis e nunca sejam plenamente saciados —, não faz sentido criar medidas voltadas para aquilo que já é natural e inevitável. 

Logo, políticas voltadas para a demanda (seja para estimular ou para arrefecer o consumo) não fazem parte do modelo. A demanda não é uma preocupação. Não faz sentido se preocupar com algo que é natural e que já é exatamente objetivo final de toda e qualquer produção.

E dado que as pessoas produzem exatamente para auferirem renda, para então poderem demandar outros bens e serviços, o objetivo final da produção é exatamente o consumo (presente e futuro). Sendo assim, não faz sentido se preocupar com algo que é natural e cujo objetivo todos já almejam.

Portanto, e por uma questão de lógica pura, dado que sem a produção não há renda, e que sem renda não há demanda, se você resolve a questão da produção, você resolve automaticamente a questão da demanda. Por isso, o economista do lado da oferta se concentra em facilitar a produção.

Sendo assim, crucial em sua análise são as alterações nos incentivos tanto para o capital quanto para a mão-de-obra participarem nas atividades de mercado.

Consequentemente, problemas como preços em alta ou economia estagnada (ou mesmo uma combinação de ambas, como a famosa 'estagflação') não devem ser atacados por meio de políticas de demanda (manipulação de juros e da oferta monetária, aumento/redução do crédito etc.), mas sim por medidas que estimulem e facilitem a produção.

Redução de impostos sobre a produção irá estimular mais produção. Redução de impostos sobre o trabalho irão estimular mais trabalho. Permitir que os trabalhadores mantenham uma fatia maior de seu salário e que empreendedores/produtores mantenham uma fatia maior do seu lucro irá estimular mais trabalho e mais produção. Reduzir a burocracia e as regulações para se empreender irá gerar mais empreendedorismo. Liberar mercados, permitir a entrada de concorrência em vários setores da economia e praticar um comércio livre e irrestrito com o resto do mundo irão gerar mais empreendedorismo e produção.

Mais trabalho, mais empreendedorismo e mais produção significam mais emprego e renda. E mais renda significa mais demanda.  

A abordagem pelo lado da oferta resolve todos os problemas de uma só vez

Observe que este arranjo (abordar a economia pelo lado da oferta) resolve todos os outros problemas de uma só vez. Resolve o problema dos preços em alta e resolve o problema da economia estagnada.

Mais bens e serviços sendo produzidos significa, por definição, mais crescimento econômico. E, se há mais bens e serviços sendo produzidos, então há um aumento na oferta destes itens. Havendo maior oferta de bens e serviços, então tem de haver uma pressão baixista nos preços.

Para as pessoas demandarem (consumirem) mais, elas têm antes de ter produzido mais. Não é possível você demandar (consumir) sem antes ter produzido. Por isso, mesmo uma explosão no consumo não pode, por definição, ser inflacionária, pois os consumidores tiveram antes de produzir algo. Ao produzirem, eles aumentaram a oferta.

Isso, obviamente, não significa que o crescimento econômico tem necessariamente de gerar deflação de preços (pois sempre haverá quem aumente preços por estar em uma área com pouca concorrência, por exemplo), mas sim que é errada a narrativa de que todo crescimento econômico é necessariamente inflacionário.

Igualmente, para as pessoas demandaram mais (consumirem mais), elas têm de ter mais renda. Para terem mais renda, é necessário haver mais produção. Para haver produção, é necessário haver mais investimento. Para haver mais investimento, é necessário remover barreiras governamentais que desestimulam a produção

Cruciais são a segurança jurídica, a institucional e, acima de tudo, a econômica. Não há como haver investimento e produção (que são o que criam renda) em um país que regula, tributa e inflaciona em excesso.

Portanto, temos que uma maior oferta (produção) de bens e serviços cria uma maior demanda por outros bens e serviços. E a oferta de bens e serviços pode ser aumentada ao se retirar barreiras governamentais à produção e ao comércio. 

Na prática, portanto, para o economista do lado da oferta, uma maior oferta de bens e serviços cria uma maior demanda por outros bens e serviços. E a oferta de bens e serviços pode ser aumentada ao se retirar barreiras governamentais que atrapalham a produção e o comércio. Isso ataca, simultaneamente, tanto a questão da inflação de preços quanto a questão da estagnação econômica.

Política monetária do lado da oferta e do lado da demanda

Para o economista do lado da demanda, a política monetária é a principal força-motriz da economia. É a política monetária o que irá aumentar ou reduzir o consumo — e, consequentemente, aumentar ou reduzir o crescimento econômico.

Por isso, esse economista é extremamente ativista em termos de política monetária. O Banco Central deve estar continuamente manipulando juros para baixo ou para cima com o intuito de, respectivamente, estimular ou arrefecer o consumo das pessoas e os gastos das empresas. Agindo assim, ele acredita estar determinando diretamente o crescimento econômico. 

Dado que é a demanda o que impulsiona a economia, a política monetária visa a afetar diretamente a demanda (injetando ou retirando dinheiro da economia). Afetando a demanda, afeta-se crescimento econômico e, consequentemente, os preços.

Já para o economista do lado da oferta, o objetivo da política monetária não deve ser o de colocar dinheiro no — ou retirar do — bolso dos consumidores, mas sim, tão-somente, fornecer uma unidade de conta que seja estável ao longo do tempo, e que, principalmente, tenha alguma definição. 

Hoje, por exemplo, você não sabe definir o que são R$ 5. O que isso representa de concreto? Nada. R$ 5 hoje não representam o mesmo que representavam há 10 anos, e não representarão daqui a 10 anos o mesmo que representam hoje. Sendo assim, você tem uma unidade de conta completamente indefinida. Isso afeta profundamente as decisões de investimento de longo prazo

Por outro lado, se a moeda for mantida estável em relação a, por exemplo, uma commodity (como o ouro) ou mesmo a uma cesta de commodities, aí então você teria uma exata definição da unidade de conta. Você saberia que daqui a 10 anos aqueles R$ 5 reais terão a mesmo definição que têm hoje, assim como teriam a mesma definição que tinha há 10 anos.

Tal idéia sempre foi defendida por todos os economistas clássicos (Smith, Ricardo, Say, Mill e a Escola Austríaca). À sua época, eles já defendiam a ideia de que a moeda, para ser eficaz, deveria ser a mais estável possível. Eles corretamente compreenderam que ter uma moeda fiduciária, não atrelada a nada, e cujo valor flutuasse constantemente seria o equivalente a utilizar unidades de medida que flutuassem diariamente. É como se a definição de metro, do grama e do minuto fosse alterada diariamente. Um dia, o metro tem 100 centímetros; no dia seguinte, o metro se desvaloriza e passa a valer 95 centímetros. Depois, se valoriza e passa a ter 107 centímetros. Como seria possível fazer qualquer obra dessa maneira?

Assim como um metro flutuante e um minuto flutuante gerariam vários erros de construção, de cálculo e de planejamento, um dinheiro flutuante, além de dificultar enormemente o planejamento para investimentos de longo prazo, gera também uma enorme quantidade de investimentos insensatos, uma grande desarmonia nas transações e um profundo caos no cálculo econômico.

Por isso, para um economista do lado da oferta, em havendo um Banco Central, sua função é única: manter a moeda estável em relação a algum padrão. Historicamente, esse padrão sempre foi o ouro. Porém, manter a moeda estável em relação a uma cesta de commodities (como o Índice CRB, que é o principal índice de commodities do mundo) seria ainda melhor.

Para isso, bastaria o Banco Central operar exatamente como já opera hoje, mas com uma crucial diferença: em vez de comprar e vender títulos públicos visando a manter a taxa de juros do mercado interbancário fixa (curiosamente, o Banco Central controlar juros é algo visto como "liberal"), ele irá comprar e vender títulos públicos com o intuito de manter a cotação da moeda estável em relação ao padrão de referência escolhido. (Os detalhes estão descritos aqui).

Forneça uma moeda estável ao longo do tempo, e retire as barreiras governamentais à produção e ao comércio, e toda a economia estará preparada para um crescimento contínuo de longo prazo, sem voos de galinha.

Sobre isso, poucos se deram conta, mas o Banco Central americano (o Federal Reserve) vem mantendo o dólar extremamente estável em relação ao Índice CRB (o principal índice de commodities) desde o início de 2015. Já são cinco anos de dólar estável em relação a um padrão de referência. Daí não ser nada estranho a resiliência da economia americana, com taxa de desemprego nas mínimas históricas, economia em crescimento contínuo e estável, salários em alta (crescendo a uma média de 5% ao ano) e, principalmente, inflação de preços estável abaixo de 2%

Para concluir

Dizer que o consumo impulsiona a economia significa simplesmente tornar irrelevante todo o processo empreendedorial de descobrir como melhor satisfazer os consumidores. Dado que este 'como' não é conhecido, e até mesmo muda ao longo do tempo, o consumo não pode 'conduzir' a economia.

De resto, nunca há um problema de demanda. Sempre há, isso sim, um problema de oferta restringida por barreiras governamentais. Essa restrição pode se dar tanto pelo lado da política monetária — moeda instável, moeda fraca, juros excessivamente altos para atacar um falso problema de demanda (como ocorreu no Brasil em 2015) —  quanto pelo lado da política fiscal — tributos altos, déficits e dívida do governo crescentes (que geram o temor de que haverá aumentos de impostos no futuro), regulamentações e burocracias que tolhem o empreendedorismo. 

Estando a oferta restringida, não há como haver aumento da demanda.

E manipulações monetárias — como a ideia de desvalorizar a moeda para impulsionar exportações ou reduzir juros para estimular mais consumo — não podem resolver este problema em definitivo, simplesmente porque adulterar a moeda não tem o poder de abolir restrições à oferta. 

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