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Lições da história para os mercados
por Helio Beltrão, quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A economia americana está oficialmente no mais longo período ininterrupto de crescimento de sua história, com inimagináveis 121 meses consecutivos de expansão do PIB. A bolsa americana atingiu, ao final de julho, a máxima histórica, com alta de 18% em 2019.

No entanto, as previsões de crescimento para a economia mundial estão cada vez mais fracas, e o comércio internacional está estagnando. Estará o mercado demasiado sereno e complacente? 

É uma pergunta crítica, pois quando os Estados Unidose os países desenvolvidos espirram, os países periféricos como o Brasil pegam gripe.

As taxas de juros dos títulos de 10 anos emitidos pelos seguintes governos estão negativas: Japão, Alemanha, Dinamarca, Suíça, Áustria, Holanda, Finlândia, Bélgica e França. Esta anomalia significa que o investidor espera receber após dez anos menos do que investiu. É pior do que guardar o dinheiro debaixo do colchão, onde pelo menos não se perde. A aberração revela uma perspectiva alarmante quanto à saúde da economia mundial, riscos geopolíticos, ou eventual espiral deflacionária.

Mais de US$ 12 trilhões em títulos amargam hoje juros negativos. A título de comparação, a dívida líquida total do governo brasileiro, uma das dez maiores do mundo, é de cerca de US$ 1 trilhão.

A Parábola dos Talentos, do Evangelho de Mateus, aponta uma preciosa lição sobre investimentos, juros, risco e empreendedorismo. Um senhor rico confia sua poupança aos cuidados de três assessores enquanto viajava durante um ano. Os dois primeiros dobraram o investimento ao aplicá-lo em empreendimentos. O terceiro, que enterrou o dinheiro em segurança, foi repreendido. Seu mestre o considerou arruinador de sua poupança, pois, houvesse aplicado no banco, auferiria ao menos um rendimento, com menos trabalho.

No mundo de hoje, o investidor em títulos com juros negativos mereceria reprimenda ainda mais veemente que a do assessor.

Juros negativos desafiam 5.000 anos de mercado financeiro, que sempre premiou a espera e a postergação do consumo. A poupança tem sido impiedosamente corroída pela inflação no mundo desenvolvido devido aos juros negativos. Estão em xeque a viabilidade dos fundos de pensão e dos sistemas de previdência e a rentabilidade dos bancos.

A intervenção dos bancos centrais por juros cada vez mais baixos força a alta de ativos como ações, imóveis, commodities, e os já mencionados títulos de dívida. Afinal, quando se pode tomar empréstimos longos a juros zero, até a compra de bilhetes de loteria se torna atrativa. Mas isto não pode continuar indefinidamente.

Finalmente, há um risco que não me parece bem apreçado: o geopolítico.

O ex-agente da KGB Putin, há 20 anos no poder e que certa vez disse que a dissolução da União Soviética foi o maior desastre do século, continua expansionista. A Rússia permanece na Ucrânia, e está desenvolvendo mísseis de médio alcance, em descumprimento ao tratado com os Estados Unidos, que o denunciou.

Já a meteórica ascensão da China intensificou a rivalidade com os Estados Unidos, que pode sair do controle. A denominada 'Armadilha de Tucídides' sugere que, quando uma nova potência ameaça destronar uma potência reinante, a guerra é quase sempre o desfecho, como foi o caso na guerra do Peloponeso entre Esparta e a novata Atenas. A guerra não precisa ser bélica para causar consequências severas nos mercados, como se constata na questão da guerra comercial e nas hostilidades contra a Huawei, líder da tecnologia 5G. De seu lado, a China desafia o Direito Internacional ao construir ilhas militares artificiais no Mar da China Setentrional.

Todo cuidado é pouco nos investimentos.

 

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo