Mises Brasil Instituto Ludwig von Mises Brasil
http://www.mises.org.br


Como o atual capitalismo já está provocando uma grande redistribuição de renda
por Joakim Book, quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Você já conhece o clichê. Converse com qualquer progressista convencional e você ouvirá sempre os mesmos vaticínios, com quase nenhuma variação: o capitalismo é "cruel", "brutal", "impiedoso", e se baseia inteiramente na especulação. Capitalistas são uma máquina desumana de buscar lucros e se preocupam apenas com os resultados trimestrais. 

Obviamente, não é o objetivo aqui comentar cada um destes clichês. Tampouco é o objetivo elencar todos os benefícios que o capitalismo concorrencial e as culturas amigáveis ao capitalismo nos fornecem (crescimento e enriquecimento econômico, redução da pobreza, maior expectativa de vida). Vamos aqui nos concentrar nas maneiras um tanto mais opacas pelas quais o capitalismo redistribui a riqueza — dos mais ricos para os mais pobres.

Os Unicórnios

Embora muitos economistas compreensivelmente demonstrem grande preocupação com os impactos econômicos e financeiros das extremamente baixas taxas de juros mundiais, o fato é que esta última década de financiamento barato reduziu os custos de oportunidade de se investir em novas ideias.

Os fundos que investem em atividades de risco — popularmente conhecidos como venture capital são fundos de investimento que utilizam o dinheiro de seus investidores para investir em empresas ainda em fase de estruturação, que precisam de um salto de crescimento. Ou seja, empresas com ideias ousadas, mas que ainda não conseguem financiamento bancário tradicional (exatamente por serem arriscadas).

Esse tipo de atividade se expandiu enormemente na última década. Com os juros em níveis historicamente baixos, os fundos de venture capital foram capazes de investir maiores volumes por tempos mais longos em modelos de negócios inovadores que raramente dão lucro. O site Investopedia explica:

Venture capital é um financiamento concedido a startups e pequenas empresas que são vistas como tendo um grande potencial de crescimento e sucesso. Os recursos para este financiamento normalmente vêm de investidores ricos, de bancos de investimento, e de quaisquer outras instituições financeiras. …. A maioria dos fundos de venture capital prefere difundir seu risco investindo em várias empresas diferentes ao mesmo tempo, em vez de se concentrar em apenas uma empresa. Assim, se uma startup fracassa, os recursos do fundo de venture capital não são afetados substantivamente.

O modelo de negócios é simples e claro: levante fundos junto a financiadores ricos, invista o dinheiro em uma dezena ou mais de ideias novas e promissoras, e tenha a esperança de que os retornos de algumas poucas Ubers, Spotify ou WhatsApps compensem os inevitáveis prejuízos que haverá com todas as outras startups.

E mesmo as empresas extremamente bem-sucedidas não terão lucros por muito tempo, pois elas estão mais preocupadas com crescimento em vez de lucratividade. Essas startups são popularmente conhecidas como unicórnios

E elas possuem uma característica única: são valiosas mas quase não têm lucros (na maioria das vezes, operam com prejuízos) e, ainda assim, seguem obtendo seguidas rodadas de financiamento para se expandirem em busca de maiores fatias de mercado.

Agora, reflita um pouco sobre o que tudo isso significa. Quando empresas, em sua busca desesperada por crescimento, expansão e aumento da fatia de mercado, aceitam operar com grandes prejuízos, isso significa, na prática, que elas estão vendendo produtos e serviços por menos do que os custos de se produzi-los. Afinal, é isso o que contadores tentam capturar ao mensurarem os lucros e os prejuízos. Como consumidor, você obtém acesso a bens e serviços a preços abaixo do custo, com a diferença sendo compensada por seguidas rodadas de novos financiamentos que são jubilosamente concedidas por investidores ricos a estes unicórnios queimadores de dinheiro

Eis o ponto: enquanto investidores ricos e fundos de venture capital continuarem se mostrando dispostos a arcar com as contas e a financiar seguidamente essas empresas em busca de crescimento, eles estão transferindo riqueza. O dinheiro está fluindo diretamente dos ricos capitalistas para os menos ricos empregados, fornecedores, e, mais importante, consumidores. Com este arranjo nós conseguimos aplicativos de transporte rápido e barato por meio de alguns cliques em nosso smartphone, aplicativos de entrega sob demanda, acesso a patinetes elétricas que são quase que gratuitas (embora, reconheço, bastante irritantes em algumas cidades), e serviços muito baratos de entrega a domicílio da comida que queremos, dos produtos que desejamos, e dos livros que queremos ler.

Sim, há quem se preocupe com o quão economicamente sustentável seja todo esse arranjo. É uma bolha? Pode ser. Mas o fato indelével é que, enquanto a situação se mantiver, toda essa Grande Redistribuição irá continuar.

O caso da Norwegian Air Shuttle

Essa empresa aérea norueguesa de baixo custo chamou atenção há alguns anos quando começou a ofertar voos transatlânticos por menos de 100 dólares [ela já opera no Brasil]. Por meio de aquisições extremamente alavancadas, a empresa adquiriu uma maciça frota de aeronaves limpas, modernas e de baixo consumo da Boeing, e colocou-os para voar ao redor do globo, lotados de ávidos passageiros que, por causa dos preços bem menores, tinham agora muito mais dinheiro para gastar em seus destinos.

Mantendo um crescimento de dois dígitos na receita ao longo dos últimos cinco anos, ao mesmo tempo em que alternava entre saudáveis lucros e devastadores prejuízos, a saga quase chegou ao fim após os seguidos acidentes com o modelo 737 MAX da Boeing no início deste ano.

Após um verão (no hemisfério norte) tumultuado para a Norwegian, com uma desesperada busca por mais financiamento, a revista Forbes relatou o seguinte:

A contribuição da companhia aérea em termos de competição de preços para voos transatlânticos foi fantasticamente positiva para os consumidores. No entanto, a agressiva expansão da Norwegian veio a um grande custo para ela própria, o qual agora está começando a ficar mais explícito.

Este custo, até o momento, recaiu inteiramente sobre os acionistas da empresa, cujas ações já desabaram 80% em menos de um ano, ao passo que a moeda da Noruega (a coroa norueguesa) se depreciou 10% em relação ao dólar no mesmo período. 

Ao vender sua participação majoritária no banco digital Norwegian Bank (outra startup de baixo custo que continua criando disrupção no pouco competitivo setor bancário norueguês), a companhia aérea conseguiu fundos suficientes para mais alguns meses de operação. Números recentes divulgados em seu balanço do terceiro trimestre sugerem que a empresa ainda pode sobreviver por mais algum tempo.

Embora não seja de propriedade de um fundo de venture capital, o agressivo crescimento de baixo custo da Norwegian enriqueceu os consumidores com todo o custo sendo arcado pelos proprietários e credores da empresa. Um maravilhoso exemplo de redistribuição de riqueza. 

A corretora que está revolucionando o mercado 

No dia 1o de outubro, a corretora online Charles Schwab, a maior dos EUA e uma das maiores do mundo, ganhou o noticiário ao zerar a taxa de corretagem para a compra de ações, ETFs e opções. Após anos de pressões da concorrência, que vinham reduzindo suas taxas, a Charles Schwab cedeu — e seus principais concorrentes rapidamente foram atrás.

Embora esta pioneira corretora não seja de propriedade de um fundo de venture capital e nem possa ser considerada uma especuladora sem sucesso, este seu recente "comportamento predatório" pode ser encaixado naquela típica objeção que fazem ao capitalismo: concorrência selvagem. Essa medida estratégica e sagaz prejudicou suas próprias receitas no curto prazo, além de ter derrubado violentamente as próprias ações da corretora. Mas também afetou os concorrentes ainda mais: chegou a derrubar em até 30% os preços das ações da corretora Ameritrade, que a Charles Schwab queria comprar e que, com efeito, acabou comprando.

Para o ingênuo anti-capitalista, isso seria apenas mais um exemplo típico do poder das grandes corporações: comprar concorrentes para tentar monopolizar o mercado, supostamente em detrimento da sociedade. No entanto, se olharmos o que realmente aconteceu, o verdadeiro beneficiado se torna evidente: o consumidor. 

Embora os donos de ações de corretoras tenham inicialmente visto o valor de mercado de suas ações cair e a Charles Schwab tenha intencionalmente afetado suas próprias receitas, os usuários dos serviços online de corretoras viram os custos de suas operações cairem 100%. Agora podem comprar e vender ações e opções sem pagar nenhuma taxa. 

E vale reconhecer que a Schwab e outras corretos já vinham concorrendo vigorosamente entre si e já haviam derrubado para níveis já historicamente baixos as taxas de corretagem, mas esta última medida ainda enriqueceu ainda mais os consumidores de seus produtos.

Para concluir

A redistribuição feita por estes agressivos modelos de crescimento e de expansões corporativas, exemplificados pelos unicórnios, pela Norwegian e pela Charles Schwab, são de extrema importância educativa. 

Enquanto políticos e populistas progressistas vivem vociferando contra as desigualdades de riqueza — geradas por grandes valorizações da bolsa ou mesmo pela globalização —, os modelos de negócios surgidos na últimas décadas, que aceitam prejuízos iniciais em troca de grandes expansões de mercado, significaram uma maciça transferência de riqueza: de investidores relativamente ricos para consumidores relativamente pobres.

Podemos dizer que tudo isso nada mais é do que uma consequência não-premeditada das políticas de juros baixos. Ou então um "problema de se ter muito dinheiro em busca de algum retorno". Ou, para quem quiser, um exemplo de capitalismo implacável em ação. 

Já eu prefiro chamar de "A Grande Redistribuição": investidores repletos de dinheiro, mas sem onde colocá-lo, acabam financiando empresas que operam no prejuízo, e neste processo enviam os lucros para milhões — se não bilhões — de consumidores.

Ao financiarem e gerirem inúmeras empresas abaixo do custo (e até mesmo dispostas a incorrer em prejuízos) com o objetivo de ganhar escala e preciosa feita de mercado, empresas de venture capital efetivamente canalizam o abundante dinheiro dos ricos para nós consumidores. 

O que dizer? Muito obrigado pelas barganhas! Muito obrigado por oferecer promoções e até mesmo serviços gratuitos! Muito obrigado pelos seus serviços tecnológicos totalmente sub-precificados! Muito obrigado por concorrem tão vigorosamente ao ponto de abrirem mão dos lucros! Muito obrigado por pagarem mais a seus fornecedores e produtores do que recebem de nós consumidores via receitas! 

De novo: isso é sustentável? Para mim, como consumidor, não importa. Não é problema meu. O capitalismo não é um arranjo feito para privilegiar produtores, mas sim para beneficiar os consumidores. Quem souber aproveitar irá se beneficiar.

No mais, tudo isso mostra como os progressistas que hoje vivem agitando em prol de redistribuição de renda e riqueza estão completamente perdidos. A redistribuição que eles exigem já está acontecendo. O capitalismo, a tecnologia, a globalização, e os fundos de venture capital já estão fazendo o serviço. Cabe a nós apenas curtirmos a carona.