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Eis a ideia econômica menos compreendida – e uma das mais cruciais – da história
por Gary Galles, quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Os defensores da propriedade privada e do livre mercado são frequentemente chamados de "darwinistas sociais" por aqueles que se opõem a estas duas instituições. Segundo estes críticos, defender livre mercado e propriedade privada significa desejar exterminar os fracos em benefício dos fortes. Significa defender a "lei da selva" e a "sobrevivência do mais apto".

No entanto, é exatamente sob o capitalismo que ambos os grupos -- os mais fortes e os mais fracos, os mais adeptos e os menos preparados -- conseguem se beneficiar e sobreviver sem violar as respectivas liberdades individuais, o que torna este arranjo dramaticamente anti-darwinista.

Os críticos simplesmente são incapazes de perceber que os arranjos voluntários que espontaneamente surgem no mercado substituem a selva. A competição para se criar riqueza adicional não produz baixas reais no longo prazo. Há apenas beneficiários.

No entanto, o apego à retórica de "competição selvagem", "sobrevivência do mais forte" e "darwinismo social" ofusca a veracidade da constatação acima.

E uma explicação para esse erro está na incompreensão de dois fenômenos cruciais: a questão das vantagens absolutas e das vantagens comparativas.

Vantagem absoluta e comparativa

O que ocorreria se os trabalhadores do grupo B tivessem exatamente a metade da qualificação dos trabalhadores do grupo A para produzir tanto o bem X quanto o bem Y?

Neste caso, os trabalhadores do grupo B presumivelmente não estariam entre os "mais aptos". Mas será que a vantagem absoluta dos trabalhadores do grupo A significa que os trabalhadores do grupo B morreriam de fome? Não. Quando os salários não são proibidos de se ajustarem de acordo com qualificação e produtividade, há a garantia de que ambos os grupos serão produtivamente empregados.

Se eu tenho metade da produtividade e da qualificação de você em tudo, ainda assim poderei sobreviver no mercado, pois, cobrando a metade do seu salário, o custo de se produzir empregando a mim seria o mesmo de produzir empregando você – o que significa, por definição, que, se eu cobrar qualquer valor marginalmente abaixo da metade do seu, serei eu quem irá ganhar o emprego.

Por outro lado, quando os salários são proibidos de se ajustarem às diferentes habilidades, resultados adversos surgirão: por exemplo, a imposição de encargos sociais e trabalhistas que encarecem (chegando até mesmo a dobrar) o custo total de um empregado irá desempregar os menos qualificados e produtivos.

Obviamente, o desemprego destas pessoas é o resultado da intervenção no livre mercado, e não do funcionamento livre deste mercado.

E se alterarmos o exemplo de modo que os trabalhadores do grupo B tenham a metade da produtividade e da qualificação dos trabalhadores do grupo A na produção do bem X, mas tenham um terço da produtividade e da qualificação na produção do bem Y?

Neste caso, os trabalhadores do grupo A ainda possuem uma vantagem absoluta na produção de ambos os produtos, mas agora os trabalhadores do grupo B adquiriram uma vantagem comparativa (ou relativa) na produção do produto X em relação aos trabalhadores do grupo A, pois agora terão apenas de abrir mão de dois terços de Y por unidade de X que produzem em relação aos trabalhadores de A.

Isso é fácil de entender.

Os trabalhadores do grupo A são capazes de produzir ou 100 unidades de X ou 100 unidades de Y por dia (ou por hora, ou por mês, ou por ano; você é livre para escolher o intervalo de tempo).

Os trabalhadores do grupo B são capazes de produzir, no mesmo intervalo de tempo, ou 50 unidades de X ou 33 unidades de Y.

Se os trabalhadores do grupo B se concentrarem exclusivamente na produção de X, e os de A se concentrarem exclusivamente na produção de Y, ambos ganharão, pois este será o arranjo em que há a produção do maior número de produtos -- ou seja, é o arranjo em que a oferta é máxima.

Veja os arranjos possíveis:

1º Arranjo

Trabalhadores do grupo A: produzem 100 de X e 0 de Y

Trabalhadores do grupo B: produzem 50 de X e 0 de Y

 

2º Arranjo

Trabalhadores do grupo A: produzem 50 de X e 50 de Y

Trabalhadores do grupo B: produzem 25 de X e 16,6 de Y

 

3º Arranjo

Trabalhadores do grupo A: produzem 0 de X e 100 de Y

Trabalhadores do grupo B: produzem 0 de X e 33 de Y

 

4º Arranjo

Trabalhadores do grupo A: produzem 0 de X e 100 de Y

Trabalhadores do grupo B: produzem 50 de X e 0 de Y

 

5º Arranjo

Trabalhadores do grupo A: produzem 50 de X e 50 de Y

Trabalhadores do grupo B: produzem 50 de X e 0 de Y

 

Observe que o 4º arranjo, que é aquele em que ambos se concentram no que fazem melhor, é o que produz a maior oferta total de bens de qualidade: 100 de Y (feitos pelo grupo A) e 50 de X (feitos pelo grupo B).

O 5º arranjo também produz a mesma quantidade total de bens; entretanto, há uma redução de 50 unidades do bem Y, cuja produção o grupo A é capaz de fazer com três vezes mais qualidade. E há um aumento de 50 unidades do bem X, cuja produção o grupo A é capaz de fazer com apenas duas vezes mais qualidade.

Ou seja, o quinto arranjo é menos eficiente que o 4º arranjo: ele produz uma quantia menor de um produto que é 3 vezes melhor, e produz uma quantia maior de um produto que é apenas duas vezes melhor.

Com liberdade não há desemprego involuntário

Quando há liberdade para preços e salários se ajustarem de acordo com a realidade, e o comércio não é artificialmente restringido pelo governo, nenhum trabalhador fica desempregado involuntariamente.

Ao contrário: ambos os grupos de trabalhadores irão ganhar caso os trabalhadores do grupo B se especializem na produção do bem X (em cuja produção eles são relativamente melhores), e utilizem uma parte dessa produção para trocar com os trabalhadores do grupo A que produziram Y (em cuja produção eles são relativamente melhores).

Com efeito, neste caso, os trabalhadores do grupo B são relativamente mais aptos à produção do bem X no mercado, ainda que eles sejam, em termos absolutos, menos adeptos à produção deste bem do que os trabalhadores do grupo A.

Isso é, em essência, o que David Ricardo demonstrou com sua teoria das vantagens comparativas, que ele apresentou ao mundo em 1817. Mesmo que os trabalhadores de um país sejam menos produtivos na fabricação de todos os bens em relação aos trabalhadores de outro país, uma especialização de acordo com as vantagens comparativas de cada um, em conjunto com a adoção do livre comércio internacional, irá beneficiar os trabalhadores de ambos os países.

Verdadeira, mas nada óbvia

E esta é uma idéia extremamente importante de ser entendida. Segundo um relato de Deirdre McCloskey, quando o matemático Stanislav Ulam desafiou o vencedor do Nobel Paul Samuelson a apontar um princípio das ciências sociais que fosse, ao mesmo tempo, verdadeiro e nada óbvio, sua resposta foi: "a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo". E ele prosseguiu:

O fato de que ela não é trivial pode ser atestado pelos milhares de indivíduos importantes e inteligentes que nunca foram capazes de entender a doutrina por conta própria, ou mesmo de acreditar nela após ouvirem uma explicação.

O espantalho do "darwinismo social" surgiu exatamente da idéia de que somente aqueles que são absolutamente os melhores em tudo irão sobreviver, e que todos os outros irão morrer esfaimados. Entretanto, esta simplesmente não é a realidade da competição que ocorre no mercado. Desde que as pessoas sejam livres para buscar seus próprios interesses, e desde que os preços de mercado (inclusive salários) não sejam proibidos de se reajustar, as pessoas optarão por se especializar naquilo em que possuem uma vantagem comparativa -- mesmo que sejam, em termos absolutos, piores em tudo e não possam alegar vantagem absoluta em nada.

Como muito bem explicou George Reisman:

Cada indivíduo, por mais limitadas que sejam suas habilidades, pode superar a todos os demais -- sem se importar com o quão mais talentosos estes são -- na busca de seu nicho produtivo. [...]

Aqueles cujas habilidades não são maiores do que as necessárias para ser um zelador são capazes de superar, sem qualquer dificuldade, os maiores gênios produtivos do mundo -- para obter um emprego de zelador.

Por exemplo, Bill Gates pode ser um indivíduo tão superior que, além de ser capaz de revolucionar a indústria de software, também seja capaz de limpar cinco vezes tantos metros quadrados de um escritório na mesma duração de tempo que qualquer zelador do planeta, e ainda fazer um serviço melhor. Mas Gates pode ganhar um milhão de dólares por hora administrando a Microsoft, e os zeladores podem estar dispostos a trabalhar por, digamos, $10 a hora, sendo que essa propensão deles para executar o mesmo serviço a um centésimo de milésimo do salário que Gates cobraria supera enormemente a menor habilidade que possuem, de modo que são eles agora que estão em clara preferência e vantagem na situação.

Conclusão

No mercado, o livre ajuste de preços permite que até mesmo aqueles que são, em um sentido absoluto, os menos capazes possam sobreviver em vez de perecerem.

Sendo assim, no mercado, o menos "apto" não perece; ele apenas ganha menos dinheiro. E isso não é nada trivial quando se compara o capitalismo a outros arranjos sociais.

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